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Mostrando postagens de Setembro, 2010

EM TORNO DO MEU UMBIGO
>> Fernanda Pinho

Conviver comigo e me agradar é muito fácil. Basta que se leve em consideração três fatores básicos. 1) Nunca me atraso. 2) Tenho pavor de verduras. 3) Não suporto que enfiem o dedo no meu umbigo.
E aí você - que não entende nada de dedo no umbigo - deve estar se perguntando: mas que bobagem, por que alguém enfiaria o dedo no seu umbigo? Não sei, o fato é que enfiam. Pode ser que haja alguma explicação física. Eu penso tanto na aflição de uma dedada no umbigo que talvez tenha criado em torno dele um campo de energia que atrai indicadores conhecidos ou não. Como um cara que cruzou meu caminho num samba. Eu lá, na maior alegria, cantando e supostamente sambando quando, de repente, tóin, um dedo no meu umbigo. Ele poderia ter puxado meu cabelo, jogado cerveja em mim, me queimado com cigarro, passado a mão na minha bunda. Mas não! Ele ultrapassou todos os limites da grosseria e da intimidade e enfiou o dedo no meu umbigo! Ato que não deve ter durado mais que um segundo, pois o agarrei pelo…

QUE NÃO FALTE AMOR NEM DINÂMICA >> Carla Dias >>

Estamos acostumados, nos dias de hoje, a pensar a palavra DINÂMICA, principalmente no meio corporativo. Quem já não ouviu falar naquela “dinâmica de grupo”? São muitos os que já participaram de tais eventos, e um tanto de outros que fazem de tudo para fugir deles.

Também é comum ouvirmos/dizermos frases como “eles têm uma boa dinâmica”.

O Aurélio reza que dinâmica significa “Parte da mecânica que estuda o movimento dos corpos, relacionando-os às forças que o produzem. [Cf. cinemática e estática (1).]” A Psicologia, por sua vez, vem pensando a dinâmica como uma forma de identificar e resolver conflitos entre as pessoas. Essa definição não está no Aurélio, mas certamente tem muito mais a ver com a segunda definição oficial da palavra: “Mús. Graduação dos níveis de intensidade dos sons, durante a execução de um trecho musical, por meio de nuanças que vão do fortíssimo ao pianíssimo, quer em progressão mais ou menos lenta, quer em oposição brusca.”

A dinâmica musical, revestida com a liberda…

O FAMOSO ESTRANHO >> Clara Braga

Recentemente, um professor meu veio me dizer que estava precisando de alguém para fazer a tradução do site da banda dele, pois a banda queria ter o site em português e inglês, então me perguntou se eu não faria isso para ele. Topei o trabalho, mas, tirando esse meu professor, eu não conheço ninguém da banda, pelo menos não pessoalmente.

Como eles estão sempre atualizando o site, eu sempre tenho tradução a fazer, o que faz com que eu entre no site diariamente, assista a todos os vídeos mais de uma vez, leia as últimas notícias, saiba quais foram os últimos lugares onde eles estiveram tocando, o que aconteceu lá e tudo mais. Ou seja, acabo sabendo demais de pessoas que eu nem sei quem são direito.

Até outro dia, não imaginei o quanto essa situação poderia ser curiosa e engraçada. Estava eu passando na rua e lá estava um dos integrantes da banda passando por mim! Foi tão esquisito, parece até injusto, eu estava lá sabendo um monte de coisas sobre ele enquanto para ele eu era uma simples …

O TESOURO >> Kika Coutinho

Era um final de semana de muito, muito, muito sol.

Nós, um jovem casal sem filhos, não tínhamos muito o que fazer com a leveza do nosso tempo vazio – mesmo achando que éramos ocupadíssimos – e resolvemos caminhar um pouco pelo bairro. Lá pelas tantas, paramos na padaria, para comprar uns picolés.

- Vamos nos abastecer? – ele propôs, já pegando uma sacolinha.
- Opa – respondi, sem precisar ser clara.

Escolhemos os sabores a dedo: groselha, limão, humm, pega mais coco, e tem tangerina? Tangerina é bom levar bastante. Levamos. Ninguém censura picolés em dia de calor.

Saímos de lá rumo à nossa casa, felizes, carregando nosso armamento para um final de semana de verão.

Quase chegando, na descida, uma obra. Ele para, se aproxima, olha o tamanho do buraco que cavaram no meio da nossa rua e puxa papo com um operário:

- Tá fazendo o que aí? - ele pergunta e o operário responde, uma série de explicações tolas, enquanto aproveita para enxugar o suor.

