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Mostrando postagens de 2018

FÉRIAS >> Sergio Geia

O cronista está de férias.
Data venia (como dizem os advogados), ele pede a sua compreensão diante da falta de crônica.
Seu retorno está agendado para 19/01/2019.
Com novidades.
O Crônica volta em janeiro com cara nova e novos cronistas.
Aguardem!
Lindo 2019 para você!

ENTÃO É NATAL >> Clara Braga

Esse ano não vi propaganda alguma sobre o show de fim de ano do Roberto Carlos. Não sei que dia foi, não sei quem foram os ilustres convidados, não sei qual foi o repertório, se teve o momento das rosas, enfim, não sei nem se teve show.
Não ouvi a música da Simone uma vez se quer. Seja na rua, em lojas enquanto fazia compras de natal, no mercado, rádio, em lugar algum a ouvi perguntar o que eu fiz. E falando em música, também não ouvi aquela famosa da Mariah Carey que toca tanto que ela não precisa trabalhar o resto do ano só com os direitos autorais dessa música.
Não assisti nenhum filme natalino, aliás, nem sei se na globo passou Esqueceram de mim ou Um herói de brinquedo. Talvez tenha até passado os dois, um na Sessão da tarde e o outro na Temperatura máxima. Dois clássicos, não podem ficar de fora.
Teria uma confraternização com as amigas, mas como ninguém conseguiu conciliar agendas, deixamos para depois e eu não participei de nenhuma confraternização.
Não vi o desfile dos carro…

AGONIA DOCENTE >> Paulo Meireles Barguil

Compartilho dois comentários, escritos no início deste mês por graduandos de uma mesma turma, sobre o material elaborado por mim, revisado em cada início de semestre letivo, que utilizo na disciplina Didática:
"[...] a sala permanecia não lendo pelo caráter superficial e a visão única que o texto da apostila apresenta.".
"Feito com cuidado visível, o material é de uma qualidade e encaixe acadêmico maravilhoso. Uma escrita acessível e consistente, um material específico [...] que situava e contextualizava o estudante num amplo panorama dos estudos educacionais [...]".
É um desafio intelectual e emocional atribuir igual importância a ambos. O material, com 81 referências e 94 páginas, é dividido em 3 unidades e possui, além de várias citações, letras de músicas e crônicas, dezenas de sugestões de leitura e de vídeos, todas disponíveis na internet. Seria mais fácil para mim, em vários sentidos, adotar textos de outros autores, mas, nesse caso e em muitos outros, pref…

KAIROLOGIA >> Paulo Meireles Barguil

 "Tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei
Pra você correr macio" (Pato Fu, Sobre o tempo)
Procurei no Dicionário Houaiss, mas não encontrei qualquer vestígio de Káiros. Em seguida, investiguei nele sobre a quantidade de vocábulos originados de Chronos: achei mais de 20.
Decidi, então, navegar em ondas binárias e localizei interessantes páginas na internet sobre essas duas diferentes perspectivas de tempo, mas fui surpreendido com o fato de que há uma terceira: Aion. Descobri uma bela obra de Valéria Muelas Bonafé, na qual ela aborda a composição musical a partir da tríade forma, tempo e sonoridade.  "[...] pode-se dizer que Chronos seria o tempo da sucessão (quantidade), Aion seria o tempo da simultaneidade, da eternidade (duração/suspensão) e Kairos seria o tempo da experiência (qualidade)." (BONAFÉ, 2016, p. 39). Na sequência, ela nos brinda com a Kairologia enunciada por Walter Benjamin mediante o conceito de Jetztzeit (tempo-de-agora). A vivên…

A SENHORA DO LAR >> Carla Dias >>

Faz tudo com delicadeza. A mesa posta, as roupas bem lavadas e passadas, os brinquedos competentemente organizados, como se crianças não vivessem na casa.

Recebe com a cortesia de quem é graduada em etiqueta.

Eles a elogiam pelo requinte, por ser quem cuida de todos e de tudo, sem pestanejar, com dedicação.

