sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A SOLIDÃO DO PIANISTA >> Zoraya Cesar

confeitaria era daquelas bem antigas, históricas, que conseguiram sobreviver à absurda especulação imobiliária que flagelara a cidade nos últimos anos. 

Era bonita mesmo, quase rococó. Nas paredes, espelhos de cristal bisotado emoldurados em pesadas estruturas de madeira trabalhada. No chão, mármore verde com laivos negros, numa composição elegante e discreta. De mármore também eram as tampas das mesas, de pedra gris, apoiadas em vigorosos pés de ferro. As cadeiras, de palha trançada francesa, eram de madeira escura. Luminárias do século XIX realçavam o aspecto tradicional do lugar, sem, no entanto, deixá-lo pesado.

Ao contrário, era bem alegre o ambiente. As mesas estavam todas ocupadas e havia uma pequena fila na porta. Grupos de velhas senhoras bem vestidas gargalhavam impudicamente das desditas alheias entre largos goles de cerveja ou vinho. Homens de aparência respeitável tomavam café e conversavam em voz baixa, como se trocando graves segredos de Estado. Os raros casais de idade avançada permaneciam calados, olhando para o prato, para os lados, para o teto, comendo naquele silêncio de quem sabe não haver mais nada a dizer. Grupos de jovens buliçosos mastigavam, falavam, tiravam selfies e digitavam selvagemente nos celulares tudo ao mesmo tempo agora. 

Diversos estrangeiros fotografavam minuciosamente em volta, encantados com a arquitetura e  a decoração da confeitaria, recomendada como imperdível nos guias turísticos. Comportavam-se, todos, de maneira semelhante: roupas desportivas, vozes miúdas, dicionários bilíngues. Pediam os pratos tradicionais e falavam com os garçons olhando-os nos olhos. Pareciam crianças de escola vigiadas por um rigoroso inspetor. Mas divertiam-se.

Havia risos, conversas, bebida e movimentação constante. Os garçons eram bem humorados, a comida era boa; o ambiente, bonito. Tudo perfeito.

E havia o pianista.

Um Pleyel do séc. XIX
Sim, havia um pianista, tocando em um Pleyel que pertencia à confeitaria desde sua inauguração, em 1890. Para o público, no entanto, poderia ser um teclado de brinquedo, que não faria diferença. Quase totalmente despercebido em meio à balburdia e à bateção de pratos e talheres, o pianista tocava ininterruptamente, tão imerso em sua arte que era como se ele o e piano fossem um só. Um só personagem estabelecido no fundo do salão, um enorme piano negro e seu pianista esmirrado e pálido. Ninguém olhava para eles.

Uma ou outra pessoa, em raro momento, percebia o som da música e deixava-se levar pelos acordes perfeitos. Sensações como transcendência, encantamento, doçura, beleza infinita tocavam em seu íntimo e... logo, cedo demais, o ouvinte era chamado à realidade por um amigo, um garçom, um barulho agudo qualquer. E nem mesmo esse curto momento, mais breve que a vida de uma efêmera, fazia com que alguém prestasse atenção ao pianista.

Sua solidão era tão plangente que podia ser quase tocada. Talvez fosse isso mesmo o que ele teclava ao piano, sua solidão, seu abandono, sua invisibilidade. Mas o que pensava essa criatura, que sentimentos estavam despertos em seu coração? Havia de ser algo tão sublime quanto o som que suas mãos tiravam do instrumento. 

Ou não?

O que pensava, realmente, o pianista?

Na solidão insuportável da vida. Naquelas pessoas toscas e primitivas que não sabiam apreciar uma boa música tocada num legítimo Pleyel. Num legítimo Pleyel, por Deus do céu! Na solidão de todos os pianistas do mundo. Na pobreza de seu salário. Nas injustiças da vida. Na sua insignificância. Na sua aparência mesquinha e mofina. Na infidelidade da mulher. No quanto gostaria que sua casa fosse um lugar sossegado, onde ele pudesse praticar sua arte e escrever suas melodias. 

Casa. A mulher gritando a todo instante que ele não passava de um fracassado, batendo portas e panelas sempre que ele começava a tocar. Dizia que as músicas que ele compunha para apresentar na confeitaria eram ultrapassadas e enjoadas, ninguém compraria aquela porcaria. Que ele deveria tocar pagode em churrascaria. A mulher sempre ameaçando deixá-lo pelo amante, o jornaleiro - esse sim, tinha um emprego decente -, sempre ameaçando mas nunca levado a cabo. Dizia que tinha pena dele, um moleirão sem atitude, que morreria de fome, caso deixado ao léu. 

O pianista suspirou, de repente, quase feliz. Um acorde mais bonito saiu das teclas, subiu pelo ar e explodiu, suave como uma bolha de sabão, em gotículas de paz. Paz era tudo o que ele precisava. E era o que ele, o corno manso, o palerma, o ridículo teria, finalmente, daquele dia em diante. 

Tudo o que encontraria ao chegar em casa seria o silêncio, a tranqüilidade e o corpo morto da esposa estrangulada que ele deixara deitado no sofá. 

E tocou mais lindamente do que jamais tocara. Mas, ainda assim, ninguém olhou para o pianista.


Solidão em notas musicais

Epica - Solitary Ground [PIano Synthesia]

Yellow notes are the vocal notes
http://www.mediafire.com/download/znanymw14w4n72h/epica_solitary_ground.mid
https://youtu.be/FtavRIiDZl0


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6 comentários:

Carla Dias disse...

Zoraya, Zoraya... Adoro quando você sai de um texto lindamente composto com melancolia e beleza e inclui algo assim, não apenas inusitado, mas um tanto quanto extremo. Adorei!

Anônimo disse...

O pianista tinha que virar assassino, Zoraya? pobrezinho... Mas seria pior se virasse pagodeiro rs

Anônimo disse...

Surpreendente. Não esperava esse final. Muito bom quando o autor dá uma virada no texto. Já estava me sentindo na Colombo.

Anônimo disse...

Bizarro, me pegou. Achei q o pianista é q estava morto e era seu fantasma tocando

Ana Luzia disse...

Por baixo da placidez das águas e das aparências, há sempre um turbilhão de de pensamentos impublicáveis e de sentimentos ensandecidos...

Eu sempre me pergunto, querida Zô, o que haverá por trás de tanta criatividade revelada ao fim dos contos, rsrsrs...

Cristiane disse...

Adorei! Me imaginei completamente no ambiente e, de repente, saí correndo do pianista nefasto!