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Mostrando postagens de Novembro, 2015

VOCÊ E O SONHO >> Eduardo Loureiro Jr.

No início, você está dentro do sonho. O sonho é a realidade para você. Tudo que existe é o sonho. Você não pensa no sonho, você nem sabe que está sonhando. Você vive por meio do sonho.

Depois, você acorda. Seu corpo ainda não se mexe, mas você acorda. Você percebe que esteve sonhando. Você não é mais aquele que vive no sonho, você é aquele outro que sabe que viveu no sonho. Mas você ainda está envolto pelo sonho. E você sente que o sonho era bom e deseja voltar a sonhar. Você mantém o corpo imóvel e tenta esquecer que é um sonhador. Você procura dormir novamente na esperança de voltar àquele mundo do qual já começou a sair. Você ainda pode ver o mundo do sonho, as pessoas que estão nele, a natureza, as cores, as texturas, os cheiros, embora todos eles comecem a subir devagarinho. Você tenta se manter sonhando, rememorando a história do sonho, aquela sequência meio ilógica de eventos que você acabou de viver. Não fazia muito sentido, mas era bom. Você consegue voltar ao sonho, mas a co…

7 QUEDAS >> Paulo Meireles Barguil

"Então, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: 'Senhor, quantas vezes deverei perdoar a meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?'.
 Jesus respondeu: 'Eu digo a você: 
Não até sete, mas até setenta vezes sete.'" Mateus 18, 21-22
Percorrer a Trilha das 7 Quedas em Mucugê, na Chapada Diamantina, só é possível quando tem pouca água, pois o leito é repleto de pedras de tamanhos diversos.
Por esse motivo, na abundância, o espetáculo proporcionado pela interação da dupla é contemplado apenas de cima.
Na carestia, as pedras, muitas outrora afogadas, assumem o estrelato, sendo a água singela coadjuvante, numa inversão de papéis.
Que bela metáfora da natureza sobre a vida!
Não me refiro somente à dinâmica dos ciclos aquíferos, mas à oportunidade de identificar alguns rochedos que, em momentos de fartura, são escondidos pelo movimento voluptuoso e frenético do líquido.
Enquanto aguardo as nuvens escuras, anunciantes de nova temporada, agradeço a oport…

ERA PRA SER. NÃO FOI >> Mariana Scherma

Você também deve se lembrar que, há nem 20 anos, as pessoas diziam que o Brasil era o país do futuro, que nossas crianças eram o futuro. Nossa biodiversidade, nossas riquezas naturais, a gente tinha potencial. O Brasil era tipo aquela criança prodígio do colégio. Ou aquela criança estrela de Hollywood que, assim que ficasse adulta, ganharia Oscar, Bafta, Globo de Ouro e cia. Ãham. Vai nessa.
O problema é que, para o nosso país chegar estrelando no futuro, as pessoas no comando, as empresas e tudo mais deveriam querer que assim fosse. Ao que tudo, indica esses governantes e demais fulanos do poder não o quiseram. Que futuro, o quê, eles devem ter pensado. Graças a eles, e à gente que votou neles (não estou me escondendo), nosso futuro virou fumaça. Muitas de nossas crianças mal são alfabetizadas. Nossa biodiversidade vai se esgotando pouco a pouco (obrigada, Samarco e suas parças).
Eu não vejo mais ideologia em partidos políticos ou, quando vejo, não acredito que eles vão conseguir go…

SOBRE SALAS DE ESTAR >> Carla Dias >>

Houve dias em que me lamentei por coisas que não fiz e pessoas que nunca encontrei, até por sentimentos que não saberia explicar se me perguntassem a respeito. Sentia dó de mim por reconhecer o sofrimento alheio com tanta intensidade. Sentia-me aviltada de tal forma, que parecia que jamais me recuperaria daquilo tudo.

Houve dias em gritei, exigindo que Deus me explicasse... Que tragédias eram aquelas que eu presenciava, como boa espectadora de televisão? Esmurrei minha parede em nome daqueles que sofriam as consequências do descaso e do abandono.

Senti dor, quase certa de que a minha se equiparava à dor do outro.

Levou tempo até que eu me reconhecesse nesse mundo e compreendesse a diferença que há entre viver e ser uma reles espectadora de tragédias, observando-as da sala de estar lá de casa.

