sexta-feira, 24 de setembro de 2010

MORENO >> Leonardo Marona

A diretora teatral Marisa Sovaripe saiu do teatro antes do início do terceiro e último ato. A estréia estava perdida. Do início ao fim foram gaguejos, erros de iluminação, pessoas bufando e bocejando alto, um celular que tocou duas vezes, sendo que na segunda vez a pessoa atendeu. De cima da arena ela olhou para as caras dos espectadores e viu claramente que deveria ter dividido a peça em dois atos, talvez um. Três tinha sido um erro amador. Luca Borindelli, o grande ator de voz rasgada, coração frágil e fígado cinza, havia sucumbido duas vezes em cena. Na primeira, a reação dos demais atores foi tão espontânea que a platéia primeiro riu histericamente, depois aplaudiu de pé, quando as luzes se acenderam para os gritos de “não posso mais!” e “vou morrer!” de Borindelli, espatifado e com as mãos em volta do pescoço, azul do queixo pra cima, ao pé da coxia. Na segunda vez, passou mal e vomitou, justamente na cena crucial do segundo ato: a guilhotina de Danton. Luca tinha recebido uma terrível notícia às cinco da tarde do dia da estréia. Descobriu que o filho que vinha sustentando com uma pensão mensal de 15 milhas há dez anos, mesma idade do pivete e do bom tempo que se manteve longe de Vandinha, mãe das 15 milhas, na verdade não era seu filho, mas sim de um tal Janjão, que tinha aparecido do nada com um exame de paternidade, decidido a assumir a criança. “Bem na estréia! E não podia esperar mais um dia pra descobrir que é um otário? Justo na guilhotina...”, pensava Marisa no pátio do teatro, fumando um cigarro e chorando discretamente.

De repente saiu pela porta Rony Andrazzo, ator, conhecido pela famosa cena de sexo anal explícito que fez na versão brasileira de Half Body Jobs, e também por ser um homossexual assumido, apesar de admitir que só consegue gozar com mulheres. Marisa viu que ele vinha na sua direção. Olhou então para uma quina qualquer e pegou o celular na bolsa. Apertou uns botões e colocou o fone no ouvido para ver se Rony passava direto por ela sem dizer nada. Não queria encarar ninguém agora, quanto mais um ator, ainda por cima afetado e bem-sucedido. Mas Rony veio direto na sua direção, tímido mas irredutível. Tirou um cigarro e esticou na frente de Marisa enquanto ela dizia que “tudo bem, a gente fecha com o Abel e mete no cu daquelas putas do Le Bronx!”, com o dedo pra cima e cinzas presas nos cabelos. Virou, viu Rony com a mão esticada, tampou por um segundo com a mão o fone, “Rony, um minuto, sim?”, acendeu seu cigarro e voltou a falar. “Isso... Sim... Claro... Umas vagabundas! Tudo ratazana, mau caráter! Isso... Faz isso e depois me liga”. Desligou e não chegou a rir para Rony, nem perguntou da peça.

- Nossa, Marisa, o Luca... Meu deus... O que foi aquilo?

- Responde você... Que também é ator, e também é bicha.

- Afe! E tu viu o que aconteceu lá na tua terra?

- Hum...

- Moreno, mulher! A cidade foi alagada ontem, você não soube?

- Não. Já faz tanto tempo... Nem sei mais de Moreno.

- E tu vai lá no Amalfitana encontrar a classe depois daqui?

- Não. Eu já encontrei a classe e vou com ela pra casa dormir e quem sabe, se a classe permitir, fazer a Maitê injetar novocaína na minha veia.

- Quem é Maitê?

- Minha aranha camelo que eu trouxe do Iraque, quando passei as férias.

- Não sabia que você tinha passado as férias no Iraque...

- Nem eu. Senão você acha que eu teria ido?