Ainda mantém os cabelos alinhados, a figura impecável de quem comanda... o que mesmo? Vem-lhe esse branco, que se desapega da resposta que deveria oferecer à pergunta do convidado. Ela estava pronta, mas não saiu, e ela recebe olhares curiosos sobre esse deslize de não ter resposta para o óbvio.

Será mesmo óbvio?

Tilintares dos copos soam gritantes em sua cabeça.

Gargalhadas são como unhas rasgando a carne das paredes.

Então, tudo o que deseja é o silêncio.

Foge da sala de jantar feito espiã escolada em saídas estratégicas. Tranca-se na despensa. Abraça uma caixa de sabão em pó, enquanto tenta se lembrar do motivo de ter se tornado quem se tornou.

Imagem: cena do filme "Brazil…

SEGUNDAS OTIMISTAS >> Clara Braga

Ser mais otimista é vontade de todos. Seja mais otimista é um dos conselhos mais dados a pessoas que estão passando por situações delicadas. Agora, ensinar alguém não só a ser, mas a manter-se otimista sempre, isso eu já considero raridade.
Não sei se por coincidência ou se foi intervenção divina para que eu pudesse manter minha sanidade mental, sempre tive perto de mim pessoas que são otimistas por natureza. A princípio isso parece ser uma coisa muito boa, e é mesmo em 70% dos casos, mas não podemos ignorar aqueles casos nos quais estamos extremamente tristes com algo, ou sofremos uma perda muito grande e precisamos ouvir alguém dizer o clichê do otimista: pense pelo lado positivo... Me desculpem, mas tem horas que dá vontade de matar a pessoa!
Acho que já deu para perceber que eu não me incluo no grupo dos otimistas, né? E é justamente por isso que eu costumo prestar muita atenção nas atitudes dessas pessoas, para ver se aprendo um pouco e faço dos meus momentos difíceis momentos m…

AUTO DE RESISTÊNCIA >> Albir José Inácio da Silva

- Foi bom o senhor fazer contato, meu Tenente. Já ia te ligar. Vasculhamos tudo. Tão limpos. Vou soltar e dizer que foi denúncia falsa. Dou um susto só pra não irem fofocar na Corregedoria.
No sofá rasgado, um casal, meio inclinado por causa das algemas, aguardava com os olhos no chão de cimento. Na porta, o Sargento falou baixo e de costas para não ser ouvido pelos presos.
- Tá maluco, Lênis? – gritou o Tenente Paiva, mostrando a cara no vídeo do zap. - Se a gente te mandou é porque tem o que fazer. Presta atenção: isso aí já matou polícia! Gosta de fazer crocodilagemcom gente de bem! Tem que passar os dois! Tem muita coisa envolvida, Lênis. E muita gente também!
Lênis não conseguiu falar e o Tenente insistiu:
- Fica tranquilo, irmão. Agora a gente tá por cima. O grande-pai tá do nosso lado. Acabou a perseguição!
- Não, Tenente, o senhor me conhece. Sabe que eu não entro nisso. Não tenho nada contra quem entra, mas já recusei antes e não vou entrar agora. Tô indo pra base preencher …

BOAS FESTAS >> Sergio Geia

Ainda em novembro a gente olha e o vê chegando, mas ainda um pouco distante, sabe?, como a montanha escondida no nevoeiro; você a imagina perto, mas anda, anda e ela não chega, é apenas uma caricatura no horizonte. Mas também você sabe, ou tem a sensação que, embora distante, ele está mais perto, muito mais que ontem, e sabe também que o tempo voa na velocidade de uma nave alienígena, bem Independence Day, que o fim de semana voa, principalmente por ser apenas dois dias, ou dois dias e meio ― vamos contar a noite de sexta , e a semana seguinte também voa, e a próxima, e assim o tempo vai passando, como a água do rio que desce montanha abaixo, vai corroendo caminhos, deixando marcas, esbranquiçando fios, vincando a pele, e a juventude, a melhor fase da vida ― e não me venha com essa de dizer que a velhice é a melhor idade, ok? Conversa pra boi dormir; como não sou boi, não caio nessa ―, a juventude vai se tornando um ponto equidistante no horizonte, que ficou para trás, mas bem para t…

