terça-feira, 2 de agosto de 2016

O FORMATO DA PECINHA >> Clara Braga

Às vezes o mundo vai dando voltas e as coisas parecem que vão se desencaixando. Cada volta uma pecinha sai do lugar. Mais uma voltinha e você se surpreende com uma notícia que nunca imaginou que teria que ler. Outra volta e a coisa começa a ficar pessoal. Mais uma volta e você pensa: ok, o universo só pode estar tentando me falar algo, mas sou péssima com entrelinhas! Aí outra volta aparece e você fala: tô de altas. Mas na verdade você queria mesmo era dizer: a bola é minha e eu digo que a brincadeira acabou! Aí tem aquela volta final que não dá mais, você pede pra sair, apelou, perdeu!

Esse é aquele momento na vida em que você já está desesperado, acha que tudo dá certo pra todo mundo, menos pra você. Você se esforça do mesmo jeito que sempre se esforçou, mas as coisas insistem em não acontecer. A sensação é a de que a cada volta do mundo você também gira, mas em torno de si mesma e fica no mesmo lugar.

O universo podia mandar um bilhete escrito: "presta atenção, tô te forçando a sair da sua zona de conforto, você jura que aí tá bom, mas não é assim, existem outras coisas para serem vividas por ai, SE MEXE!" Mas não, ele insiste nas entrelinhas...

Aí um dia você sai e encontra aquela pessoa que você adora mas já não encontra tem tempo e percebe que o papo flui naturalmente, que a amizade de vocês ainda é a mesma e que vocês ainda estão no mesmo lugar, é só ir e se encontrar. Ou então vai ouvir aquela música que você adora sem nem saber o motivo e finalmente entende a mensagem. Liga o rádio naquele horário que você costumava ouvir e o mesmo programa continua tocando aquelas músicas que te fazem aumentar o volume e cantar junto, e você esquece até por que parou de ouvir rádio. Você se permite descobrir que aquela pessoa tem mais afinidades com você do que você jamais imaginaria. Vai provar uma comida nova e se pergunta por que ficou tanto tempo sem comer aquilo ou volta naquele lugar que você adorava ir e não entende por que ficou tanto tempo sem ir.

Esse é o momento em que a ficha cai e o universo diz: FINALMENTE! O essencial ficou ali o tempo todo e, quando o mundo gira, só as peças fora do lugar se desencaixam. Às vezes parece o apocalipse, o fim dos tempos, não sei, mas de alguma forma muito doida tenho tido a impressão de que tudo há de se encaixar, mas agora da forma certa e não forçando a pecinha no lugar errado.

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que lindeza de crônica, Clara!
O assunto, o ritmo, as palavras... tudo se encaixando. :)

Rafael Vespasiano disse...

Parabéns pelo texto! Flui naturalmente e emociona sem ser piegas. Abraços