Marisa deu dois tapinhas na bunda de Rony – que deu dois pulinhos nas pontas dos pés –, então foram quatro mãos em quatro bolsos e saíram do teatro andando, um do lado do outro. Foi aquela típica situação incômoda, quando uma pessoa se despede de outra que já não quer mais ver por ora, mas as duas vão para o mesmo lado. Foi o que aconteceu. Exceto que Marisa parou no primeiro pega-bêbado, logo na esquina, e pediu uma dose de conhaque e um suco de manga. Rony seguiu adiante e entrou num táxi. Essas bichas e esses motoristas de táxi, pensou Marisa com a cara murcha e os ombros curvados sobre o balcão, quando seu conhaque chegou. Tomou de um gole. Lembrou do vômito de Luca em cena. Quase vomitou também. Tampou a boca mas sentiu a quentura do conhaque lhe descer pelas narinas. Seu suco de manga chegou. Os olhos choravam sozinhos e a boca bebia rápido. Essa é uma combinação perigosa, pensou. Olhou para o céu. A impressão era de que as estrelas estavam mais distantes e mais vermelhas. Muito vermelhas. Indo para longe. O universo em expansão. A lambda de Einstein. Marisa ficou tonta e foi dormir.

Virou a chave, entrou e se jogou no sofá da sala antes de pensar. Depois pensou e isso sempre fede, mas não chega a tanto. Era merda. Merda de gato. Levantou furiosa para pegar a escova e o desinfetante.

- Gata prostituta! – esbravejou para dentro do quarto.

Enquanto esfregava o forro do sofá, um vulto apareceu por debaixo da mesa. Era uma sombra congelada com um rabo que parecia uma cobra atiçada, para frente e para trás. Marisa parou de esfregar, fez silêncio, mas não se virou imediatamente. Esperou até que a sombra do rabo parasse de ir para frente e para trás. Então se virou de supetão e agarrou uma gata malhada com as duas mãos, apertando com firmeza. – Gata vagabunda... Fora daqui! – e jogou a gata pela janela do apartamento. Era no primeiro andar e a gata caiu de uns cinco metros de altura, mas em pé e sem fazer barulho. Marisa terminou de esfregar sua poltrona, viu que tinha 32 ligações não atendidas no seu celular, que ainda estava silencioso, entrou no banho, tocou uma siririca e foi se deitar. Sexo pela metade só faz pensar na outra metade, concluiu nua e deitada, enquanto começava a greve dos carneirinhos que pulam cerca pra gente dormir contando. Chorou mais um tanto e adormeceu sobre uma poça de baba com lágrimas no travesseiro.

E lá está Marisa com doze anos, as meias puxadas até quase os joelhos, num aquário enorme e cheio, onde casas, charretes, pedaços de carne pendurados, corais de igreja, zabumbas e mercearias bóiam em volta da sua cabeça.

Agora Marisa tem 12 anos e está andando de mãos dadas com a irmã mais velha para descobrir os caminhos do comércio de Moreno, enquanto cada dupla do resto dos seis irmãos desempenha uma outra função. Um filhote de veado chamado Bambi está trancado no quarto de Marisa, comendo seu jogo de cama, já que a nova casa não tem quintal. Marisa e a irmã já rastrearam o caminho da farmácia, a duas ruas à esquerda e uma esquina de casa, da mercearia, a cinco postes de luz entrando na primeira à direita, da padaria, duas paralelas para trás da casa. Na volta, Marisa tagarela sem parar enquanto a irmã mais velha apenas resmunga e esfrega o nariz com a manga da camisa. Passam por uma casa com um belo quintal e cinco anões de jardim, apenas cinco, com uma branca de neve derrubada no chão, sem o nariz de gesso. De dentro da casa ressoa uma espécie de cravo mal tocado e um canto sacro num tom monótono e constante, com umas guirlandas se batendo. Algumas pessoas vestidas de preto comem e bebem caladas em pé no quintal. Marisa entra correndo sem dizer nada à irmã mais velha que, mantendo a linha, não diz nada também e fica na cerca.