UMA CARTA PARA MEU FALECIDO AVÔ >> Clara Braga

Vô, 
sei que você se foi faz tempo, mas suas lembranças ficarão para sempre!
Nunca vou esquecer de você inventando melodias para encaixar fórmulas matemáticas e tentar me fazer decorar a tabuada através de músicas. Também não esqueço que eu sempre encrencava com seu jeito de escrever a letra F, não era como eu tinha aprendido na escola e, por isso, dizia que era errado.
Lembro das brincadeiras que tinham que ser sempre de um jeito que você não precisasse sair da sua poltrona e lembro também que no natal você sempre tinha pilhas para colocar nos brinquedos que a gente ganhava, afinal, ganhar um brinquedo e não poder brincar por causa de pilha não é justo com nenhuma criança.
Hoje te escrevo para falar exatamente dessa questão da pilha. Você acredita que, embora muitos brinquedos já funcionem com bateria, ainda existem brinquedos a pilha? Acredito que você tenha acompanhado essas evoluções tecnológicas e todas as outras coisas que acontecem aqui na terra aí do céu, não é mais sentado n…

CRIATURAS >> Carla Dias >>

É tempo de falarmos sobre como o tempo anda curto, mesmo o relógio contradizendo a informação, insistindo que anda mais preciso do que nunca. É coisa de fim determinado, de daqui a pouco de frescor que durará cinco minutos apurados por esse relógio enlouquecido que já não conseguimos compreender.

Contabilidade sazonal: quantos horrores foram encarados no último ano? Quantas noites foram gastas em melancolia? Quantas vozes não disseram o que morava no seu desejo? Quantos sorrisos foram coletados pela memória? Quanto amor foi concebido no desvio da determinação de não mais permitir ter o coração partido? Quantos gritos? Quantos medos? Quanto desesperos? Quantos deslumbramentos?

Somos essas criaturas conflitantes, que hoje pensam isso e amanhã requentam o aquilo. Instáveis criaturas. Adoráveis criaturas. Desprezíveis criaturas. Transgressoras criaturas.

No nosso corpo moram necessidades. Na nossa mente vivem questionamentos. No nosso espírito culminam pequenos temporais. Temos de nos ag…

O QUE VOCÊ FARIA? >> Clara Braga

Toda nova fase da vida é marcada por uma mudança. Essas mudanças, não importa se são grandes como a chegada de um filho ou pequenas como um corte de cabelo, sempre precisam de um período de adaptação e podem apresentar consequências tanto boas quanto ruins.
Muito se fala sobre as mudanças mais clássicas que a gente passa na vida como uma formatura, um casamento ou um novo emprego, mas tem uma situação pela qual muita gente passa que eu considero subestimada e que já deve ter gerado tanto conflito quanto um divórcio não consensual: partilha de bens de uma família quando os filhos saem de casa!
Tenho certeza que em algum lugar do mundo existem irmãos que se estranham há anos pois não souberam o que fazer com o computador que foi comprado em parceria, dividido até os centavos. Afinal, como definir quem tem mais direito?
E aquele vídeo game que a mãe comprou no natal para que os dois filhos dividissem? Quem está saindo de casa pode achar que os objetos são de quem sai primeiro, já quem f…

SUSTOS E LENÇÓIS >> Albir José Inácio da Silva

O cansaço desmaiava Willians na cama, mas os acontecimentos do dia não o deixavam dormir. Olhos entreabertos, braços estendidos pra baixo, queria descansar, mas a imagem da velha enrolada no lençol até a cabeça esperando o caixão na casa da frente não o abandonava.
Arrependia-se agora das brigas com Dona Dalva desde que pisou naquela vila. Não se passou um dia em que não arengasse com a Senhoria. E hoje não tinha sido diferente.
- Nada faz o senhor fechar esse portão, né, Seu Ilha?
- Que Ilha, Dona Dalva? Que Ilha? É Willians! Willians! – gritava. - Metade desse quintal tá sem muro, e a senhora tá preocupada com o portão?
Willians ainda reclamava com a esposa Aline do inferno que era morar ali, quando se ouviram os gritos de socorro na casa da frente.
- Acode lá, Will! – exigiu Aline.
Dona Dalva estava caída no chão e a filha ajoelhada. Willians pegou a velha no colo e colocou na cama. Mas a SAMU chegou só pra dizer que ela estava morta.
Willians se arrepiou quando soube que carreg…

