sábado, 18 de setembro de 2010

OS LIVROS DA BIBLIOTECA
DE GUIMARÃES ROSA
[ANA GONZÁLEZ]

Na época da faculdade, não cheguei a estudar muito a obra do mineiro das veredas do sertão. Eram muitos os desvios pelos quais me embrenhei naqueles tempos. Todos muito úteis para as descobertas e os sustos de alguém que saíra da adolescência para a idade adulta sem nenhuma formação política.

As assembléias dos movimentos estudantis nos fundos do prédio da Maria Antônia. Os excedentes na entrada da faculdade todos os inícios de anos. Bombas molotov nos corredores e na rua. A lingüística e o estruturalismo. Palavras de ordem ecoavam dentro de mim. Era suficiente. Eu não sentia falta de nada. Em meio à agitação, li, estudei, segui interpretações interessantes, mas não com o empenho que o autor mereceria da minha parte. Guimarães Rosa ficou sempre como um respeitado autor que eu nunca entendi muito bem.

Até que recentemente descobri um conto em que ele faz alusões explícitas à astrologia. A notícia chegou junto a citações de outras obras. Fui atrás. Descobri um grande livro de um estudioso alemão sobre a metafísica de G. Rosa. Pouco a pouco, depois de centenas de páginas, tudo se explicou.

Um grande palco se abriu ante meus olhos como se as dificuldades de compreensão daquele universo roseano tivessem rapidamente se resolvido. Eu tinha achado a chave para entender suas complexidades. Na empolgação, fiquei sem dormir algumas noites, quando descobri que sua biblioteca estaria depositada num instituto perto de mim. Fui lá.

Só tive acesso no primeiro dia a cerca de duzentas fichas do total de mais de três mil. Um sonho. E isso pode não fazer sentido nenhum para a maioria das pessoas, nem a emoção que senti ao tocar nos livros. Eles tinham estado nas mãos de Guimarães Rosa, eram sua escolha. Manuseados e, possivelmente, anotados por ele. Eu queria saber por onde ele andara, por que livros, por que ideias. Como construíra o conjunto de seus pensamentos que o levaram a certas descobertas sobre a linguagem? Como se isso fosse possível... Eu sei que meus desejos extrapolam o bom senso.

Quero observar as anotações e os sublinhados. Serão dele mesmo? Somente quem gosta muito de ler talvez entenda essas particularidades do caminhar pelas páginas desses livros. Pelas palavras e frases, pelos diálogos que se estabelecem dentro dos entre-espaços de tinta, num universo de tipos de letras, tamanhos de parágrafos, de cheiro e de cores empasteladas de papel muitas vezes, amarelecido.

A proximidade com esses livros me aproxima de sua metafísica que se torna quase geográfica. Dão-me outros recursos para adentrar no seu sertão, nos cerrados e morros de sua linguagem, pelas veredas de suas metáforas. Mas, tenho também a sensação de invadir um território sagrado, de intimidades como se eu pudesse devassar um lugar proibido.

E, estou ainda no começo. Há muitas fichas ainda a serem escaladas. Há muitos livros a desencavar. Depois dessa arqueologia, haverá um universo inteiro de sertão a desbravar.

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5 comentários:

Varlice disse...

Caramba!
Na hora que começa a ficar bom você para?
Quero a continuação.
Bj

Carla disse...

concordo..quero continuaçao
uihauhauhauhauuiaaa

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Muito bem, Dona Ana. Mas faltou nos dizer que chave foi essa que você descobriu. :)

Anônimo disse...

rsrsrsrs... eu adoro essa troca que a internet possibilita.. é incrível! portanto, queridos varlice, carla e eduardo, esperem o próximo capítulo que eu procurarei não decepcioná-los... rsrsrs... viche... em que arapuca eu fui me meter!?!?... achei que o que escrevi era suficiente... rsrsrs..
ana gonzález

Anônimo disse...

rsrsrsrs... eu adoro essa troca que a internet possibilita.. é incrível! portanto, queridos varlice, carla e eduardo, esperem o próximo capítulo que eu procurarei não decepcioná-los... rsrsrs... viche... em que arapuca eu fui me meter!?!?... achei que o que escrevi era suficiente... rsrsrs..
ana gonzález