Compreendi que colocar-se no lugar do outro não é sentir a dor dele e viver suas experiências. Sendo assim, não tenho o direito de me comportar como se fosse eu a ofendida pela indiferença, espan…

NOVAS REGRAS E SUAS POLÊMICAS >> Clara Braga

Hoje tomei conhecimento de uma nova regra que as escolas deverão seguir, o que me fez lembrar de uma entrevista que assisti com o Gregório Duvivier. Na ocasião, ele contava sobre sua vida escolar e como um dia decidiu concorrer para ser uma dessas figuras de representante da escola, não sei dizer exatamente qual o cargo. Bom, mas isso não importa, o interessante é que ele contou que uma de suas ofertas, durante a campanha, era adaptar o horário do intervalo para que todos tivessem a mesma chance de chegar à cantina. Então, quem estudava nos andares mais altos da escola, teria alguns minutos extras para descer as escadas e não ser prejudicado com a fila que o impedia de comprar o lanche mais gostoso.
Achei muito interessante a proposta, afinal a hora do lanche e a fila da cantina são mesmo uma das maiores preocupações dos alunos. Porém, talvez hoje essa não fosse uma boa pauta para uma campanha, afinal novas regras estão chegando.
Refrigerante? Nem pensar!
Também esqueçam todo e qualq…

NÃO >> Whisner Fraga

Eu não estava em Mariana. Nunca estive em Mariana.

Sou mineiro e nunca estive em Mariana. Isso talvez não se perdoe.

Eu não estava em Mariana quando a barragem sucumbiu, tanta lama colocaram para que ela segurasse. Falaram de um terremoto, como se fôssemos mais ingênuos do que realmente somos.

Eu não estava em Mariana quando um oceano de barro arrastou consigo casas, carros, árvores, ruas e vidas.

Eu não estava em Paris.

Eu não estava no Bataclan naquela noite absurda em que fuzis arrancaram deste mundo a esperança na humanidade.

Eu não era o homem que filmou, voyeur nefando, os fundos do clube, que gravou pessoas penduradas na janela, pessoas arrastando pessoas baleadas pelas ruas charmosas de Paris.

Eu não era o homem que filmou e narrou o horror.

Eu não estava no Bataclan quando a covardia ricocheteou nos corpos atônitos de cidadãos do mundo.

Eu não estava no hoten Radisson Blu, em Bamako.

Nunca fui ao Mali. Se brincar nem sabia que o Mali faz divisa com Senegal. Com a Mauritânia.

MESA DE BAR, SEXO DE AVIÃO... >> Sergio Geia

Estava no Fritz com o pessoal, quando o Pérsio veio com essa — uma notícia lida por ele recentemente no portal R7: num voo de uma companhia aérea norueguesa que ia de Paris, na França, para Estocolmo, na Suécia, um comissário de bordo anunciou em alto e bom som que um casal foi pego transando no banheiro, quando o avião pousou na Suécia. Havia o relato de um passageiro para o Daily News, de que o anúncio fora feito com o comissário dizendo o seguinte: “Nós gostaríamos de desejar boa sorte para uma reprodução feliz ao casal que se aventurou no banheiro mais cedo”. Alguns passageiros deram vivas, outros tentaram descobrir quem era o casal. “No fim das contas, a identidade do casal não foi relevada”, finalizou o Pérsio.

Amanda deu início aos trabalhos: “Fico imaginando os reacionários de plantão que tiveram que engolir seus moralismos idiotas, capitulados pela maioria que tratou a coisa como deve ser tratada. Leveza no concreto de chatices ainda existe, meus queridos!”.

Silvio, também um…

DE FADAS, FEITICEIRAS E ASSASSINATOS (Última parte) >> Zoraya Cesar

Parte I - De Fadas, Feiticeiras e Assassinatos
Parte II - De Fadas, Feiticeiras e Assassinatos

Vestida de branco, Maybelline tirou da mala um tambor ritual; um embrulho frouxamente amarrado por uma corda com sete nós; e uma vela. Acendeu-a, ajoelhou-se e rezou. Pediu para não esmorecer, apesar do medo; para não falhar, apesar dos erros; para cumprir a Missão, mesmo à custa de seu sacrifício, se preciso fosse. Agradeceu a honra de participar daquela Batalha e se levantou. 
Algumas Tradições Antigas dizem que, na noite de 31 de outubro, mortos e vivos podem mais facilmente passar de um mundo para outro. Aproveitando a intensa egrégora desse dia, Magos Negros experientes — e, também, amadores ignorantes, influenciados por filmes e leituras de baixa qualidade —, conjuram energias extremamente nefastas, povoando a Terra de seres que jamais deveriam ser lembrados, quiçá invocados. Para combater os efeitos deletérios dessas exortações, a cada Guardião do Bem era designada uma Missão específica,…

GAROTA, INTERROMPIDA - PARTE II - Analu Faria

Garota, Interrompida (Parte I)


Dois minutos se passaram e Carmela parecia não estar perto de seu objetivo.

