quarta-feira, 31 de agosto de 2016

SILENCIA >> Carla Dias >>


Na minha cabeça de escritora em processo de endoidecimento – de acordo com um velho amigo e um artigo de jornal de mil novecentos e sabe-se lá quando -, a busca é pelo sossego. Não me entendam mal, porque eu adoro um bom caos criativo. Porém, assim como quem aprecia a solidão, quero ter a opção de sair dele quando o tal me tirar do prumo.

O que percebo é o que sente aquele personagem de livro que ainda não foi escrito, que eu visto em uma tentativa tola de fazer de conta que ele é quem sente o meu sentir: aprisionamento. Mesmo em casa, na hora daquele café de antes de começar a escrever, ou de ir logo para a cama, que o sono chegou, é um aprisionamento que me toma. Não há grades, mas ele está lá.

Aprisionamento, desses que faz com que nossas cabeças fiquem quentes, de tanto pensamento borbulhando; que entorna o caldo do nosso humor, transformando-nos em impacientes à beira de um ataque de nervos. De quando recebemos tantas notícias ruins, para nós e para outros tantos, que as boas passam por nós sem causar impacto. O que é uma pena, não é? Tão mais raras são as boas notícias. Vê-las sendo desprezadas, porque nos sentimos impotentes diante do que acontece ao mundo, é lamentável.

Mas esse sossego que eu busco não é dos que nos mantêm estáticos. É um sossego para pensar melhor a respeito dos incômodos, pensar no porquê eles realmente me incomodam. Só que me sinto assim, como se alguém gritasse em meus ouvidos, bem alto e o tempo todo. E nem adianta recomendar chá de camomila. Já tentei. Nada.

Talvez, mais do que sossego, eu busque pelo silêncio. Silêncio me faz pensar em milagre. Sabe quando seu espírito não quer se envergar, mas a pressão é tanta, e você se esforça muito para não perder aquela rala, porém tão significativa esperança de que os berros nos seus ouvidos se tornarão canções do seu agrado?

Silêncio.

Durante a vida, adquirimos técnicas próprias para alcançar sossego. Cada um tem seu jeito, a dosagem que melhor lhe atende. Há quem prefira ser simples e direto, então desliga o aparelho auditivo e se apega a um bom livro. Há também quem recorra aos barbitúricos, aos mantras, às longas conversas com animais de estimação. Há os que escolhem lavar o carro, lavar a louça, lavar o corpo, lavar a alma.

Então, o que fazer quando a técnica adquirida para silenciar até atingir o sossego não funciona?

Todos dizendo tudo ao mesmo tempo, e aos berros, remetem às as brigas domésticas. Não há nada de justo ali, tampouco algo capaz de inspirar parcimônia. É uma explosão de afirmativas contundentes, cultivadas em uma mistura incoerente de fatos e achismos, vociferadas para ferir o outro. Não tem a ver com razão, com o certo e o errado, com o justo. Tem a ver com a incapacidade de se parar o trem descarrilado que é a necessidade de se provar melhor do que o outro. E, acreditem, quando chega à tal ponto, perceber o melhor em si já se torna tarefa atravancada pelas complicações.

Esse aprisionamento há de me deixar sair, dia desses, para dar uma volta e respirar um tempo de sossego. Ele que é uma agonia vigilante, um enredador perspicaz de suas vítimas, que não abandona fácil as ciladas que cria. Mas ele há de permitir que também você saia para um bom passeio, eventualmente. Talvez nos encontremos no meio do silêncio, já um tanto analfabetos sobre as crenças um do outro. E os nossos olhares se cruzem como se fosse nosso encontro, o primeiro. E digamos nada, não antes de aceitarmos que esse silêncio, esse sossego provisório, ele durará apenas um instante esquecível se não consideramos a hipótese de não berrarmos nossas vontades e desejos um ao outro e aos outros. Assim, quem sabe, nasça um bom diálogo.

Sabe Deus o que pode acontecer se começarmos a dialogar, não é mesmo?

Imagem © Jander Minesso

carladias.com

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terça-feira, 30 de agosto de 2016

LEMBRA DAQUELE DIA? >> Clara Braga

Eu lembro do dia que o Senna morreu.

Lembro do dia que os Mamonas morreram.

Lembro de ler a carta que o Kurt Coubain deixou antes de se matar.

Lembro da notícia da ovelha Dolly, a primeira a ser clonada.

Lembro como se fosse ontem de ir ao  Rock in Rio assistir Guns n' Roses, Silverchair, Oasis, Red Hot, Iron Maiden e até Britney Spears.

Lembro da mega repercussão da estreia de Titanic, assim como lembro da raiva das pessoas que não aceitaram o fato de Leonardo Dicaprio não ter sido indicado ao Oscar. E, claro, lembro que por ser um dos primeiros filmes longos a passarem no cinema, tinha até intervalo para ir ao banheiro.

Lembro de quando minha mãe comprou um computador e assim começou minha saga pelo bate papo da uol, mirc, icq, msn e orkut da vida.

Lembro de quando as Spice Girls se separaram. 

Lembro do show de despedida da dupla Sandy e Jr.

Lembro de quando eu descobri que os Hanson eram 3 homens e não 2 homens e uma mulher.

Lembro da morte do Michael Jackson.

Lembro exatamente onde eu estava quando aconteceu o atentado contra as torres gêmeas e, principalmente, todos os atentados mais recentes.

Lembro de acompanhar o anuncio de quem seria o novo Papa.

Lembro de colecionar tazo, jogar pega vareta, cara a cara e lembro que eu era muito boa no pogobol.

Lembro do tamagochi.

Lembro que as pessoas passavam mais tempo na rua, eram menos ansiosas e conversavam mais pessoalmente.

Lembro do patins que tinha duas rodas na frente, duas atrás e o freio na frente que derrubou muita gente.

Lembro que com 15 reais eu ia ao cinema, na divertilândia e comia no Mcdonalds.

Lembro que cinema não barrava as pessoas de acordo com a classificação, o que me rendeu boas noites em claro.

Enfim, lembro de coisas importantes e coisas fúteis. Talvez lembre até mais das coisas fúteis, por algum motivo.

Mas o dia de ontem com certeza vai entrar para a história como o dia em que as pessoas se preocuparam mais com a separação da Fátima Bernardes e do William Bonner do que com o impeachment da Dilma.




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sábado, 27 de agosto de 2016

CRÔNICA PARA UM GAÚCHO >> Sergio Geia



Estávamos instalados numa sala do anexo oito da Universidade do Vale do Paraíba; ele chegou de terno e gravata, e convidou para que nos apresentássemos. Porém, não era uma simples apresentação; ele queria mais; ele queria que cada um dissesse também uma coisa que apreciava fazer nas horas de folga.

Se bem me conheces, honrado leitor, deves saber que as horas de folga do Geia são destinadas à construção de valiosos edifícios de palavras (valiosos pelo menos para seu construtor), que unidos se transformam numa espécie de vilarejo da conversa fiada, desinteressada, a típica conversa mole, talhada num método que um certo Drummond, das Minas Gerais, batizou de assunto-puxa-assunto, e que comumente os especialistas chamam de crônica.

Quem dera me chegue o dia em que preciosas horas de folga sejam destinadas ao humilde banho de mar, a uma boa entente com pecados, pescados, e outros derivativos, ao deitar a preguiça na rede, aos amores eternos e aos casuais, destinando-se as dignas horas de labor à edificação de novas vilas, cidades ou metrópoles das letras, que, se merecerem o afeto e a estima de pessoas respeitosas e interessadas como o senhor, estampem um dia qualquer página de jornal.

Pois o Geia não titubeou informando ao interessado professor, como também aos colegas, o destino que dava às suas horas de folga; a informação, que esperava ser chancelada e devolvida sem rodeios, para se juntar às demais na cesta de prazeres que o passar dos segundos só fazia avolumar, recebeu do mestre gaúcho comentários espirituosos e, de chofre, o lançamento de um inesperado desafio: “Bah! Então tu fazes uma crônica desse nosso encontro aqui?”.

