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Mostrando postagens de Agosto, 2016

SILENCIA >> Carla Dias >>

Na minha cabeça de escritora em processo de endoidecimento – de acordo com um velho amigo e um artigo de jornal de mil novecentos e sabe-se lá quando -, a busca é pelo sossego. Não me entendam mal, porque eu adoro um bom caos criativo. Porém, assim como quem aprecia a solidão, quero ter a opção de sair dele quando o tal me tirar do prumo.

O que percebo é o que sente aquele personagem de livro que ainda não foi escrito, que eu visto em uma tentativa tola de fazer de conta que ele é quem sente o meu sentir: aprisionamento. Mesmo em casa, na hora daquele café de antes de começar a escrever, ou de ir logo para a cama, que o sono chegou, é um aprisionamento que me toma. Não há grades, mas ele está lá.

Aprisionamento, desses que faz com que nossas cabeças fiquem quentes, de tanto pensamento borbulhando; que entorna o caldo do nosso humor, transformando-nos em impacientes à beira de um ataque de nervos. De quando recebemos tantas notícias ruins, para nós e para outros tantos, que as boas pas…

LEMBRA DAQUELE DIA? >> Clara Braga

Eu lembro do dia que o Senna morreu.
Lembro do dia que os Mamonas morreram.
Lembro de ler a carta que o Kurt Coubain deixou antes de se matar.
Lembro da notícia da ovelha Dolly, a primeira a ser clonada.
Lembro como se fosse ontem de ir ao  Rock in Rio assistir Guns n' Roses, Silverchair, Oasis, Red Hot, Iron Maiden e até Britney Spears.
Lembro da mega repercussão da estreia de Titanic, assim como lembro da raiva das pessoas que não aceitaram o fato de Leonardo Dicaprio não ter sido indicado ao Oscar. E, claro, lembro que por ser um dos primeiros filmes longos a passarem no cinema, tinha até intervalo para ir ao banheiro.
Lembro de quando minha mãe comprou um computador e assim começou minha saga pelo bate papo da uol, mirc, icq, msn e orkut da vida.
Lembro de quando as Spice Girls se separaram. 
Lembro do show de despedida da dupla Sandy e Jr.
Lembro de quando eu descobri que os Hanson eram 3 homens e não 2 homens e uma mulher.
Lembro da morte do Michael Jackson.
Lembro exatamen…

CRÔNICA PARA UM GAÚCHO >> Sergio Geia

Estávamos instalados numa sala do anexo oito da Universidade do Vale do Paraíba; ele chegou de terno e gravata, e convidou para que nos apresentássemos. Porém, não era uma simples apresentação; ele queria mais; ele queria que cada um dissesse também uma coisa que apreciava fazer nas horas de folga.
Se bem me conheces, honrado leitor, deves saber que as horas de folga do Geia são destinadas à construção de valiosos edifícios de palavras (valiosos pelo menos para seu construtor), que unidos se transformam numa espécie de vilarejo da conversa fiada, desinteressada, a típica conversa mole, talhada num método que um certo Drummond, das Minas Gerais, batizou de assunto-puxa-assunto, e que comumente os especialistas chamam de crônica.
Quem dera me chegue o dia em que preciosas horas de folga sejam destinadas ao humilde banho de mar, a uma boa entente com pecados, pescados, e outros derivativos, ao deitar a preguiça na rede, aos amores eternos e aos casuais, destinando-se as dignas horas de lab…

JAVELIN - LANÇAMENTO DE DARDOS >> Zoraya Cesar

O menino se apaixonou pelo filme desde o primeiro quadro. Jamais esqueceu a cena do grande guerreiro massai arremessando uma lança no ar, a lança traçando um arco elegante e mortal, atingindo, com um thud seco e definitivo, o enorme javali que havia dizimado sua família. E sempre levou no coração a cena final, o guerreiro voltando para casa a correr, compassado, majestoso, quilômetros a fio, sem se cansar, livre.
De tal maneira ficou impressionado o menino que, imediatamente, introjetou o grande guerreiro e sua história.
Os anos passaram, como costumam passar, queiramos ou não, com sua bagagem de dores e perdas (quando temos sorte, também de amores, mas essa, aviso logo, não é exatamente uma história de amor). Passou para o menino também, agora já rapaz, integrante de uma equipe de atletismo, modalidade lançamento de dardos. (Quando descobriu que javelin era o nome do esporte, associou a sonoridade ao vilão do filme que tanto amava, o cruel javali, e soube, nesse exato instante, que rec…