Eu, calada, chupando aquela gotinha do picol…

AS RATAS E DONA ANÉSIA
>> Eduardo Loureiro Jr.

Foi no Ratomóvel que chegamos à roça de Dona Anésia. Para quem não sabe o que é "roça" — eu não sabia —, trata-se daquilo que nós nordestinos chamamos de fazenda: uma propriedade rural. O Ratomóvel é o carro de Raquel, a Racutia, que, junto com Célia, o Racumim, encenam uma peça engraçadíssima chamada "Deu rato na biblioteca".

Voltávamos da Feira Literária de Unaí, em Minas Gerais, onde havíamos nos apresentado. Aceitei a carona das "ratas", embora minha casa estivesse longe do roteiro original delas. Estava com saudade de prosear com essas duas amigas queridas, tão diferentes e tão complementares. Foi de Célia a ideia de comprar uns queijos na casa da mãe de uma das organizadoras da Feira, na saída da cidade. À frente do Ratomóvel, nos indicava o caminho a neta de Dona Anésia. Quando o carro saiu do asfalto e enveredou por uma estrada de terra, perdi minhas esperanças de retornar logo para casa.

Eu estava cansado, quase exausto. Nos últimos três dias, ha…

QUANTOS SÃO OS SEUS MEDOS?
[Maria Rita Lemos]

Ter medo é um dos instintos básicos, inatos, do ser humano. Portanto, não há que se espantar com esse sentimento. É fácil percebê-lo, logo após o nascimento: se segurarmos um bebê recém-nascido pela cintura, jogando-o para cima e pegando-o novamente, ele apresentará todas as reações indicativas do medo: taquicardia, sudorese, choro, etc.

Muitas vezes, as pessoas que têm medo de tomar decisões e atitudes, sejam elas de pequeno ou grande porte, acreditam que são apenas "prevenidos"... essa é uma racionalização muito comum para esconder o que mais tememos: o fato de ter medo, realmente. Que, naturalmente, batizamos como prevenção, receio, além de outros nomes, para amenizar o que estamos sentindo.

Tem gente que se gaba de não ter medo de nada, e passa a recalcar qualquer coisa que lembre os seus temores mais ocultos. No entanto, admitir o medo é importante. Na verdade, é o primeiro passo, na maior parte das vezes, para que consigamos solucionar muitos de nossos problemas.

Nã…

MORENO >> Leonardo Marona

A diretora teatral Marisa Sovaripe saiu do teatro antes do início do terceiro e último ato. A estréia estava perdida. Do início ao fim foram gaguejos, erros de iluminação, pessoas bufando e bocejando alto, um celular que tocou duas vezes, sendo que na segunda vez a pessoa atendeu. De cima da arena ela olhou para as caras dos espectadores e viu claramente que deveria ter dividido a peça em dois atos, talvez um. Três tinha sido um erro amador. Luca Borindelli, o grande ator de voz rasgada, coração frágil e fígado cinza, havia sucumbido duas vezes em cena. Na primeira, a reação dos demais atores foi tão espontânea que a platéia primeiro riu histericamente, depois aplaudiu de pé, quando as luzes se acenderam para os gritos de “não posso mais!” e “vou morrer!” de Borindelli, espatifado e com as mãos em volta do pescoço, azul do queixo pra cima, ao pé da coxia. Na segunda vez, passou mal e vomitou, justamente na cena crucial do segundo ato: a guilhotina de Danton. Luca tinha recebido uma te…

PUTARIAS DA VADIA SÁDICA >> Fernanda Pinho

Acabo de ler "Travessuras da menina má", de Mario Vargas Llosa. E, preciso dizer, foi com muito custo que cheguei às últimas páginas do romance. E não é que eu não tenha gostado do livro. De jeito nenhum. Ele simplesmente furou uma fila enorme e já se acomodou entre meus cinco livros preferidos. E é justamente por isso que demorei tanto para terminar. Quando eu gosto muito dos livros eu o economizo. Não quero me desapegar e chego a um ponto de - acredite - ler duas míseras páginas por dia pra fazer durar mais. Mas - a vida tem dessas coisas - o livro chegou ao fim. Às lágrimas, tive que me despedir da menina má e de Ricardo, homem que a amou uma vida inteira. Não há muito o que eu possa dizer sobre a menina má pois, tanto no livro quanto na vida de Ricardo, ela nunca deu muitas explicações sobre quem era, de onde vinha e para onde ia. E, assim, viveu durante décadas. Entrando e saindo da vida do pobre Ricardo, que sempre ficava aos pedaços a cada vez que ela resolvia cair no…

HISTÓRIAS E TEMPORADAS >> Carla Dias >>

Uma amiga me disse que eu só gosto de séries de televisão que acabam na primeira temporada. Em parte, ela está certa, mas apenas em parte.