De antemão já lhe digo que a dificuldade seria enorme. Era um seminário de interesse estritamente institucional; trazia como mote a proposição estampada no título que encabeçava a programação: “GESTÃO PARTICIPATIVA: construindo novos cenários”. Tratava-se de um encontro mui produtivo e consistente a gerar sólidos e bons frutos no espaço da instituição, mas nunca capaz de gerar uma boa e despretensiosa crônica.

Normalmente, as crônicas, pelo menos as minhas (Ah!, e também as do velho Urso), se enamoram de coisas miúdas, de pouca valia no mundo das vaidades; lembro-me da tartaruga marinha que morreu em minhas mãos num mar da Bahia, ou da pequena tartaruga que tenho aqui em casa e me alegra os dias, do desconhecido e sua bicicleta, da pitangueira do vizinho, das crianças que jogam bola, da borboleta, do outono ou do mar; coisa barata, que ninguém nota, mas que a lupa do cronista mostra em detalhes. Como fazer algo sobre coisa tão grandiosa e rica como foi o encontro com o mestre gaúcho?

Está certo que os dias não se reservaram apenas às explanações teóricas e oficinas, mas também a almoços e jantares dignos, a deliciosos petiscos e refeições, a conversas esplêndidas, a músicas interpretadas por cantores de feliz talento e encantamento, mas tudo, tudo ainda se ativava no campo das grandes emoções, dos grandes momentos, dos afortunados e eloquentes encontros, escapando pela grandiosidade, da lupa fina para virar crônica.

Desanimado da vida, pronto para desistir, eis que no momento crepuscular, quando o céu tingia-se de violeta e lilás, e o vento morno prenunciava delícias de um atípico final de semana invernal, eis que um anjo Gabriel apareceu, e apareceu como uma possível tábua de salvação nas palavras firmes de seu tenaz avô: “Vô, é verdade que no seu tempo não existia iPod?”. “Não, Gabriel, não existia”. “Mas vô, e o que vocês faziam para dormir?”. “No tempo de seu avô nem televisão existia”. “E depois da janta, vô?”. “A família se reunia em torno de um rádio, ouviam-se notícias, a novela das oito e programas humorísticos”.

Pois enxerguei a carinha de espanto do Gabriel se perguntando “mas que raios de rádio é esse de que o vô tanto fala?”, e enxerguei também um pedaço de doçura bem típico das boas crônicas nascendo ali, um pedaço de céu azul se abrindo no sisudo tempo dos desafios.

Até que no fim, para encerrar, o grande mestre arrematou com a humildade dos grandes homens: “Espero que eu tenha passado aos senhores algo que realmente possa ser objeto de reflexão e transformação em suas unidades; se assim não o fiz, não foi por falta de boa vontade; podem acreditar, foi por absoluta incompetência minha, pois aqui, tenho consciência de que dei o meu melhor” (rogo para que a citação se avizinhe um tanto do real, uma vez que por absoluta incompetência —agora, deste cronista —, não a registrei num pedaço de papel).

Na noite morna, sob o manto da lua vívida, de estrelas e do Cruzeiro do Sul, voltei para casa com uma doce alegria, pensando que tudo, tudo nessa vida vale a pena quando a consciência ratifica que o melhor de nós foi entregue com muita boa vontade.

Ilustração: http://www.jovemsulnews.com.br


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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

JAVELIN - LANÇAMENTO DE DARDOS >> Zoraya Cesar

O menino se apaixonou pelo filme desde o primeiro quadro. Jamais esqueceu a cena do grande guerreiro massai arremessando uma lança no ar, a lança traçando um arco elegante e mortal, atingindo, com um thud seco e definitivo, o enorme javali que havia dizimado sua família. E sempre levou no coração a cena final, o guerreiro voltando para casa a correr, compassado, majestoso, quilômetros a fio, sem se cansar, livre.

De tal maneira ficou impressionado o menino que, imediatamente, introjetou o grande guerreiro e sua história.

Os anos passaram, como costumam passar, queiramos ou não, com sua bagagem de dores e perdas (quando temos sorte, também de amores, mas essa, aviso logo, não é exatamente uma história de amor). Passou para o menino também, agora já rapaz, integrante de uma equipe de atletismo, modalidade lançamento de dardos. (Quando descobriu que javelin era o nome do esporte, associou a sonoridade ao vilão do filme que tanto amava, o cruel javali, e soube, nesse exato instante, que recebera uma missão). Ele era um dos melhores atletas. Por isso, todos acreditaram em acidente.

dia estava quente, infernalmente quente. O campo de treinamento parecia uma sucursal do sétimo círculo de Dante, no qual só faltavam as labaredas (porque o demônio, como veremos, já estava por ali). A grama perdera sua condição verdoenga e exibia um tom de marrom-morto, devido ao prolongado estio que se acomodara à cidade havia semanas. Ondas de calor provocavam distorções visuais, e o pó avermelhado que subia do saibro, colorindo, sinistramente, o ar, grudava nos olhos, ardente e pinicante, fazendo com que as lágrimas escorressem abundantes. Tudo contribuía para dificultar a visão, entorpecer os outros sentidos, embotar o raciocínio. A natureza e o acaso, afirmaram todos, tiveram sua parcela, e, por que não dizer, a total responsabilidade, sobre os acontecimentos vindouros. E como poderia ser diferente?

Ele nunca faltara um treino, com o respeito ou com o cuidado devido a treinadores e colegas. Treinava, treinava, treinava. Estava pronto para disputar campeonatos internacionais. Pegava o dardo, preparava, corria, mirava, atirava. Cada vez mais longe, cada vez mais preciso. Talvez por isso todos creditassem o acontecido à terrível fatalidade que, às vezes, cai sobre os inocentes.

Disse que não faltava treinos? Disse e repito. Tanto assim que era um dos poucos atletas presentes naquele dia que, como sabemos, estava inexprimivelmente quente, poeirento, seco, ensolarado. E aziago.

O novo zelador parecia-se
com Uriah Heep
O treinador sentiu no ar que aquele seria um dia estranho. Até porque seu ajudante faltara, obrigando-o a escalar o novo e inexperiente zelador para, entre outras tarefas, recuperar os dardos lançados. Uma espécie de boleiro, digamos. Uma espécie muito repulsiva de boleiro, aliás, pensou o treinador, pois o sujeito lhe lembrava o untuoso Uriah Heep(*), não só pela semelhança física com o nefasto personagem, mas, também, por suas maneiras melífluas. Ele teve um pressentimento ruim.

No entanto, o treinador, homem prático, deixou de bobagens. Era melhor começar logo o treino, mesmo naquele calor absurdo. Se a equipe fosse chamada para competir no Senegal os meninos já estariam acostumados, resmungou para si mesmo.

Falamos sobre o calor saariano, a secura infernal, a poeira ardente, a luz deslumbrante do sol, a lerdeza decorrente disso tudo, desculpando, sem pejo, o funesto acidente. Falou-se até dos maus pressentimentos do treinador e de sua implicância com o ajudante arregimentado à última hora. Só não se falou da profunda perturbação do principal atleta da equipe. Quem? Ele, nosso jovem guerreiro massai.

Ninguém estava em seu melhor dia, e ele, de todos, era o mais atarantado, o que mais cometia erros. Isso também embasou a teoria do acaso que permeou todos os acontecimentos do dia.

O treinador, exasperado, suado e quase desidratado pediu, implorou, para que ele acertasse apenas uma, a derradeira, para que todos pudessem dar por encerrado aquele malsinado dia. O jovem ouviu. Preparou-se, correu, lançou. E acertou.