— E se eu não me lembrar? — perguntou a velhinha, aflita com o fato de morrer sem ter completado uma última e simples missão.  — Porque, olha, já se passaram dois minutos e...

— Um minuto e cinqüenta e seis segundos.

— O narrador disse que já se passaram dois minutos.

— Ah, Carmela... você está prestes a morrer e ainda confia na precisão do narrador?

Carmela, desconcertada, esperou um pouco mais, antes de quebrar o silêncio.

— Eu não estou conseguindo me lembrar. Você vai me levar mesmo assim?

— Não, eu disse que te esperaria e vou esperar.

Mais alguns minutos se passaram, sem qualquer palavra do anjo ou da futura defunta. Carmela começava a se desesperar, mas já não sabia se era pelo esquecimento ou pela morte iminente. Não pensava em morrer agora, nem nos próximos meses, nem nos próximos anos. Pensou nos filhos que não teve e, por alguns segundos, arrependeu-se de não ter prole…

COMO VAI SER? >> Carla Dias >>

O pensamento deslocado, que não bate com as notícias dos telejornais e os interesses (dos) políticos. A roupa equivocada, nada trendy, nada suficientemente descolada. A palavra saindo da boca assim, para dizer o que, insistem por aí, ninguém quer escutar. Cabelo que desafia as leis dos bons modos (de quem?) e não se comporta decentemente, de acordo com o “modo de usar” dos cremes de relaxamento e chapinhas.

A pele que não orna com o desejo de alguns — que vociferam em volume máximo, até quando cochicham — de viver uma vida em um único tom, e, definitivamente, o escolhido por eles. As sucessivas condenações autorais, às vezes à mesa do bar ou do almoço de domingo, usadas para se fazer de conta que é possível mudar o rumo da prosa somente ao se posicionar veementemente sobre o assunto aos amigos e familiares, durante uma garrafa de cerveja ou uma taça de vinho, antes do cochilo de fim de tarde.

O conhecimento nascido para ser oferecido a uns e aos outros e a todos, mas que é compartimen…

POR DIAS MAIS LEVES >> Clara Braga

Anunciaram as novas datas da turnê! Vai ter Brasil na jogada, hei, preparem-se.
A notícia não podia ser melhor, vai ter Brasília! Quem diria? Eu vou, não quero nem saber! Não perco o show do Pearl Jam por nada, afinal, além de maravilhoso, vai ser super nostálgico, passei minha adolescência ouvindo. Só de pensar no show já sou automaticamente transportada para a época dos shows covers nos teatros de Brasília que sempre tinham uma banda de Pearl Jam, e também para as aulas de inglês que, semestre sim, semestre não, faziam a gente traduzir a música Last Kiss.
As vendas começaram, tenho que comprar logo, mas… é sério mesmo que vai ser na terça-feira? Acho melhor não comprar por agora não, vou esperar mais um pouco, vai que aparece algum imprevisto na escola. Ao mesmo tempo, esse é um daqueles shows que se você não for, vai se arrepender depois. Mas, na terça?
Comprei o ingresso, agora não tem mais reclamação! É na terça.
Será que vai encher? Encheu! E olha que é terça hein!
Poxa vida, d…

ANJO SE NÃO VINGA >> Albir José Inácio da Silva

Quando precisava, minha mãe costurava mortalhas. Eram camisolas brancas fechadas no pescoço. A morte de uma criança enchia a casa de silêncios. Foi assim com Miguelinho.
Na sala da vizinha, as mães sussurravam a eficiência dos seus cuidados para evitar a morte e eventual descuido no acontecido.
— Sarampo não recolhe à toa. É desmazelo! — disparava a mais exaltada, mas logo fazia cara compungida.
Todas as crianças adoeciam ao mesmo tempo. As mães as juntavam para que pegassem de uma vez a doença que acometesse algum menino da vizinhança. Assim ficavam livres.
O restabelecimento ficava por conta da dedicação e habilidade de cada mãe. Às vezes não dava certo. Ou, suspeitava eu, o pequeno recalcitrava no desmerecimento.
Uma olhada rápida no caixãozinho era todo o permitido, depois, para o quintal, sem gritos nem risadas.
Minha pouca teologia não respondia por que o anjo da guarda abandonou Miguelinho. Que será que ele fez? Malcriação?
— Foi doença também, meu filho! — explicava meu pai. O “també…

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA
E INTOLERÂNCIA À RELIGIÃO
Eduardo Loureiro Jr.