Lá dentro está um caixão aberto, com um homem dentro. Não há ninguém na casa além de uma mulher com um lenço preto sobre a cabeça. Marisa espia de longe e logo de cara se impressiona com três coisas na mulher: seus cabelos, muito loiros e pintados de um forte amarelo; suas unhas, vermelhas, compridas e pontudas demais para um enterro; seu choro, o mais alto e compulsivo que já ouviu. A mulher chora, se debruça no caixão, se levanta e passa as mãos com aquelas unhas enormes e vermelhas pela cara. A viúva se chama Dorinha. Tem três filhos: Jairo, 12, é o mais velho e o mais chato, diz que quer usar farda a todo custo e cospe nos irmãos. Francisco, 10, é o do meio e já meio afeminado, diz que vai ser político; Rômulo, 8, é o caçula, afeminado como Francisco, mas ainda não sabe o que isso quer dizer. No caixão está o pai das crianças e corno convicto, Cândido Ramalho.

Agora passaram-se seis anos. Jairo usa a tão sonhada farda e fala como um robô programado sobre “regras da empresa” e “métodos de conduta”, na porta de uma fábrica de meias. Continua chato. Francisco é presidente do grêmio estudantil, mas gosta mesmo é do carnaval de Olinda, onde pode dar sem culpa para quem lhe der na veneta. Rômulo ainda não sabe bem que é um efeminado, mas todo dia enfia a tampa do condicionador na bunda e senta no chão, e depois deita na cama chorando. Dorinha agora está noiva depois de três maridos, todos negros de um e noventa, que morreram menos de um ano depois de cada separação, o que deu a Dorinha o apelido de Cova Rasa nas bocas miúdas e malvadas da cidade. É uma mulher de traços horripilantes, apesar de se enfeitar toda com cores muito carregadas nos lábios e olhos, os cabelos agora exaustivamente alisados e alaranjados, e as unhas muito compridas e pontudas que ainda fazem Marisa abrir a boca toda vez que olha. O novo marido de Dorinha se chama Satanás. É um negro de um e noventa e seis, um faz-nada, um encostado simpático que traz sorvete para os garotos de tarde e tem um Opala 71 com o estofado de pelúcia numa cor laranja gritante, que Francisco apelidou de Carruagem de Fogo. E toda tarde os garotos da rua vão até os portões de suas casas e gritam, assim que Satanás dobra a esquina: “Lá vem o diabo com sua Carruagem de Fogo!”.

O veado de Marisa criou chifres e teve que ser “solto na mata”, como disse seu pai. Marisa passou dois meses chorando abraçada nos trapos onde Bambi dormia. Dado que no sertão não há mata, dali a dois meses uma ossada foi encontrada por um vizinho e, pelos chifres, todos sabiam que se tratava do que sobrou de Bambi. Fizeram um enterro solene, o pai de Marisa vestiu fatiota e tocou a marcha fúnebre numa corneta que mantinha dos tempos da infantaria. Mas Marisa não apareceu. Nem os meninos de Dorinha. Nem Dorinha, que não era muito bem vista na cidade. Ou melhor, ela era muito bem vista, sim, todos os homens, por mais feia que fosse, queriam entrar na sua casa. Mas em Moreno as mulheres batem nos homens como um executor romano, então poucos se arriscavam.

As brigas entre Francisco e Jairo eram cada vez mais violentas. O irmão mais velho não admitia que Francisco fosse, como chamava, “um pederasta fio de rapariga!”. E sempre que Jairo o chamava disso, Francisco se ofendia e entrava no pau, não exatamente do modo como havia imaginado desde pequeno. Marisa tinha que separar as brigas e normalmente apanhava também. Um dia Dorinha puxou Francisco pelo braço e o sentou numa poltrona na sua frente.

- Chico, meu filho, tu é pederasta ou não é? Por que não se resolve de uma vez? Pensa que eu nasci ontem?

- Isso não interessa, maínha. O que eu não admito é que o Jairo chame a senhora de rapariga.

Dorinha deu um sorriso franco, mostrando sua chapa reluzente de dentes postiços, e abraçou Francisco que, muito sensível, desatou a chorar.

- O teu irmão Jairo é um chato... Puxou paínho... E tu puxou a mim.

