sábado, 20 de outubro de 2018

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia




Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.
Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o último, pt. Enfim. Depois de assistir a tantos, estava eu envolvido num engavetamento. Todos, inclusive eu, em bom estado, sem qualquer ferimento, se pudermos excluir o emocional, claro, do que entendemos ser esse bom estado. Na verdade, estávamos todos feridos emocionalmente.
Orientados pelos federais, pusemos os carros no acostamento. Habilitação e documentos. Teste do bafômetro (eu era virgem até então em bafômetros; como era virgem em colisões de automóveis. Aliás, tinha orgulho dessa condição: em mais de 30 anos de habilitação, nunca havia me envolvido num acidente). O coração continuava batendo rápido, embora me sentisse tonto, mergulhado numa espécie de torpor. Estava desorientado, zonzo. Liguei para um amigo. Conversamos. Precisava falar, me libertar da inação.
Boletim de ocorrência pela internet. Anotação das placas. Seguro do último dos carros deveria cobrir os danos. O motorista não lembrava qual era o seguro, teria que ver em casa, em pastas, depois deixou escapar que talvez não tivesse pago as últimas parcelas.
Consegui trazer o veículo até a garagem do meu prédio, agradecendo o tempo todo por não ter sido uma carreta a causadora do engavetamento. Entrei em casa estranho (continuo estranho). Examinei-me de cabo a rabo, não localizei qualquer dano aparente. Percebi que os batimentos cardíacos continuavam elevados, 120, 130; a pressão, normal. Tentei comer. Tentei dormir. Dia seguinte acordei cedo e saí para caminhar. Tentei trazer normalidade para o meu dia. Tentativas vãs. Caminhei, corri, mas continuo estranho.
Talvez um dia passe. Amanhã, quem sabe; ou depois.
Mas enfim, queridos, escrevo apenas para contar que apesar do susto, eu estou bem. Sei que alguns ficaram sabendo, ligaram, mandaram mensagens via whatsApp, demonstraram preocupação. Obrigado. Mas não foi dessa vez que vocês se livraram de mim, ou das minhas crônicas.
Foi uma coisa bobinha, eu sei, nada perto de tanta tragédia que ocorre por aí. (Aliás, por falar em tragédia, a fé é uma coisa maravilhosa, como maravilhosa é a quantidade de romeiros que caminham pela Dutra nesse mês de outubro em direção a Aparecida. Mas isso pode ser tema de uma outra crônica, quem sabe; já tenho o título: “Crônica de uma tragédia anunciada”). Mas é impressionante como uma coisa bobinha dessas desarranja por completo tudo que a gente demora anos para construir aqui dentro.
É vida que segue.


P.S.: Aviso aos navegantes: não precisei de Lexotan, ok? Ainda.




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sexta-feira, 19 de outubro de 2018

YUTL, QUE VEIO DA TERRA >> Zoraya Cesar

A casa era velha, velha, quase coitada. Por fora, poderia até parecer, ao primeiro olhar, abandonada. 

O observador menos distraído, no entanto, percebe uns detalhes aqui e ali: uma cortina de chita limpa de doer a vista esvoaçando pela janela; flores viçosas e um enorme pé de jurema no jardim, e aproxima-se, curioso. A porta está entreaberta e o observador dá uma espiadela no interior. A sala era pequena; de móveis, apenas o essencial - todos muito antigos, mas bem conservados.  

Movido pela curiosidade, Yutl entrou. Cheirava bem, a casa. Cheirava a alecrim, eucalipto, sálvia. Ervas de cura! Yutl ficou contente. Isso era bom sinal. Saiu para dar uma volta no quintal e pulou de contentamento ao ver diversos troncos podres cheios de cogumelos venenosos, prontos para serem colhidos e transformados na mais deliciosa cerveja do mundo. 

Flores, ervas, jurema, cogumelos... Era quase o Paraíso. Para ser um lar, só faltava conhecer seu morador. Mordiscando folhas de erva-doce para se acalmar, esperou, sentado atrás de um pé de manacá de
O manacá de cheiro,  a ipomeia,
antúrios cristalinos exalam
inebriantes e maravilhosos
perfumes ao anoitecer
cheiro. O Sol se despedia da tarde, enfeitando o céu de lilás e delicadezas. Ipomeias e antúrios cristalinos abriram-se, permeando o ar de fragrâncias melodiosas e ricas. Yutl exultou, suspirando de felicidade. Simplesmente amava flores de cheiro noturnas. Inspirado por toda aquela beleza, resolveu fazer uma surpresa ao morador, em agradecimento por aqueles momentos felizes.

Ajeitou as ervas que estavam na pia da cozinha, empurrou o tapete para dentro, encheu o pito de fumo. Mal escondera-se de novo, e ela chegou. 

Era uma velha, velhinha, que nem a casa. Magra, magrinha, quase um graveto, um bicho-pau. Vestia uma túnica branca que ia até os joelhos ossudos. Segurava um cajado de madeira, que usava para palmilhar o caminho escuro, iluminado apenas pelas estrelas e pelo brilho de seus olhos, naquela noite de lua nova.

Uma Preta Velha! 

Yutl engasgou de emoção. Amava desde sempre qualquer Preto Velho ou Caboclo e havia muito tempo mesmo não encontrava nenhum (cada vez mais raros, são espécie em extinção). Só restava saber se seria aceito. Algumas pessoas eram resistentes a companhias estranhas. Aguardou, ansioso, a mulher entrar.

Ela parou, viu o tapete dobrado e resmungou ‘hum’. Chegou à cozinha, e, ao pegar uma desbeiçada caneca de folha de flandres, percebeu as ervas arrumadas na pia. Fez hum-hum”, e voltou pra sala. Sentou, estendeu as pernas, alcançou a  bolsa de tabaco, o pito e... surpresa, o cachimbo já estava pronto para ser pitado. Fez “hum-hum-hum” e sorriu, um sorriso branco de dentes perfeitos, gentil e humilde. Ficou ali a soltar baforadas em formatos de flores, estrelas, peixinhos...
Pitar um cachimbo
é um ritual comum
a todos os Pretos Velhos.

Yutl a tudo observava, escondido e atento. A Preta Velha levantou, pegou um pedaço, pedacinho, de bolo de fubá, deixou-o na janela e foi dormir. Yutl mal cabia em si. A dona da casa não só percebera sua presença como também o convidava a ficar! Era muita felicidade. Um lar! Um lar para chamar de seu, um lar para morar, um humano para cuidar. Era, realmente, o Paraíso.

Agora que a casa também era sua, colheu um cogumelo e enterrou-o debaixo da jurema. Na próxima Lua Nova estaria pronto para ser transformado em cerveja. Feito isso, ajeitou-se e dormiu numa teia de aranha cuja proprietária já não pertencia a esse mundo. 

Nunca ele fora tão feliz. A Preta Velha era uma curandeira querida na região e sua fama aumentara graças a Yutl, que a ajudava a plantar, colher, escolher e preparar as ervas e mandingas certas para cada caso. 

Aos poucos, Yutl passou a entrar nas casas do vilarejo próximo. Espantava os pernilongos que atacavam bebês, afugentava pesadelos, devolvia objetos perdidos, iluminava, com vagalumes, o caminho dos viajantes cansados, nas noites de lua tímida. 

Talvez essas e outras pequenas gentilezas tenham despertado memórias ancestrais nos habitantes, pois, assim, do nada, camponeses passaram a separar um copo de leite da primeira ordenha do dia; crianças enfeitavam as pedras da estrada com lacinhos, botões, flores, paus de canela; mulheres deixavam nos peitoris pequenos potes com mingau de banana. Faziam isso com naturalidade, sem se dar conta que seus antepassados costumavam agir da mesma maneira, considerando os Elementais como da família.

Quatro Luas Azuis apareceram no céu e, se os Elementais não envelhecem, seres humanos sim. Chegou, enfim, para a bondosa Preta Velha, o tempo de partir. Yutl não se entristeceu. Sabia que a vida era um eterno recomeço. A Curandeira cumprira sua Missão com honra e caridade; ia feliz. 

E nosso amigo? Ficaria na mesma casa até a primeira chuva de verão. Depois decidiria o que fazer. Poderia se desfazer na chuva e voltar à terra, de onde viera, ao barro do qual fora criado. Ou escolher um novo lar. 

Portanto, se você perceber que as crianças estão mais sorridentes; os bichos, mais brincalhões; que os objetos estão sempre mudando de lugar; que não tem mais mosquitos na casa... bem, que tal deixar um mimo aqui, uma guloseima ali, colocar uma planta na casa?