Acertou no ajudante, sósia de Uriah Heep, que morreu na hora, atingido na cabeça por uma lança de 2,3 m, que, pesando 600 gramas e voando a uma velocidade de quase 100 km/h, não teve opção que não cumprir seu destino mortal.

Com a mesma velocidade da arma, passemos pela gritaria, consternação, polícia, ambulância, jornalistas, julgamento, e também pelo veredito judicial: inocente. Condição: livre.

Passemos por tudo isso e vejamos, então, tempos depois, como ficou nosso jovem atleta depois de o assunto já ter sido arquivado e esquecido. Naturalmente, ele largara o javelin, por motivos óbvios.

Óbvios? Não diria isso.

Ele abandonou o lançamento de dardos porque sua missão fora cumprida.

Guerreiro Massai
A sorte, essa senhora sempre favorável aos valentes, fizera com que ele encontrasse o homem que traíra seu pai, levando-o à bancarrota, à prisão e ao suicídio, tal a vergonha de se ver acusado por uma fraude que não cometera. O garoto e todos aqueles a quem ele mais amava foram deixados na pobreza e na desilusão. O novo zelador! Depois de tantos anos a procurá-lo, ali estava ele, tão perto, entregando-lhe os dardos, sem o reconhecer, passeando, abusado, no terreno onde as armas eram lançadas. Quando deu por si, a lança já atingira o javali que destruíra sua família.

Ainda era atleta, agora em outra modalidade. Corria, nosso jovem guerreiro massai, percorrendo, com elegância, as savanas de sua nova vida. Livre.


(*) Uriah Heep é um dos caracteres mais marcantes já criados por Charles Dickens, personagem do romance David Copperfield, Sua característica era a autoproclamada humildade, exaltada em cada sentença ou atitude, quando, na verdade, era um verdadeiro crápula, hipócrita e traidor, hábil nas manipulações e chantagens, untuoso e sub-reptício. Sua aparência era tão repulsiva quanto seu caráter.


Imagem de Uriah Heep: Fred Barnard https://br.pinterest.com/pin/262475484502623124/
Imagem Guerreiro Massai: Pixabay https://pixabay.com/en/masai-maasai-africa-tanzania-1330808/



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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

QUEIJO >> Analu Faria

Perdoa-me Deus, porque eu pequei. Por atos, gestos e palavras eu pedi e desejei queijo e por isso não consegui ser vegana.
Eu sou de Minas Gerais, e por lá a gente já nasce comendo queijo. Dizem os mineiros que quem não gosta de queijo bom sujeito não é. Então veja você meu problema - eu não como carne para não maltratar tanto meu corpo e meu espírito quanto o corpo e o espírito dos pobres dos animais, e queria, - juro! - estender essa política ao queijo (que também maltrata meu corpo, que também faz mal ao animais),  não consigo ficar sem a iguaria. Socorro!
O jeito é conviver com o fato de que tem coisas que a gente não consegue mudar, coisas que a gente não pode melhorar. Não que eu não devesse, mas é que, no fundo, acho que já faço até muito não comendo carne, sendo honesta, perdoando quem me magoa etc.. 
Dito isso, vou lá comer aquele queijinho canastra que trouxe lá de Minas, sabe aquele temperadinho? É, aquele defumado mesmo. É uma delícia, né? (Que Deus e os animais me perdoem). 





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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

IGNORÂNCIA >> Carla Dias >>


Como é eficaz a ignorância. Ela consegue manter um indivíduo em um mesmo lugar durante toda sua vida. Engessa a capacidade de fazer planos, define a hierarquia existencial desse alguém. Ignorância é produto caro aos doutores em manipulação. Você pensa que são somente as atrizes e os atores que lhe oferecem ilusão, mas a verdade é que a ilusão é roupa de domingo da ignorância. E ela, a ignorância, é bicho de estimação de muitos, e obedece a eles sem pestanejar.

Há quem se atraque à ignorância para encarar certa preguiça em lidar com o que há em comum entre os indivíduos. Particularmente, acho muito curioso aquele que escolhe ignorar deveres básicos, adotando o comportamento que o coloca como centro do universo. Ignorância atrelada à prepotência é prato ainda mais apreciável aos que sabem tirar proveito de quem se nega a aprender com a vida.

Acontece que ignorância é coisa maluca mesmo, um tipo de corrente que limita a liberdade, mas de um jeito que faz a pessoa acreditar ser acionista majoritária da verdade, enquanto vive uma mentira. É poderosa ao tomar a vida do sujeito, e de fragilizar seu espírito a ponto de fazê-lo acreditar que truculência é um jeito de conseguir aquilo que acredita que é seu por direito. Ainda que, no processo, ele envergue, às vezes até elimine o direito do outro.

Não há problema em ser ignorante nisso ou naquilo, afinal, não nascemos com o talento – ou o desejo – de nos inteirarmos de todos os assuntos desse mundo. A ignorância à qual me refiro não é a natural a todos nós, a que nos tira de um cenário para que outros brilhem. Que nos coloca em outros cenários para que possamos brilhar. Não é a ignorância que até nos permite a curiosidade e a escolha de aprofundamento, em dias em que a curiosidade se encanta com assuntos inéditos à nossa percepção.

A ignorância sobre a qual falo é aquela que permite a alguns a alcançarem prestígio e poder ao restringir o direito de muitos ao básico. Nesse balaio de restrições, a educação ganha em disparada. Tirar o direito ao aprendizado de um indivíduo, tornando a educação frágil e pobre, é alimentar a ignorância pensando em incapacitar um povo a pensar e compreender o que é justo e o que são os manipuladores a encherem seus bolsos e brincarem com a vida de tantos.

Educação é importante. Esporte é importe. Saúde é importante. Cultura é importante. Ignorar a importância disso tudo, atestando que primordial é a economia, é ignorar que uma economia saudável é aquela que tem como base a educação, o esporte, a saúde, a cultura. Comida na mesa? Pois é... Uma economia saudável ajudaria muito nesse quesito. Mas enquanto a ignorância justificar as ações que limitam vertiginosamente esses benefícios, como se eles fossem supérfluos, continuaremos a permitir que nosso país continue a ser guiado por adestradores de ignorantes. E eles não apenas saem ganhando com isso, mas tenho certeza de que também se divertem com a inocência adquirida do ignorante.

A ignorância alimenta espíritos blasé. Ela tem sido usada em benefício próprio de muitos, às vezes em nome de algumas loucuras que descambam em injustiça social, sexismo, censura, intolerância, preconceito, genocídio, guerra. A ignorância, nesse grau ceifador de capacidade de se compreender o justo para si e para o outro, de se comprometer a se aprofundar no conhecimento sobre o que desconhece e lhe causa desconforto, mas que, talvez, não esteja errado, apenas seja diferente e necessite de um olhar menos conservador para alcançar compreensão. A ignorância que foi construída para aliciar nossa humanidade, essa é preciso ser combatida com muita disposição. E uma das formas mais eficazes de fazê-lo é pararmos de dizer, apenas porque sim, que sabemos de tudo, que isso está certo e aquilo está errado, sem ao menos pensar a respeito.

Enquanto seguimos a ignorar nossa condição de escravos da ignorância, vamos perdendo. Ganhamos nada, não.

Imagem: Papilla estelar © Remedios Varo

carladias.com

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terça-feira, 23 de agosto de 2016

EU JÁ, EU NUNCA PARTE II >> Clara Braga

Já deixei de ouvir as músicas de alguns artistas porque eles faziam traduções horríveis de músicas que eu gosto, menos o que é imortal não morre no final, essa é clássica.

Não como camarão.

Já deixei de ver filmes protagonizados por palhaços por puro medo.

Odeio ficar sozinha no escuro.

Ao telefone, já fingi ser outra pessoa para não ter que falar com a pessoa que me ligou.

Já contei o segredo de outras pessoas.

Já perdi a hora propositalmente.

Já fui a dois shows do Hanson.

