terça-feira, 16 de janeiro de 2018

CABO DE GUERRA >> Clara Braga

A criança nem nasce e já começa a ser repartida. Didaticamente falando, claro! Nas primeiras horas de vida já conseguem definir: é a cara do pai. Mas recém-nascido muda de um dia para o outro. Na hora que nasce está com a cabeça toda alongada por causa do parto, a cara toda amassadinha, e no dia seguinte já está completamente diferente. Então uma nova avaliação é feita: os olhos são do pai, o nariz da mãe.

Esse ritual de identificação é normal, algo relacionado com a sensação de pertencimento talvez, criação de uma identidade, não sei, só sei que é normal! Quem nunca olhou um bebê e disse: esse parece com fulano? E o ritual vai crescendo bem como a criança. A princípio parece só com o pai ou com a mãe, depois vão descobrindo o resto da árvore genealógica. O olho da avó, o nariz da bisavó, o pé do tataravô, a dobra do pescoço do lado direito logo abaixo do queixo é do avô. O dedo mindinho do pé direito tem a unha que lembra a do tio avô do primo do tio do pai do avô. O filho da cunhada da esposa do irmão do seu marido tem um filho que nasceu com o cabelo igual ao do seu filho, será possível? Acho que não, posso estar errada mas acho que a cunhada da esposa não entra na árvore genealógica.

E claro que essa mania não é exclusividade dos parentes ou amigos, os próprios pais também observam os filhos com olhos maravilhados e se buscam neles. A diferença é que os pais não querem dividir com mais ninguém, parece com um ou com outro. Eu mesma tenho certeza que meu filho é a minha cara, embora todos digam o contrário.

Enfim, o processo de identificação é longo, mas pelo que ando observando ele tem um fim. Observo os filhos das minhas amigas, já mais velhos, com 2 ou 3 anos de idade e, nessa fase, já ouvi alguns comentários como: nossa, como você faz birra hei, isso deve ser coisa do seu pai, pois sua mãe não fazia isso quando tinha sua idade. Claro que quem faz esse comentário é sempre a avó materna. Se fosse a avó paterna seria algo como: esse cabelo despenteado é estilo novo é? Quando seu pai era menor eu adorava pentear o cabelo dele, ele só passeava bem arrumadinho.

Antes achava esses comentários super maldosos, ficava parecendo que as pessoas só se identificavam com a criança enquanto ela era tão pequena que não conseguia desagradar nem os mais exigentes. Hoje já vejo com outros olhos, embora ainda seja contra, acho que está nesse momento a chance da criança encontrar um pedacinho dela mesma para chamar de sua e, quem sabe, quando crescer mais um pouco, ter a chance de tentar ser autêntica. 


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sábado, 13 de janeiro de 2018