Pode ser que Yutl ou algum de seus primos esteja querendo morar com você, fazer-lhe pequenos mil favores, proteger sua família. Nunca se sabe.
Nosso amiguinho Yutl, Elemental da Terra

Agradecimentos mais que especiais para a minha Amiga Érica Pascoal, ilustradora talentosa, que gentilmente desenhou Yutl (e deu muito trabalho, pois ele não parava quieto!)



Fotos
manacá de cheiro Pinterest 50f967d1ebf65d6692b2d85531f58df6.jpg
cachimbo Pinterest 7e6f67b5683619d1c81b6bd679648b85.jpg






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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

SEXTO SENTIDO>>Analu Faria

Nunca acreditei nesse negócio de "poder do inconsciente", apesar de já ter lido um tanto sobre isso, apesar de saber que brigas fenomenais já haviam sido travadas em nome dos estudos da psique e do que ela tem de mais profundo. Apesar mesmo de ser a matéria com que lidam os psicólogos. Na verdade, eu secretamente achava os psicólogos meio charlatães, mais ou menos o que eu penso sobre a Xuxa falando da experiência dela com duendes.

Talvez por não acreditar nesse "poder", eu entendia os "insights" como maquinações que, malgrado fossem inconscientes, passassem pelo crivo do nosso entendimento e só aí manifestavam-se de forma consciente e mais ou menos controlada. Muito que bem, senhores: eu acho é que eu nunca tinha tido um insight! E eles vinham sendo numerosos. Obviamente, achei que estava ficando louca. Se você já teve aquela sensação de "Caraca, então... é isso?", aquele susto que acompanha o segundo de clarividência lúcida, você sabe do que estou falando. É coisa de gente doida. Fui a um psiquiatra. 

_ Epifanias são um ótimo sinal de saúde da mente!, riu o médico.

 _ Ótimo porque não são com o senhor!, soltei. _O senhor gostaria de estar na academia e, por um milésimo de segundo  pensar no seu mau humor como tendo a cara de uma freira velha e ressentida que te acompanha quando você menos precisa dela? - acho que o médico não se divertia assim com um paciente há muito tempo.

_ Leve a freira velha ao psicólogo e ouça o que ela tem a dizer, - ele rebateu, enigmaticamente, para meu desespero. Nesse ponto eu já me perguntava se aquele consultório, aquele médico, aquela conversa não eram uma alucinação. Para piorar, ele usou um filme como metáfora para me explicar como funcionava esse negócio de epifania:

_ Lembra do filme "O Sexto Sentido"? Lembra que os fantasmas só deixaram de ser assustadores quando foram ouvidos? Quando conseguiram dizer a que vinham? -  sem saber onde ia parar aquela conversa, só consegui atacar o médico com um argumento da quinta série:

_ Ah, tá! O senhor agora tá se achando com cara de Bruce Willis!

_ Não, a freira é o Bruce Willis.

_ E eu, doutor? Sou o garotinho?

 Ele me olhou fixamente durante alguns segundos: _ Na verdade, não. - Apertou os olhos e os lábios. Então abriu a boca, mas fechou-a novamente, desistindo do que ia dizer. Por fim, com a cara entre triste e resignada:

_ Você me deve trezentos e cinquenta reais. 


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terça-feira, 16 de outubro de 2018

REFLEXÕES DE UMA PROFESSORA >> Clara Braga

Sempre que passo trabalho em grupos para os meus alunos aviso logo: todo mundo do grupo tem que ter o trabalho inteiro em mãos, se não no dia de apresentar vão dizer que não podem apresentar porque justo a pessoa que tinha o trabalho faltou! É impressionante como nunca falta o cara que não fez nada, só falta o cabeça que estava com tudo.

Mas o problema maior nem é esse, o problema é que sou professora de coração mole, mesmo sabendo que a pessoa faltou de propósito e que os alunos estão tentando de qualquer jeito ganhar uns dias a mais para produzir os trabalhos, eu acabo dando uma nova chance. Tiro uns pontinhos e marco a nova data, e é exatamente aí que começam os problemas.

Quando chega a nova data o fulano que tinha faltado e que estava com o trabalho vai logo se justificando: professora, ninguém me avisou que você tinha deixado apresentar atrasado, então não trouxe o trabalho! Mais uma vez o coração amolece e, embora por dentro eu esteja querendo matar um, pergunto quando eles podem apresentar. Mais uma vez eles usam toda a sua criatividade para me tirar do sério: ah professora, agora vou ter que fazer de novo, como eu achava que não ia poder apresentar eu dei pro meu irmão brincar, ou então a moça que trabalha na casa jogou fora. Enfim, as desculpas são muitas, mas a clássica não muda: meu cachorro comeu.

Sempre tive pavor de aluno que põe a desculpa do trabalho no cachorro. Quando algum aluno tenta usar essa comigo eu falo logo que nem os meus professores de ensino médio caíam mais nessa desculpinha. Alguns batem pé, juram pela própria vida, mas não adianta, acreditar nessa desculpa é muito difícil.

Outro dia, chegando do trabalho, estava tão cansada que não guardei minhas coisas onde normalmente guardo, acabei deixando no chão da sala. Fui falar com meu filho e acabei me distraindo enquanto brincava com ele. Em questão de minutos eu lembrei da mochila aberta no meio da sala e quando fui olhar, pasmem, a cachorra estava comendo a ponta das atividades que estavam para fora.

Parece mentira, levei um tempo para acreditar no que estava acontecendo, mas aconteceu. Agora confesso estar enrolando para devolver as atividades dos alunos corrigida, digo que ainda não deu tempo de corrigir, mas essa desculpa não vai durar por muito tempo, uma hora vou ter que arrumar o melhor jeito de olhar para a cara de todos e dizer: a cachorra comeu o trabalho de vocês. 



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sexta-feira, 12 de outubro de 2018

PRESSÃO >> Paulo Meireles Barguil

"Quando eu fui ferido
Vi tudo mudar
Das verdades
Que eu sabia
[...]
Não estou bem certo
Se ainda vou sorrir
Sem um travo de amargura"
(Guilherme Arantes, Meu mundo e nada mais)

Algo importante: para você ou para outra pessoa?

Há uma meta a ser alcançada?
 
Ou é o caminho – melhor dizendo, o andarilho – que interessa?

Se optar pela primeira, a insatisfação e a pressão serão constantes, variando apenas, se for o caso, a intensidade.
 
Se escolher a segunda, é possível o crescente prazer fruto da tranquilidade de quem conseguiu, após tirar as pesadas armaduras, encontrar a sua ferida alma, pois aquelas não conseguem protegê-la, nem permitem que ela baile.
 
Sonho que a criança e o adulto descubram que cada um carrega o que o outro tanto busca em diversos espaços-tempos.


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quarta-feira, 10 de outubro de 2018

EU. E VOCÊ? >> Carla Dias >>


a) Eu fui, muitas vezes, quantas eu não saberia dizer. Fui sem saber direito no que daria. Houve vez que deu em coisa boa, em outra, nem tanto. E você?

b) Eu usei! Pode acreditar, usei. Não usei mais de uma vez, mas tudo bem. Foi interessante, revelador, quente. Eu me senti meio aprisionada. Talvez eu use novamente, mas sabe como é? Depende muito do quando e do onde. E você?

c) Olha, eu saboreei... acho que esse é um bom verbo para descrever o que senti. O que senti? Frenesi, desolação... pois é, veio a desolação junto. Mas acontece... conheço quem passou pelo mesmo. Mas o interessante é que a desolação era porque não havia quem sentisse comigo, naquele momento. Tem coisa que não é para se saborear sozinho, ainda assim, dá gosto, aprecia-se. E você?

d) Ah, eu dei, e muitas vezes. Teve quem achasse isso muito absurdo. Onde já se viu eu dar desse jeito? Como assim eu sair por aí dando? Então, eu dei foi um tempo. Mas depois, dei mais algumas vezes. É meu, não é? Não interessa para quem dou, se sou paga ou não por isso. Agora, descabelei... saio por aí e dou mesmo! E você?

e) Descobri, recentemente, que fazia errado, acredita? Achei que tivesse acertado nas outras vezes, que aquilo tinha sentido, que a matemática estava certa... pura bobagem. Passei tanto tempo construindo o que não me cabia construir que me esqueci de aprender a fazer direito. Porque tem de aprender, sim! Aprender a fazer direito é colocar-se à disposição do que isso provoca. Daí que fiz isso - de me permitir ser tomada por, em vez de tomá-lo - há pouco. Tem gente que entende isso tão rápido, né? Eu demorei uma vida... tudo bem. O que importa é que agora faço de fato. Pode até não ser direito e com bons resultados, mas é de fato. E você?

f) Daí que eu me permiti, acredita? Assumi o risco e compreendi ser a única responsável pelas consequências. Claro que fiquei me perguntando se iria, como em muitas ocasiões, errar a mão. Mas me permiti, porque é permissão que ninguém mais poderia me conceder. Não interessava mais se me faria mais bem do que mal, apenas que faria. Eu precisava da emoção de colocar em prática o que essa permissão me oferecia. Dei um dane-se para os meus medos e escolhi. E você?

g) Eu.

h) E você?