QUEIJO >> Analu Faria

Perdoa-me Deus, porque eu pequei. Por atos, gestos e palavras eu pedi e desejei queijo e por isso não consegui ser vegana.
Eu sou de Minas Gerais, e por lá a gente já nasce comendo queijo. Dizem os mineiros que quem não gosta de queijo bom sujeito não é. Então veja você meu problema - eu não como carne para não maltratar tanto meu corpo e meu espírito quanto o corpo e o espírito dos pobres dos animais, e queria, - juro! - estender essa política ao queijo (que também maltrata meu corpo, que também faz mal ao animais),  não consigo ficar sem a iguaria. Socorro! O jeito é conviver com o fato de que tem coisas que a gente não consegue mudar, coisas que a gente não pode melhorar. Não que eu não devesse, mas é que, no fundo, acho que já faço até muito não comendo carne, sendo honesta, perdoando quem me magoa etc..  Dito isso, vou lá comer aquele queijinho canastra que trouxe lá de Minas, sabe aquele temperadinho? É, aquele defumado mesmo. É uma delícia, né? (Que Deus e os animais me perdoem…

IGNORÂNCIA >> Carla Dias >>

Como é eficaz a ignorância. Ela consegue manter um indivíduo em um mesmo lugar durante toda sua vida. Engessa a capacidade de fazer planos, define a hierarquia existencial desse alguém. Ignorância é produto caro aos doutores em manipulação. Você pensa que são somente as atrizes e os atores que lhe oferecem ilusão, mas a verdade é que a ilusão é roupa de domingo da ignorância. E ela, a ignorância, é bicho de estimação de muitos, e obedece a eles sem pestanejar.

Há quem se atraque à ignorância para encarar certa preguiça em lidar com o que há em comum entre os indivíduos. Particularmente, acho muito curioso aquele que escolhe ignorar deveres básicos, adotando o comportamento que o coloca como centro do universo. Ignorância atrelada à prepotência é prato ainda mais apreciável aos que sabem tirar proveito de quem se nega a aprender com a vida.

Acontece que ignorância é coisa maluca mesmo, um tipo de corrente que limita a liberdade, mas de um jeito que faz a pessoa acreditar ser acionista…

EU JÁ, EU NUNCA PARTE II >> Clara Braga

Já deixei de ouvir as músicas de alguns artistas porque eles faziam traduções horríveis de músicas que eu gosto, menos o que é imortal não morre no final, essa é clássica.
Não como camarão.
Já deixei de ver filmes protagonizados por palhaços por puro medo.
Odeio ficar sozinha no escuro.
Ao telefone, já fingi ser outra pessoa para não ter que falar com a pessoa que me ligou.
Já contei o segredo de outras pessoas.
Já perdi a hora propositalmente.
Já fui a dois shows do Hanson.
Nunca atendo ligação de números estranhos, o que me faz pensar seriamente que eu já posso ter perdido alguma oportunidade de trabalho, mas tudo bem.
Nunca li nem assisti nenhum Harry Poter.
Não gosto de tomar banho de manhã cedo.
Mas tudo isso foi só uma tentativa de amenizar o que eu realmente preciso assumir:
Não jogo Pokemon GO e nem pretendo!
Ufa, falei!

O ÚLTIMO PEDAÇO (para Maria) >> Cristiana Moura

E a noite a agarrou pelas costas nuas. Tive notícias que Maria e o rapaz, não
faz tempo, dançaram o último pedaço em campo aberto. Nos derradeiros anos, foram muitos os sabores que experimentaram juntos, muitos os gestos, as melodias no próprio caminhar pelas calçadas da cidade a imprimir memória nos corpos.

Não sei bem o que houve. Talvez as palavras tivessem perdendo sua ginga. As sonoridades se desencontrando. Naquele começo de noite, o rapaz e Maria dançaram o último pedaço das histórias vividas de mãos dadas. Essa é uma dança que a gente não sabe se é triste ou se é só final de espetáculo em tempo inesperado.