UM CONTO SOBRE PLANOS FRUSTRADOS >> Sergio Geia

Ele sonhava assim: ... Não. Sonhava não. Mais planejava do que sonhava. Pode parecer bobagem, mas não é, e há sim uma grande diferença. O sonho tem feições obscuras. Não. Nada disso. Quanta bobagem. Não é isso o que eu quero dizer, que sonhos têm feições obscuras, esse tom que você pensou, exatamente porque eles não têm. Tipo as estantes de livros da minha casa. Sim, os sonhos são das cores de minhas duas estantes que tenho aqui sobre a televisão, cheias de livros coloridos. Sonhos são leves, coloridos, balão voando no céu. Melhor assim, nada de “feições obscuras”. Ai meu anjo, perdoe-me; acho que estou um pouco confuso hoje. Talvez esteja precisando de um gole de uísque. Vamos reformular. Sonhos têm uma feição, digamos, Everest, algo difícil de alcançar, era isso o que eu queria dizer. Sim, muitos alcançam, quantos alpinistas não chegam lá, mas quantos não ficam pelo caminho? Sonhos são desejos a perseguir, lugar que se quer alcançar, e que exige de você. Sonhos iluminam a vida, e nã…

DEBAIXO DO FUNDO DO POÇO >> Paulo Meireles Barguil

Se existem várias espécies de poço, também é verdade para as tipologias de fundo do poço.

Há poços secos, cheios e com nível variável de água ou de outro líquido.

Às vezes, a pessoa está lá por escolha.

Outras vezes, foi colocada contra a sua vontade.

Às vezes, ela consegue sair com vida.

Outras vezes, até o resgate do corpo é difícil.

E o que dizer quando alguém está debaixo do fundo do poço?

Se há um fundo, é porque tem um limite e, portanto, algo debaixo dele...

Durante essa vida, estive nele algumas vezes.

Em todas, eu consegui sair.

Ou será que ainda estou nele há décadas e não sei?

O FUNDO DO POÇO>> Analu Faria

Nos três anos em que escrevi aqui, eu quis fazer o que os ditados fazem para se tornarem ditados. Quis pegar umas palavras, juntá-las e arremessá-las de modo que caíssem naquele poço dentro da gente onde as coisas fazem sentido quando atingem o fundo. Eu sei, é muita pretensão.
Não sou escritora, o que fiz aqui no Crônica do Dia foi um exercício de escrita, ainda que parecesse ter pompa e circunstância (prova maior de que não sou, de verdade, uma escritora). Mas mesmo no nível "aprendiz", eu me joguei nessa tarefa de falar de alguma coisa que não fosse o clima, o jantar, o gato dormindo na cadeira, por si sós, ou seja, como aqueles quadros na parede de casa, que a gente, de tanto ver, esqueceu de que estão ali. Eu quis sempre o que era singular, mesmo no corriqueiro e no mínimo. Eu sei, é muita pretensão.
Essa vontade de que a escrita fosse mais (não tem complemento aqui)  deve ter a ver com a forma como tento viver a vida. Entre "louca" e "intensa" eu j…

ELUCIDAÇÃO DIVAGANTE >> Carla Dias >>

Tem prédio sendo construído logo ali. Tenho nada contra prédios, eu moro em um. Só que acontece de eu achar que uns e outros se assanham com a ideia de tocar o céu. E aquele céu, aquele no qual o meu olhar costumava se aconchegar, transforma-se, rapidamente, em janelas. Janelas que darão para ouras janelas.

Falta modéstia aos prédios.