A verdade é que, assim como o cinema, não tenho pudores ao escolher as séries para acompanhar. Ao assistir o primeiro episódio, eu já sei se vou continuar ou não a me embrenhar no tal enredo. Mas o problema realmente não sou eu ou todas as outras pessoas que também ficam loucas da vida quando uma série que adoram não passa dos doze episódios.

Na verdade, trata-se do que disse Joey Elliott, vocalista da banda Def Leppard, na sua passagem pelo programa Live from Abbey Road. Antes, uma banda tinha uma margem de três discos para se posicionar e no quarto estouraria. Hoje, elas não chegam sequer ao terceiro disco se não dão lucro. O mesmo acontece com as séries de televisão: elas não têm tempo de serem desenvolvidas.


Obviamente, nem todas as canceladas são fantásticas e prejudicadas pela urgência de ibope. Algumas são ruins mesmo! Mas eu adoraria saber o q…

O TEMPO DO TEMPO >> Clara Braga

Esses últimos dias têm sido tão corridos que eu nem tenho visto o tempo passar, é tanta coisa pra fazer que o dia parece ter 12h e não 24h. Eu sei que é comprovado, o tempo é sempre o mesmo todo dia, mas atire a primeira pedra quem nunca sentiu o tempo passar mais rápido ou mais devagar.

Com certeza não fui só eu, afinal, quantos historiadores e filósofos já escreveram sobre o tempo? Desde a época de Platão, o tempo já é um tema famoso! Quantos filmes têm o tempo como tema principal? E na música então, Cazuza mesmo já dizia que o tempo não para, Caetano Veloso tentou fazer um acordo com o tempo, Renato Russo disse que temos todo o tempo do mundo e também que não temos tempo a perder, enfim... muitos outros também já escreveram sobre o tempo, mas eu nem preciso ir tão longe assim, quem nunca recorreu àquela famosa frase quando já não sabia mais o que dizer a um amigo: "Com o tempo tudo se resolve".

Acho que eu sei por que o tempo é tão famoso e intriga tanto o homem, é porque…

O CANDIDATO III >> Albir José Inácio da Silva

CONTINUAÇÃO DE:
O CANDIDATO I
O CANDIDATO II

— Vou bem, mas por minha conta e risco, e se dependesse de certas pessoas eu tava linchado e morto e enterrado porque eu sei muito bem que é naquela sua birosca que se inventam coisas contra mim. Até de crime já me acusaram, mas meu santo é muito forte e é preciso mais do que meia dúzia de fofoqueiros, desocupados e filhos de rapariga pra me derrubar — falou o pai-de-santo.

Adailton respirou fundo e se desmanchou em explicações. Muito pelo contrário, sempre defendia o Babalorixá dos maldosos comentários sobre sua transvialidade. Também nunca acreditou naquela história de roubo de bodes e galinhas que a maledicência teimava em divulgar. Sua avó fora do candomblé. Não vendia no seu estabelecimento artigos pras oferendas e artesanatos? Não mandava bebidas pras festas do terreiro? Vinha justamente colocar sua candidatura a serviço daquela casa, e era seu compromisso promover o respeito pelos cultos de matriz africana. Por que, Pai Tibúrcio, essa…

OS LIVROS DA BIBLIOTECA
DE GUIMARÃES ROSA
[ANA GONZÁLEZ]

Na época da faculdade, não cheguei a estudar muito a obra do mineiro das veredas do sertão. Eram muitos os desvios pelos quais me embrenhei naqueles tempos. Todos muito úteis para as descobertas e os sustos de alguém que saíra da adolescência para a idade adulta sem nenhuma formação política.

As assembléias dos movimentos estudantis nos fundos do prédio da Maria Antônia. Os excedentes na entrada da faculdade todos os inícios de anos. Bombas molotov nos corredores e na rua. A lingüística e o estruturalismo. Palavras de ordem ecoavam dentro de mim. Era suficiente. Eu não sentia falta de nada. Em meio à agitação, li, estudei, segui interpretações interessantes, mas não com o empenho que o autor mereceria da minha parte. Guimarães Rosa ficou sempre como um respeitado autor que eu nunca entendi muito bem.