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Independentemente do que você pensou, as respostas: 
a) balada para dançar    b) cachecol    c) uma garrafa de Bolla Valpolicella    d) meus livros    e) amar    f) escrever o primeiro texto de dramaturgia
g) mas nem sempre a mesma    h) sempre bem-vindo para uma xícara de café e uma boa conversa
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Imagem: Dans le gris © Wassily Kandinsky

carladias.com




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sábado, 6 de outubro de 2018

SALVE, SALVADOR >> Sergio Geia



Descemos no Aeroporto Luís Eduardo Magalhães, região metropolitana de Salvador, pouco depois do almoço, e tão logo coloquei os pés na capital baiana, uma voz começou a me cantarolar coisas no ouvido. A insistência foi tamanha que mesmo antes de pegarmos as malas eu já cantava: “Ah, que bom, você chegou, bem-vindo a Salvador, coração do Brasil...” Mesmo no carro da amiga da minha namorada que veio nos buscar, enquanto as duas conversavam altos papos sobre a vida, eu me via, vez ou outra, balbuciando baixinho palavras, coisas do tipo: “Ah, que bom, você chegou, bem-vindo a Salvador...”
Como um chiclete que gruda na sola do sapato e não sai, eu estava bem musical, bem axé, diga-se. Talvez só tenha parado de cantar e me silenciado quando deitamos nossas coisas e nossos corpos na praia de Vilas, e aí, quem cantou foi o mar, num espocar de ondas macio e sonolento. Acordamos com uma boa batida de limão, camarões, acarajé, que lindas baianas vendiam no mesmo lugar em que alugavam cadeiras.
Perambulando pelo centro, bati os olhos numa placa que indicava “Praça Castro Alves”; a lembrança foi instantânea: ”A Praça Castro Alves é do povo, como o céu é do avião”. Digo que a praça me acompanhou até o Pelourinho, quando foi substituída, entre fitinhas coloridas no braço, de Nosso Senhor do Bonfim, e baianos ambulantes vendendo de tudo, pelo clássico: “Salve, Salvador, me bato, me quebro, tudo por amor, eu sou do Pelô, o negro é raça, é fruto do amor, salve, Salvador...”, e mesmo numa feijoada carioca, lá estava ela: “Salve, Salvador...”, grudada nas entranhas, que até acho ter percebido um certo desconforto de minha companheira, talvez já cansada por ter uma vitrola ambulante, uma espécie de spotfy baiano ao seu lado.
Mas não me dei por vencido. Diga-me, amável leitor, com sinceridade: como passar uma tarde em Itapuã e não me lembrar dela? Ah, meu querido, impossível. Mesmo com um mar não tão limpo, mesmo com pessoas estranhas dançando funk na areia, embaladas por um som de estourar os ouvidos, em meio a coqueirais, sol, mar e água de coco, numa tarde belíssima, digna de cartão postal, timidamente eu comecei, mas logo já cantava a plenos pulmões: “Passar uma tarde em Itapuã, ao sol que arde em Itapuã, ouvindo o mar de Itapuã, falar de amor em Itapuã”, e mesmo no táxi, quando ela dormia, lá estava eu cantarolando baixinho, ainda emocionado com a beleza da vida.
Trago boas recordações dessa viagem, que ocorreu há mais de dois anos. Hoje, porém, ela me veio, e esses detalhes que me chegaram como notas musicais; você entende.
Ainda que tenha sido surpreendida por esse meu lado excessivamente axé, disse a ela, tentando contornar um pouco o constrangimento da situação, sem muito sucesso, é verdade, que a música torna a vida mais colorida, que não há nada mais energizante que cantar. Vivemos bons momentos e não será um repertório baiano de um cantor amador que irá apagá-los ─ ainda que não me saia da cabeça seu olhar felino ao me ver encarar São Paulo de cima e, com saudades, balbuciar: “É sempre lindo andar, na cidade de São Paulo... lembra dessa?”





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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

JÁ VI ESSE FILME >> Zoraya Cesar

A noite fora quente como uma fornalha do inferno. Os diabos estavam soltos e animados. Alguns tentaram esquentar meu couro, mas mandei-os de volta para o tártaro. Não estava a fim de conversa. Nunca estou a fim de conversa. Cheguei ao meu apartamento, peguei um saco de gelo para botar nos machucados e tomei um analgésico. Preciso parar de ser tão reativo. Com a idade a aparência custa a voltar ao normal e eu não podia visitar o cliente do dia seguinte com a cara toda amassada. Não pega bem.

Por mais cínico que eu tenha me tornado após esses anos de profissão, às vezes ainda me surpreendo com a imbecilidade de certos tipos. Creio que alguns simplesmente pedem para serem enganados. Depois me contratam para consertar o erro. Pra mim, quanto mais idiotas, melhor.

Vejam esse meu novo cliente, Dr. Tarcísio Dum Fruklost. Empresário rico, família tradicional, viúvo, todos os filhos espalhados pelo mundo, gastando o dinheiro que seus antepassados suaram muito para conquistar. Cansado da solidão, decidiu casar de novo, aproveitar as delícias do matrimônio antes que D. Morte o tomasse por esposo. Poderia ter escolhido alguém de seu nível social. Uma dama. Ou uma mulher mais madura, mais compreensiva quanto às suas limitações sexuais. Mas não. O velho sátiro resolvera casar com uma mulher quase 50 anos mais nova, apresentada por um 'amigo'. Folhetim brega e batido. As pessoas não aprendem. Pois, claro, depois de alguns meses, boatos surgiram questionando a fidelidade da jovem esposa. Dr. Tarcísio calou os boateiros mediante algumas ameaças, algumas pressões, algumas chantagens. Mas o veneno fora instilado. E ele me contratou.

Meu contratante era ainda forte. Tinha as espáduas largas de quem passara a vida nadando contra a corrente, a postura ereta dos que estão acostumados a mandar. Os olhos fulguravam com o brilho característico dos homens que sabem lidar com a malícia do mundo – e se servem dela muito bem. O tempo, no entanto enfraquece até os leões mais resistentes. E a fera perde a força de ataque, o instinto matador e, pior, seu lugar de macho alfa. A única maneira que vira para tentar frear, ou, ao menos, diminuir a marcha célere ladeira abaixo, fora casando com uma mulher capaz de fazer os outros homens virarem os olhos – e muitos, como ele próprio, também a cabeça.

Ele começou a mostrar fotos e vídeos. Quase soltei um palavrão. A mulher era uma enviada do demo. O próprio Asmodeus deve tê-la expulsado dos infernos a fim de que ela não o destronasse e dominasse os outros diabos. Confesso que, até então, pensei tratar-se de uma piranha vulgar. Dessas coitadas que encontramos em bares bem depois das altas horas, experts em saber escutar e fingir que o maior desejo de suas vidas miseráveis é abrir as pernas para que homens encharcados de bebida e desolação encontrem um pouco de calor humano. Eu sei. Já fui um desses homens.

Mas ela! Ela estava longe disso. Laura era seu nome e, mesmo vista na tela, sua presença era tão magnética que quase pude sentir seu perfume. Uma mistura de dama da noite com tabaco. Era cheia de curvas, todas sensuais, seios que saltavam da roupa, pura luxúria. E tinha classe. Movimentos comedidos, sorriso discreto e olhos profundos. Senti um arrepio. Aqueles olhos pareciam penetrar em você e dominar sua mente. Os cabelos castanhos, longos e ondulados emolduravam um rosto branco leite, que meu deu vontade de beber e...contive-me. Mais um pouco e eu estaria babando na frente do marido. Percebi o fascínio que ela exercia sobre os homens. Dr. Tarcísio, por experiente que fosse, não era páreo para ela. Ninguém era.

