sábado, 25 de setembro de 2010

QUANTOS SÃO OS SEUS MEDOS?
[Maria Rita Lemos]

Ter medo é um dos instintos básicos, inatos, do ser humano. Portanto, não há que se espantar com esse sentimento. É fácil percebê-lo, logo após o nascimento: se segurarmos um bebê recém-nascido pela cintura, jogando-o para cima e pegando-o novamente, ele apresentará todas as reações indicativas do medo: taquicardia, sudorese, choro, etc.

Muitas vezes, as pessoas que têm medo de tomar decisões e atitudes, sejam elas de pequeno ou grande porte, acreditam que são apenas "prevenidos"... essa é uma racionalização muito comum para esconder o que mais tememos: o fato de ter medo, realmente. Que, naturalmente, batizamos como prevenção, receio, além de outros nomes, para amenizar o que estamos sentindo.

Tem gente que se gaba de não ter medo de nada, e passa a recalcar qualquer coisa que lembre os seus temores mais ocultos. No entanto, admitir o medo é importante. Na verdade, é o primeiro passo, na maior parte das vezes, para que consigamos solucionar muitos de nossos problemas.

Não temos medos apenas de pessoas, vivas ou não, ou de situações: temos medo de atitudes que, muitas vezes, estão mascaradas, apresentam-se assim para não mostrar o temor, e isso é inconsciente. Assim, há pessoas que temem decidir e errar com a decisão tomada; gente que tem medo de se ferir, descobrindo algo que teme, mas sabe que está ali, bem à sua frente (medo de olhar de perto aquilo que nos faz sofrer); temos medo, às vezes, de dizer coisas que levem a interpretações errôneas, e assim, preferimos nos calar a correr esse risco. Temos ainda os medos mais conhecidos e famosos: medo da violência, de doenças incuráveis (e até curáveis!), de ladrão, de solidão, de ficar desempregado, de não conseguir pagar as contas no final do mês... medo ser rejeitado(a), de amar... ah, como é terrível o medo de amar! Temos ainda medo daquilo que é impossível de fugir, como da velhice e até da morte, única certeza de todas as criaturas viventes!

O medo, quando dentro de um quadro em que é possível lidar com ele, é até benéfico, na medida em que faz parte de nosso instinto de sobrevivência. Para que os nossos medos não fujam de controle, é preciso que eles sejam equilibrados pela razão e pelo bom senso. É preciso usar esses amigos, chamados razão e bom senso, não para fugir de nossos medos, mas sim para com eles acender a luz de nossas emoções e tomar contato com aquilo que tememos. Nesse momento, lembro-me de mamãe, e peço desculpas aos meus leitores e leitoras por tantas vezes em que falo em meus pais: é que aquilo que aprendi com eles, escola nenhuma me ensinou. Ou seja, as escolas deram nome e forma àquilo que eles me ensinaram desde pequena. E mamãe dizia, sempre, que muitas vezes o medo é maior do que aquilo que temos que fazer. E que quando encaramos e fazemos, o medo parece ridículo! E não é que ela tinha razão? Em outras palavras, ela estava dizendo o que os compêndios de psicologia dizem com outras palavras, ou seja: acenda a luz e encare seu medo, em vez de fugir dele... de repente, aquilo que mais tememos pode não ser tão temível assim! O importante, para não deixar que os medos nos carreguem, é tirar o peso dos ombros, relaxando, confiando na vida e tendo certeza de que coisas boas virão, se esperarmos por elas. Não temos que assumir responsabilidades por ninguém, basta-nos as nossas próprias limitações... cada um pode e deve viver sua vida. Inclusive as pessoas que mais amamos. Saber isto e viver isto já alivia, e muito, o medo em relação aos seres amados. Talvez seja o momento de perguntar: tenho medo do quê? De perder prestígio, amores, amigos? Bem, quem gosta realmente de nós não está preocupado com nosso prestígio, ou com o que temos, mas sim com o que somos e com o que significamos na vida deles. O mundo não vai desabar se soltarmos os problemas, se descansarmos deles, pelo menos daqueles que não são necessariamente nossos.

Vale, também, um momento de reflexão e questionamento: será que estamos fazendo o que realmente gostamos, estamos vivendo a vida que escolhemos, ou nossa vida é apenas aquilo que querem de nós, que escolheram para nós? Se a resposta for a alternativa "b", o medo com certeza está presente. Quando se vive pelos outros, no modelo do que querem de nós, é claro que o medo é maior, até o momento em que uma doença vem e nos faz parar com tudo. Aí as pessoas que esperam que façamos tudo por elas vão aprender a se virar sozinhas, com certeza. Tomara que não precisemos disso para reagir e perder o medo de fazer o que queremos e ser como gostaríamos!

Coragem não é apenas aquilo que se faz "por fora", os atos de heroísmo que implicam salvamento de outras pessoas, atos de bravura, que saem nos jornais e são elogiados. A coragem verdadeira começa dentro de nós, no momento em que acendemos a luz da razão sobre nossos medos, e eles deixam de ser tão ameaçadores. A coragem autêntica nos impele à mudança, a uma nova forma de ser, talvez mais solta, com certeza mais feliz.

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Perfeito, Maria Rita.
Sem retoques.