sábado, 27 de agosto de 2016

CRÔNICA PARA UM GAÚCHO >> Sergio Geia



Estávamos instalados numa sala do anexo oito da Universidade do Vale do Paraíba; ele chegou de terno e gravata, e convidou para que nos apresentássemos. Porém, não era uma simples apresentação; ele queria mais; ele queria que cada um dissesse também uma coisa que apreciava fazer nas horas de folga.

Se bem me conheces, honrado leitor, deves saber que as horas de folga do Geia são destinadas à construção de valiosos edifícios de palavras (valiosos pelo menos para seu construtor), que unidos se transformam numa espécie de vilarejo da conversa fiada, desinteressada, a típica conversa mole, talhada num método que um certo Drummond, das Minas Gerais, batizou de assunto-puxa-assunto, e que comumente os especialistas chamam de crônica.

Quem dera me chegue o dia em que preciosas horas de folga sejam destinadas ao humilde banho de mar, a uma boa entente com pecados, pescados, e outros derivativos, ao deitar a preguiça na rede, aos amores eternos e aos casuais, destinando-se as dignas horas de labor à edificação de novas vilas, cidades ou metrópoles das letras, que, se merecerem o afeto e a estima de pessoas respeitosas e interessadas como o senhor, estampem um dia qualquer página de jornal.

Pois o Geia não titubeou informando ao interessado professor, como também aos colegas, o destino que dava às suas horas de folga; a informação, que esperava ser chancelada e devolvida sem rodeios, para se juntar às demais na cesta de prazeres que o passar dos segundos só fazia avolumar, recebeu do mestre gaúcho comentários espirituosos e, de chofre, o lançamento de um inesperado desafio: “Bah! Então tu fazes uma crônica desse nosso encontro aqui?”.

De antemão já lhe digo que a dificuldade seria enorme. Era um seminário de interesse estritamente institucional; trazia como mote a proposição estampada no título que encabeçava a programação: “GESTÃO PARTICIPATIVA: construindo novos cenários”. Tratava-se de um encontro mui produtivo e consistente a gerar sólidos e bons frutos no espaço da instituição, mas nunca capaz de gerar uma boa e despretensiosa crônica.

Normalmente, as crônicas, pelo menos as minhas (Ah!, e também as do velho Urso), se enamoram de coisas miúdas, de pouca valia no mundo das vaidades; lembro-me da tartaruga marinha que morreu em minhas mãos num mar da Bahia, ou da pequena tartaruga que tenho aqui em casa e me alegra os dias, do desconhecido e sua bicicleta, da pitangueira do vizinho, das crianças que jogam bola, da borboleta, do outono ou do mar; coisa barata, que ninguém nota, mas que a lupa do cronista mostra em detalhes. Como fazer algo sobre coisa tão grandiosa e rica como foi o encontro com o mestre gaúcho?

Está certo que os dias não se reservaram apenas às explanações teóricas e oficinas, mas também a almoços e jantares dignos, a deliciosos petiscos e refeições, a conversas esplêndidas, a músicas interpretadas por cantores de feliz talento e encantamento, mas tudo, tudo ainda se ativava no campo das grandes emoções, dos grandes momentos, dos afortunados e eloquentes encontros, escapando pela grandiosidade, da lupa fina para virar crônica.

Desanimado da vida, pronto para desistir, eis que no momento crepuscular, quando o céu tingia-se de violeta e lilás, e o vento morno prenunciava delícias de um atípico final de semana invernal, eis que um anjo Gabriel apareceu, e apareceu como uma possível tábua de salvação nas palavras firmes de seu tenaz avô: “Vô, é verdade que no seu tempo não existia iPod?”. “Não, Gabriel, não existia”. “Mas vô, e o que vocês faziam para dormir?”. “No tempo de seu avô nem televisão existia”. “E depois da janta, vô?”. “A família se reunia em torno de um rádio, ouviam-se notícias, a novela das oito e programas humorísticos”.

Pois enxerguei a carinha de espanto do Gabriel se perguntando “mas que raios de rádio é esse de que o vô tanto fala?”, e enxerguei também um pedaço de doçura bem típico das boas crônicas nascendo ali, um pedaço de céu azul se abrindo no sisudo tempo dos desafios.

Até que no fim, para encerrar, o grande mestre arrematou com a humildade dos grandes homens: “Espero que eu tenha passado aos senhores algo que realmente possa ser objeto de reflexão e transformação em suas unidades; se assim não o fiz, não foi por falta de boa vontade; podem acreditar, foi por absoluta incompetência minha, pois aqui, tenho consciência de que dei o meu melhor” (rogo para que a citação se avizinhe um tanto do real, uma vez que por absoluta incompetência —agora, deste cronista —, não a registrei num pedaço de papel).

Na noite morna, sob o manto da lua vívida, de estrelas e do Cruzeiro do Sul, voltei para casa com uma doce alegria, pensando que tudo, tudo nessa vida vale a pena quando a consciência ratifica que o melhor de nós foi entregue com muita boa vontade.

Ilustração: http://www.jovemsulnews.com.br


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5 comentários:

Anônimo disse...

Parabéns, prezado Geia, salientou pequenas falas de grande valia e que com certeza deram leveza ao nosso encontro. Grande abraço, Elaine

Carlos Alberto Lontra disse...

Meu caro Geia, sua belíssima crônica emocionou a mim e ao pequeno Gabriel. Jamais imaginara que nossa oficina pudesse dar margem a este desdobramento. Seguramente, isso deve à sensibilidade do cronista. Parabéns! Obrigado. Receba o fraternal abraço do Lontra.

sergio geia disse...

Grato, Elaine; Leveza... é isso. Muito obrigado, dr. Lontra. Foi um prazer estar com o senhor e nossos amigos; foram horas leves e mui produtivas. Abraços a todos e ao Gabriel.

Zoraya disse...

Nem sei mais o q dizer. Acho q vou lançar pequenos e delicados desafios para vc transformá-los em suas crônicas, só pra ver - e me deliciar - com o q vai sair. A coisa está mais ou menos assim: vc pega o fato (um sapo, um sapinho despretensioso mas nao exatamente feio em sua 'sapice'), mexe aqui, pensa ali, e seu olhar o beija... vupt! o q poderia ser esquecível e insignificante se transforma em príncipe (uma crônica pra lá de maravilhosa, uma principesca crônica).

sergio geia disse...

Poxa, Zoraya, essa vou guardar com carinho; obrigado mesmo.