- Não quero escândalos nem provas de adultério para fins de divórcio. Quero apenas que Laura se sinta constrangida a não me trair por aí. É muito humilhante para um homem como eu. Estou velho, mas ainda tenho algum poder. E há quem possa usar as escapadelas de minha esposa contra mim. O senhor entende?

Sim, pensei, entendo muito bem. O pobre diabo estava viciado nela, como o enfisematoso ao seu tubo de oxigênio, o drogadicto à sua injeção de heroína E o desgosto de ser passado para trás, de ser visto como um corno manso no final da vida, eu também entendia. Quem foi rei não gosta de perder a majestade. Por isso eu jamais quis ser o fodão. Ninguém quer competir comigo para pegar o meu lugar. Nos westerns, sempre tem um novato idiota disposto a desafiar o pistoleiro lendário para provar que sacava mais rápido. Assim também na vida. Daí que escolhi andar pelas sombras. Você lida com gente mais perigosa. Mas se acender a luz todo mundo foge.

Dr. Tarcísio podia ser o maioral pra sua gente, os grandalhões do mercado, das finanças, do que fosse. Mas, para o comum dos mortais, não passava de um paspalho. Qualquer marciano lhe diria que uma mulher fogosa daquelas não se conformaria com sexo mixa nem seria constrangida a coisa alguma. Essa tentativa canhestra de manter a dignidade fazendo-a perceber que estava sendo seguida e impedi-la de dar o corpo para quem quisesse era risível. Dr. Tarcísio era digno de pena. Como não tenho pena de ninguém, cobrei um valor bem mais alto do que costumo cobrar para esse tipo de serviço. “Taxa otário”, como chamo.  

Minha fiel USP Heckler & Koch.
Nunca me falhara.
Confiava mais nela que em mim mesmo.
Passei num bar de nenhuma categoria, tomei duas doses de um uísque que deve ter sido batizado com água de privada, e fui andando para casa. Ao chegar, parei, peguei minha Heckler & Koch USP e empurrei a porta, tão delicadamente quanto meu estado etílico permitia, a porta entreaberta que eu deixara trancada ao sair.

O perfume de dama da noite com tabaco chegou aos meus sentidos antes mesmo de eu entrar. Acendi a luz. Lá estava ela, sentada no meu sofá como se tivesse feito isso a vida inteira. Sentada não. Lânguida e sensualmente recostada, olhando-me de soslaio, o cigarro nas mãos.

- Se vai apontar a arma – ela ronronou, como uma onça ao vislumbrar a caça – é melhor atirar.

Meu coração tentava saltar pela boca e cair nos braços dela. Engoli saliva diversas vezes, até colocá-lo de volta no meu peito. Então era esse o jogo. A pequena demônia fora mais esperta. Em vez de o detetive segui-la, ela seguiria o detetive.

Seduzindo-me, poderia continuar a trair o marido sem ser perturbada. Ele ficaria sossegado. Eu ganharia meu dinheiro. E mais que isso.

Sairíamos todos ganhando.

O problema é que no jogo da vida não existem partidas em que todos saem ganhando. Acreditem em mim. Sei do que estou falando. As mais das vezes, os otários perdem, e um único esperto se dá bem.

Largada no sofá de minha sala,
Laura testava o poder de seu fascínio sobre mim.
Aquela mulher exercia uma atração animal estonteante. Exalava feromônio até pelos cabelos. Cada movimento seu era naturalmente sedutor. Guardei a arma; não era de um revólver o que eu precisava, mas de cabeça fria. Já vira esse filme antes. O herói se dá mal. Ela me usaria, aniquilaria com a minha auto-estima, pisaria em todos os meus escrúpulos, me reduziria a um escravo de suas vontades, um viciado em seu corpo, rastejando para que ela me desse um olhar que fosse. Laura poderia transformar o mais espartano dos homens em um estulto lastimável. Já vi esse filme antes. 

Ela bateu as cinzas do cigarro na própria mão e soprou-as em minha direção. Amigos, aprendam: nenhuma mulher é tão perigosa quanto aquela que coloca dor e prazer no mesmo pote. A experiência me ensinou que, mais importante que saber usar uma arma, era conhecer a natureza humana. Isso podia ser a diferença entre a vida e a morte. Fechei a porta. Tirei o paletó. Aproximei-me e beijei-a selvagemente, apertando meu corpo contra o dela.

Gosto do que faço. É o que sei fazer melhor. Não suporto patrões, horários rígidos, rotina. Meu trabalho é cansativo; muitas vezes, arriscado; nem sempre paga o suficiente. Gosto também de testar meus limites. Correr riscos. Desafiar o abismo. Talvez, dessa vez, eu conseguisse mudar o final do filme.

Outra aventura da série Detetive Sem Nome: 

Foto Laura: Rudy Nappi - Pinterest
Foto Heckler & Koch USP (universal self-loading pistol)
https://www.guns.com/reviews/heckler-koch-usp-compact/


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quinta-feira, 4 de outubro de 2018

TIOZÃO>>Analu Faria

Eu não acreditava que era ele. Havia engordado. Tinha as bochechas levemente caídas. Camisa polo gasta, para fora da calça. Um corte de cabelo estilo tiozão. Cabelos brancos, muitos. Olhos cansados, sem vigor, testa franzida, uma papada. A postura denunciava tristeza, talvez desânimo. Sono? No melhor dos casos. Foi o tempo ou o serviço público? Eu quase perguntei. Seria indelicado, né? Vai que foram os dois.

Lembrei-me da última vez que o vi, há uns quatro anos. Ele já havia mudado um pouco, mas não tinha aquela cara de pai de família, de servidor público que esquece os sonhos à medida que bate o ponto. Já naquela época eu me assustava com o que o mundo fazia das minhas expectativas. Aquele homem não podia envelhecer, mas envelhecia. Envelheceria. Havia envelhecido, como eu agora constatava. Olhava o reflexo dele no metal da porta do elevador e via um borrão. Imaginava o homem se desmanchando em velhice, derretendo pelo chão em peles moles, gordura e cabelo branco.

Olhou para baixo. Tinha vergonha? Não me cumprimentou, mas certamente me vira. Logo levantou a cabeça de novo. Mexeu com as mãos, um gesto de impaciência. Fechei as mãos em torno da alça da bolsa, trazendo-a para a frente o meu corpo. Só percebi o movimento depois de fazê-lo. Alguns segundos depois o elevador chegava. Eu agora via a mim e ao homem pelo espelho, sem borrão. Até que assim, meio caidinho, sem tanto sex appeal, ele parecia mais meu número do que naqueles tempos.


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sexta-feira, 28 de setembro de 2018

PERSPECTIVA >> Paulo Meireles Barguil


"Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle"
(Adriana Calcanhoto, Esquadros)


Diante da vida, abro ou fecho os olhos?

O que eu quero ver?

O que eu não desejo enxergar?

Qual é a qualidade da minha visão: hipnótica ou contemplativa?

O que preciso fazer para perceber melhor: aproximar-me ou distanciar-me?

Até quando evitarei fitar a minha cegueira?


[Fortaleza de Santa Cruz da Barra – Niterói]

[Foto de minha autoria. 16 de maio de 2010] 


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quarta-feira, 26 de setembro de 2018

SIMPLICIDADE >> Carla Dias >>


Ontem assisti a um daqueles filmes que tanto aprecio. Um filme sobre personagens, com certa leveza e a melancolia que cabe na biografia de qualquer um ao enfrentar dilemas, inseguranças, frustrações e até mesmo alegrias.

Esse filme me levou a pensar na simplicidade com mais simplicidade. É que, em algum momento, até ela, a simplicidade, torna-se complexa. É feito o tempo, algo que é nosso e do qual sentimos falta, o tempo todo. Ele nos faz redundantes no dizer, mas não na questão. Falta-nos tempo para sentir o tempo, porque estamos sempre na correria, lidando com mil coisas e tantas urgências. Não importa que boa parte disso vá nos levar a lugar nenhum, nem mesmo que a nossa energia desfaleça nessa jornada de buscas, continuamos a preencher o tempo com a falta que ele nos faz.