LINDA ROSA, KIARI, GADÚ >> Sergio Geia



Suave, ela me encanta; e me encantou desde logo. Na primeira vez, pensei: “roupa nova, canção velha.” O mesmo pensamento do Juarez, de Manaus, que disse: “Letra encaixada, requintes de poesia das antigas.”
Contralto (ou mezzo?), a voz de Gadú amplifica o poder da poesia, e Linda Rosa me encanta: “Pior que o melhor de dois / Melhor do que sofrer depois / Se é isso que me tem ao certo / A moça de sorriso aberto / Ingênua de vestido assusta / afasta-me do ego imposto / ouvinte claro, brilho no rosto / abandonada por falta de gosto”, e não me deixa dormir.
Acordo no meio da noite e fico a cantar. Não cantar assim, cantando, cantando, soltando a voz; a música, essa poderosa magia, ela é que canta em mim. E não para. Termina, recomeça, termina, recomeça, cantando e me encantando, me subtraindo o sono, a voz da Gadú.
Num show, ladeando Leandro Leo, sorridente, linda (eu nunca a vi mais linda), feliz, ela empresta sua voz, traduzindo essa delícia: “Escolha feita inconsciente / De coração não mais roubado / Homem feliz, mulher carente / A linda rosa perdeu pro cravo”, eu sem compreensão, sem entender o intraduzível, a letra encaixada, a poesia, extasiado de tanta beleza, quase choro de alegria.
Nossa!
Respira, penso. Respira.
Mas afinal de contas, Gadú, o que passas com Linda Rosa?
Por partes. A música não é das antigas com roupagem nova, é nova mesmo. Quer dizer, talvez não tão nova assim, mas não das antigas, entende? Também não é da Gadú, nem do Tim Maia, como vi num comentário outro dia. É do Luis Kiari. Sim, Luis Kiari. Não conhece? Nem eu. Não conhecia. O moço tem músicas lindíssimas. “Escravo, meu amor, é o coração, que bate por bater. Sem ter algum amor como razão. (...) Devolve o que é teu, e volte a teu lugar. És livre para amar, és livre para sonhar...”, coisa fina, não? Que habilidade para brincar com as palavras e falar do amor. Está em “Teu lugar”. Depressa, mando comprar seu CD “Três”.
As composições do Kiari são delicadas, exploram as diversas vertentes da vida humana com doçura, elas vão comendo você pelas beiradas. Letras misteriosas, canções que pedem busca faminta, desejo insaciável. E são níveis de compreensão; diversos. E músicas que falam de amor, poesia elegante, gigante, doce. Assim são: “A bailarina”, “Quando fui chuva”, “Ainda cedo”, “Dentro de mim” (linda, linda, linda). Você precisa estar com fome, acarinhá-la como você acarinha um amor, desnudá-la, despi-la, deixá-la limpa, quente, penetrá-la mansamente, entrar no seu mundo.
Kiari é um talento só. E não só. Tem o Caio Sóh, a Maria Gadú, o Gugu Peixoto, o Áureo Gandur, o Tomaz Lenz, o Pedro Barnez, o Fred Sommer e o Leandro Léo, trupe conhecida como “Varandistas”: uma turma de amigos que se reunia num apartamento no Recreio, no Rio, para cantar, beber, jogar conversa fora, espantar a solidão. Desses encontros saíram preciosidades, talvez, Linda Rosa.
Entendê-la pode não ser uma tarefa das mais fáceis. Esperei o próprio autor numa entrevista longuíssima para uma tevê de Campina Grande, pôr a pá de cal. Não pôs. Nada. Nem falou nem lhe foi perguntado. Já vi na web muita gente falando coisas, um montão de coisas, que é uma canção lésbica, por exemplo. Será? Pois pra mim ela fala de uma garota de programa (prostituta ou puta são tão pesados que me recuso). Foi Julio quem me alertou. Concordei na hora.
Só você, Kiari, pode dizer qual a verdade escondida em Linda Rosa. O que o levou a talhar essa lindeza, qual foi a sua inspiração, no que estava pensando?
Sei que você não vai falar, muito menos ler essa crônica vai (ela não está na Folha, Estadão, O Globo, já imaginou?). Satisfaço-me então com a minha, só minha, (ah, do Julio, claro) interpretação.
Sim, sim, uma garota de programa, linda, uma rosa perfumada, sensual, charmosa, de coração escravo, que só bate por bater.
Quando ouço Linda Rosa, eu penso nela, assim... 

P.S.: Os autores de Linda Rosa são Luis Kiari e Gugu Peixoto

 

 

 



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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

RATOS - 1a parte >> Zoraya Cesar

Se eu quero, eu pego. Se tentam me impedir, eu tiro do caminho. E se me aborrecem, eu me vingo. Minha vida é simples.

Nunca fui bonito – nasci pequeno, franzino, parecendo um rato cinzento e comprido. E por ter nascido sem os dons da beleza ou empatia, lancei mão da malícia para conseguir meus intentos. Mentira. Usei de malevolência porque eu gosto. E gosto não se discute.