Começo dizendo que não tenho religião. De criação católica, tive um período religioso bem ativo entre os dezesseis e os dezoito anos — até pensei em ser padre, mas parei por ali. Dos trinta e cinco aos quarenta e três anos, fui sócio da União do Vegetal. Dois períodos muito bons em minha vida, cheios de descobertas interiores e exteriores, além de terem me dado amigos para todo o sempre. Desde 2013, estou sem religião, mas mantenho uma prática espiritual constante, devido a uma abordagem não religiosa chamada Pathwork. Feito esses esclarecimentos, vamos ao que interessa...

O clima de intolerância está no ar. A intolerância mais fácil de ser identificada é aquela de algumas pessoas religiosas em relação a outras religiões ou a certos grupos sociais (homossexuais e afins, principalmente). Essa é uma intolerância longuíssima, de milênios, afinal há muito existem guerras "santas" e "apedrejamentos" de pessoas desviantes da norma. É a tal da intolerância religiosa.

Uma …

SAUDADE DA FLORESTA,
ENCANTADOR ESCONDERIJO
>> Cristiana Moura

Ensaiava, ainda antes de abrir os olhos, um espreguiçar lento e desacelerado no amanhecer daquele domingo que seria diferente de todos os outros. Ao esticar o corpo para lá e para cá com gestos mansos e felinos, Gabriela camuflava a ansiedade pelo passeio por vir. Tomou seu café da manhã na padaria para que o dia lhe começasse com raios de cotidiano e segurança. Depositou sua ansiedade em um largo pedaço de bolo como se pudesse transformá-la açúcar adentro. Mas o que estava por vir lhe fugia ao que poderia imaginar tão apaixonada que se tornara pelo cotidiano que aprendera a tecer.

E o domingo diverso veio. E viveu. E o tempo passou em câmera lenta, enquanto passeava por entre os encantamentos da vida que, sem que ela pudesse ter domínio, naquele domingo, fugia ao que conhecia em seu dia a dia.

Foi aquele rapaz, amigo de uma amiga, que a levou secretamente ao seu esconderijo. A floresta era mágica. Enquanto caminhava, as raízes das plantas se misturavam aos seus pés e às suas própria…

ENTRE O PASSADO E O FUTURO >> Mariana Scherma

Era janeiro. Eu estava fazendo planos pra 2015 quando, passando pela rua, vi uma loja toda decorada para o Natal. Já era novembro, um mundo de coisas aconteceu e não senti o tempo voando assim. Sempre imaginei ser um sinal da idade chegando quando você junta a palavra tempo e o verbo voar na mesma frase. Minhas avós sempre diziam e eram minhas avós. Não quero aceitar que a idade está chegando — eu ainda uso saia com All Star, não posso ser velha. Então, vou ficar com a teoria de que o tempo passa rápido quando a gente vive muito. Uma adaptação simplória da Teoria da Relatividade.
Você pensa: ah, isso só vai acontecer em março. Tem tempo. Nem vou me preocupar agora. Aí você acorda e “oi, março”. Tá tudo correndo rápido demais. Ninguém nunca imaginou que o dia 21 de outubro de 2015 fosse chegar, o dia em que Marty McFly chegava ao futuro (desculpa aí se você nunca viuDe Volta Para OFuturo). Não existem carros voadores e os tênis ainda não se ajustam sozinhos. Mas ainda tem muita corrupçã…

CATIVEIRO >> Carla Dias >>

Olhos fechados. Quem sabe há quanto tempo? Ele não sabe dizer. Ela não tem ideia de quanto ou quando. Prostrados diante de quem? Há quantas horas, dias, vidas? Braços ao lado do corpo, estirados, apesar do desejo pelo movimento. Nunca sentiram tanta falta de serem autores de acenos. De sentir o vento bater na palma de suas mãos.