O filme me fez lembrar da simplicidade de ser. Por exemplo, relembrei quando peguei no colo, pela primeira vez, cada um dos meus sobrinhos. Do abraço da minha mãe, no dia em que mudei de casa. A primeira vez que escutei aquela canção. Lembrei-me das gargalhadas das minhas primas e irmãs, durante uma conversa regada a café. E dos amigos... do que admiro em cada um deles, aquele aspecto que me faz ser grata por tê-los em tão grato sentimento, porque amizade é laço de construção; é compreensão e muitas, mas muitas discussões.

Então, que me deu uma saudade imensa da simplicidade. Pensei sobre há quanto tempo não coloco os pés na água de um rio, não vejo o pôr do sol, não tomo banho de chuva ou vou ao cinema. A lista foi crescendo e me peguei comentando comigo mesma: não é tão simples assim.

Porque não é tão simples assim.

Isso não quer dizer que a simplicidade esteja fora do catálogo da minha vida. Alguns hábitos me remetem a ela. Chego mesmo a considerá-los privilégios, de tão raros que são, porque demandam tempo e uma mente disponível para essa viagem. O observar – pessoas e paisagens. Escutar – músicas e vozes. Ler – livros dos amigos e dos que despertam minha curiosidade. Aprender – idiomas e biografias.

A cada dia, deslumbro-me mais ainda com o desalinhado. A estabilidade no caos, a intranquilidade no definido, a proximidade na distância. A cada dia, a vida me ensina um pouco mais sobre a simplicidade que há nesse emaranhado de complicações que abraçamos, diariamente. Na verdade, as viagens que fazemos pela biografia dos nossos afetos, ela é uma busca pela simplicidade do sentimento que temos por eles, apesar de tudo que se opõe a tal afeição.

Não panfleto que sou a simplicidade em vida, porque seria uma boa de uma mentira. Porém, nunca negarei meu apreço por ela, nem mesmo que acredito que ela seja uma daquelas pausas de nós mesmos, elas tão necessárias.

Eu sou assim... um bom filme me faz pensar na vida, leva-me ao questionamento. Gosto de ser assim, porque inflexibilidade só faz enrijecer o espírito, e eu prefiro o meu livre.

Imagem: Neighborhood of a Bare Mountain © Ryu Kyung-chai

carladias.com



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terça-feira, 25 de setembro de 2018

FACEBOOK RAIZ >> Clara Braga

Escrever em porta de banheiro é algo que sempre existiu. Lembro bem do banheiro da escola, você ia lá fazer um xixi e ficava lendo as assinaturas das pessoas que, por algum motivo, levavam canetas ou liquidpaper no bolso quando precisavam utilizar o sanitário. Era uma chuva de *Marina_Linda*, =]Paulinha, Aninha-gata e Carolinda ;). Quando rolava briga uma ia lá para apagar o nome da outra. As mais ousadas riscavam o nome e escreviam algum xingamento, mas no geral era só apagar mesmo.

Às vezes, quando a porta ficava muito suja, a diretora tentava identificar as donas dos apelidos e ameaçava colocar para limpar, mas a desculpa era sempre a mesma: não fui eu que escrevi, alguém que foi lá e escreveu meu nome para me prejudicar. E assim os banheiros ficavam cada vez mais repletos de assinaturas.

Em tempos de Twitter imaginei que as portas haviam ficado esquecidas, mas em experiência recente descobri que elas apenas foram reinventadas. A porta do banheiro é o novo mural do Facebook e as regras de uso são basicamente as mesmas, levando em consideração apenas pequenas adaptações para suprir a falta de tecnologia do banheiro.

Pelo que observei, funciona mais ou menos assim: você entra no box e olha para a porta fechada a sua frente, naquele espaço vazio da porta imagine que tem a pergunta: no que você está pensando? Então, certifique-se de que levou um canetão e coloque para fora sua angústia, já que no banheiro não precisamos fingir estarmos sempre felizes.

Na ocasião que eu acompanhei no banheiro de uma universidade recentemente, a pessoa que usou fez um protesto, pediu que as mulheres fizessem xixi sentadas para não molhar o vaso. Uma pessoa que usou o mesmo box depois não gostou nada da colocação da primeira pessoa, deixando claro que os haters não são exclusividade do mundo virtual. Ela puxou uma seta, símbolo que no mundo do banheiro significa que ela está respondendo diretamente para aquela pessoa, ou seja, é a função do @ nos grupos do whatapp, e disse: não sento pelo mesmo motivo que não enfio a boca em bebedouros públicos, deixa de ser nojenta!

A primeira pessoa com certeza era frequente no banheiro, pois viu a resposta e não deixou barato, mesmo não tendo mais espaço na porta ela puxou uma nova seta para uma parte lateral e respondeu: sua burra, boca é diferente de bunda, tem mucosa!

Não sei se a outra pessoa respondeu depois pois não passei mais pelo banheiro, mas confesso ter ficado curiosa já que observei que as pessoas estavam se manifestando e tomando partido em uma briga que nunca saberemos quem são os envolvidos, já que no banheiro não dá para criar perfil. Para colocarem seus comentários as pessoas também puxaram setas e escreveram coisas como: apoiado! E para suprir a falta de emojis do mundo do banheiro usamos as onomatopeias, como fez uma pessoa que deve ter sentido falta das mãos batendo palmas e então escreveu clap, clap, clap.

Não imagino essa prática virando moda, as pessoas estão tão imediatistas que deve ser difícil segurar a emoção de esperar a hora que a pessoa vai ao banheiro, vê a resposta e escreve uma outra resposta. Esse processo deve levar alguns dias e até lá corre o risco das pessoas nem lembrarem mais pelo que estão brigando. De qualquer forma, sempre que preciso usar um banheiro público procuro mais desses diálogos para ver se eu consigo entender um pouco mais desse universo que eu decidi chamar de Facebook Raiz.





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sábado, 22 de setembro de 2018

A PRIMAVERA >> Sergio Geia



Hoje pensei em escrever sobre ela. Lembra aquela música do Beto Guedes: “Quando entrar setembro, e a boa nova andar nos campos”? Ela me é tão inspiradora, ainda que setembro já esteja quase no fim.
Desci para tomar café na Tábua de Frios, e aproveitei para olhar árvores (sabia que o Brasil é o país mais arbóreo do mundo? Ouvi isso outro dia no rádio), da Professor Moreira à Santa Teresinha; queria encontrar alguma coisa, um toque primaveril a me inspirar. Fiquei olhando pessoas para encontrar uma alegria diferente, quem sabe um brilho nos olhos, até a mulher que se esqueceu de pagar a água no caixa eu perscrutei, ou a senhorinha de cabelos de algodão com seu cão que encontrei na calçada.
Depois, já em casa, escovei os dentes, e fui à sacada em busca de sinais, uma flor se abrindo, orquídeas, por exemplo. Dizem que aparecem folhas novas na acerola, ou na laranjinha do mato, mas não há acerolas e laranjinhas do mato por aqui. Brotos, talvez. A despedida do inverno, a secura triste indo embora, o cinza da manhã dando lugar ao azul recém-inaugurado.
Mas como eu queria.
Encharcar de poesia e colorido este Crônica do Dia de hoje, afinal, primavera é primavera, tempo de renovação (dizem), de luz e calor, de cor e perfume. Examinei a Mantiqueira que se insinua para mim, tentei uma luz diferente. Agucei ouvidos em busca de cantos novos, um bem-te-vi, quem sabe. Fotografei ipês na JK.
Nem luz, sol, cor, como falam por aí. Nem alegria, paixão, tesão, renovação eu encontrei, a mesmice de sempre (aliás, o centro da cidade hoje estava um horror de tanta gente; depois dizem que brasileiro não tem dinheiro). Nem amor, calor, humor, nem um certo desespero em flor, como na canção.
Talvez sejam os meus olhos despreparados, o coração cerrado. Talvez precise de uma Ananda Apple a me ensinar.
Dizem que a tal chega ainda hoje.
Por ora, pelo menos aqui, sem sinais.

P.S.: Ok, ok. Para espantar o mau humor, que tal essa lindeza do Zé Miguel Wisnik?




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sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O BAR DO FIM DO MUNDO >> Zoraya Cesar

A ESPELUNCA - O bar ficava escondido no meio de um matagal, e seu acesso era difícil, invisível a quem passasse na estrada. Distava muitos quilômetros da cidade mais próxima e não era um local bem afamado. Sexo, jogatina, bebida, algumas drogas, negócios escusos, diziam, eram tolerados, desde que não houvesse baderna – o dono do bar, que nunca fora visto por vivalma, mas que era temido exatamente por isso, se é que me entendem – não gostava que estragassem a mobília de plástico, o balcão de madeira carcomido, suas caixas de som Yamaha CIS. Em caso de contendas ou desavenças, a turma do deixa-disso e a turma do que-se-dane davam um jeito. Diziam também que, de vez em quando, gente desaparecia por lá, gente sem importância, que ninguém se preocupava muito em procurar. Boatos, claro, o mundo anda cheio de fake news. E isso só aumentava a aura mítica do bar. 