Nas fotos de família lá estava eu - meio escondido atrás de alguma saia ou perna de calça, apenas minha cabeça aparecia, o cabelo ralo, os olhos brilhantes, fundos e esbugalhados, o nariz afunilado. Minha boca era pequena, mas os lábios, carnudos, me conferiam um ar de sátiro lúbrico e insaciável.  

O Rattus norvegicus, a ratazana de esgoto, ou está comendo ou fazendo sexo. Pode chegar a ter 20 relações por dia.

Alguns acreditam que a aparência espelha o caráter. Outros, que, ao contrário, ela influencia em sua formação. Não sei quem está certo, nem mesmo se estão certos. O que sei é que admiro a solércia, a inteligência, o esganamento de ratos e ratazanas. E nunca me incomodei em ser comparado a esses seres, em minha aparência e – digo logo, para poupar tempo – conduta.

Tenho uma raiva que me consome, uma inveja perene que me leva a destruir tudo o que está ao meu alcance. E não tenho escrúpulos ou preconceitos. É-me indiferente que o objeto de minha inveja  seja pessoa da família, vizinho, empregado, desconhecido. 

Noventa e cinco por cento do código genético dos ratos é igual ao dos humanos.

Meu avô foi o primeiro a suspeitar de minha natureza murina. Desconfiou de minhas manobras para disseminar a discórdia na família; de ter sido minha a mão que escreveu a carta anônima que levou minha prima ao suicídio; e de que fora eu a roubar o broche de minha avó, forjando a culpa sobre minha cunhada. Sim, meu avô, com seu tino de homem honestíssimo, sentia que eu, seu neto mais velho, era um verme, ou melhor, um roedor abjeto. Mas nunca pôde provar nada. Antes que conseguisse fundamentar suas suspeitas e desnudar minha alma à luz do sol, troquei os remédios que ele tomava, provocando sua morte. Um lamentável acidente, concluiu o médico. Um golpe de mestre, pensei eu.

A vila onde nasci, sendo pequena e interiorana, era habitada por gente conservadora e ciosa de sua honra. Todos hipócritas, claro. 

O tabelião, por exemplo, passava a mão na bunda das empregadas e fazia discursos em praça pública pela moralidade dos costumes nos lares. A diretora da escola, por sua vez, roubava dinheiro das auxiliares e depois o distribuía nas quermesses da igreja, para se fazer de generosa. Mas de seu bolso, mesmo, nunca saiu um centavo.

E essa gente – quase tão execrável quanto eu – murmurava sobre meus hábitos escusos e furtivos, pois eu não gostava de sair durante o dia e minha pele tinha sempre um estranho palor; que eu podia enxergar no escuro e andar sem ser percebido. Que eu era esquisito. Essa gente fala muito.

Os ratos são animais de hábitos noturnos.

Enxergo bem, verdade, e, sendo magro e flexível, esgueirava-me com facilidade por entre as sombras (quantos segredos descobri, quantos valores roubei, quantas desavenças provoquei por conta disso!) E, justamente por temer ser pego de surpresa ouvindo ou perscrutando sobre a vida alheia, andava sobressaltado, a olhar por trás dos ombros. Vou, no entanto, confessar, pois é só o que me resta a essa altura: eu tinha, realmente, características, hábitos e pensamentos estranhos para aquela gente simplória e maldita.

Ratos são habilíssimos para se localizar, aprender caminhos novos e criar atalhos. Sua noção espacial é incomparavelmente mais evoluída que a do reles Homo sapiens.

Naturalmente, aos poucos as pessoas foram juntando os pontos, coligindo coincidências – como é lento o ser humano em aceitar a maldade por si mesma, justificada pelo simples desejo de realizá-la, e não, necessariamente, porque ela vá trazer algum benefício ou vantagem ao seu perpetrador.

Quando, finalmente, familiares e vilãos se deram conta – embora nunca tenham provado nada; era mais uma certeza íntima - da intriga, roubos, maledicência, enfim, de todo prejuízo e destruição que eu provocara, vi-me obrigado a me afastar de seu convívio. 

Como se isso me afetasse! 

