quinta-feira, 30 de setembro de 2010

EM TORNO DO MEU UMBIGO
>> Fernanda Pinho



Conviver comigo e me agradar é muito fácil. Basta que se leve em consideração três fatores básicos. 1) Nunca me atraso. 2) Tenho pavor de verduras. 3) Não suporto que enfiem o dedo no meu umbigo.

E aí você - que não entende nada de dedo no umbigo - deve estar se perguntando: mas que bobagem, por que alguém enfiaria o dedo no seu umbigo? Não sei, o fato é que enfiam. Pode ser que haja alguma explicação física. Eu penso tanto na aflição de uma dedada no umbigo que talvez tenha criado em torno dele um campo de energia que atrai indicadores conhecidos ou não. Como um cara que cruzou meu caminho num samba. Eu lá, na maior alegria, cantando e supostamente sambando quando, de repente, tóin, um dedo no meu umbigo. Ele poderia ter puxado meu cabelo, jogado cerveja em mim, me queimado com cigarro, passado a mão na minha bunda. Mas não! Ele ultrapassou todos os limites da grosseria e da intimidade e enfiou o dedo no meu umbigo! Ato que não deve ter durado mais que um segundo, pois o agarrei pelo pulso e disparei: "Você está vendo essas pessoas aqui? Está vendo? Eles são meus amigos, me conhecem há anos e nunca, NUN-CA, encostaram o dedo no meu umbigo, porque eu não permito isso nem pelas pessoas mais íntimas. Quem você pensa que é?". Ele me olhou com cara de "coitada, esqueceu de tomar o remédio" e saiu. Porque, provavelmente, ele era apenas mais um insensível nessas coisas de umbigo. Ele e a maioria esmagadora das pessoas que acham que a minha dedonoumbigofobia é frescura ou deduzem que estou de brincadeira. Nem uma coisa nem outra.

Todo mundo tem aflição com alguma coisa. Minha irmã quase tem uma síncope se encosta em etiqueta molhada. Uma amiga tem ânsia de vômito quando vê carrapicho. E eu tenho vontade de explodir - no mau sentido - quando encostam no meu umbigo. E a aflição é tanta, mas tanta que eu chego a me incomodar com umbigos alheios também. Não gosto de ver as pessoas encostando nos próprios umbigos, muito menos nos umbigos dos outros. Piercing no umbigo? Socorro! Prefiro ser amordaçada. E umbigo de recém-nascido? Cruz-credo, deusmelivre, sai de mim!

É claro que, para o bem da minha saúde e da minha socialização, eu preciso abrir umas concessões, umbilicalmente falando. Por exemplo: eu lavo meu umbigo! E digo mais: todos os dias! Não é automático como lavar o pé. Claro que não. Há todo um procedimento e um carinho especial. É chato, mas fazer o quê? A vida tem dessas coisas: fila de banco, trânsito infernal, declaração de imposto de renda e hora de lavar o umbigo. Além disso, devo esclarecer também que tudo é uma questão relacionada ao tamanho da superfície de atrito. Em outras palavras: encostar um dedo no meu umbigo, nem pensar. Mas encostar uma barriga inteira, tudo bem (Sim, sou normal. Abraço pessoas, danço com pessoas e outras coisas mais. Podem respirar aliviados). Isso minimiza 90% do problema. Só não anula o problema porque as pessoas são gananciosas. Elas não se contentam com o barriga com barriga. Quando penso que não, tóin, dedo de novo. Eu me assusto, claro. Mas o autor do delito se assusta muito mais com o soar do meu alarme repleto de "você é doido?", "o quê que eu te fiz pra você estar tentando me matar" e "vai colocar o dedo no umbigo da sua mãe". A cena trash normalmente é seguida de muita risada e, como eu sou cheia de brincadeirinhas, acabam achando que é só mais uma e fica por isso mesmo. E acho até melhor assim. Pois quando percebem que o negócio é sério mesmo, as pessoas se sentem desafiadas. Ficam à espreita, aguardando pelo momento em que me encontrarão distraídas para, tóin, enfiarem o dedo no meu umbigo.

É estranho aos olhos dos outros e árduo aos meus próprios olhos. Ou vocês pensam que é fácil viver achando que o mundo gira em torno do meu próprio umbigo? Mas, como tudo na vida, também tem seu lado bom. Nesse caso, o bônus da aflição umbilical são as tantas histórias que tenho pra contar sobre o assunto. Foi por isso que, pensando sobre o que escreveria hoje, coloquei a cabeça entre as mãos, baixei o olhar para meu tronco e tóin, a ideia, umbigo!

p.s.: Não existe nenhuma metáfora no texto. Por dedo entenda: dedo. Por umbigo entenda: umbigo. Só pra constar.