Nunca atendo ligação de números estranhos, o que me faz pensar seriamente que eu já posso ter perdido alguma oportunidade de trabalho, mas tudo bem.

Nunca li nem assisti nenhum Harry Poter.

Não gosto de tomar banho de manhã cedo.

Mas tudo isso foi só uma tentativa de amenizar o que eu realmente preciso assumir:

Não jogo Pokemon GO e nem pretendo!

Ufa, falei!


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sábado, 20 de agosto de 2016

O ÚLTIMO PEDAÇO (para Maria) >> Cristiana Moura



E a noite a agarrou pelas costas nuas. Tive notícias que Maria e o rapaz, não
faz tempo, dançaram o último pedaço em campo aberto. Nos derradeiros anos, foram muitos os sabores que experimentaram juntos, muitos os gestos, as melodias no próprio caminhar pelas calçadas da cidade a imprimir memória nos corpos.

Não sei bem o que houve. Talvez as palavras tivessem perdendo sua ginga. As sonoridades se desencontrando. Naquele começo de noite, o rapaz e Maria dançaram o último pedaço das histórias vividas de mãos dadas. Essa é uma dança que a gente não sabe se é triste ou se é só final de espetáculo em tempo inesperado.

Ela teve dias instáveis, eu penso. Ele partiu. No olhar de Maria pude ver aquela saudade do futuro que só quem já sentiu sabe o que é. Ontem foi comprar pão depois que a deixei em casa e um vento gostoso soprou sobre ela. Deve ter sido daqueles ventos que ao mesmo tempo que acariciam a face, nos invadem, secretamente, por debaixo das saias. Sentiu-se viva, acalentada, abraçada pela noite e amada pelo ar a soprar.

Foi para festa e dançou, dançou, dançou ao som dos batuques da praça e levada pelos ventos de agosto. Maria dançou pedaços de tempo, dançou o vento por entre as pernas, dançou sua história de amor findada, dançou seu corpo inteiro. Maria dançou Maria!


Imagem: http://caisdeembarque.blogspot.com.br/2011_07_01_archive.html



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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

ENTRE A FARTURA E A FALTURA >> Paulo Meireles Barguil


 
"Quem me dera, ao menos uma vez,
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
E fala demais por não ter nada a dizer"
(Renato Russo, Índios)

Vivemos entre a fartura e a faltura.
 
A primeira, conforme o Houaiss, significa "1 estado de farto. 2 quantidade mais do que suficiente; abundância. [...]".
 
Farto é alguém saciado, satisfeito.
 
Deriva de fartar: "1 encher-se ou tornar cheio ou abarrotado (de); atulhar(-se), abarrotar(-se). 2 saciar (a fome ou a sede). [...] 4. abastecer em abundância. [...]". (HOUAISS)

A segunda, conforme o Barguil, significa "1 estado de falta. 2 quantidade menos do que suficiente; escassez".
 
Falto é alguém carente, necessitado, desprovido.
 
Provem de faltar: "1 não existir, não haver momentânea ou permanentemente. 2 ser indispensável para completar. [...]". (HOUAISS)

Tragédia: ser falto a despeito da sua fartura!

Benção: ser farto apesar da sua faltura!

F A _ T U R A: qual é a letra da sua vida?

Mãos abertas: pedintes ou gratas.

Como são as suas mãos?

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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

CORRA, TEMPO, CORRA! >> Mariana Scherma

Por alguns motivos, eu ando ansiosa que, olha, desnecessário. Já apareceram quatro fios de cabelo branco extras, alguns chocolates da dispensa foram parar na minha boca em um momento de insanidade, o foco se perdeu, o chão parece ter sumido, sei lá... Dias ruins todos temos, expectativas ruins também. Felizes são aqueles que não sofrem por antecedência. Sinto inveja de vocês. O reino dos céus é todo de vocês, que andam por aí leves e com zero encanação. Das minhas tentativas de relaxar, já foram feitas...

Muita natação. Muita mesmo. Com um sem fim de chegadas borboleta pra cansar o corpo. Mas a alma seguiu inquieta. Maldita alma sem fôlego.

Faxina na casa. Tem aquela história de feng shui que diz que, ao arrumar espaços, você traz mais paz pra sua vida. Arrumei e limpei tanto que dava pra comer no chão e sigo igual. Não entendo nada de feng shui, moral da história.

Pintei as unhas. Pra mim, é mais fácil ser feliz de unhas coloridas. Sigo ansiosa, mas pelo menos com as unhas bonitinhas. Um toque de beleza em um corpo descontrolado, ué.

Liguei para todas as pessoas que amo pra dividir eu desespero. Meu desespero não reduziu, só deixei as pessoas incomodadas com meu problema. Sou uma ansiosa egoísta, confesso.

Enchi os carrinhos de compra dos sites que gosto de coisas que não precisava. Saí sem comprar um item. Pelo menos, sou uma ansiosa mão de vaca.

Escrevi textos mentais de muitos desaforos para as pessoas que precisavam ouvi-los. Depois desisti. Sei brigar muito bem na minha cabeça, mas só no imaginário mesmo.

Torci para o futebol feminino. Elas não chegaram à final. Torci para o handebol, mesma coisa. Para o vôlei feminino, idem. Ansiosa and pé frio. Desculpa, Brasil.

Li um monte, até que vi que virava as páginas e não absorvia o conteúdo. Palavras em português na minha frente eram como palavras tchecas: impossível entender.

Lembrei-me do que minha mãe sempre diz “ansiedade assim só vai deixar você velha e feia”. Concordei. Mas talvez só consiga ter essa segurança quando for velha e tiver perdido a conta dos cabelos brancos.

Agora, reviso esse texto com um chá de camomila do lado. Chá de camomila para essa alma enlouquecida? Faz me rir!


Deixei meus problemas na mão do universo, melhor. Mas vira e mexe tento entrar em contato com o universo pra saber o que ele decidiu. Por favor, tempo, passe logo.


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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

ROBERT DE NIRO: LEVANDO A VIDA DANDO VIDA AOS PERSONAGENS >> Carla Dias >>


Lembro-me do primeiro filme que assisti, daquela cena angustiante no teatro, porque eu já sabia que ele não prestava. Lembro-me também de que tinha vontade de chacoalhar a menina, para ver se ela acordava para a vida. Gritei algumas vezes com a tevê, saí daí!, mas ninguém saiu. Deu no que deu... Um dos melhores personagens que um ator eternizou. Um dos melhores filmes.

Hoje é aniversário de Robert De Niro. Setenta e três anos. Dizer que ele é talentoso é mergulhar na obviedade. Pensando nos personagens aos quais ele deu vida, fiz uma lista dos filmes que mais me impressionaram, dos quais me lembro fácil e já assisti algumas vezes. A lista ficou longa e tive de me esforçar para selecionar somente cinco.

Cabo do Medo
O primeiro deles foi o primeiro sobre o qual falei no início desta crônica: Cabo do Medo (Cape Fear/1991). Dirigido por Martin Scorsese, o filme conta a história de Max Cady (De Niro), um homem condenado por estupro, que sai da prisão, após quatorze anos, e passa a perseguir a família do advogado Sam Bowden (Nick Nolte), que o defendeu, mas omitiu informações que poderiam tê-lo beneficiado no julgamento. As cenas de Cady com a filha do advogado, Danielle Bowden (Juliette Lewis) são as que agoniam profundamente o espectador.

Cabo do Medo é uma refilmagem de Círculo do Medo, filme de 1962, com Robert Mitchum como Max Cady. Porém, De Niro eternizou o personagem e fez um ótimo trabalho. Cabo do Medo estará sempre na lista dos meus preferidos.


Mais um de Martin Scorsese entra para minha lista. Mais um filme em que De Niro interpreta um personagem perturbado de forma brilhante. Taxi Driver – Motorista de Táxi (Taxi Driver/1976), conta a história de Travis Bickle, veterano da Guerra do Vietnã, mentalmente instável, que começa a trabalhar como motorista de táxi.