Até que recentemente descobri um conto em que ele faz alusões explícitas à astrologia. A notícia chegou junto a citações de outras obras. Fui atrás. Descobri um grande livro de um e…

HEMINGWAY JAPONÊS - E GAY
>> Leonardo Marona

Uma coisa precisa ser dita ao se falar de Yukio Mishima (1925 – 1970): ele escreve como pensa. Apesar de quase óbvia, essa combinação é muito rara, tendo em vista que o ser humano não é óbvio.
Mishima incomoda a cabeça de qualquer um que, por não saber nada do que realmente acontece, acredita saber o suficiente, concorda ou discorda com a cabeça, e segue a vida.
Suas indagações acerca da pobreza da existência humana, as máscaras de um teatro grotesco, erguidas diante da perversão social, derrubam o leitor feito enxurrada, e foi sorte eu ter me levantado outra vez depois de terminar suas Confissões de uma Máscara (Companhia das Letras, 1949, 199 págs.).
Ele simplesmente cava, cava, cava sem parar. E quando o sangue é despejado diretamente sobre os ossos, então ele quebra os ossos, e é só então que ele sente seu verdadeiro prazer.
Yukio Mishima usa palavras como quem usa argila. Sua relação com a moral e com o bem e o mal é tão intrincada que é simplesmente impossível saber exatamente até …

AMOINTERNET.COM.BR >> Fernanda Pinho

Embora todas as anotações das minhas entrevistas estejam bem aqui, no meu bloquinho de papel, e embora eu redija todas as minhas matérias no Word, não consigo trabalhar se meu computador não estiver ligado à internet. Vício, dependência, sei lá, chamem do que quiser. O fato é que o texto só flui se eu tiver a certeza de que, a qualquer momento, posso buscar uma informação antiga no meu e-mail, checar a aplicação de uma palavra na gramática on-line ou incrementar meu material com alguma pesquisa no deus Google. Se a Velox inventa de entrar em manutenção na região - o que acontece com mais frequência do que eu gostaria - danou-se! Nem tento desembolar o serviço. Largo tudo pra lá e me pergunto desolada: como os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein conseguiram investigar o caso Watergate e levar um presidente americano à renúncia sem internet? Como era possível ser jornalista sem internet? E vou além: como era possível viver sem internet? Sinceramente? Não sei e nem quero saber.
E nem…

CAMINHO >> Carla Dias >>

Todos os dias eu faço o mesmo caminho para ir ao trabalho. Sigo a pé pelas ruas, às vezes dobro à esquerda, em outras, sigo adiante só para mudar a paisagem. Mas lá na frente: à esquerda.
Nessa andança, vejo algumas pessoas todos os dias. Uma delas é uma senhora, sessenta e poucos anos, que caminha, logo cedo, treinando os passos que já não dá mais com a mesma desenvoltura de alguns anos. A cada cinco passos meu, ela consegue dar um. Não há viço nessa mulher, estranhamente, sua fisionomia nada diz. Ela apenas caminha, exercitando movimentos que, em algum momento de sua vida, não precisavam ser relembrados... Aconteciam, de acordo com o desejo dela.

Há também um casal de japoneses, velhinhos, que assim como a mulher sobre a qual falei, sobem a avenida, enquanto eu a desço, exercitando-se. Sei bem que a idade pede tais exercícios para que nosso corpo entenda que ainda há muita vida nele. A mulher solitária não reconhece isso... Seu passeio é dolente. Mas o casal, eles têm o fôlego dos s…

NÃO SEI, SÓ SEI QUE FOI ASSIM
>> Clara Braga

Se me perguntar, juro, não vou saber dizer como aconteceu, a única coisa que posso dizer agora é a famosa frase: "não sei, só sei que foi assim".

Lá estava eu achando que aquele dia seria apenas mais um dia comum, quando recebo uma ligação em meu celular. A simpática moça que me ligou disse que eu havia sido presenteada por um conhecido com uma limpeza de pele. Se eu bem me lembro do preço de uma limpeza, sei que não é barato, logo achei que era um presente bem interessante. Marquei meu horário logo para o dia seguinte e lá fui eu fazer a tal da limpeza me achando o máximo.

Quando cheguei, fui recebida pela simpática moça que me ligou. Ela veio até a porta me receber e eu logo vi que ela usava um broche no vestido, mas minha miopia não me deixava ler o que estava escrito nele. Ela foi se aproximando, eu fui começando a distinguir algumas letras até que finalmente consegui ler: "Eu amo Herbalife!".

Não podia ser verdade, aquilo era uma cilada, a limpeza seria com pr…

O LIVRO DO DOMINGO >> Kika Coutinho

Era um domingo. Domingos são sempre assim. Ou muito úteis, ou – o mais comum – absolutamente inúteis. Pois aquele foi útil.