A casa estava abandonada.
Seu antigo habitante desaparecera, simplesmente.
Eu bem desconfiava o que lhe acontecera.
Fiz uma pequena reforme e me mudei para lá.
Era o lugar perfeito para meus planos.
Fui morar numa casa velha, afastada o suficiente para que eu tivesse sossego e pudesse viver em paz com os seres mais inteligentes do planeta: ratos e ratazanas.

Ratazanas podem ser domesticadas. Se retornam à vida selvagem, no entanto, adaptam-se rapidamente à liberdade.

Comecei, então, a pôr em prática o sonho que acalentei desde sempre: ser maior que o Flautista de Hamelin. Eu não ia somente encantar os ratos. Eu iria domesticá-los. E, em os domesticando, colocá-los a meu serviço. Um serviço já inteiramente planejado.

2a parte em 26 de janeiro

foto: StockSnap on Pixabay





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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

PHAROPHA>>Analu Faria

O brasileiro é cordial. E chique. O brasileiro é um cordial chique. Ou talvez a classe média seja chique. Cordial e chique. Talvez a classe média seja seletivamente cordial. Mas definitivamente é chique. A gente é (também me incluo na categoria) uma classe média cordial (ma non troppo) e chique. 

É por isso que há um tempo atrás a gente resolveu que "vai estar fazendo" alguma coisa no futuro e não que "vai fazer". É por essa mesma razão que, depois de descobrir que  " estar fazendo"  tornou-se coisa comum para o pessoal do telemarketing (e o pessoal do telemarketing não é chique), a gente também deixou de usar gerúndio. A gente confundiu gerúndio com gerundismo. Então "estamos trabalhando" foi banido, mesmo que neste momento a gente err... esteja trabalhando.

Entre os profissionais do Direito, então, nossa! é uma chiqueza danada! A gente (porque, novamente, eu me incluo na categoria) adora uma inversão de ordem na frase, tipo:  "Sabe o réu que sua conduta irregular está." Daqui a pouco a gente vira o Yoda. Mas um Yoda chique, porque a gente é classuda. Aliás, não pode falar "classuda", porque "classuda" não é uma palavra chique. 

Acho que é também por isso que a gente evita falar "a gente". Quanto mais chique a gente fica, mais a gente usa "nós". A mudança acontece primeiro na escrita, que a gente (chique) achou por bem considerar o terreno da formalidade. Depois a coisa se alastra para a fala. O suprassumo do chique é chegar a uma reunião e dizer "vamos apresentar nossas metas para o próximo ano, para que possamos entender o que nos espera." Eu fico até emocionada.

Proponho, portanto, que deixemos quaisquer resquícios de deselegância verbal para trás. Que não usemos mais "a gente". Que invertamos as frases o quanto pudermos. Proponho até que troquemos o "F" pelo "PH", pelo valor aristocrático óbvio desse dígrafo. Sim, teremos, por exemplo, de trocar a grafia da palavra "farofa" por "pharopha" - algo rebuscado, é verdade, mas é o preço que se paga pela galhardia.


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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

SEM HISTÓRIA PARA CONTAR >> Carla Dias >>

Não tenho história para contar. Não vou requentar uma, tampouco sair falando o que vier à cabeça. Até porque o que me vem à cabeça agora: refugiados. Acabei de assistir a uma reportagem sobre os que chegam ao Brasil e em outros países desse mundo, fugindo de uma vida que não é vida. Não consigo parar de pensar sobre pessoas que batem à porta de outras pedindo guarida, e como é importante ajudar. Obviamente, não de qualquer jeito ou se colocando em perigo. Mas por que é tão difícil se organizar, quando a questão é tão óbvia?

Parece que não adianta a questão ser óbvia. É preciso que os interesses de alguns se alinhem à necessidade de muitos. Vejam o amontoado de decisões equivocadas e partidárias que nossos caros políticos andam tomando.

Tá bem... Eu disse que não iria sair falando o que viesse à cabeça. Mas o que fazer quando a cabeça é sala de estar para tantos pensamentos em ebulição? Até tentei escrever um poema, mas saiu outra coisa. Melhor deixar a poesia pra depois.