Taxi Driver
Solitário, acostumado a enxergar os matizes da miséria e da violência, aproxima-se da decadência por meio de suas viagens pelas noites de Nova York e das personagens que encontra pelo caminho. Apesar de se aprofundar no cometimento da violência, tenta convencer uma prostitua pré-adolescente, Iris (Jodie Foster), a abandonar as ruas.


Eu sei que muitos o fizeram, e muito bem, mas De Niro continua sendo minha preferência quando se trata de interpretar o próprio, Lúcifer. Coração Satânico (Angel Heart/1987) é impactante. São muitos os filmes de Alan Parker que eu adoro, principalmente quando ele assina o roteiro, o que acontece nesse caso. O filme é baseado no livro de William Hjortsberg, Falling Angel.

Coração Satânico
Louis Cyphre (Robert De Niro) contrata o detetive particular Harry Angel (Mickey Rourke) para encontrar um cantor desaparecido. A busca começa em Nova York, mas logo Angel segue para New Orleans, onde os mistérios e as mortes aumentam, assim como sua ligação com o ocultismo. Há cenas realmente perturbadoras, e o ambiente criado por Parker, casado ao ocultismo perseverante de New Orleans, formam um cenário perfeito para o desfecho dessa história. A dupla Hourke e de Niro é um verdadeiro presente para o espectador.



Para mim, talvez os afetos se misturem nesse filme: personagem, ator e diretor. Keneth Branagh, além de talentoso ator, é um diretor que me interessa, que faz filmes que me atraem. Mary Shelley criou dois personagens muito fortes, que vêm sendo explorados em adaptações que trafegam por todos os gêneros: Victor Frankenstein e sua Criatura. Ainda assim, o original ainda me interessa mais. Por isso mesmo, Frankenstein de Mary Shelley (Mary Shelley’s Frankenstein/1994) entra para a minha lista.

Frankenstein de Mary Shelley

Vencer a morte é a busca do doutor Victor Frankenstein (Kenneth Branagh). O resultado de suas experiências traz ao mundo a Criatura (Robert De Niro). Acontece que o criador se arrepende de seu feito e abomina sua cria, o que gera uma série de conflitos. Robert De Niro se tornou minha Criatura preferida do cinema, assim como Gary Oldman se tornou o Drácula.



Para finalizar, um filme escrito e dirigido por Joe Schumacher, que reuniu dois grandes atores em uma peculiar e maravilhosa trama. Em Ninguém é Perfeito (Flawless/1999), Walt Koontz (De Niro) é um policial conservador ao extremo, que sofre um derrame que o deixa debilitado. Seu programa de reabilitação inclui lições de canto, que ele acaba sendo obrigada a ter,  por não conseguir se movimentar bem, com um dos vizinhos com quem costuma ser hostil, a drag queen Rusty (Philip Seymour Hoffman).

Ninguém é Perfeito

Flawless
é um filme que aborda o momento em que somos obrigados a encarar as diferenças e, ao fazê-lo, percebemos que elas não são tão gritantes como pensávamos, ou ofensivas, que às vezes são, na verdade, reveladoras e positivas. Tanto De Niro quanto Hoffman estão maravilhosos. Um belo filme, que fecha minha lista dos cinco dos que mais gosto com Robert De Niro.



Mas a lista é realmente longa...



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terça-feira, 16 de agosto de 2016

QUAL O PROBLEMA MESMO? >> Clara Braga

Já conheci muita gente diferente nessa vida! Acho que se eu fosse um pouco mais comunicativa eu teria conhecido até mais pessoas, mas realmente acho que já tive contato com pessoas bem diferentes.

Acredito que a primeira experiência que me proporcionou conhecer pessoas bem singulares foi morar fora. Conhecer várias culturas, encarar hábitos completamente diversos, me questionar das minhas próprias atitudes, questionar as afirmações dos outros, enfim, tudo isso faz parte do ato de estar aberto a conhecer novas pessoas. O crescimento que esse tipo de experiência proporciona é inquestionável, nos torna mais humanos, logo, menos preconceituosos e prepotentes.

A outra experiência é a sala de aula. Ser professora te coloca em situações que até Deus duvida, e olha que eu tenho poucos anos de carreira. Você convive e lida com pessoas de diferentes classes sociais, diferentes religiões, diferentes hábitos, diferentes estruturas familiares, enfim, é um universo imenso dentro do micro universo que se torna a sala de aula, e você precisa mediar tudo.

Mas apesar dessas experiências, a verdade é que eu acho que você nem precisa ir muito longe pra conhecer pessoas tão diferentes, basta estar aberto. É um taxi que você pega, um elevador que você decide segurar a porta para aquela pessoa que vem correndo ou um sorriso que você abre para aquele estranho que passou.

Agora, confesso que tem um situação que me intriga bastante. Eu nunca conheci pessoas que nunca erraram ou que ganharam em tudo que competiram. Isso não existe na minha lista. Conheço muitas mães e pais, todos se questionam de suas atitudes em algum momento. Aluno nem se fala, as vezes parece até que estão se tornando phd em errar e perder. Professor não fica atrás, é tanta coisa burocrática para resolver que as vezes o tempinho livre que sobra só serve para bagunçar tudo ainda mais. E isso é em qualquer cultura, em qualquer local do mundo. E então eu me pergunto, se não existem pessoas que nunca erraram ou que nunca perderam, por que as pessoas insistem em ofender aquelas que erram ou perdem?

Sempre falo muito sobre isso, mas vou voltar a falar, Rafaela Silva não ganhou porque é pobre, negra, mulher, lésbica e treina muito. Ela ganhou porque treina muito e ponto final. Ela mereceu ganhar! Ela se preparou físicamente e, principalmente, psicologicamente para enfrentar essa olimpíada. Ela passou por cima de comentários homofóbicos, sexistas, racistas e outros para defender essa medalha que agora é dela, não do Brasil, porque o Brasil que comemora a medalha hoje é o mesmo que há 4 anos teve coragem de fazer os piores comentários e as piores ofensas que se pode fazer a uma pessoa que está passando por um momento delicado.

Esse ano já tivemos a chance de repensar nossas atitudes e aprender com o erro. Rafaela Silva ganhou, todos comemoraram, mas Joana Maranhão perdeu. De novo os comentários absurdos. Ai eu realmente me pergunto, em um Brasil sem a capacidade de se ter compaixão, onde nos irritamos com os estrangeiros que nos criticam, mas viramos as costas para os brasileiros que não correspondem às nossas expectativas, não ir bem na olimpíada é mesmo o maior dos nossos problemas?


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sábado, 13 de agosto de 2016

BARULHOS DESAGRADÁVEIS >> Sergio Geia

 