Ela teve dias instáveis, eu penso. Ele partiu. No olhar de Maria pude ver aquela saudade do futuro que só quem já sentiu sabe o que é. Ontem foi comprar pão depois que a deixei em casa e um vento gostoso soprou sobre ela. Deve ter sido daqueles ventos que ao mesmo tempo que acariciam a face, nos invadem, secretamente, por debaixo das saias. Sentiu-se viva, acalentada, abraç…

ENTRE A FARTURA E A FALTURA >> Paulo Meireles Barguil

 "Quem me dera, ao menos uma vez,
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
E fala demais por não ter nada a dizer" (Renato Russo, Índios)
Vivemos entre a fartura e a faltura. A primeira, conforme o Houaiss, significa "1 estado de farto. 2 quantidade mais do que suficiente; abundância. [...]". Farto é alguém saciado, satisfeito. Deriva de fartar: "1 encher-se ou tornar cheio ou abarrotado (de); atulhar(-se), abarrotar(-se). 2 saciar (a fome ou a sede). [...] 4. abastecer em abundância. [...]". (HOUAISS)
A segunda, conforme o Barguil, significa "1 estado de falta. 2 quantidade menos do que suficiente; escassez". Falto é alguém carente, necessitado, desprovido. Provem de faltar: "1 não existir, não haver momentânea ou permanentemente. 2 ser indispensável para completar. [...]". (HOUAISS)
Tragédia: ser falto a despeito da sua fartura!

Benção: ser farto apesar da sua faltura!

F A _ T U R …

CORRA, TEMPO, CORRA! >> Mariana Scherma

Por alguns motivos, eu ando ansiosa que, olha, desnecessário. Já apareceram quatro fios de cabelo branco extras, alguns chocolates da dispensa foram parar na minha boca em um momento de insanidade, o foco se perdeu, o chão parece ter sumido, sei lá... Dias ruins todos temos, expectativas ruins também. Felizes são aqueles que não sofrem por antecedência. Sinto inveja de vocês. O reino dos céus é todo de vocês, que andam por aí leves e com zero encanação. Das minhas tentativas de relaxar, já foram feitas...
Muita natação. Muita mesmo. Com um sem fim de chegadas borboleta pra cansar o corpo. Mas a alma seguiu inquieta. Maldita alma sem fôlego.
Faxina na casa. Tem aquela história de feng shui que diz que, ao arrumar espaços, você traz mais paz pra sua vida. Arrumei e limpei tanto que dava pra comer no chão e sigo igual. Não entendo nada de feng shui, moral da história.
Pintei as unhas. Pra mim, é mais fácil ser feliz de unhas coloridas. Sigo ansiosa, mas pelo menos com as unhas bonitinhas. U…

ROBERT DE NIRO: LEVANDO A VIDA DANDO VIDA AOS PERSONAGENS >> Carla Dias >>

Lembro-me do primeiro filme que assisti, daquela cena angustiante no teatro, porque eu já sabia que ele não prestava. Lembro-me também de que tinha vontade de chacoalhar a menina, para ver se ela acordava para a vida. Gritei algumas vezes com a tevê, saí daí!, mas ninguém saiu. Deu no que deu... Um dos melhores personagens que um ator eternizou. Um dos melhores filmes.

Hoje é aniversário de Robert De Niro. Setenta e três anos. Dizer que ele é talentoso é mergulhar na obviedade. Pensando nos personagens aos quais ele deu vida, fiz uma lista dos filmes que mais me impressionaram, dos quais me lembro fácil e já assisti algumas vezes. A lista ficou longa e tive de me esforçar para selecionar somente cinco.

O primeiro deles foi o primeiro sobre o qual falei no início desta crônica: Cabo do Medo (Cape Fear/1991). Dirigido por Martin Scorsese, o filme conta a história de Max Cady (De Niro), um homem condenado por estupro, que sai da prisão, após quatorze anos, e passa a perseguir a família …

QUAL O PROBLEMA MESMO? >> Clara Braga

Já conheci muita gente diferente nessa vida! Acho que se eu fosse um pouco mais comunicativa eu teria conhecido até mais pessoas, mas realmente acho que já tive contato com pessoas bem diferentes.
Acredito que a primeira experiência que me proporcionou conhecer pessoas bem singulares foi morar fora. Conhecer várias culturas, encarar hábitos completamente diversos, me questionar das minhas próprias atitudes, questionar as afirmações dos outros, enfim, tudo isso faz parte do ato de estar aberto a conhecer novas pessoas. O crescimento que esse tipo de experiência proporciona é inquestionável, nos torna mais humanos, logo, menos preconceituosos e prepotentes.
A outra experiência é a sala de aula. Ser professora te coloca em situações que até Deus duvida, e olha que eu tenho poucos anos de carreira. Você convive e lida com pessoas de diferentes classes sociais, diferentes religiões, diferentes hábitos, diferentes estruturas familiares, enfim, é um universo imenso dentro do micro universo …