Só que não tenho algo específico a dizer, até porque hoje estou particularmente desapontada com o meu ser humano. Eu tenho uma lista de coisas a fazer, durante as férias, e não cheguei nem mesmo ao item três, de uma longa lista, considerando que o item dois é o tradicional check-up. As férias já estão acabando e não vejo meio de ticar esses itens todos. Além do mais, ando meio miss na lista, pedindo coisas bem loucas, como a paz mundial.

Um amigo sugeriu que eu escrevesse sobre ele e mais dois amigos correndo no parque, enquanto eu faço a minha caminhada na sala de casa. Eu declinei, alegando que, morrendo de inveja, eu acabaria escrevendo um manifesto sobre eu não estar lá com eles.

Meu dia rendeu tão pouco, que parece que ele nem me aconteceu. Com telejornal de trilha sonora – eu vinha evitando telejornais há meses, mas durante as férias, não sei o que me acontece, eu me rendo a eles. Enfim, com telejornal de trilha sonora, rabisquei umas coisas, toquei outras, mas nenhuma eu finalizei. Nada de ticar mais um item da lista. Para piorar, fui incluindo mais e mais itens nela, entre eles:


  • Mergulhar e socializar com uma baleia. Eu vi essa reportagem sobre uma mulher que nadou com uma, que ainda a empurrou para que um tubarão não chegasse a ela. O problema é que não sei nadar, a ideia de mergulhar me deixa sem ar. E a baleia? Linda, mas... E o tubarão? Lindo, mas... 
  • Assistir ao A Forma da Água, de Guillermo del Toro, no cinema. Bom, não sei quando irei – acredito que estreará amanhã -, mas me bateu uma nostalgia e tive de assistir, pela não sei qual vez, O Labirinto do Fauno.


Ocorre-me agora essa coisa do Guillermo com monstros. Ele disse, certa vez, que quando era menino, tudo nele era estranho. Foi assim que ele se identificou com os monstros e que os incluiu de forma crucial em sua vida. Eu gosto dos monstros do Del Toro como gosto dos anjos de Wim Wenders. Para mim, eles fazem poesia cinematográfica com esses personagens.

Ok, voltando à lista:


  • Aprender um novo idioma, o holandês. O ritmo que essa língua tem me soa fascinante, mas estou longe de saber uma única palavra. Continuo achando o som interessante.
  • Aperfeiçoar a minha habilidade em deixar pra lá. Porém, se eu for me apegar ao horóscopo, não vai rolar. 
  • Sair para dançar, mas música de mil, novecentos e só Deus sabe. Sim, sou vintage.


A questão com as listas é que, a partir de determinado ponto, enlouquecemos. Minha lista se tornou algo surreal, e o pior é que, quanto mais surreal, mais ela me agrada. Isso não muda o fato de que hoje não tenho história para contar, nem impede que meus pensamentos mergulhem no sobre como seria meu monstro, se eu decidisse criar um para uma possível história.

Guillermo del Toro me inquieta.

Para justificar minha passagem por aqui, vou contar o último item da minha lista:


  • Dormir muitas horas seguidas.


Eu sei que para alguns é item fácil de ticar. Na minha lista, mergulhar com a baleia e evitar o tubarão me parece mais provável.

Boa noite.

carladias.com



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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

ESSE ANO EU VOU... OU NÃO! >> Clara Braga

Na manhã do dia 31 de dezembro de 2016 eu estava em um quarto de hotel na beira do mar me arrumando para ir a praia. Mas antes, liguei a televisão para assistir à São Silvestre. Assistir essa corrida já fazia parte da rotina do dia 31, já que meu pai sempre acompanhou, mas nesse ano o sentimento era um misto de saudade, empolgação e nostalgia, pois no ano anterior eu estava lá participando da corrida.