Essa fama – e também a comida razoável, a bebida barata e o som dançante - atraía não só o pessoal do submundo, mas também gente comum, simples, até - caminhoneiros, comerciárias, motoristas, um ou outro roceiro mais abastado. E também pessoas de extratos sociais mais elevados. Tinha de tudo. Todos querendo um pouco de diversão, um pouco de sexo, um pouco de perigo. (Quem não dá valor à própria vida gosta de arriscá-la.) Qualquer um era bem-vindo, desde que por sua conta e risco, como deixava claro o aviso acima da porta: 

Cuida da tua vida que aqui ninguém vai cuidar.
O que acontece aqui fica por aqui. 

O ANASTÁCIO* - Rinaldo entrou, confiante, as botas lustrosas, a fivela do cinto brilhando, camisa justa o suficiente para mostrar quão musculoso era, calça apertada o bastante para delinear a bunda redonda (que ele cria ser igual à do Mel Gibson). Passara quase um ano procurando por aquele bar, até que, do nada, um motorista de caminhão lhe dera a dica. 

Ansioso por provar aos amigos que era um cara descolado e destemido, Rinaldo foi, sem pensar duas vezes, sem avisar ninguém (vai que não o deixassem entrar, ou não encontrasse o lugar, ou tudo não passasse de embromação. Seria humilhação demais, melhor contar depois). 

Procurava, os olhos ávidos, o pau faminto, por uma mulher disposta a passar alguns momentos com ele. Uma conversa de cerca-lourenço, uma bebida, uma dança, uns chamegos e depois um vamos-ver no final da noite. Se ela fosse bandida, procurada pela polícia, melhor - teria uma história ainda mais excitante para contar. A uma mulher comum ele tinha acesso na vida diária. Queria algo diferente, emocionante. Desfilou o corpo pra lá e pra cá, naqueles passos de pavão em época de acasalamento. Sentou-se, finalmente, bebendo uma cerveja, impressionando com o ambiente, feliz consigo mesmo: sentia-se um verdadeiro outsider

Passou os olhos por seus colegas de bar. Os que não estavam dançando espalhavam-se pelas mesas, jogando, conversando, fumando, e, alguns, namorando. Gente normal, pensou. Um ou outro tinha cara de procurado vivo - ou, de preferência, morto -, mas eram exceções.

A noite aprofundou-se, densa e irascível, às duas da manhã, soprando ventos gelados, ameaçando temporal. Quem estava fora, entrou. O bar ficou mais cheio, naturalmente; o ar, mais abafado; o burburinho, quase ensurdecedor. O forró foi trocado por uma espécie de sertanejo ensino-médio, tocado em altos decibéis. Rinaldo estava cansado. Eles devem tomar estimulante na veia, para estarem tão animados até agora. Cansado e decepcionado. Não se divertira, não vira “nada de mais”, de pitoresco ou perigoso que justificasse a fama do lugar e, pior, não conseguira ficar com ninguém. Tomara cinco cervejas, estava meio tonto. Preparava-se para ir embora, quando uma mulher sentou-se à sua frente. 

ENCONTROS E DESPEDIDAS - Não era, exatamente, bonita, nem, olhando mais de perto, muito jovem. Nada em sua aparência era destinado a seduzir: os traços eram irregulares; os cabelos, curtos; vestia-se com sobriedade, toda de preto, sem decotes ou pernas de fora. Era muito magra e muito pálida. Mas emitia um sex-appeal inexplicável e irresistível. 

Ela começou a conversar, a voz melíflua e cantante, mesmo por cima da algazarra. Rinaldo encantou-se. Nunca uma mulher fizera tantas perguntas sobre sua vida, nem tecera comentários tão elogiosos à sua aparência, nem demonstrara tão evidentemente que estava a fim dele. Seu cansaço desaparecera. Dançaram, riram, beijaram-se. “Vamos beber alguma coisa antes de sair”, sussurrou ela em seu ouvido. Rinaldo, obediente como uma ovelha resignada, concordou. Beberam mais duas cervejas – ela acariciando o pau de Rinaldo por debaixo da mesa; ele, em estado de graça. Em estado etílico. Em estado de sono irreprimível. Em estado semi-inconsciente.
A sedução só funciona
quando o ego da vítima
é grande. Ou frágil.


Debruçado na mesa, a boca aberta, dormia o sono dos drogados. Ao discreto sinal de cabeça da mulher, dois homens apareceram (um deles, o caminhoneiro que ensinara a Rinaldo como chegar ali) e carregaram o corpo inerte para fora. Ninguém reparou, e, se tivesse reparado, não teria estranhado – era normal bêbados serem levados pelos amigos; e, também, ali cada um cuidava da sua vida. Essa era a regra. 

Jogaram o corpo numa van e partiram. A mulher acendeu um cigarro. Esse aí vai ser bom. Saudável. Forte. Devem aproveitar todos os órgãos. Mais uns cinco desses e posso me aposentar. Apagou o cigarro, raivosa, com o pé. Preciso largar desse vício desgraçado. E voltou para o bar. Estava com fome. 


*anastácio – gíria para designar otário
http://www.paginalegal.com/2008/02/04/girias-do-submundo-do-crime/

foto: pinterest 





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quinta-feira, 20 de setembro de 2018

RUBEM ALVES E O MARCA-TEXTO>>Analu Faria

Tive o privilégio de assistir a uma palestra do Rubem Alves, há muitos, muitos anos. Na palestra, o autor contou uma história da qual não me esqueço: a de quando um estudante disse a ele - Rubem Alves - que os professores  dele - estudante - usavam os textos do escritor em sala de aula. Empolgado, Rubem Alves pergunta: "Ah, é? Como vocês trabalham o texto?" e a resposta broxante : "Grifamos os dígrafos e encontros consonantais."

Tempos depois eu me tornei professora de inglês e lidei com muitos dígrafos e encontros consonantais. Eu achei que ia ser muito interessante, mas, sabe, quando você dá aula, às vezes não dá para dar muita bola para o lirismo. Quadro branco, lição para corrigir, e, como eu não sou uma falante nativa, ainda havia mil regras e sons que eu tinha de prestar atenção para não errar. Meu primeiro emprego vinha com uma grande caneta marca-texto e um monte de coisas para grifar.

Um pouco depois de começar a dar aulas, fui morar sozinha. Achei que seria uma coisa muito poética, aventureira, vanguardista, especialmente no começo dos anos 00 numa cidade do interior de Minas, onde as mulheres só saíam de casa quando se casavam. Houve uma certa poesia sim, mas o que eu mais tinha comigo eram dígrafos e encontros consonantais. Se o cheiro do café é lírico, esquentar a água, passar o café, lavar a louça eram a porcaria dos digrafos e encontros consonantais. Não que eu não passasse o café quando morava com minha mãe, mas é que quando você tem 23 anos e se aventura a fazer algo que ninguém mais faz, é fácil achar que as coisas chatas do cotidiano se transformarão magicamente em poemas do Manoel de Barros.

À medida que a vida prossegue,  dá para perceber que a gente não vai conseguir fugir dos dígrafos e encontros consonantais. Aliás, é o que mais vai ter. Vai ter também colocação de hífen, voz passiva - sintética e analítica - vai ter vírgula, crase, adjunto adnominal, vai ter oração subordinada substantiva objetiva direta. E indireta também. Vai ter uma gramática toda no café e na aventura, como sempre teve, como sempre vai ter. Como tem nos textos do Rubem Alves e até nos poemas do Manoel de Barros. Mas se a gente olhar de longe... ah, se a gente olhar de longe... meio que esquece o que é um dígrafo, meio que não lembra mais o que é um encontro consonantal.


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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

SEGREDOS >> Paulo Meireles Barguil

 
 
"Que mistério pode haver
na lágrima de uma mulher
Quando abre os seus segredos?
Que momentos de aflição há
 no tremor da sua mão
Onde esconde os seus medos?"
(Guilherme Arantes, Lágrima de uma mulher)

Quem não os tem?

Eles se dividem em duas categorias.

