quinta-feira, 23 de setembro de 2010

PUTARIAS DA VADIA SÁDICA >> Fernanda Pinho

Acabo de ler "Travessuras da menina má", de Mario Vargas Llosa. E, preciso dizer, foi com muito custo que cheguei às últimas páginas do romance. E não é que eu não tenha gostado do livro. De jeito nenhum. Ele simplesmente furou uma fila enorme e já se acomodou entre meus cinco livros preferidos. E é justamente por isso que demorei tanto para terminar. Quando eu gosto muito dos livros eu o economizo. Não quero me desapegar e chego a um ponto de - acredite - ler duas míseras páginas por dia pra fazer durar mais. Mas - a vida tem dessas coisas - o livro chegou ao fim. Às lágrimas, tive que me despedir da menina má e de Ricardo, homem que a amou uma vida inteira. Não há muito o que eu possa dizer sobre a menina má pois, tanto no livro quanto na vida de Ricardo, ela nunca deu muitas explicações sobre quem era, de onde vinha e para onde ia. E, assim, viveu durante décadas. Entrando e saindo da vida do pobre Ricardo, que sempre ficava aos pedaços a cada vez que ela resolvia cair no mundo novamente, sem dar uma satisfaçãozinha que fosse. Ela aprontava. E Ricardo sabia disso. Ela não prestava. E Ricardo sabia disso também. Sabia porque o que ele sentia por ela não era uma paixão. Era amor e o amor, ao contrário do que diz o senso comum, não é cego coisíssima nenhuma. O amor enxerga muito bem, mas releva o que vê. O amor é essa capacidade de se entregar ao outro apesar de. O ótimo e eufemístico título do livro de Mario Vargas Llosa é praticamente um spoiler, porque traduz tudo o que vem por aí: a história do amor de um homem por uma mulher. Um amor tão grande que ele é capaz de considerar todas aquelas putarias, sacanagens e mentiras como meras travessuras. Para ele, aquela vadia, amoral e imoral não passa de uma menina má.


Guardadas as devidas proporções, essa reflexão me lembrou de um episódio do seriado Friends, no qual o personagem Ross decide fazer uma lista enumerando os defeitos de Julie (a mulher com quem ele está namorando) e outra igualzinha para Rachel (a mulher que ele ama). A lista de defeitos da Rachel flui rapidamente. Sem titubear, Ross consegue enumerar defeitos físicos e psicológicos que vê na mulher que ele ama desde a adolescência. Para a lista de Julie, no entanto, ele encontra mais dificuldade. Porque ele a acha linda, fofa, inteligente, engraçada. Para ele, Julie só tem um defeitinho filho único. Unzinho só: ela não é a Rachel. E, se ela não é a Rachel, ela não basta. A Rachel é o ser amado e o ser amado pode ter quantos defeitos forem. O ser amado pode tudo.

Nós amamos uma pessoa por tudo o que ela é. E o que ela é inclui seus defeitos. Ninguém explica e ninguém entende o que faz a gente amar aquelas manias, aqueles desvios de caráter, aquele rosto sem muita harmonia. A gente ama e pronto. Mesmo que aquela pessoa não faça nosso "tipo". Esse negócio de "tipo", aliás, é o papo mais furado do universo. Você pode até se sentir atraída fisicamente por morenos, altos e meio nerds. Mas se o amor escolhe pra você um loiro, baixo e meio hippie você vai aceitar feliz e nem vai pedir recall. O amor é assim. Pelo menos é o que eu acho. Certeza eu não tenho de nada. E o que me consola é saber que ninguém tem.

www.blogdaferdi.blogspot.com


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12 comentários:

Anie disse...

Esse livro está na lista dos que NECESSITO ler. Após ler sua crônica, fiquei mais interressada ainda....

Você disse tudo no fim da crônica com: " Esse negócio de "tipo", aliás, é o papo mais furado do universo."

Samara disse...

É, Ferdi, você disse tudo, o amor é amar "apesar de". E falando em Friends, isso tudo me lembrou outra série, Grey's Anatomy, quando a Meredith fala pro Derek (depois de um grande vacilo dele): "Infelizmente as coisas que me fazem te odiar, me fazem te amar". Daí, algumas temporadas, vários episódios e muitas crises depois, eles fazem votos num post it e, entre eles, está: "Amar um ao outro mesmo quando nos odiamos".

Em tempo, minha vontade de ler "As travessuras da menina má" só aumenta.

Carla Dias disse...

Concordo com você, Fernanda. pelo amor nós somos escolhidos, isso sim. E o que vier, aceitamos, com um belo sorriso.

Loreyne disse...

Muito linda a Crônica Ferdi!!
Mais uma vez adorei!
Bjuss

Gustavo Guimarães disse...

Para mim Rachel ou Aniston são perfeitas! Rssss

Laís Bastos da Silva disse...

Acho que você descreveu e definiu o amor muito bem. Nós vemos tudo sim, não há cegueira, há insistência, esperança em reverter a situação, concertar defeitos, curar.
Tive um professor que dizia que não nos apaixonamos pelas qualidades do outro, mas pelos seus defeitos. E acho que é verdade, o Daiton é um verdadeiro problema na minha vida... rs

..DONA DAS BATATAS.. disse...

"Era amor e o amor, ao contrário do que diz o senso comum, não é cego coisíssima nenhuma. O amor enxerga muito bem, mas releva o que vê."

Não tenho o que comentar, apenas concordar 110% com o que você escreveu. Eu ia elogiar tua inspiração, mas seria pouco... na verdade acho que um texto como esse é fruto de uma coisa que pouca gente tem, chamada LUCIDEZ.

Sou suspeita, mas tô no meu direito de amiga e fã! kkkkk...
Beijo!

PS. Isto me lembra histórias de uma amiga chamada Tereza.... rssss...

Kelly disse...

Adorei a crônica! Aliás, adoro tudo o que você escreve, Ferdi... sou fã de carteirinha! =]] Sucesso sempre! bjuss...

Jujú disse...

Em primeiríssimo lugar: agora eu vou PRECISAR ler esse livro!rs

O amor é assim, não vê cor, credo, beleza, e nem mesmo caráter!(essa parte é triste, mas real...rs). Mas afinal gente perfeita não existe, e quando a gente ama, a princípio não vê os defeitos, mas quando convivemos com a pessoa amada, eles vão brotando, brotando, e brotando...mas ainda assim ela é a pessoa amada e ter defeitos faz dela real! E isso é infitamente bom!

Pra variar, amei o texto!

Ah, e Amiga, só um (): tá chegandoooooo!

Beijos

fernanda disse...

Muito obrigada, gente linda! Quem se interessou pelo livro: LEIA MESMO! Vale a pena demais. Beijocas!

albir disse...

Vou ler, Fernanda, mas desconfio que vou preferir o título que você deu.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Muito boa, Fernanda!
Concordo com você que quem ama, ama apesar de.