Dentre as diversas recomendações do síndico digitadas numa folha colada no elevador, uma delas me chamou a atenção. Dizia: “Há reclamação de barulho desagradável proveniente de dentro dos apartamentos, e pedimos a colaboração de todos, pois viver em condomínio é respeitar especialmente os seus vizinhos, pois ninguém é obrigado a escutar o que o outro faz dentro de sua casa”.
Era uma folha com cinco recomendações. As outras, mais comuns, falavam de cuidado com os animais, da manutenção da limpeza do elevador, e de procedimentos mínimos de segurança que deveriam ser respeitados nos portões que dão acesso ao condomínio, diante de reiteradas notícias de roubos em prédios da região.
De pronto, resolvi aceitar o pedido de colaboração do senhor síndico. Ora, se bem me conheces amigo leitor, sabes que sou homem íntegro, que preza a honestidade, o caráter, e, principalmente, o respeito. Não ando no acostamento, não passo no sinal amarelo, não furo fila. O respeito é um dos pilares de minha existência, e dele não abro mão. Respeito meus superiores, meus funcionários, minha mãe, meus filhos, minha ex-mulher, meus amigos; respeito o ser humano, o cão, a árvore, as ruas; respeito os meus vizinhos.
Diante de solicitação tão educada, conclamando à prática do respeito mútuo, não haveria outra decisão a tomar: “Aceito, ó cauteloso síndico. Serei seu colaborador fiel. De hoje em diante, ninguém irá escutar o que o ocorre dentro de minha casa. Serei um vizinho exemplar; abster-me-ei de produzir barulhos desagradáveis em nome do mais legítimo e justo respeito condominial”.
Sei que é dura a vida de síndico; quando tem ocupações externas e mais o condomínio para cuidar, sua vida é confusa e atribulada, integrando o grupo de trabalhadores que irá se deparar com coisas a resolver, mesmo em horas reservadas à família e ao descanso. Além de administrar um condomínio inteiro e seus problemas (outro dia o elevador enguiçou; no último Natal faltou água em razão de problemas na caixa; moradores querem equipamentos para academia), sempre que é encontrado no elevador, ouve críticas, sugestões, reclamações.
Como não colaborar com pedido tão solícito, educado e correto? De fato, nem pedido haveria de ter, se o compromisso de nós moradores fosse com a educação, e o respeito. Deveria o senhor síndico se preocupar em descansar o corpo e a mente, após um dia cheio de trabalho; tomar banho, conversar com a mulher, ver desenho com os filhos, jantar e deitar sossegadamente, se entregando aos encantos que só uma cama quente e bem acompanhada pode produzir.
Mas não; tem que ouvir reclamações de barulho desagradável, tem que adiar seu descanso para pensar na maneira mais cautelosa de reduzir numa ordinária folha de papel o teor da insatisfação; tem que pedir a colaboração de todos em nome do respeito, quando nada disso seria necessário, se nós, condôminos responsáveis, fizéssemos a nossa parte.
Pois digo que o farei. De agora em diante assumo o compromisso de não usar mais o liquidificador, o aspirador de pó, o espremedor de laranjas e a panela de pressão; não ouvir mais músicas após as dez da noite; a televisão, quando ligada, estará num volume baixo; não tocar mais violão, não gritar nem xingar o juiz nos jogos do Palmeiras; se for o caso, nem assistir; não arrastar móveis, não usar sapatos, não atritar panelas e pratos; usar o chuveiro uma vez ao dia e nele não cantar.
Penso até que poderia haver mais algumas restrições, mas, por ora, acho que está de bom tamanho. Assim o fazendo, serei exemplar colaborador e vizinho respeitoso, não produzindo ruídos desagradáveis. Não terão do que reclamar os meus. E digo mais: nem está de todo ruim; tal qual o senhor síndico, com todas essas limitações autoimpostas, terei mais tempo pra me dedicar a certos derivativos, à cama quente, aos deleites merecidos.

Ilustração: biosom.com.br


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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A SOLIDÃO DO PIANISTA >> Zoraya Cesar

confeitaria era daquelas bem antigas, históricas, que conseguiram sobreviver à absurda especulação imobiliária que flagelara a cidade nos últimos anos. 

Era bonita mesmo, quase rococó. Nas paredes, espelhos de cristal bisotado emoldurados em pesadas estruturas de madeira trabalhada. No chão, mármore verde com laivos negros, numa composição elegante e discreta. De mármore também eram as tampas das mesas, de pedra gris, apoiadas em vigorosos pés de ferro. As cadeiras, de palha trançada francesa, eram de madeira escura. Luminárias do século XIX realçavam o aspecto tradicional do lugar, sem, no entanto, deixá-lo pesado.

Ao contrário, era bem alegre o ambiente. As mesas estavam todas ocupadas e havia uma pequena fila na porta. Grupos de velhas senhoras bem vestidas gargalhavam impudicamente das desditas alheias entre largos goles de cerveja ou vinho. Homens de aparência respeitável tomavam café e conversavam em voz baixa, como se trocando graves segredos de Estado. Os raros casais de idade avançada permaneciam calados, olhando para o prato, para os lados, para o teto, comendo naquele silêncio de quem sabe não haver mais nada a dizer. Grupos de jovens buliçosos mastigavam, falavam, tiravam selfies e digitavam selvagemente nos celulares tudo ao mesmo tempo agora. 

Diversos estrangeiros fotografavam minuciosamente em volta, encantados com a arquitetura e  a decoração da confeitaria, recomendada como imperdível nos guias turísticos. Comportavam-se, todos, de maneira semelhante: roupas desportivas, vozes miúdas, dicionários bilíngues. Pediam os pratos tradicionais e falavam com os garçons olhando-os nos olhos. Pareciam crianças de escola vigiadas por um rigoroso inspetor. Mas divertiam-se.

Havia risos, conversas, bebida e movimentação constante. Os garçons eram bem humorados, a comida era boa; o ambiente, bonito. Tudo perfeito.

E havia o pianista.

Um Pleyel do séc. XIX
Sim, havia um pianista, tocando em um Pleyel que pertencia à confeitaria desde sua inauguração, em 1890. Para o público, no entanto, poderia ser um teclado de brinquedo, que não faria diferença. Quase totalmente despercebido em meio à balburdia e à bateção de pratos e talheres, o pianista tocava ininterruptamente, tão imerso em sua arte que era como se ele o e piano fossem um só. Um só personagem estabelecido no fundo do salão, um enorme piano negro e seu pianista esmirrado e pálido. Ninguém olhava para eles.

Uma ou outra pessoa, em raro momento, percebia o som da música e deixava-se levar pelos acordes perfeitos. Sensações como transcendência, encantamento, doçura, beleza infinita tocavam em seu íntimo e... logo, cedo demais, o ouvinte era chamado à realidade por um amigo, um garçom, um barulho agudo qualquer. E nem mesmo esse curto momento, mais breve que a vida de uma efêmera, fazia com que alguém prestasse atenção ao pianista.

Sua solidão era tão plangente que podia ser quase tocada. Talvez fosse isso mesmo o que ele teclava ao piano, sua solidão, seu abandono, sua invisibilidade. Mas o que pensava essa criatura, que sentimentos estavam despertos em seu coração? Havia de ser algo tão sublime quanto o som que suas mãos tiravam do instrumento. 

Ou não?

O que pensava, realmente, o pianista?

Na solidão insuportável da vida. Naquelas pessoas toscas e primitivas que não sabiam apreciar uma boa música tocada num legítimo Pleyel. Num legítimo Pleyel, por Deus do céu! Na solidão de todos os pianistas do mundo. Na pobreza de seu salário. Nas injustiças da vida. Na sua insignificância. Na sua aparência mesquinha e mofina. Na infidelidade da mulher. No quanto gostaria que sua casa fosse um lugar sossegado, onde ele pudesse praticar sua arte e escrever suas melodias. 

Casa. A mulher gritando a todo instante que ele não passava de um fracassado, batendo portas e panelas sempre que ele começava a tocar. Dizia que as músicas que ele compunha para apresentar na confeitaria eram ultrapassadas e enjoadas, ninguém compraria aquela porcaria. Que ele deveria tocar pagode em churrascaria. A mulher sempre ameaçando deixá-lo pelo amante, o jornaleiro - esse sim, tinha um emprego decente -, sempre ameaçando mas nunca levado a cabo. Dizia que tinha pena dele, um moleirão sem atitude, que morreria de fome, caso deixado ao léu. 

O pianista suspirou, de repente, quase feliz. Um acorde mais bonito saiu das teclas, subiu pelo ar e explodiu, suave como uma bolha de sabão, em gotículas de paz. Paz era tudo o que ele precisava. E era o que ele, o corno manso, o palerma, o ridículo teria, finalmente, daquele dia em diante. 

Tudo o que encontraria ao chegar em casa seria o silêncio, a tranqüilidade e o corpo morto da esposa estrangulada que ele deixara deitado no sofá. 

