segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O CANDIDATO II >> Albir José Inácio da Silva

CONTINUAÇÃO DE "O CANDIDATO I"


Adailton xingou intimamente o pároco, mas manteve o sorriso.

- Sei que não tenho sido muito assíduo, mas isso se deve a muito trabalho e não pense que é apenas em benefício próprio, não, porque o senhor sabe que eu tenho batalhado pelas necessidades dos concidadãos.

- Sei, também, Senhor Adailton, que a sua loja vende guias e apetrechos para culto de entidades muito estranhas à santa madre igreja.

Era o que faltava. Meter-se com suas mercadorias. Respirou fundo, acreditando agora que o padre era mesmo pedófilo, como dizia o pai-de-santo.

- Padre, vê se compreende, eu sou comerciante, nem todo mundo é católico nesta cidade, eu tenho que atender à freguesia. Mas se o senhor prestar atenção vai ver que eu vendo também santinhos, rosários e crucifixos. Minha obrigação é atender a todos. E, afinal, todos são filhos de Deus, não é, seu padre? O senhor não acha que devemos nos entender com os irmãos das outras religiões? Não é esse o mandamento: amar o próximo como a si mesmo?

Apesar do entusiasmo da fala, sentiu que não ia nada bem com o padre.

- Ora, senhor Adailton, não me venha com ecumenismos que a santa madre igreja é a única igreja de Cristo e essa sua tergiversação é pecaminosa.

- Tergiversi...ficação, não, seu padre... É que eu sou da paz e do entendimento. Bem, só quero que o senhor saiba que eu sou candidato e que apoio o seu trabalho desde criança. Estou pensando inclusive no telhado dessa igreja que tá precisando de socorro.

- Vamos ver, senhor Adailton, vamos ver como é que o senhor se comporta.

“Desgraçado”, pensou o comerciante. Começava mal a campanha. Mas ia melhorar. Ou não se chamava Adailton da Biroska.

Padre Jonas, com um sorrisinho, viu Adailton se afastando. Parecia piada: dar o seu apoio, pedir votos aos fiéis para aquele herege. Agora se fazia de bom moço, mas conhecia muito bem aquele sujeito. Sabia da sua generosidade com a IMIV – Igreja Milagrenta Interplanetária dos Vivos, das ofertas e contratos de fornecimento. Sabia da exploração daquela gente humilde de que o mercenário também usufruía. Sua Igreja definhava à míngua, enquanto o reverendo trocava de carro todo ano. Sua Igreja estava sempre vazia, com meia dúzia de viúvas, mendigos, goteiras e bancos quebrados, enquanto o maldito pastor se chamava de bispo e construía igrejas em cada esquina. E de tudo isso participava Adailton, inclusive com vendas de produtos “abençoados” pelo pastor no seu armazém. Agora queria seu apoio. O problema do mundo hoje não é a heresia, que esta sempre existiu. O problema do mundo hoje é a falta do Santo Ofício, da fogueira, dos autos de fé. O padre levantou o crucifixo na direção de Adailton e murmurou:

- Vade retro Satanás!

O terreiro ficava perto, mas Pai Tibúrcio também não estava com boa cara.

- A bênção, meu pai, como o senhor tem passado?

- Vou bem, mas por minha conta e risco, que se dependesse de certas pessoas eu tava queimado, morto e enterrado porque eu sei muito bem que é naquela sua birosca que se inventam coisas contra mim. Até de crime já me acusaram, mas meu santo é muito forte e é preciso mais do que meia dúzia de fofoqueiros, desocupados e filhos de rapariga pra me derrubar.

(Continua aqui)

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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

O negócio tá ficando ainda melhor, Albir. :) Muito bons os diálogos.