BARULHOS DESAGRADÁVEIS >> Sergio Geia

Dentre as diversas recomendações do síndico digitadas numa folha colada no elevador, uma delas me chamou a atenção. Dizia: “Há reclamação de barulho desagradável proveniente de dentro dos apartamentos, e pedimos a colaboração de todos, pois viver em condomínio é respeitar especialmente os seus vizinhos, pois ninguém é obrigado a escutar o que o outro faz dentro de sua casa”. Era uma folha com cinco recomendações. As outras, mais comuns, falavam de cuidado com os animais, da manutenção da limpeza do elevador, e de procedimentos mínimos de segurança que deveriam ser respeitados nos portões que dão acesso ao condomínio, diante de reiteradas notícias de roubos em prédios da região. De pronto, resolvi aceitar o pedido de colaboração do senhor síndico. Ora, se bem me conheces amigo leitor, sabes que sou homem íntegro, que preza a honestidade, o caráter, e, principalmente, o respeito. Não ando no acostamento, não passo no sinal amarelo, não furo fila. O respeito é um dos pilares de minha exist…

A SOLIDÃO DO PIANISTA >> Zoraya Cesar

A confeitaria era daquelas bem antigas, históricas, que conseguiram sobreviver à absurda especulação imobiliária que flagelara a cidade nos últimos anos. 
Era bonita mesmo, quase rococó. Nas paredes, espelhos de cristal bisotado emoldurados em pesadas estruturas de madeira trabalhada. No chão, mármore verde com laivos negros, numa composição elegante e discreta. De mármore também eram as tampas das mesas, de pedra gris, apoiadas em vigorosos pés de ferro. As cadeiras, de palha trançada francesa, eram de madeira escura. Luminárias do século XIX realçavam o aspecto tradicional do lugar, sem, no entanto, deixá-lo pesado.
Ao contrário, era bem alegre o ambiente. As mesas estavam todas ocupadas e havia uma pequena fila na porta. Grupos de velhas senhoras bem vestidas gargalhavam impudicamente das desditas alheias entre largos goles de cerveja ou vinho. Homens de aparência respeitável tomavam café e conversavam em voz baixa, como se trocando graves segredos de Estado. Os raros casais de idade…

POKEMÓN >>Analu Faria

"Tenho mais o que fazer." É o desabafo de muita gente que acha chato o joguinho eletrônico em que o usuário "caça" Pokemóns. Nos últimos dias, não sei do que o mundo anda mais cheio: se de monstrinhos japoneses virtuais ou se de gente que "tem mais o que fazer."

Fico pensando que a vida adulta se resume a pessoas que se envolvem com coisas novas e gente que está ocupada demais para isso. Geralmente as segundas se dão melhor na vida: têm mais dinheiro, mais estabilidade, são mais bem vistas, tem status. As primeiras costumam se divertir mais, de uma diversão mais genuína que encher a cara no fim de semana.
Esta crônica não é nem de longe uma apologia ao joguinho, que virou febre em alguns países nos últimos meses. Nem é uma crítica a quem não gosta de Pokémons. É mais uma observação de quem, à medida que envelhece, percebe ser mais nítida a diferença entre as pessoas que se surpreendem com o novo e aquelas que já estão satisfeitas com o que já viram. 
Talv…

PARTICULARIDADES DE UMA BENQUERENÇA SENDO CONSTRUÍDA >> Carla Dias >>

Daquilo que não sei sobre você, o que me agoniaria? E me levaria a uma jornada que revelasse, não docilmente, aquilo que o inspira a desafiar a morte, agarrando-se à vida.

Onde cabem suas histórias, qual é a cor da sua tristeza, a assimetria do seu encantamento? Por ter me tornado espectadora de você, por pura falta do que fazer do destino, resta-me assisti-lo a delinear enredo, desprovida do direito ao atrevimento de interrogar: por quê?