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15 comentários:

Laís Bastos da Silva disse...

Obaaaa, sou a primeira ;)

kkkkk, muito legal, gostei.
Bom, eu tenho fobia de gente mesmo. Quando fazem uma rodinha ao meu redor e me deixam sem saída é desespero na certa. Meus alunos já perceberam e fazem isso para sair sala, começam a pedir banheiro, secretaria, água e eu vou deixando só pra sairem de perto, fobia meeesmo. Agora, de umbigo não...rs

vanessa cony disse...

Engraçado e divertido!! Assuntos aparentemente comuns,temas descompromissados podem render textos assim.Muito bom,Fernanda.Sabe,eu tb não gosto de dedo no meu umbigo.Rsrsrs

Ana Maria Torrecilha Izidoro do disse...

Legal!!! Está de parabéns!!!
Mas saiba, que vc não está sozinha.
Também odeio que coloquem o dedo no meu umbigo, literalmente. rsrsrsr

Boa semana a todos!!!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Fernanda, o povo quer saber: Tudo bem, o dedo está proibido, mas a língua... pode? :)

P.S. disse...

Eu te entendo, entendo mesmo, não tenho agonia do umbigo não mas, tenho das unhas.
Não gosto que passem a mão nas pontas das minhas unhas. kkkkkkkk
Desculpa, mas tenho a sensação de que estão transmitindo germes e sujeira pra debaixo delas e é nojento unha suja. A mão pode estar limpinha mas não gosto, pronto. Se acontece eu fico passando a mão na calça, na blusa ou corro para a torneira mais próxima, querendo desesperadamente higienizar.
Cada doido...

Vinicius Machado disse...

Fenomenal esse texto, hein!

Devo confessar para todos que sofro da mesma síndrome que você. Detesto quando veem e, por qualquer motivo, enfiam o dedo no meu umbigo. Não sei exatamente o que sinto. Não é apenas emocional mas também física a sensação ruim.
Mais uma fez: Fenomenal! Muito bom. Consegui dar algumas risadas com esta crônica. Parabéns Fernanda.

albir disse...

Fernanda,
se o umbigo da foto é o seu, o assédio digital é compreensível. E, passando pela pergunta do Edu, o céu é o limite - não obstante o seu P.S.- data venia.

Carla Dias disse...

Depois de ler essa crônica eu vou rever os direitos e deveres do meu próprio umbigo...
ADOREI!

fernanda disse...

Cada doido com sua loucura, né, gente? Fico feliz em saber que não sou a única. Temos muitos dedonoumbigofóbicos anôminos por aí.

Eduardo, língua pode, pq não tem unha...rs

Albir, essa foto não é do meu umbigo. Não mesmo. O protejo tanto, não teria coragem de tirá-lo do anonimato...rs

Bjos!!!

PROJEÇÃO DE MIM disse...

amei...super divertido, delicioso de ler...;)
Ah..detesto lixar as unhas, morro de aflição!
O.

Monique disse...

Nossa Fernanda...neste momento me sinto tão aliviada...pensei que fosse a única louca dedonoumbigofóbica.
Nessas horas descobrimos que realmente, há louco pra tudo neste mundo(inclusive nós).

Artension disse...

garota (fernanda) vc é loka. vc vai parar com essa frescura, sabe pq? pq uma vez q vc anuncia publicamente isso, soa mais como "enfiem por favor". palhaçada da sua parte e n vai durar mto tempo. uma coisa eu te garanto, um dia vao amarrar vc e vao dizer "agora vamos enfiar o dedo no seu umbigo" e ai vao ficar enfiando o dedo no seu umbigo, vc chorar, gritar, cuspir, de nada vai adiantar, só to te avisando... te prepara! (vc vai se lembrar)

Anônimo disse...

que barriguinha hein gatinha!!!! vontade de coçar seu umbigo.....

Gabriela disse...

GENTE DO CÉU! acho que ela se inspirou em mim quando criou este texto. Me identifiquei muito, sou EXATAMENTE ASSIM (e um pouquinho mais ) finalmente encontrei alguem no mundo como eu \o/ KKK

daniel laurindo disse...

Poxa também tenho essa fobia
não posso nem ver alguem mexer no seu proprio umbigo
que é como se fosse no meu