E tocou mais lindamente do que jamais tocara. Mas, ainda assim, ninguém olhou para o pianista.


Solidão em notas musicais

Epica - Solitary Ground [PIano Synthesia]

Yellow notes are the vocal notes
http://www.mediafire.com/download/znanymw14w4n72h/epica_solitary_ground.mid
https://youtu.be/FtavRIiDZl0


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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

POKEMÓN >>Analu Faria

"Tenho mais o que fazer." É o desabafo de muita gente que acha chato o joguinho eletrônico em que o usuário "caça" Pokemóns. Nos últimos dias, não sei do que o mundo anda mais cheio: se de monstrinhos japoneses virtuais ou se de gente que "tem mais o que fazer."

Fico pensando que a vida adulta se resume a pessoas que se envolvem com coisas novas e gente que está ocupada demais para isso. Geralmente as segundas se dão melhor na vida: têm mais dinheiro, mais estabilidade, são mais bem vistas, tem status. As primeiras costumam se divertir mais, de uma diversão mais genuína que encher a cara no fim de semana.

Esta crônica não é nem de longe uma apologia ao joguinho, que virou febre em alguns países nos últimos meses. Nem é uma crítica a quem não gosta de Pokémons. É mais uma observação de quem, à medida que envelhece, percebe ser mais nítida a diferença entre as pessoas que se surpreendem com o novo e aquelas que já estão satisfeitas com o que já viram. 

Talvez esta crônica seja mais simples do que o leitor imagina: não vai acabar em mocinhos e bandidos, não vai ter final feliz (nem triste). Talvez esta crônica seja sobre estar entre dois caminhos, como quem se posiciona no exato ponto em que o rio desemboca no mar.

O Pokemón, gente, é um divisor de águas.


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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

PARTICULARIDADES DE UMA BENQUERENÇA SENDO CONSTRUÍDA >> Carla Dias >>


Daquilo que não sei sobre você, o que me agoniaria? E me levaria a uma jornada que revelasse, não docilmente, aquilo que o inspira a desafiar a morte, agarrando-se à vida.

Onde cabem suas histórias, qual é a cor da sua tristeza, a assimetria do seu encantamento? Por ter me tornado espectadora de você, por pura falta do que fazer do destino, resta-me assisti-lo a delinear enredo, desprovida do direito ao atrevimento de interrogar: por quê?

Sento-me à beira das eventualidades, olhar arremessado à paisagem disponível, espírito a dialogar com a rebeldia do desejo em saber mais do que o permitido. Não é o mistério que me seduz, a jornada da espera pela próxima informação que nutrirá meu conhecimento sobre você, tampouco minha imaginação a construir pontes necessárias entre realidade e ilusão, que me deixam em estado de alerta. É a dúvida que me desconcerta a cada acolhimento de conhecimento a respeito do que lhe constrói, ser humano, pessoa. A dúvida sobre a importância de a vida me colocar aqui, nesse lugar de espectadora, apreciadora da existência de quem da minha sabe quase nada.

Essa curiosidade que me consome - e sem pedir licença à vida que eu deveria viver -, dispensa a obviedade, conduz-me a uma viagem menos concorrida, de quando o prazer de se chegar ao destino envolve riscos que não queremos correr. Quem aceita saber o outro em tal profundidade, deixa para o esquecimento o endereço, telefone, profissão. Segue, de imediato, para o que interessa, aos porquês defloradores de camadas de segredos dispensáveis, daqueles que servem apenas para enublar a crueza de ser. Disfarçá-la com convenções.

Acontece que daqui eu vejo tanto e sem esforço. Posso até me equivocar aqui e ali, mas ainda assim me sinto à vontade para esboçar sentido ao que tantos dizem não compreender em você.

Para mim, uma pessoa é um mundo. Às vezes, eu me perco por aí e vale a pena. Quando não vale, volto para casa – para mim – com sabedoria refinada para aplicar no processo de aceitação de erros inevitáveis. Nesse caso, busco sempre ser mais gentil comigo, porque foi sendo viajante em mundos outros que já conheci pessoas tantas, das que jamais deixarão de fazer parte de mim.

De todas as versões da vida, inquieta-me aquela em que os desejos são cometidos em nome do sentimento aprisionado em salas vazias. Vazias feito as palavras desferidas em pós dia de missa de sétimo dia, como se tornam as pessoas que vivem de panfletar desafetos.

De todas as versões que vestimos, nossas máscaras em dia de lida, a que mais temo é a que lida com sentimento solto em sala vazia. Solto em uma alma vazia.

Do que me contaram sobre você, o que em verdade me encantaria? Tornando-me alvo certo da possibilidade de sentir o que, docilmente, eu jamais sentiria.

Imagem © Inês Mesquita

carladias.com

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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

DESPRENDER PARA APRENDER >> Paulo Meireles Barguil


O radical a pode significar negação ou ampliação.

Conforme o Houaiss, prender é "ligar firmemente (uma coisa a outra); atar, pegar.".

Aprende-se quando os neurônios fazem novas redes, inéditas conexões.

Para ampliar, portanto, é necessário negar.

Antes, contudo, imprescindível conhecer.

Como pode o Homem aprender se ele não desprender o que acredita?

Soltar (o medo, a escuridão).

Saltar (no amor, na luz).

O que você vai desprender hoje?

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quinta-feira, 4 de agosto de 2016

VAI, BRASIL >> Mariana Scherma

Eu estava de boas dessas Olimpíadas. Andava fazendo piada sobre a vila olímpica, muita piada sobre os revezamentos da tocha pelo Brasil (e principalmente sobre pessoas pouco atléticas que carregavam and derrubavam a tocha). Estava. Só que, ao eu ver a chama olímpica chegando à cidade do Rio de Janeiro conduzida pela família Grael, ops, parei a piada e me emocionei. Sério, arrepiei. Se você não viu, dá uma espiada no YouTube.

Continuo não achando uma boa essa Olimpíada aqui. O Rio precisa de investimento, sim. O Brasil inteiro precisa. Mas tenho medo dos elefantes brancos que podem ficar no meio do caminho pós-jogos enquanto muita gente mora mal (ou nem mora), come mal (ou nem come) e vive acossada com medo da violência. Mas algum sentimento de patriotismo chacoalhou tudo aqui dentro.

É por esse sentimento que vou deixar as piadas de lado (não 100% porque, francamente, não consigo. Beijo pra Luiza que derrubou a tocha, aliás), mas vou engarrafar esse sentimento para as eleições que estão chegando esse ano.  Não é só em época de competições esportivas que a gente deve torcer para o Brasil fazer bonito. Nós somos o Brasil e precisamos ajudá-lo a ficar bem na fita. Os jogos olímpicos chegam pela primeira vez numa terra sem cara, sem um nome forte no comando. O Brasil nunca foi tão de ninguém como está hoje. Ou seja, já começamos perdendo essa.

Vamos parar de colocar a culpa nos políticos, vamos aprender que políticos são basicamente (tirando aquele congresso todo zoado e Frankenstein) eleitos por nós. Vamos prestar atenção aos partidos, às bandeiras que eles levantam e seu passado. Não existe político santo nem gente santa. Mas existe prestação de contas e cobranças. Se isso não é ouro, não sei mais o que é. Vamos torcer pelo Brasil tal qual torcemos pelo futebol, combinado?


P.S.: Ah, e nada de sair anunciando a vergonha que vai ser a abertura dos jogos. Se for vergonhoso, depois vira piada. Mas ainda não está na hora de torcer contra.

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quarta-feira, 3 de agosto de 2016

AQUELA SENHORA, JOÃO, QUEIJO BRANCO E MORTE
>> Carla Dias >>

Hoje ele vai morrer. Não adianta você se chocar, dizer que não, tampouco insistir que suicídio é pecado, porque ele vai morrer, só que jamais tiraria a própria vida. Ama a vida. Tem planos que deseja concretizar. Tem sonhos que deseja sonhar por um bom tempo, antes de realizá-los, porque a jornada importa.