Ver aquela quantidade de pessoas super empolgadas por terem escolhido terminar o ano correndo me fez jogar para o universo a minha vontade para o ano que logo iria começar: ano que vem vou correr de novo e melhor do que ano passado. Mal sabia eu que meu filhote já estava crescendo dentro de mim e que, por isso, logo eu estaria trocando os treinos para provas por leves trotes e caminhadas que me permitiriam ter um parto um pouquinho mais tranquilo.

O ano foi passando, setembro chegou, meu filho nasceu e eu nem pensava mais na corrida. 3 meses depois pude voltar a pensar em correr e voltar a fazer meus treinos. E no dia 31 de dezembro de 2017 estava eu em casa, com meu filho no colo, assistindo à mais uma São Silvestre. Difícil não ficar ainda mais nostálgica, repensar o ano que passou e, mais uma vez, jogar a vontade para o universo: ano que vem vou correr de novo, mas dessa vez vai ser empurrando o carrinho do filho.

Logo depois pensei: será que é uma boa jogar essa vontade para o universo? A última vez não deu certo! E então cheguei a seguinte conclusão: sempre vale a pena vibrar positivo para as coisas que a gente deseja que aconteça, pois se elas não acontecerem é porque algo muito melhor veio de surpresa no meio do caminho, mesmo que no início seja difícil entender que esse algo é melhor. Não adianta terminar um ano já querendo que o ano seguinte esteja todo planejado, o que vale é focar no que você quer que aconteça e, ainda assim, estar aberto a novas possibilidade, pois se tem uma coisa que eu aprendi em 2017 é que em qualquer dia ou mês do ano pode surgir a possibilidade de se começar um ano novo. 


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sábado, 6 de janeiro de 2018

O AVESSO DA ADOLESCÊNCIA >> Cristiana Moura


Ainda ontem minha comadre comentava: " — Ao olhar-me, vejo que o viço da juventude foi maculado no reflexo do espelho." Tempo. Alguns hormônios declinam, outros nem sei. Tem horas, muitas horas mesmo, em que é como nadar, em dia de sol a pino, num mar de TPM. Então chega aquele dia em que se sangra e, junto com isto lembramos a crença de que vai passar o rebuliço corpo-a-dentro e, que como antes, a menstruação, apesar das cólicas, trará cores mais vívidas ao cotidiano. Não. Nenhuma ilha por perto. Um calor de dentro para fora num fogacho. A vida é nadar neste mar revolto de hormônios descontínuos, sensibilidade à flor da pele, chorar com o sorriso da criança, gritar com um objeto inanimado da casa, desejar e temer as carícias, morrer de saudades.

Bem vinda ao climatério, período que antecede a menopausa. Meno – pausa. Exato. Esta é a vontade mais íntima e absurda: a vida poderia parar a fim de vivermos este momento, apenas este. E, só mais adiante, continuar.

É experimento no próprio corpo. Modificações da matéria viva que somos. Reaprender o tamanho dos peitos, a textura da pele, a umidade da vagina. É a certeza sensorial da finitude. Como um luto belo de quem já tem muitas histórias para contar, e as possibilidades por vir são morada de desejos e expectativas. É gostar da memória juvenil, mas sem nostalgia. Foi bom, agora o tempo é outro. Tempo de doçura e graciosidade ainda por se desenhar em linhas ora sutis, ora densas e turbulentas.

 É como ter quinze anos de novo só que pelo avesso. E, de repente, dar-se conta que, já há algum tempo, não se tem mais interesse pelas bonecas. É um momento de amar a idade mas nem sempre querer revelá-la. Isto para não correr o risco de precisar caber em estereótipos do que se deveria viver a cada estação da vida. Somos uma geração de mulheres sem idade. Na adolescência buscamos o grupo. No seu avesso — o recolhimento.

O filho canta: “— Mamãe, mamãe não chore. A vida é mesmo assim, eu fui embora (...) eu tenho um beijo preso na garganta, eu tenho um jeito de quem não se espanta (...),  ser mãe é desdobrar fibra por fibra os corações dos filhos. Seja feliz, seja feliz. Mamãe, mamãe, não chore...”*

Aos sons da música e da ausência de Gabriel pintei a parede com as mãos e comprei novas almofadas. Outras cores e tons tentando reinventar a beleza e aconchego dos seus sons.