Ouvidos atentos. Escutam palavras de quem? Ele não precisa saber, porque qualquer palavra que não ofenda soa alento. Qualquer conversa que o alcance lembra a ele que há mundo lá fora. Ela é menos otimista, e lamenta não haver como não calar a felicidade alheia que lhe chega a cada vez que abrem a porta que os separa do mundo.

Ao acordarem, uníssono despertar, ele beija a fronte dela, inspirando-lhe um estrangeiro arrepio. Ela se amiúda para caber no abraço que ele não pode lhe dar. Trocam palavras desconexas, apenas para se lembrarem do som de algumas delas. Ele diz “bom dia”, a voz carregada de esperança de que essas palavras prefaciem a realidade. Ela rebat…

NEWTON SERÁ ESQUECIDO >> Whisner Fraga

Não conheci nenhum bisavô meu. Puxo o assunto com meu pai e ele desconversa. Com minha mãe nem dá para tentar, pois ela perdeu o pai quando era criança e nem chegou a conhecer o avô. Meu bisavô, avô de meu pai, deve ter vivido no início do século XX, 1910, por aquela época. Quem sabe nasceu no final do século XIX? É o que imagino, já que não tenho maiores informações. O mesmo nada eu poderia contar do avô de minha mãe. E mesmo da avó de minha mãe ou da avó de meu pai. Estamos falando aí então de cento e poucos anos de lapso temporal.

Em pouco mais de cem anos, portanto, meu bisavô conseguiu praticamente ser esquecido. É certo que nos lembramos daqueles homens que foram importantes para a humanidade, de uma forma ou de outra, mas ainda assim, recordamo-nos deles de uma maneira superficial e quase aleatória. Isaac Newton, por exemplo, lá do distante século XVII. Quem foi? Acho que, de supetão, muita gente vai derrapar na resposta. Quem foi? Uma celebridade. Lagrange, lá do século XVIII,…

AMOR ROMÂNTICO >> Sergio Geia

O papo rolava solto quando ele, instigado por alguma coisa — talvez algo que ela tenha falado, perguntou:

“Quer dizer então que você não se acha romântica?”

“Ah, não sei. Me incomoda um pouco o rótulo de romântica que envolve a mulher. Eu sou uma pessoa afetiva. Gosto da estética romântica: roupas, móveis, lugares. Mas não sou ligada, por exemplo, a detalhes; não gosto de surpresas, não idealizo, não crio expectativas, não fantasio... Coisas do gênero. Será que dá pra entender?”

“Interessante. Dá sim.”

“Sabe que esses dias um amigo de infância me perguntou exatamente isso? Você não tem nenhum sonho romântico? Eu acho que não..., respondi. Não me veio nada na cabeça.”

“Cada um é cada um, mas acho que o seu modo de pensar é bem singular, imune às interferências do mundo.”

“Como assim? Que tipo de interferências?”

“Lá vamos nós divagar outra vez...”

“E sem vinho. Tenha dó! Você tá acabando com a minha reputação! Como vou dizer que preciso de um vinho pra divagar se tô fazendo isso a sec…

DE FADAS, FEITICEIRAS E ASSASSINATOS – PARTE II >> Zoraya Cesar

Clique aqui para ler a 1ª parte
Foi difícil encontrar a loja. Maybelline Oceahn não conhecia Paris o suficiente para andar rápida e confiantemente. E a Le Gnome Grognon* ficava nos fundos de um beco, discreta e escondida – fato deveras incomum em se tratando de Fadas, sempre tão esfuziantes, brilhantes, ‘tilintantes’... 
‘Fome’, roncou seu estômago. Só maçã não vai me sustentar, decidiu. Comprou dois croissants e uma pequena garrafa de vinho, estava na França, oras, às favas com o regime. Comeu e bebeu vorazmente. Agora sim, hidratada e alimentada, estava pronta para encontrar a Fada Branca – que nada tinha de ‘boazinha’. Ao contrário. Talvez por viver há tantos anos entre franceses, Sleigh Beggey assimilara algumas características deste povo. A impaciência com estrangeiros sendo uma delas.
O portão verde, de madeira, dava acesso a um pequeno caminho de tijolos, ladeado por arbustos e flores. Ao final, uma porta de cor lilás, guardada por um gnomo de pedra, cuja feição emburrada dava nom…

GAROTA, INTERROMPIDA >> Analu Faria

Carmela foi ao quarto pegar alguma coisa. Nem eu nem você saberemos o que é, leitor. Porque Carmela também não sabe. Esqueceu-se do que precisava, no meio do caminho. Aliás, quase na porta do quarto. Entrou mesmo assim. "Vai que eu me lembro." Não se lembrava. Sentou-se na cama e ficou lá uns instantes. "Meu Deus, por que é que a gente fica velha?" Voltou à sala, onde havia iniciado o trajeto. Isso sempre funcionava com a prima Luíza. A parenta era da idade de Carmela, 87 anos, e tinha esses brancos também. Aí era só voltar ao começo do caminho e pronto, lembrava-se de tudo.

