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COMO VAI SER? >> Carla Dias >>

O pensamento deslocado, que não bate com as notícias dos telejornais e os interesses (dos) políticos. A roupa equivocada, nada trendy, nada suficientemente descolada. A palavra saindo da boca assim, para dizer o que, insistem por aí, ninguém quer escutar. Cabelo que desafia as leis dos bons modos (de quem?) e não se comporta decentemente, de acordo com o “modo de usar” dos cremes de relaxamento e chapinhas.

A pele que não orna com o desejo de alguns — que vociferam em volume máximo, até quando cochicham — de viver uma vida em um único tom, e, definitivamente, o escolhido por eles. As sucessivas condenações autorais, às vezes à mesa do bar ou do almoço de domingo, usadas para se fazer de conta que é possível mudar o rumo da prosa somente ao se posicionar veementemente sobre o assunto aos amigos e familiares, durante uma garrafa de cerveja ou uma taça de vinho, antes do cochilo de fim de tarde.

O conhecimento nascido para ser oferecido a uns e aos outros e a todos, mas que é compartimentado, de acordo com os interesses dos que prezam pela ignorância popular e pelos seus bolsos muito bem servidos. Palavras que antagonizam aquela... Sabe qual? Meritocracia. Palavras que desafiam o mantra de que todos têm as mesmas oportunidades para alcançar os mesmos patamares.

Eu, definitivamente, aprecio tais palavras.

A agressividade que estampa as conversas que deveriam esclarecer e unir pessoas em busca de um mesmo propósito, do benefício mútuo. A mesma que protagoniza desfechos inimagináveis e escolhe quem e quando, para o bem ou para o mal.

Há muitas maneiras de colaborarmos uns com os outros e também com o mundo, que não existe somente lá fora, atrás das nossas portas, das nossas senhas, dos nossos seguranças, dos nossos alarmes. Lá fora apenas parece distante.

Essa é uma crônica óbvia, uma citação do que devemos repensar e até mesmo eliminar das nossas vidas. Porque pensamentos que não cabem no definido para beneficiar poucos são bem-vindos. Eles podem muito bem mostrar caminhos capazes de se transformarem em soluções para questões que, neste momento, parecem inalcançáveis. As diferenças são reflexos da origem, da cultura e da personalidade das pessoas, e enriquecem a existência do ser humano... Quando o ser humano se permite tal enriquecimento.

Um olhar mais gentil sobre nosso mundo colecionador de tragédias se faz necessário. Porque não é o fim dele. Porque depois de ver tanta gente oferecendo o melhor de si para que pequenos milagres aconteçam, inclusive entre os que sofrem em consequência do descaso do outro, não há como concordar que não há mais nada no mundo que valha a pena.

Os estudantes nas escolas — aquelas que não conseguirão fechar — não merecem o fim do mundo. Aqueles das casas de show, ruas, estádios, também não. Os rios não merecem ser tragados pela lama em decorrência da incompetência e ganância de uns e outros. Não merecem fim.

Você também não.

Um olhar mais gentil — ou ao menos honesto — sobre o outro anda pra lá de necessário. Eu sei que é mais fácil dizer que tudo vai piorar, de tão cansados que estamos da violência que nos cerca. Mas há pessoas fazendo o contrário do que fazem os autores das violências que acompanhamos. Há pessoas pensando, vivendo e criando meios para que possamos, eventualmente, perceber ser possível o inimaginável. Assim, futuramente poderemos parar de corrigir nossos erros — como propõe o holandês Boyan Slat, 21 anos, com seu projeto para livrar o oceano do lixo, do plástico — para vivermos nossos acertos.

Um pouco de inspiração:

Apresentação de 2012, é possível ativar a legenda em português.




Apresentação de 2014, legenda disponível somente em inglês.



Então, como vai ser?

carladias.com

Comentários

Então, Carla...
Vem ser música:
https://soundcloud.com/edoardopatio/eduardo-loureiro-jr-carla-dias-como-vai-ser
:)
albir silva disse…
"Essa é uma crônica óbvia", Carla, você diz. E como precisamos dessa obviedade!
Carla Dias disse…
Eduardo... Adorei a música. <3

Albir... O óbvio, às vezes, é tão complicado de ser enxergado, não?

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