No reflexo da juventude maculada pelo tempo enxergo-me mais bela. É tanta a fortaleza que vejo nas novas fragilidades. Isto deve ser a tal sabedoria anunciando que está por chegar e que é transparente. O corpo muda, o amor renasce, o desconhecido já não é o outro sou eu mesma. Nada merece ser adiado.

Quero é dançar como se cada gesto movesse o planeta inteiro. Gosto mesmo é dos cabelos brancos por entre os negros. Parecem iluminar pensamentos e emaranhados de vida descompassada no tempo.



* Trecho da música Mamãe Coragem de Torquato Neto

Imagem: Das Estratégias Para Me Ver Melhor de Cristiana Moura


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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

CUIDADO >> Paulo Meireles Barguil


 "Olha mais para mim
Dentro de meu sentimento e tudo de mim
Seja meu lar, uma canção, um carinho
Uma frase de paz."
(Milton Nascimento, Dança dos meninos)
 
– Se cuide. – era o que ela costumava dizer quando ele estava perto de sair.

Outras vezes, ela proferia "Cuidado.".

Assim mesmo: sem exclamação, nem três pontos, a frase sempre terminava com um ponto final, mas com uma entonação suspeita.

Essa mensagem cifrada era destinada, prioritariamente, para as glândulas suprarrenais, responsáveis pela produção e liberação da adrenalina e do cortisol, dentre outros, as quais deveriam, desde então, estar alertas.

Ela sabia que esse aviso era biologicamente desnecessário, mas ela insistia, após mais de 40 anos, em proferi-lo, mesmo quando ele ia ao jardim para colher alface ou plantar tomate.

Na maioria das vezes, o zelo, a proteção era uma forma camuflada de dizer para ele não crescer, que poderia resultar na sua saída, não mais temporária, de casa.

Cada pessoa cuida de si e dos outros de acordo com o que viveu, ou seja, da forma como foi tratada.

Esse aprendizado não precisa de discurso, o qual costuma ampliar, mediante a mielinização de milhares de neurônios, a velocidade e a intensidade da lição.

Caso haja discrepância entre o gesto e a palavra, o aprendiz, inconscientemente, optará pelo primeiro e entenderá a segunda como uma figura de linguagem, mesmo que ainda não tenha estudado sobre isso.

Há sempre a possibilidade de modificar as intricadas conexões entre sentir-pensar-agir, sendo necessária uma incessante investigação e um fortuito milagre.

É possível que o acaso, muitas vezes acompanhado de dor, dispense da pesquisa a pessoa, a qual poderá nessa ocasião, a depender do seu grau de abertura, alterar a sua jornada.

A petrificação pode ser um trampolim ou uma armadilha: nos impulsionar para o infinito ou nos prender no limitado.

Desconfio que cada situação seja os dois ao mesmo tempo, independentemente do decidido!

Em tempos tão acelerados e repletos de múltiplas estimulações sensoriais, que costumam nos tragar e triturar ferozmente, eu insisto em expressar, não somente com sons, para mim:

– Cuidado...
 

[Foto de minha autoria. 26 de julho de 2017]


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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

TEM CAFÉ >> Carla Dias >>


Do que já perdi, muito não faz sentido. Não por ter perdido, mas por ter sentido tão profundamente a perda. Perder é verbo indecente, que interfere na vida da gente o tempo todo. É preciso entender que ele também é delimitador de catástrofes pessoais, já que, muitas vezes perdemos o que/quem desejávamos para não nos perdemos de nós mesmos.

Há quem delegue à perda certo romantismo, o que pode parecer – e ser – uma forma de dar menos importância a ela. Quase sempre, percebo esse gesto como uma maneira única de se suportar o vazio que fica. Somos péssimos ao lidarmos com o vazio. Temos o hábito de preenchê-lo com brevidades, apego ao que já é passado e não conseguimos abandonar, tamanho medo que sentimos do que será.