Sento-me à beira das eventualidades, olhar arremessado à paisagem disponível, espírito a dialogar com a rebeldia do desejo em saber mais do que o permitido. Não é o mistério que me seduz, a jornada da espera pela próxima informação que nutrirá meu conhecimento sobre você, tampouco minha imaginação a construir pontes necessárias entre realidade e ilusão, que me deixam em estado de alerta. É a dúvida que me desconcerta a cada acolhimento de conhecimento a respeito do que lhe constrói, ser humano, pessoa. A dúvida sobre a importância de a vida me coloc…

DESPRENDER PARA APRENDER >> Paulo Meireles Barguil

 O radical a pode significar negação ou ampliação.

Conforme o Houaiss, prender é "ligar firmemente (uma coisa a outra); atar, pegar.".

Aprende-se quando os neurônios fazem novas redes, inéditas conexões.

Para ampliar, portanto, é necessário negar.

Antes, contudo, imprescindível conhecer.

Como pode o Homem aprender se ele não desprender o que acredita?

Soltar (o medo, a escuridão).

Saltar (no amor, na luz).

O que você vai desprender hoje?

VAI, BRASIL >> Mariana Scherma

Eu estava de boas dessas Olimpíadas. Andava fazendo piada sobre a vila olímpica, muita piada sobre os revezamentos da tocha pelo Brasil (e principalmente sobre pessoas pouco atléticas que carregavam and derrubavam a tocha). Estava. Só que, ao eu ver a chama olímpica chegando à cidade do Rio de Janeiro conduzida pela família Grael, ops, parei a piada e me emocionei. Sério, arrepiei. Se você não viu, dá uma espiada no YouTube.

Continuo não achando uma boa essa Olimpíada aqui. O Rio precisa de investimento, sim. O Brasil inteiro precisa. Mas tenho medo dos elefantes brancos que podem ficar no meio do caminho pós-jogos enquanto muita gente mora mal (ou nem mora), come mal (ou nem come) e vive acossada com medo da violência. Mas algum sentimento de patriotismo chacoalhou tudo aqui dentro.

É por esse sentimento que vou deixar as piadas de lado (não 100% porque, francamente, não consigo. Beijo pra Luiza que derrubou a tocha, aliás), mas vou engarrafar esse sentimento para as eleições que est…

AQUELA SENHORA, JOÃO, QUEIJO BRANCO E MORTE
>> Carla Dias >>

Hoje ele vai morrer. Não adianta você se chocar, dizer que não, tampouco insistir que suicídio é pecado, porque ele vai morrer, só que jamais tiraria a própria vida. Ama a vida. Tem planos que deseja concretizar. Tem sonhos que deseja sonhar por um bom tempo, antes de realizá-los, porque a jornada importa.

Porém, hoje ele vai morrer.

Passando pela rua tal, esquina com a rua outra, aquela senhora simpática, de cabelos cinzas e olhos grandes chama sua atenção. Ela remexe em sua bolsa, em cidade de violência escancarada. Ele abraça a gentileza que lhe é peculiar e avisa: cuidado, minha senhora, sua bolsa está em perigo. A senhora o açoita com um olhar desconfiado, mas não da boa vontade do homem. Desconfia que ele seja um mandado de seu filho, homem metido a dizer a ela como levar a vida, e que ela está muito velha para andar por aí, desacompanhada.

Durante uns bons minutos, e depois de explicar que ele nem mesmo conhecia o filho dela, a senhora discursou sobre como anda essa juventude.

O FORMATO DA PECINHA >> Clara Braga

Às vezes o mundo vai dando voltas e as coisas parecem que vão se desencaixando. Cada volta uma pecinha sai do lugar. Mais uma voltinha e você se surpreende com uma notícia que nunca imaginou que teria que ler. Outra volta e a coisa começa a ficar pessoal. Mais uma volta e você pensa: ok, o universo só pode estar tentando me falar algo, mas sou péssima com entrelinhas! Aí outra volta aparece e você fala: tô de altas. Mas na verdade você queria mesmo era dizer: a bola é minha e eu digo que a brincadeira acabou! Aí tem aquela volta final que não dá mais, você pede pra sair, apelou, perdeu!

Esse é aquele momento na vida em que você já está desesperado, acha que tudo dá certo pra todo mundo, menos pra você. Você se esforça do mesmo jeito que sempre se esforçou, mas as coisas insistem em não acontecer. A sensação é a de que a cada volta do mundo você também gira, mas em torno de si mesma e fica no mesmo lugar.

O universo podia mandar um bilhete escrito: "presta atenção, tô te forçando …