De uns dias para cá, pessoas que conheço e estimo vêm comentando seus feitos comigo. Algumas me pediram para ajudá-las com eles. Eu gosto de ajudar. Há livro sobre a morte sendo escrito com apreço à vida, porque lida com problemas que são bem difíceis de encarar, ao observarmos alguém que amamos partindo aos poucos. Há música sendo composta em homenagem a sentimentos profundos e genuínos, que provavelmente nunca se transformarão em declaração desmascarada. Há personagem criado em imagem que se embrenha em sonhos e poesia.

Há projetos sobre assuntos com os quais nunca flertei, mas neste caso, o importante é a conversa para aliviar a pressão da pessoa e a…

AO MESTRE, COM CARINHO >> Clara Braga

Outro dia ouvi uns alunos conversando sobre professores que foram marcantes para eles. Achei curioso e triste perceber que a maioria dos relatos não eram de professores que haviam deixado uma boa lembrança, a grande maioria falava de situações chatas que envolviam aquele professor e, por isso, não esqueciam a pessoa.
Um caso em particular me chamou mais a atenção, um aluno disse que um dia a professora perdeu a paciência com ele e avisou que não se importaria mais com ele já que ele não prestava nem para ser gari!
Não vou nem comentar essa frase, pela quantidade de preconceitos e desrespeitos que ela carrega, mas fiquei triste após refletir e concluir que realmente estamos constantemente nos deixando ser mais influenciados por momentos e sentimentos ruins, mesmo quando eles acontecem em menor quantidade do que os momentos bons!
Comecei a pensar nos meus professores e, adivinhem, o primeiro que me veio a mente foi um professor de matemática que me chamou até o quadro para resolver u…

ARMAS, ATROPELOS E BRAZÕES >> Albir José Inácio da Silva

Ouviu os primeiros acordes do hino nacional. Queria descer correndo os nove andares, mas conteve-se esperando o elevador e conferindo no espelho o patriotismo da faixa na cabeça, da camisa da CBF e do xale de bandeira brasileira.
Já tinha se conformado a assistir da janela como das outras vezes, agitando a bandeira, àquele auto de fé e civismo. Não tinha coragem de deixar sozinho o seu Duque, querido e manco, que a maledicência da vizinhança dizia ser retardado. Mas a presença da diarista naquele dia salvou a sua passeata.
“Você vai ficar sentada, Lurdinha, só cuidando do Duque! Não precisa fazer nada!”
O Duque recebeu esse nome para encarnar as duas paixões de Leopoldina: a glória de Caxias e a dignidade da nobreza.
Ao exército de Caxias devia tudo que era e tudo que tinha. Seu pai chegou rapidamente a coronel nos tempos da gloriosa revolução, tão caluniada pelos vermelhos. Até hoje ouve boatos sobre a atuação do Coronel Diamante nos interrogatórios. Esse era o agradecimento pelo ri…

HÁ TRINTA DIAS ME BATEU UMA COISA DOWN >> Sergio Geia

Assim do nada, como surgem dores e resfriados (doenças também), há trinta dias me bateu uma coisa down. Senti algo ruim no peito, um vazio, que virou desânimo e, típico movimento reverso, vontade de mergulhar numa piscina de nada, e eu fiquei assim. Como a vida não pode parar em razão de nossos vazios e desânimos, segui em frente. Calhou de no meio dessa coisa estranha, sai de casa um dia pra andar e buscar inspiração a fim de escrever algo sobre a primavera que batia à porta.
 É claro que o resultado foi zero de inspiração. Não achei coisa alguma que me remetesse à primavera. Talvez, minha vibe sendo outra, achasse.
Decidido assim mesmo a escrever sobre a primavera, como um teimoso convicto, cheguei em casa, sentei na frente do computador e escrevi. Obviamente, uma crônica baixo-astral, reflexo do baixo-astral de seu criador, que foi publicada neste espaço em 22 de setembro de 2018.
O pior dessa coisa estranha é que o universo baixo-astral do escritor criou um texto baixo-astral. Em…