Você pode até questionar o motivo de eu falar sobre perdas na primeira crônica do ano, quando muitos ainda celebram os ganhos: presentes, viagem, tempo extra compartilhado com os afetos, beijos roubados nas primeiras horas do ano. Não estranhem tanto assim. Também não pensem que estou aqui para reciclar poesia ao proferir as auguras das perdas. Tampouco irei declamar o agridoce caminho que é preciso trilharmos para sobrevivermos a elas.

Nada disso.

Essa crônica pode até ser sobre mim, mas não sobre as minhas perdas; certamente sobre minha impotência. Não é sobre vender a ideia de se fazer deste ano o melhor de todos ao encará-las. Não é sobre compartilhar receitas para amenizar a tristeza que perdas deixam pelo caminho.

É sobre ter observado de perto a perda do outro. A perda de quem ama alguém que se foi, mas continua aqui. Ausência na presença. De quem se foi de fato, deixando uma saudade que parece impossível de se atenuar. De quem se foi de uma história para outra, deixando na vida daqueles que viveram a primeira, uma tristeza imensa, misturada ao desejo tão imenso quanto de que o outro encontre a felicidade. De quem perdeu o espaço que tinha na vida de outros, e por medo do novo, reluta em seguir em frente, impedindo a si e aos outros de descobrirem seus caminhos.

É uma crônica sobre mim, porque foi meu olhar que se fincou nessas perdas, nessas pessoas, nessas histórias. Porque eu gostaria que elas soubessem que, se eu fosse uma boa recuperadora de perdas, eu os ajudaria. Se eu fosse uma competente preenchedora de vazios, eu os ajudaria. Daí que sou apenas uma pessoa, impotente diante das perdas, principalmente daquelas em que a lógica não colabora com a aceitação. Sou eu, sem qualquer habilidade mágica para descartar o que é preciso ser vivido.

Então, essa crônica é apenas meu jeito de dizer que, apesar das perdas, terá sempre café aqui em casa para vocês.

Imagem © Mario Sironi

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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

NESSE ÚLTIMO NATAL >> Clara Braga

Natal não é sobre dar presentes, todos dizem! E, realmente, as pessoas têm razão, não é só sobre dar presentes, eu diria, mas é também sobre dar presentes!

Estar junto de quem a gente ama, confraternizar, compartilhar momentos, rir, nada disso tem preço e seria lindo que a gente não esperasse o natal para ter momentos assim. Mas receber um presente, abrir uma caixinha ou um pacote também tem sua magia. 

Acho que quando as pessoas dizem que natal não é sobre dar presentes estão falando sobre a questão comercial de se presentear. Mas nem todo presente gira em torno da questão financeira.

Sempre pensei assim e comecei a ter certeza de que estava certa quando troquei presentes pela primeira vez com meu marido. Quando completamos um mês de namoro eu tinha algo que ele gostava muito e ele tinha algo que eu também gostava. Sem que combinássemos absolutamente nada nem esperássemos que o outro fosse fazer algo, ele embalou sua câmera antiga e eu meu vinil do Deep Purple. Não gastamos nenhum tostão, mas o significado desses presentes ia muito além do dinheiro que poderia ter sido gasto. 

Hoje já trocamos outros presentes, mas as vezes temos muita dificuldade de lembrar o que demos um ao outro de aniversário ou de natal, mas essa primeira troca, a mais simples de todas, foi a que ficou inesquecível.

Anos depois estamos com nosso filho de três meses no nosso primeiro natal como pais e, mais uma vez, tivemos a prova de que o valor emocional de um presente não é equivalente ao seu valor em dinheiro. Amei cada um dos presentes que ganhei, não trocaria nada e tudo me vai ser muito útil, mas abrir uma sacola cheia de lenços umedecidos, na atual circunstância, foi uma verdadeira declaração de amor.


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