Porém, hoje ele vai morrer.

Passando pela rua tal, esquina com a rua outra, aquela senhora simpática, de cabelos cinzas e olhos grandes chama sua atenção. Ela remexe em sua bolsa, em cidade de violência escancarada. Ele abraça a gentileza que lhe é peculiar e avisa: cuidado, minha senhora, sua bolsa está em perigo. A senhora o açoita com um olhar desconfiado, mas não da boa vontade do homem. Desconfia que ele seja um mandado de seu filho, homem metido a dizer a ela como levar a vida, e que ela está muito velha para andar por aí, desacompanhada.

Durante uns bons minutos, e depois de explicar que ele nem mesmo conhecia o filho dela, a senhora discursou sobre como anda essa juventude. Onde já se viu tanto desapego? Não querem saber de cuidar de suas crianças ou de seus velhos, apenas viverem uma eterna busca pelo sucesso e pelo prazer. Como se também não cansássemos disso, né, meu filho?

Como hoje irá morrer, dedica-se a utilizar a força que lhe resta para apertar o número 1 de sua agenda de contatos. O telefone toca, toca, toca. Quando ela atende, ele sente alívio, apesar de a morte lhe fazer a corte.

Antes mesmo que ele diga algo, ela pergunta se ele pegou a roupa na lavanderia, comprou o queijo branco? Conta que sua melhor amiga, Anamarri, teve de sair correndo do trabalho para socorrer o irmão, que passou mal na escola. E que o Sr. Osório, do apartamento de cima, tem um total de sete netos, que ela contou. Uma criançada, amor... Uma criançada que ela adora observar, no desejo de que, dia desses, algumas crianças morem na casa deles. Já estão na lista de espera para adotar. E você?

A senhora se revela uma ótima contadora de histórias, e ele se sente bem escutando ela revelar acontecimentos trágicos de família, mas com um humor ácido que não imaginava que uma senhora de aparência tão requintada pudesse ter.

Aparência é uma porcaria, ao menos do jeito que a coisa anda nos dias de hoje. Ela faz com que percamos oportunidades de conhecer pessoas interessantes. Ele concorda, envergonhado por ele mesmo tê-la classificado pela aparência. Mas ela explica que não é preciso ser tão duro consigo mesmo, que a vida não corre em linha reta. E que ele ter dado a ela a oportunidade de se mostrar como é, não como ele pensou que ela fosse, é uma forma bonita de se driblar essa mania de tentarmos decifrar o outro sem ao menos se dar ao trabalho de conhecê-lo.

Foi uma boa conversa, com uma mulher interessante. Enquanto ela falava, lembrou-se de sua esposa, tão impetuosa e independente quanto essa senhora.

Ele a acompanha até em casa, alguns quarteirões dali. A senhora agradece a gentileza, e obrigada por não ter se aproveitado da minha frágil bolsa. Sorri e entra, ele toma o caminho de casa. Tem de passar na lavanderia e comprar queijo. Também pensa em adquirir uma boa garrafa de vinho. Hoje eles saberão se estão aptos a adotar o João, menino que conheceram há alguns meses e têm visitado. Apaixonaram-se pelo moleque e o querem em suas vidas. Tem certeza de que é recíproco.

Não tem razão para não desejar a vida. Há tanto a ser feito, recebido e doado, mudado, descoberto. Há tanta vida para ele viver. Ainda assim, hoje ele vai morrer. Não foi vidente que lhe disse, frio na espinha que o avisou.

Tá aí, marido? Alô!

Estava de volta àquela rua tal, esquina com rua outra, esperando semáforo lhe dar permissão para seguir. Ao seu lado, tantas pessoas. Sorri ao se lembrar daquela senhora. Talvez por isso tenha demorado um pouco para entender o que ela, a jovem ao seu lado, disse. Como? Ela repete e ele não se sente bem, os pensamentos sobre a senhora se confundindo com a visão daquela desconhecida de olhar gélido, que se aproxima dele, coloca o braço ao redor do seu pescoço e cochicha: hora errada. Lugar errado.

Não imaginou que morreria assim. Que cairia na rua tal, esquina com rua outra, onde, meia hora antes, conhecera alguém que valia a pena se conhecer, ainda que fosse por tão pouco tempo. A moça foi embora tão misteriosamente quanto apareceu. As pessoas ao redor dele se desesperaram. Já havia quem diagnosticasse: Jesus, Maria e José! É morto!

Enquanto fecha os olhos pela última vez, pensa em Anamarri e deseja que seu irmão esteja bem, que não passe de um mal-estar. Também se lembra que não deixou a lavanderia paga, e que o queijo branco seria para o primeiro café da manhã de seu filho, já em casa, porque não quis dividir com a esposa, mas sentiu que sim, o menino se tornaria filho deles.

Há algo sobre a morte que ele finalmente compreende como protagonista do momento: ela chega quando bem entende, não quer saber se você está feliz ou triste, se conheceu alguém que vale a pena ou se desapontou, nem mesmo se João perderá o pai antes de tê-lo. Ela age como aquela que passa e surrupia a bolsa de senhoras paradas em esquinas. Como aquela, que não se sabe quem, nem mesmo o motivo, mas passa por você e lhe rouba a oportunidade que é a vida.

Hoje, ele morreu.

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terça-feira, 2 de agosto de 2016

O FORMATO DA PECINHA >> Clara Braga

Às vezes o mundo vai dando voltas e as coisas parecem que vão se desencaixando. Cada volta uma pecinha sai do lugar. Mais uma voltinha e você se surpreende com uma notícia que nunca imaginou que teria que ler. Outra volta e a coisa começa a ficar pessoal. Mais uma volta e você pensa: ok, o universo só pode estar tentando me falar algo, mas sou péssima com entrelinhas! Aí outra volta aparece e você fala: tô de altas. Mas na verdade você queria mesmo era dizer: a bola é minha e eu digo que a brincadeira acabou! Aí tem aquela volta final que não dá mais, você pede pra sair, apelou, perdeu!

Esse é aquele momento na vida em que você já está desesperado, acha que tudo dá certo pra todo mundo, menos pra você. Você se esforça do mesmo jeito que sempre se esforçou, mas as coisas insistem em não acontecer. A sensação é a de que a cada volta do mundo você também gira, mas em torno de si mesma e fica no mesmo lugar.

O universo podia mandar um bilhete escrito: "presta atenção, tô te forçando a sair da sua zona de conforto, você jura que aí tá bom, mas não é assim, existem outras coisas para serem vividas por ai, SE MEXE!" Mas não, ele insiste nas entrelinhas...

Aí um dia você sai e encontra aquela pessoa que você adora mas já não encontra tem tempo e percebe que o papo flui naturalmente, que a amizade de vocês ainda é a mesma e que vocês ainda estão no mesmo lugar, é só ir e se encontrar. Ou então vai ouvir aquela música que você adora sem nem saber o motivo e finalmente entende a mensagem. Liga o rádio naquele horário que você costumava ouvir e o mesmo programa continua tocando aquelas músicas que te fazem aumentar o volume e cantar junto, e você esquece até por que parou de ouvir rádio. Você se permite descobrir que aquela pessoa tem mais afinidades com você do que você jamais imaginaria. Vai provar uma comida nova e se pergunta por que ficou tanto tempo sem comer aquilo ou volta naquele lugar que você adorava ir e não entende por que ficou tanto tempo sem ir.

Esse é o momento em que a ficha cai e o universo diz: FINALMENTE! O essencial ficou ali o tempo todo e, quando o mundo gira, só as peças fora do lugar se desencaixam. Às vezes parece o apocalipse, o fim dos tempos, não sei, mas de alguma forma muito doida tenho tido a impressão de que tudo há de se encaixar, mas agora da forma certa e não forçando a pecinha no lugar errado.

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