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SILENCIA >> Carla Dias >>


Na minha cabeça de escritora em processo de endoidecimento – de acordo com um velho amigo e um artigo de jornal de mil novecentos e sabe-se lá quando -, a busca é pelo sossego. Não me entendam mal, porque eu adoro um bom caos criativo. Porém, assim como quem aprecia a solidão, quero ter a opção de sair dele quando o tal me tirar do prumo.

O que percebo é o que sente aquele personagem de livro que ainda não foi escrito, que eu visto em uma tentativa tola de fazer de conta que ele é quem sente o meu sentir: aprisionamento. Mesmo em casa, na hora daquele café de antes de começar a escrever, ou de ir logo para a cama, que o sono chegou, é um aprisionamento que me toma. Não há grades, mas ele está lá.

Aprisionamento, desses que faz com que nossas cabeças fiquem quentes, de tanto pensamento borbulhando; que entorna o caldo do nosso humor, transformando-nos em impacientes à beira de um ataque de nervos. De quando recebemos tantas notícias ruins, para nós e para outros tantos, que as boas passam por nós sem causar impacto. O que é uma pena, não é? Tão mais raras são as boas notícias. Vê-las sendo desprezadas, porque nos sentimos impotentes diante do que acontece ao mundo, é lamentável.

Mas esse sossego que eu busco não é dos que nos mantêm estáticos. É um sossego para pensar melhor a respeito dos incômodos, pensar no porquê eles realmente me incomodam. Só que me sinto assim, como se alguém gritasse em meus ouvidos, bem alto e o tempo todo. E nem adianta recomendar chá de camomila. Já tentei. Nada.

Talvez, mais do que sossego, eu busque pelo silêncio. Silêncio me faz pensar em milagre. Sabe quando seu espírito não quer se envergar, mas a pressão é tanta, e você se esforça muito para não perder aquela rala, porém tão significativa esperança de que os berros nos seus ouvidos se tornarão canções do seu agrado?

Silêncio.

Durante a vida, adquirimos técnicas próprias para alcançar sossego. Cada um tem seu jeito, a dosagem que melhor lhe atende. Há quem prefira ser simples e direto, então desliga o aparelho auditivo e se apega a um bom livro. Há também quem recorra aos barbitúricos, aos mantras, às longas conversas com animais de estimação. Há os que escolhem lavar o carro, lavar a louça, lavar o corpo, lavar a alma.

Então, o que fazer quando a técnica adquirida para silenciar até atingir o sossego não funciona?

Todos dizendo tudo ao mesmo tempo, e aos berros, remetem às as brigas domésticas. Não há nada de justo ali, tampouco algo capaz de inspirar parcimônia. É uma explosão de afirmativas contundentes, cultivadas em uma mistura incoerente de fatos e achismos, vociferadas para ferir o outro. Não tem a ver com razão, com o certo e o errado, com o justo. Tem a ver com a incapacidade de se parar o trem descarrilado que é a necessidade de se provar melhor do que o outro. E, acreditem, quando chega à tal ponto, perceber o melhor em si já se torna tarefa atravancada pelas complicações.

Esse aprisionamento há de me deixar sair, dia desses, para dar uma volta e respirar um tempo de sossego. Ele que é uma agonia vigilante, um enredador perspicaz de suas vítimas, que não abandona fácil as ciladas que cria. Mas ele há de permitir que também você saia para um bom passeio, eventualmente. Talvez nos encontremos no meio do silêncio, já um tanto analfabetos sobre as crenças um do outro. E os nossos olhares se cruzem como se fosse nosso encontro, o primeiro. E digamos nada, não antes de aceitarmos que esse silêncio, esse sossego provisório, ele durará apenas um instante esquecível se não consideramos a hipótese de não berrarmos nossas vontades e desejos um ao outro e aos outros. Assim, quem sabe, nasça um bom diálogo.

Sabe Deus o que pode acontecer se começarmos a dialogar, não é mesmo?

Imagem © Jander Minesso

carladias.com

Comentários

Zoraya disse…
Tomara q vc atinja seu sossego logo, Carla. Há de sair escandalosos, descabelados, risonhos e profundos diálogos!
michelle araujo disse…
E aquele silêncio profundo antes do diálogo? Tem também o silêncio depois do diálogo que pode levar ao sossego ou trazer o silêncio inquietante. De qualquer forma, dialogar parece ser a melhor opção.
michelle araujo disse…
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
michelle araujo disse…
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Alexandre Lobão disse…
Oi Carla,
Belo texto! A paz e o diálogo consigo mesmo começam, muitas vezes, quanto expomos nossos sentimentos à brancura do papel ou tela.
Abração!
Carla Dias disse…
Obrigada, Zoraya! A gente se encontra lá no sossego. ;) Beijo.

Oi, Michelle. Dialogar é essencial. Silêncio é essencial.Só temos de aprender a deixar cada um no lugar onde eles operem seus pequenos e importantes milagres. Beijo!

Oi, Alexandre. Obrigada pela leitura. E sim, preencher papel ou tela com palavras é uma ótima forma de expor sentimentos e dialogar com nossas questões. Grande abraço!

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