Depois de navegar na internet, ver twitter, facebook, google, emails, entrar em blogs e páginas que eu não me lembrava mais como tinha ido para ali, resolvi rever os meus prórprios arquivos e dar um lidinha no que já tinha escrito. “Vou dar um pouco de ibope pra mim mesma”, pensei, eu que vivo dando pinta nos blogs alheios e achando que todo mundo tem textos sempre muito bons.

Comecei lendo um, outro, ajustando uma coisinha aqui, outra acolá e, de repente, vi que não iria terminar nunca. Quantos arquivos... pensei, contando quantos tinha. Noventa? Cem? Cento e quantos? Meu Deus, como eu tinha escrito! Quanto tempo gasto, quantos domingos, segundas, terças, quantos dias e tardes de verão, frio, calor, perdidos escrevendo. Claro que eu estava engordando, pensei. Alguém que tem mais de 100 textos não pode estar magro, coisa mais sedentária do mundo, essa de escreve…

SEMEANDO A PAZ [Maria Rita Lemos]

Em tudo o que estudei sobre Religião, incluindo toda a vida escolar em colégio católico e o curso de Teologia feito depois de adulta, o texto bíblico que mais me tocou foi e continua sendo o “Sermão da Montanha”. Todo o capítulo é muito atual e profundo, mas quero enfatizar o versículo nove: "Bem-aventurados os pacíficos; porque eles serão chamados filhos de Deus". (Mateus V. 9)

Meses atrás, a televisão dava notícias das vítimas do terremoto que abalou o Chile: os sobreviventes, a insegurança, o medo. Com certeza, estamos vivendo um tempo em que a natureza está travando um diálogo ferrenho com o ser humano, tão machucada que tem sido por ele há séculos. É como se estivesse se vingando, em todos os pontos do mundo, de diversas formas, em suas várias manifestações.

No entanto, não é sobre esse tipo de medo que quero refletir com meu leitor e leitora hoje: quero falar sobre o desejo de justiça, solidariedade e paz que enche nossos corações, de forma especial nesse início de sé…

PEQUENAS EPIFANIAS DE UM FINAL DE INVERNO RIGOROSO DESGOSTOSO DE ROBERTO CARLOS >> Leonardo Marona

Por te falar eu te assustarei e te perderei.
Mas se eu não falar eu me perderei,
e por me perder eu te perderia.

(A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector)


“no ponto de ônibus”

verdade

- você diz sempre a verdade?
- de qualquer modo eu diria que sim.

gripe

- sempre que eu me gripo meu nariz fica um saco.
- engraçado, sempre que eu me gripo meu nariz continua um nariz.

frases

- há frases ridículas quando ditas aos vinte e poucos anos...
- esta, por exemplo?


"sonho revelador"

um cientista maluco Prêmio Nobel
havia descoberto que de fato a pele humana
era alguns milímetros cúbicos menor
que o volume corpóreo que ela cobria,
e assim ele chegou à conclusão de que as pessoas
só eram totalmente verdadeiras nuas,
de modo que a maioria vestiu mais um casaco.
“e você, que tipo faz?”

todos fazemos tipos.
eu faço o tipo desatento
ou tipo woody allen.
adoro o tipo woody allen.

sei que as mulheres gostam.
depois que descobri isso
me concentrei no tipo woody allen.
às vezes faço tipo hemingwa…

SEGUNDA-FEIRA-QUARTA >> Carla Dias >>

Confesso que minha quarta está - como a de muitos de vocês - com gosto, jeito e cara de segunda-feira. Começa que agora, já quase ao meio-dia, inicio a minha jornada de escrever uma crônica num dia que não parece ele.
No feriado, visitei amigos e depois me tranquei em casa: séries de televisão, filmes, pensamentos, endoidecimentos homeopáticos, livros, discos, alguns telefonemas e ver chuva... Essa foi a melhor parte! Meu nariz, que já parecia um ser grudado na minha cara, com problemas próprios, de tanto que doía e se rebelava. Embrenhado há tanto tempo numa renite do cão, respirou aliviado com a chuva e, então, voltou a fazer parte da minha geografia. O que faz uma porcentagem quando se trata da umidade do ar, não? Quando ela baixa até, é uma desumanidade para com os narizes.
Descobri esse canal de biografias, e assisti a ótimos programas, como um sobre pontes. A biografia de uma ponte pode ser muito mais complicada do que a biografia de uma pessoa, quando despende, pelo caminho, algu…