Carmela ficou parada no meio da sala espaçosa. Olhou os poucos móveis — será que a resposta estaria ali? Viu que havia deixado a xícara de chá sobre a mesa de leitura, que ficava do lado do sofá. "É por isso que eu não gosto de mesa, a gente acaba colocando tudo ali e não guarda." Lembrou-se da briga que teve com o falecido marido, quando primeiro decoraram a casa, há quarenta anos. A…

PAUSAS >> Carla Dias >>

Quando os dias ficam mais insanos do que o usual, e a cartela de analgésico é esvaziada sem percebermos, o corpo deseja um descanso que você não pode dar. Quando assim, nesse estado de estresse ao cubo, se não nos rendemos à exaustão, observamos a vida de outra perspectiva.

Assim como faço agora...

Escrever, ainda que sobre situações escabrosas, me acalma como nenhum calmante conseguiu, ao menos até hoje. É comum eu rabiscar algo em momentos em que a casa está realmente caindo. Cinco minutos depois, volto mais tranquila, pronta para reconstruí-la.

Agora, por exemplo, escrevendo a crônica da semana, eu apazíguo um pouco. Não é descaso com o que tem de ser feito, mas sim bálsamo necessário. O que tem de ser feito o será, mas precisei dar um passo para trás para observar a situação e aquietar o coração.

Pobre coitado... Açoitado constantemente por taquicardia.

Não vou colocar a culpa dessa necessidade de repensar as loucuras adquiridas, em nome de um trabalho concluído com esmero, na co…

É TUDO CULPA DA LUA >> Clara Braga

Relacionamentos são difíceis. Natural que seja assim — tanto pra você quanto pra mim — desculpem, mas não resisti à interferência. Bom, voltando ao assunto, as pessoas são diferentes, foram criadas de formas diferentes, passaram por diferentes situações na vida e quando começam a se relacionar, toda essa diferença de uma vida pode acabar entrando em conflito.
É claro que se tudo está entrando em conflito é porque algo está errado, afinal, se você escolheu se relacionar com aquela pessoa vocês devem ter algo em comum. Agora, se você gosta do quarto sempre arrumado enquanto ele prefere não arrumar a cama no fim de semana, você prefere assistir o show pela tv, ele prefere ao vivo. Sua comida predileta é lasanha, a dele é guacamole. Ele quer saltar de paraquedas, você morre de medo de altura. Você prefere cozinhar, já ele gosta de conhecer novos restaurantes. Você prefere um exercício ao ar livre, ele academia. Você adora comprar CD’s para ler o encarte, ele acha besteira, muito mais fác…

Ó RAIOS! (Final) >> Albir José Inácio da Silva

Leia a Primeira Parte.

Leia a Segunda Parte.

Mas durante todo o dia encheram-lhe o saco perguntando por flores. Não se lembrava dessa procura toda. E a coisa piorou no final do dia, com as caçadoras de brindes florais. Mesmo quando não vinha nem mandava flores, a velha dava trabalho.
Às quatro da matina, como sempre, Seu Manuel arrastou seu jumento pela estrada para buscar frutas, verduras, secos e molhados. Pouca coisa, porque não vendia quase nada mesmo. Mas nesse dia trouxe lá umas flores, a ver se diminuía o aborrecimento causado pelo súbito interesse por lírios e rosas.
No dia seguinte teve de voltar ao mercado, não por causa das mercadorias, mas por causa das flores que acabaram logo, não atenderam às vendas e, menos ainda, à gratuidade. Para aumentar seu agastamento, Pício perguntou:
— Será que Dona Rosa tem o que comer?
A devoção a Santa Rita foi a única explicação que Seu Manuel encontrou para seu comportamento. Nunca se imaginou fazendo isso, mas ao final do dia mandou lá u…