Na primeira, estão aqueles que somente você sabe, os quais não partilhamos porque, muitas vezes, se originaram de situações que, de alguma forma, lamentamos os frutos e, por isso, nos envergonhamos.
 
Há, também, aqueles que foram gestados na nossa imaginação, quando interpretou os acontecimentos de um modo desfavorável para nós e, assim, nos encolhemos e tentamos nos esconder... 
 
De vez em quando, por uma conjunção de fatores, decidimos mudar alguns sigilos para a segunda categoria e partilhamos com alguém que acreditamos ser merecedor de nossa confiança.
 
Essa personagem costuma ser conhecida, mas, às vezes, a dor, a angústia é tão grande que desabafamos com quem nunca vimos e veremos de novo.
 
Quando o conjunto de sabedores do ocorrido alcança mais de duas pessoas, o oculto ultrapassa o inexistente limite de segurança e se aproxima perigosamente dos bits noveleiros.

Nem tudo que se oculta é de natureza desagradável, pois podemos esperar uma ocasião propícia para revelar algo que nos enche de júbilo.

Vou contar algo para você... eu tenho vários segredos!

E você?
 
 
[Mangal das Garças – Belém]

[Foto de minha autoria. 31 de março de 2006] 


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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

PROJETOS INANIMADOS >> Carla Dias >>


Era sonho na infância. Tornou-se plano na adolescência. Adquiriu caráter de projeto na fase adulta. Cresceu com ela, mas diferente. Há sonho que a gente mantém até o fim, mesmo quando não acredita mais nele.

Ela acha que tem a ver com uma teimosia que não sabe controlar. Há quem diga que é coisa de pessoa doida.

Doida ou nem tão doida assim, era sonho na infância, e ela nunca sonhou sonho na infância com jeito de criança que sonha sonho na infância. Naquele tempo, ela já sonhava desmedido, não do jeito que sonha criança que quer mais é se esparramar numa nuvem de algodão doce.

Mais tarde, no adiante, descobriu que muitas crianças não sonhavam com se esparramar numa nuvem de algodão doce. Algumas delas sonhavam urgências ditadas pela fome, pelo frio e pela solidão oriunda das suas indeléveis misérias.

Quando se tornou plano, a adolescência a levou a embarcar em conhecimento. Sabia de tudo, um tudo frágil, capenga mesmo. Um tudo que servia somente ao imediatismo de quem necessitava se misturar ao mundo. Ela queria abraçá-lo, mas vivia às voltas com as perguntas de sempre:

Cadê os braços?
Cadê o afeto?
Cadê o zelo?
Cadê a importância?

Logo se deu conta de que urgências não respondiam aos questionamentos de cunho existencial, intimamente ligados ao seu plano. Porque o sonho se tornou um plano muito bem arquitetado, alinhado a uns pares de definições qualificadas para atender... ?

Transformou-se em projeto. Coube lindamente em papel timbrado, logomarca idealizada por profissionais, conteúdo redigido por profissionais, com direito à planilha orçamentária confeccionada por profissionais. Todos os envolvidos eram muito competentes e profissionais, como um projeto merece que o sejam.

Mas era sonho, no início de tudo, de quando nos vemos diante do primeiro deles a ser despertado. Como se ele morasse em nós, desde antes de sermos pessoa e esperasse apenas um sinal para se manifestar.

Manifestado, fazemos com ele o que o nosso desejo ordenar. Neste caso, tornou-se plano que se tornou projeto que se tornou inanimado.

Há vida nenhuma nele.


Ela o observa, assim, jazendo sobre a mesa do escritório, devidamente encadernado, espiral, capa preta. Ela o folheia... dezenas de páginas de dedicado esmiuçamento a respeito daquele sonho nascido nela, virado ao avesso ao se tornar plano e requintado ao se tornar projeto. Alguns trechos destacados com marcador, o amarelo fazendo as palavras saltarem aos olhos. Trechos que não lhe despertam interesse.

Assim, sobre a mesa da sala de reuniões, ele é um protagonista. Assim, no coração dela, ele é inanimado. Não há vida ali, onde a vida se fazia em algum antes. Não há viço... há todos os aspectos cuidadosamente analisados, cada passo projetado, todo conforto determinado, o prazer prospectado.

Como se a vida a ensinasse a recuperar fôlego, ela o deixa ali: inanimado, alinhado com o que chamam de evolução de um sonho, mas que, de fato, é a limitação dele, ao menos para ela. Nem todo sonho nasceu para se transformar em projeto de vida. Esse, por exemplo, morreu no meio do caminho, tornou-se outra coisa. Tornar-se outra coisa não é ruim. Aprende-se muito com a transformação. Porém, nem todo sonho existe para dedicação coletiva. É seu, de mais ninguém. É simples, mas tão simples, que parece impossível até sonhá-lo, imagine realizá-lo.

Daí que sonho nem sempre nasce para cair nos braços da realização. Às vezes, não raro, ele nasce apenas para mostrar as prisões que você quer evitar. É assim, feito um lembrete de que pode ser diferente... contanto que haja vida, viço, fôlego.


Imagem: Le rêve © Pierre-Cécile Puvis de Chavannes

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terça-feira, 11 de setembro de 2018

DE REPENTE 30 >> Clara Braga

Sempre gostei de listas, fiz listas minha vida toda! É claro que com o tempo os tópicos vão mudando, a lista dos filmes que eu iria assistir no fim de semana foi substituída pelas tarefas que não foram cumpridas na semana e ficaram para o fim de semana, a lista de livros que quero ler passou a ser a lista de livros que eu preciso ler e a de coisas para comprar com a mesada passou a ser a do que deixar de comprar para economizar. 

Mas se engana quem pensa que todas as listas foram alteradas, ainda tenho, por exemplo, minha lista de shows que quero assistir e locais que quero conhecer, e até 24horas atrás eu tinha minha lista de coisas para fazer antes de completar 30 anos.

Não sei ao certo porque encuquei com os 30, mas tem anos que tenho a lista das coisas para fazer antes dos 30. Desconfio que seja por causa da quantidade de vezes que assisti De Repente 30 na sessão da tarde.

Especulações a parte, praticamente 24horas depois de completar os 30, fiz um balanço e percebi que essa lista foi seguida quase a risca, até os tópicos que eu tinha desistido de cumprir, como ter filho antes dos 30, acabei cumprindo. Agora vou começar a lista das coisas para fazer antes dos 40 e tem um tópico da lista anterior que já decidi manter: não deixar a mente envelhecer. 

Pensando nisso, fui me dar umas roupas de presente de aniversário e achei pertinente ir naquela loja que, em tradução livre, chama-se Para Sempre 21. Gostei de várias coisas, separei algumas, experimentei outras tantas e saí de lá apenas com o segundo tópico da minha nova lista: em consideração com a sua sanidade mental, nunca mais compre nessa loja. O nome dela deveria ser: acabamos com sua autoestima em 21 segundos. Peguei números maiores dos que estou acostumada a usar e as peças não passavam nem pela minha perna! Foi uma verdadeira tragédia, cada nova tentativa de vestir uma peça era um tapa na cara que eu levava me mandando acordar e lembrar que os 21 passaram tem 9 anos.

Mas tudo bem, outra meta dos 30 é não me abalar assim tão facilmente, por isso já ativei meu espírito empreendedor e estou pensando em abrir uma loja chamada De Repente 30 na qual só serão vendidas roupas e acessórios inspirados nos anos 80 e que levarão em conta que grande parte das mulheres brasileiras tem um quadril mais largo, será que cola?