O ÚLTIMO JANTAR ROMÂNTICO >> Zoraya Cesar

Claudia acordou de um sono profundo, olhou o relógio, duas horas da manhã. Levantou, foi à cozinha, tomou um copo de água, passou no banheiro, fez pipi e voltou para o quarto. Deitou e dormiu. Acordou de novo, olhou o relógio, duas horas da manhã. Como assim? Levantou, foi à cozinha, bebeu água, mas não encontrou o banheiro. Devo estar sonhando, pensou, vai ver vou fazer pipi na cama. Deitou e dormiu.
Acordou, mais uma vez. Olhou o relógio. Duas horas da manhã. Tsc, acerto esse treco assim que amanhecer. Ainda cheia de sono, levantou e... não foi à cozinha, sequer conseguiu sair do quarto. Procurou pelo interruptor. Não encontrou. Nem as paredes, nem a porta, muito menos o celular. Meu Deus, o que está acontecendo? Não enxergava nada, a escuridão absoluta só era quebrada pelo écran vermelho do relógio digital, a refletir as mesmas duas horas. Gemendo de medo, e a muito custo, conseguiu encontrar a cama. Deitou, e percebeu, surpresa, um estranho odor de velas recém-apagadas e flores pas…

FRUTO >> Paulo Meireles Barguil

"Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Quantas vezes se escondeu
Mas renova-se a esperança
Nova aurora a cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê flor e fruto" (Milton Nascimento, Coração de estudante)
Diversas variáveis influenciam a trajetória e o destino da semente: a terra, a luz, o vento, a água, os predadores, o cuidador...
É por isso que o fruto sempre será uma possibilidade!

A qualidade do cuidar externo guarda íntima relação com a do cuidar interno. Do ponto de vista energético e psíquico,  não há externo e interno, pois a dimensão física não é capaz de separar o fluxo entre os seres, pois o corpo é o instrumento que proporciona ao indivíduo, ao mesmo tempo, vivenciar e expressar uma fração do metabolizado por ele. É por isso que o futuro sempre será uma possibilidade!
[Eusébio – Ceará]
[Foto de minha autoria. 09 de novembro de 2018]

NADA DE IMPORTANTE >> Carla Dias >>

Tornei-me dedicada escutadora de histórias alheias. Acredite, sempre presto atenção a elas, não importa quem as conte. Há sempre algo nessas histórias que me levam à reflexão.

Pode ser que eu seja um pouco apegada à reflexão, que elas tomem boa parte do meu tempo e se misturem, sem pudores, às divagações. Mas quem não tem seus apegos, certo? Eles até podem não ser lá muito saudáveis, mas são inevitáveis. Assim, sugiro fazermos as melhores escolhas possíveis ao nos apegarmos a quem ou ao que seja.

Sim, às vezes nos perdemos do direito à escolha. Quando nos damos conta: apego.

Sou apegada a certos livros, certas mágoas, certos prazeres, certas bebidas: café, sempre. A certas pessoas, certos lugares, certos sonhos. No caso dos sonhos, não me importo de quão maleáveis eles se tornam. Adoro como eles vão se encaixando na realidade, trazendo outras nuances, algumas que nem eu imaginei para eles.

Há certa ironia em como os sonhos nos mostram que sua realização vive na realidade. Que eles nã…

SANTUÁRIO >> Clara Braga

Passei para os meus alunos um seminário para ser apresentado em grupo. Para apresentarem o tal seminário os grupos tinham que estudar duas músicas que constam na lista do PAS (programa de avaliação seriada) e explanar para a turma, entre várias coisas, o significado da letra e o contexto histórico no qual foi composta.
Para não ter problemas com alunos dizendo não terem entendido o que era para fazer e para evitar qualquer tipo de confusão separei algumas aulas apenas para orientação do trabalho, mas a verdade é que alunos sempre dão um jeito de criar uma confusão, parece até que quanto mais você se esforça para que nenhum problema aconteça, mais eles acontecem.
Entre as músicas da lista estava uma chamada Santuário da banda Jenipapo, uma banda local. A música é bem bonita, um rock pop que mistura instrumentos clássicos do rock com instrumentos indígenas. E o significado também é bem interessante, é um posicionamento crítico em relação à construção de um setor habitacional em uma re…