sexta-feira, 20 de novembro de 2015

DE FADAS, FEITICEIRAS E ASSASSINATOS (Última parte) >> Zoraya Cesar




Vestida de branco, Maybelline tirou da mala um tambor ritual; um embrulho frouxamente amarrado por uma corda com sete nós; e uma vela. Acendeu-a, ajoelhou-se e rezou. Pediu para não esmorecer, apesar do medo; para não falhar, apesar dos erros; para cumprir a Missão, mesmo à custa de seu sacrifício, se preciso fosse. Agradeceu a honra de participar daquela Batalha e se levantou. 

Algumas Tradições Antigas dizem que, na noite de 31 de outubro, mortos e vivos podem mais facilmente passar de um mundo para outro. Aproveitando a intensa egrégora desse dia, Magos Negros experientes — e, também, amadores ignorantes, influenciados por filmes e leituras de baixa qualidade —, conjuram energias extremamente nefastas, povoando a Terra de seres que jamais deveriam ser lembrados, quiçá invocados. Para combater os efeitos deletérios dessas exortações, a cada Guardião do Bem era designada uma Missão específica, de maior ou menor periculosidade. Por isso Maybelline estava ali, sozinha. A cada um, a sua parte, filosofou. 

Colocou a violeta, o misterioso embrulho, o tambor e o galho de carvalho no chão. Ao redor, formou um largo círculo com as 12 lanternas, acesas, viradas pra cima — ela preferia não usar velas para esse fim quando em apartamentos, por medo de incêndios. 

Cristais, água fluidificada, incensos, símbolos místicos, arrumou todos com o cuidado de quem tem a vida dependendo daquilo. Deu início aos trabalhos, proferindo o encantamento que chamaria a essência de Eoland para a violeta. A Fada estaria mais protegida ali que em qualquer outro lugar, mas sua segurança não estava garantida, e ambas sabiam disso. 

Um forte cheiro de húmus invadiu o ar. Eoland chegara. 

O coração da Feiticeira descompassou violentamente, fazendo latejar suas jugulares. Recuperou a respiração com alguns pranayamas — impossível travar uma batalha estando descontrolada. Já não bastava o medo. Se falhasse, Eoland morreria, e ela, Maybelline, talvez perdesse a sanidade. 

Quase meia-noite. Começou a bater no tambor, que ela mesma fizera e usava há tantos anos. A vibração do lugar elevou-se; a respiração e as batidas de seu coração ritmaram-se com a música; os encantamentos e orações entoados acalmaram-na. 

O ataque começou suave e melífluo, bem ao contrário do que esperava Maybelline. Vozes em sua mente, tão altas que pareciam estar ao seu lado, diziam-lhe para entregar Eoland, pois seria grandemente recompensada com riquezas e poder; recebida com loas e honras pelos antigos colegas. Por que não lucrar, em vez de sacrificar-se por uma Fada que seria morta mais dia menos dia? Com eles, Maybelline estaria protegida, jamais abandonada em um país estranho, enfrentando forças maiores que as dela. Seu corpo amoleceu e sua mente nublou, mas ela resistiu à tentação; conhecia a verdade por trás daquelas propostas. Bateu com o galho de carvalho no chão e mandou as vozes sussurrantes de volta ao baixo mundo de onde vieram.

A ofensiva tornou-se, subitamente, violenta. Maybelline ouvia gemidos, risadas demoníacas, choros, ranger de dentes. Sentia como se agulhas incandescentes estivessem perfurando seu corpo. Imagens pavorosas formavam-se em sua mente. Um cheiro pútrido e nauseabundo entranhou pelas suas narinas, provocando-lhe engulhos quase irreprimíveis. A dor era excruciante; o enjoo, verdadeiro;  e as imagens, sons e odores, tão reais, que ela perdeu o controle. 

Interrompeu o ritual e se largou no chão, gritando, contorcendo-se, encolhida de medo e dor. Percebia que o Mago Negro contra o qual lutava estava tentando tirar seu coração pela boca; se demorasse um pouco mais para recuperar o comando, tudo estaria perdido. De seu nariz, o sangue escorria, profusamente. A violeta começou a murchar.