Um pulo no tempo e estamos no carnaval. Todos já voltaram para suas casas e muitos dormiram mesmo dentro das fantasias. Marisa acorda com a claridade de um lampejo na sua janela, cuja sombra dança pelo teto do quarto. Levanta de um pulo e olha um garoto correndo para fora de casa, em chamas, com as mãos para cima, ainda na sua fantasia de padre presbiteriano. O fogo na casa está alto. O garoto se joga no chão e se debate no silêncio absurdo da noite sertaneja. O barulho das madeiras se entortando e das brasas crepitando se junta aos grilos e sapos. Marisa demora para entender o que é aquilo que vê da sua janela. Coça os olhos, que ardem com o impacto do fogo alto. O garoto ainda se debate no chão e ninguém aparece para ajudar. “Mas não é a casa de Dorinha?”, grita Marisa assustada. E corre para acordar os pais. O garoto em chamas é Francisco. O resto da família está morto. Pelo laudo ainda se dá a presença de dois homens negros e altos, um fantasiado de diabo, encontrado ao lado de Dorinha na cama, e outro de cangaceiro, que estava debaixo da cama. Francisco está vivo, mas com oitenta por cento do corpo carbonizado.

Meses depois foi divulgada a origem do incêndio. Um cigarro aceso, certamente na mão de Francisco enquanto dormia na poltrona da sala, portanto, o único que teve tempo de correr, por estar mais perto da porta. Marisa se mudaria dali a meses sem se despedir do amigo, sem saber como fazê-lo. Nunca mais tocariam no assunto. Francisco se suicidaria anos mais tarde quando, numa eleição para prefeito, o oponente mais direto traria à tona a história do incêndio alegando que “um homem que mata sua família por negligência não tem responsabilidade para governar Moreno”. A imprensa marrom rapidamente tomou o assunto como manchete, e Francisco foi perdendo votos e a estima. Por onde passava ouvia os murmúrios das carolas fofoqueiras: “lá vai o Homem Tocha” e “que absurdo, pederasta e ainda por cima botou fogo na mãe e nos irmãos” e “dizem que a mãe era uma rapariga e que o irmão mais novo também era pederasta” e “Ai, deus me livre e guarde!” e sinais da cruz. Muitos sinais da cruz. Francisco correndo em chamas. O esqueleto de Dorinha com as unhas pintadas de vermelho. A Carruagem de Fogo de Satanás.

Marisa acorda num pulo bastante suada. Fica um minuto até recobrar a consciência. Levanta e vai até a cozinha. Umas seis da manhã e a vida está morta nesse horário, mesmo no rosto de quem sai às ruas. Ela bebe três copos cheios d’água. Bebe tão rápido que um pouco escorre pelo seu queixo. Os olhos de Marisa estão pequenos e turvos, congestionados de lembranças ruins. Suas mãos tremem. Ela se senta à mesa da sala e abre o jornal. Larga o jornal na mesa. Leva a mão ao peito. Está descompassado. Torna a abrir o jornal. Na editoria cultural sua peça está sendo escorraçada, com uma foto de Luca Borindelli em close chorando estendido no palco com as mãos na frente da câmera e o título: “Peça mal montada termina em papelão”. Ela joga o jornal com toda força uma, duas, três vezes na parede. Ele cai no chão já bem amassado. Ela apanha, aperta na mão e bate com força a mesma mão na parede, umas cinco vezes. Depois se entrega à mesa com os braços e chora. Ouve arranhões na porta do apartamento. Abre a porta e lá está sua gata malhada, olhando para ela com seu rostinho redondo, as pupilas estreitas, a mancha escura na ponta do nariz, espreguiçando-se com timidez. A gata solta um miado como se dissesse “tudo bem, mama, estou aqui”. Depois entra com o rabo espichado e se esfrega na perna de Marisa, que fica ali parada, olhando para baixo. A enchente de Moreno trouxe de volta os incêndios da vida de Marisa. Só resta a ela agora preparar o café.


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2 comentários:

vanessa cony disse...

Muito intenso seu texto.Seria essa a sua intenção?

Anônimo disse...

Achei incrível, Leo. A riqueza de detalhes e cores me impressionou. Quase senti o cheiro de da cidade. Bjs.
Mary