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NEWTON SERÁ ESQUECIDO >> Whisner Fraga

Não conheci nenhum bisavô meu. Puxo o assunto com meu pai e ele desconversa. Com minha mãe nem dá para tentar, pois ela perdeu o pai quando era criança e nem chegou a conhecer o avô. Meu bisavô, avô de meu pai, deve ter vivido no início do século XX, 1910, por aquela época. Quem sabe nasceu no final do século XIX? É o que imagino, já que não tenho maiores informações. O mesmo nada eu poderia contar do avô de minha mãe. E mesmo da avó de minha mãe ou da avó de meu pai. Estamos falando aí então de cento e poucos anos de lapso temporal.

Em pouco mais de cem anos, portanto, meu bisavô conseguiu praticamente ser esquecido. É certo que nos lembramos daqueles homens que foram importantes para a humanidade, de uma forma ou de outra, mas ainda assim, recordamo-nos deles de uma maneira superficial e quase aleatória. Isaac Newton, por exemplo, lá do distante século XVII. Quem foi? Acho que, de supetão, muita gente vai derrapar na resposta. Quem foi? Uma celebridade. Lagrange, lá do século XVIII, é ainda menos conhecido. Vou parar por aqui, no ramo da física, tão castigado hoje em dia em nosso país.

Mas sobre meu bisavô não consigo muito. Não quero, é certo, levantar uma árvore genealógica, para tentar descobrir, assim, de maneira fria, matemática, quem foi esse parente já tão distante. Assim, creio até que Newton teve muito mais importância em minha vida do que um bisavô que não conheci. Apesar de que, convenhamos, sem este bisavô eu não estaria aqui, o que, também, de todo modo, não teria importância nenhuma.

Eis que chego, talvez oitenta ou setenta anos após a morte de meu bisavô, ao posto Graal 56, da rodovia Bandeirantes. Um posto chique, metido. Gosto de parar lá para descer a lenha em seus donos, que deixam dezenas de peixes se acotovelarem em poucos metros quadrados. Dá dó. Tudo ali é empolado e sem utilidade. Vou ao banheiro e espero um grandalhão Hells Angels pegar as toalhas de papel para enxugar as mãos. Uma, duas, três, quatro. Seis ou sete pessoas ao meu lado e atrás de mim encaram o sujeito. Em frente a ele, uma placa afirma que duas toalhas são suficientes para executar com eficiência a tarefa. As pessoas se enervam com facilidade e, por isso, resolvo secar as mãos na calça mesmo. E saio dali, apressado. Tento ver um sentido palpável no ecologicamente correto. Na dúvida, faço minha parte.

Cento e poucos anos antes, meu bisavô devia ir à beira do Rio Tijuco (se é que morava em Vila Platina, mais tarde Ituiutaba) e encher algum recipiente com água e carregar para casa. Lá, ele economizava, pois sabia que a bacia era pesada e não queria ser obrigado a fazer cinco ou seis viagens por dia. Mas não ligava para ecologia. Acredito, pelo que conheço da vida de Newton e de Lagrange, que também não estavam nem aí para ecologia. O que queriam da natureza era reproduzi-la em equações. Ainda assim preferimos esquecer meu bisavô e evocar Newton e Lagrange, principalmente em nossas dificuldades.

Mas a Terra, que está sendo tão castigada, não se lembra de Newton ou de Lagrange ou do meu bisavô. Ela sequer se recorda de Lavoisier. Tudo foi transformado. Esse planeta maravilhoso seguirá seu curso de desmemória, mesmo, ou principalmente, quando não estivermos mais por aqui. O bonito disso tudo é que não importará mais saber que algum dia passamos por esse mundo e o devastamos.

Comentários

Zoraya disse…
Que belíssima crõnica, Whisner!Simples, profunda e perturbadora. Li no domingo e até agora tô meio mexida. Conseguiu mesclar família, memória, planeta, existência e tudo com beleza e - acho - um certo 'cinismos melancólic"

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