Todas as forças do Mago Negro estavam concentradas e amarradas à Feiticeira. Chegara o momento azado. Tremendo a ponto de bater os dentes, Maybelline desatou os nós que amarravam o misterioso pacote que trouxera para o círculo, clamando pelos sete maiores Santos exorcistas. Dentro, havia um manto azul de puro algodão — representando a proteção da Virgem Maria, a Grande Mãe. Um vidro de água benta, que ela aspergiu sobre si e sobre a violeta. Uma espada, encarnando a arma usada por São Miguel Arcanjo para derrotar o Demônio. E um Rosário.

Ela começou a desfiar as contas, lenta e concentradamente, apesar das dores e do sangue que inundava sua roupa de vermelho. O ataque aumentou em ferocidade, mas a Feiticeira persistiu, firme na Fé, entregando-se nas mãos da Vontade Divina. Estava ali para trabalhar em nome de Maria Santíssima, e não arredaria de sua Missão. 

The dance of Good and Evil - Curtis Verdun
Seis horas da manhã. Maybelline Oceahn se levantou, alquebrada, exangue, os músculos entorpecidos, dolorida, a mente um tanto estupidificada. Arrastou-se para o chuveiro e depois para a cama, deitou-se e dormiu um sono profundo e sem sonhos, agarrada às contas de Nossa Senhora.

Nada pode subsistir contra um Rosário rezado com Fé e a ajuda de São Miguel Arcanjo. O Mago Negro fora derrotado e destruído, sendo menos um a perturbar o mundo. 

Mais tarde entregaria a violeta a Sleigh Beggey, para que Eoland continuasse sua tarefa de proteger a Terra, os pequenos agricultores, os campos. Mais tarde. Agora ela precisava dormir. 

O Bem venceu. Dessa vez. Até a próxima batalha.



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8 comentários:

albir silva disse...

Zoraya, descobri que gosto até dos temas que eu pensei não gostar, se eles são tratados por você. Beijos, garota!

Erica disse...

Zo, desculpe-me, mas todas as vezes que li o nome da sua personagem não consegui deixar de pensar em maquiagem kkkk (http://www.maybelline.com.br/). Fora isso, a história não faz muito meu gênero, mas com certeza está, como sempre, muito bem escrita e cheia daqueles detalhes que nos fazem sentir dentro da cena. De certo agradará os fãs de Harry Potter e CIA...rs Parabéns pela imaginação... não sei de onde você tira essas coisas... acho que você é meio bruxa mesmo rs Bjs

Zoraya Cesar disse...

Albirrrr, vc me enche d alegria!

Alexandre Durão disse...

Zoraya, querida. Gostei muito da história. Acrescento que, se lidas em sequência, sem intervalos, como acabo de fazer, os três capítulos se compõem muitíssimo bem. A soma é melhor que as partes. Quero dizer, com isso, que me parece ser um texto que deve, a partir de agora, ser publicado sempre completo. Entretanto, interessantemente, buscar informações nos anteriores é, também, um agradável exercício. O que quero, então? Saber logo tudo de suas histórias ou aproveitá-las em pequenos goles? Não sei, nem saberei tão cedo. Só sei que estou pronto para as próximas. Aguardo ansioso. Beijão.

Aretuza disse...

Realmente, me senti meio martelo das bruxas, meio Harry Potter.... Super!!!!

Carol disse...

Realmente, eis uma bruxa de verdade, e não de ficção. Acompanhei com interesse, tive medo que acabasse em fantasia. Parabéns, gostei muito, e bem escrito.

Ana Luzia disse...

demorei, mas cheguei!

Salve, Miguelito! Sob o Manto de Maria, mal nenhum tem vez!

Zô, sua bruxinha, seu feitiço é que é um perigo, suas palavras são puro encantamento... Deus conserve e aumente a cada dia o seu dom entreter e engrandecer as nossas viagens fantásticas a mundos desconhecidos!

O Bem é silencioso e se espalha no ar feito perfume!

beijos.

Clarisse Amador disse...

Zô, brilhante como sempre. Manto Azul de Nossa Senhora, protegei-nos!