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sábado, 8 de setembro de 2018

COTIDIANO FELIZ >> Sergio Geia



Estou aqui para ajudá-lo. Eu compreendo, sei que gostaria que eu viesse outras vezes, que pode pagar, mas, infelizmente, você sabe, tenho outros amigos que assim como você necessitam de mim. Você compreende? Eu sei, tinha certeza que compreenderia. Prometo que logo este problema estará resolvido; nossa equipe já está desenvolvendo um novo sistema que me permitirá estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Vamos então?
Antes de tudo, abra um vinho. Tinto, de preferência. Comece a degustá-lo com calma, sem pressa. De vez em quando olhe lá fora, veja a rua, as pessoas caminhando, algumas indo para o trabalho, um casal de jovens se beijando. Não, em absoluto! Não se recrimine por buscar na memória aquele beijo roubado na esquina. Isso, acaricie o pensamento, sorria, assim, veja como uma boa lembrança faz bem.
Você quer me contar? Tudo bem, conte, adoraria saber. Entendo, sua primeira namorada, você não sabia como dar o primeiro beijo. Não sabia se falava alguma coisa, como fazer a aproximação, se lentamente, como nas novelas. Decidiu de supetão? Ainda assim foi bom? Compreendo. Ela gostou. E você também. Que bom. Não sabe por que foi se lembrar disso agora, depois de tantos anos? Talvez os jovens se beijando na esquina, aqueles lá, talvez a cena fez você se lembrar.
Vejo que a pia de sua cozinha ainda contém restos do jantar de ontem, pratos sujos, copos, talheres e até uma panela no fogão. Lave-os. Comece pelos pratos, bem calmamente, como num ritual, depois os copos. Entre eles, os pratos e os copos, beba mais um pouco de vinho, assim, depois volte aos talheres. Quando a pia estiver vazia, vá para a panela; nesse caso, use um desengordurante.
Pia limpa, agora sim, venha para a sala, sente-se confortavelmente em sua poltrona de leituras, pegue o jornal. Vejo que gosta do Estadão. Comece pelo Caderno 2, perceba o que os cronistas ─ esses seres iluminados ─ têm a dizer. Enquanto lê uma crônica ─ veja se está ai o Humberto Werneck, ele é muito bom ─, continue a degustar o vinho. Sinta, sinta que delícia é ler algo bacana bebericando uma taça de vinho. Depois da crônica, sugiro que pule para a agenda cultural, veja as cenas que estão rolando. E lembre-se: sem pressa. Para isso, se necessário, imagine uma formiguinha, uma pobre formiguinha andando no quintal, ou um homem sentado na praça sob a sombra de uma árvore. Veja: o mundo andando loucamente, e eles nem aí com a hora do Brasil. Faça o mesmo. Inspire-se.
Acha que a mesa da sala de jantar está um pouco desarrumada? Isso o incomoda? Tudo bem. Arrume-a então. Primeiro guarde os objetos que ficaram esquecidos; vejo-a um pouco entulhada. Tire o pó com um pano úmido. Por fim, estenda aquela toalha de flores verdes e azuis, ponha o vaso com aquela plantinha que você tanto gosta, regue-a, ela ficará mais verde e mais bonita.
Vi que já acompanhou as notícias do jornal na tevê, já assistiu ao esporte, às  notícias de seu time, que, é bem verdade, não anda lá bem das pernas, hora de almoçar? Pois bem. Esquente a lasanha no micro-ondas. Coma o seu almoço com prazer. Há vinho na garrafa ainda? Beba, não se incomode se ele o está deixando tonto, o seu dia está livre mesmo, não há grandes compromissos à tarde. Depois, terminada a refeição, você pode bebericar um licor para ajudar na digestão, vejo que há muitas garrafas em seu bar.
Agora sim, você pode se deitar. Faça a sua sesta costumeira. Sim, pode ligar a televisão, é bom para atrair o sono. Sim, pode fechar as janelas, escureça o quarto. Pijama? Isso o incomoda? Vestir pijama às duas da tarde para dar um cochilo? Pois não se incomode. Vista-o, vai deixá-lo mais confortável.
Depois que acordar, volte para a pia, ficaram coisas lá. Da mesma forma, lave tudo com tranquilidade e já deixe alguma coisa engatilhada para o jantar. Tire um bife do congelador. Prepare aquela saladinha de cenoura e repolho. Faça um arroz bem soltinho.
Separe uma parte do tempo entre a tarde e a noite para a leitura. Como você já terminou o livro que estava lendo, pegue um Machado de Assis. Sim, um clássico. Retorne a Helena, por exemplo, não é o melhor que você vai encontrar na obra machadiana, mas é muito bom também. Ou, se preferir, Memorial de Ayres, um de meus prediletos. Busque coisas novas lá, você vai encontrar.
Bem, eu vou indo. Como parte do processo, essas coisas você vai fazer sem ouvir a minha voz. De todo modo, se precisar, deixei gravado um roteiro-guia. Amanhã eu volto e você me conta como foi. Se precisar de alguma coisa antes, ligue, estarei à disposição.
Bom descanso, bons sonhos.
(No quarto escuro, ouviu-se um estalar seco, como se alguma coisa tivesse se rompido ou desligado; um silêncio absoluto reinou, só quebrado, de vez em quando, por um hiperbólico ruído vindo da cama).


Ilustração: revoada.net/15-rostos-em-objetos-do-cotidiano/


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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

CAMAROTE >>Analu Faria

Vamos acabar com o samba
Madame não gosta que ninguém sambe
Vive dizendo que samba é vexame
Pra que discutir com madame?
(João Gilberto)

       
    Na roda de mulheres de pés descalços, ela se destacava. No parque, um sol de rachar, às três da tarde, ela calçava um tênis de cano alto, de couro, preto. Não era de mau gosto, não, muito pelo contrário. Só parecia quente como o inferno. A moça também tinha maquiagem - rímel, delineador, lápis, blush, batom. Chegou tímida, uns olhões esbugalhados de criança curiosa: 

       _ Desculpa, cês tão falando do quê, mesmo?

     Via-se que havia saído da roda de amigos que fazia um piquenique ali perto, um círculo de homens e mulheres que se vestiam à moda das festas de bebida que pisca, esse pessoal que frequenta o camarote. O dia estava tão bonito, era o final da estação chuvosa, talvez fosse mesmo razão pra tanto. "Cadum, cadum*, minha filha", dizia minha avó.

     Falávamos coisas que bruxas falam em público. E a forasteira foi acolhida com carinho, talvez nem ela esperasse isso. Prestou muita atenção no que dizíamos, não tirou o tênis. A maquiagem derretia no canto do olho esquerdo, mas, aparentemente, ervas, plantas, óleos e luas haviam captado a moça. É assim que a Deusa trabalha.

     A visitante, contudo, não esperou o fim da conversa. Saiu quando falávamos de cervix, fertilidade, escolhas. Eu captei o exato momento em que ela piscou os olhos e balançou discretamente a cabeça, como quem acorda de um sonho. Fechou um pouco a cara, mas disfarçou logo num sorriso de despedida. Obrigada aqui, obrigada ali, quem sabe eu vá, gostei muito, sim, etc. Lembrei de que dia desses uma colega bruxa disse : "Não importa que as visitantes não fiquem. O importante é que elas não são mais as mesmas quando se vão."

      De longe, vi a moça se aproximar dos amigos do camarote. Antes de se sentar, tirou os sapatos.


*Cada um é cada um.  


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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

O MEU OLHAR >> Carla Dias >>


Hoje eu compreendi que meu olhar é meu. Posso emprestá-lo, mas assim, como fonte de consulta. Meu olhar é meu. O que enxergo é diferente do que você enxerga e amém a isso. Assim, haverá sempre o que se aprender. Meu olhar, que é meu, somente meu, e que posso emprestar a quem desejar conhecê-lo, também reconhece sincronismos. Acontece do meu desejo, apesar de dessemelhante no olhar, aprumar-se no colo do olhar do outro; no desejo do outro. Meu olhar ainda é meu, mas compreende que, vez ou outra, não consegue reconhecer tons; desapega-se da luz em um fechar pálpebras e nem sempre adormece. Assim, importa-se em nada quando precisa desnublar perspectivas, ampliar horizontes, repensar contornos. Meu olhar tem mania de se meter em diferenças. Deslumbra-se fácil com a excentricidade – identifica nela o que a plenitude lhe nega –, dá de desfocar, só para alcançar a crueza do que é e se enfeita tanto, mas tanto, que se perde na invencionice. Meu olhar se torna mar, sabe escoar dores, esvaziar-se de ressentimento e destrançar saudade. É que saudade de olhar dói no corpo todo. Dói na alma. Dói durante períodos indeterminados, de acordo com a ausência que é obrigado a observar. Meu olhar também se arrepende quando, em dia menos auspicioso, lança ao mundo um enxergar torto, daqueles de tirar justiça e respeito dos seus espaços. Olhar que adora se perder, mas acontece de se encontrar em outro e até de se perder de novo, mas em recinto menor, onde cabem silêncios que ele ainda não sabe ler. Meu olhar se agonia com silêncios, quando não consegue enxergar ritmo e significado. Ainda assim, permanece atento, que também é de se entreter com imaginados e se emocionar com inconclusivos. Acredita que tudo que alcança está inacabado. Vê beleza nisso, na possibilidade de conclusão. Meu olhar é meu, mas se joga ao mundo, lança-se aos braços do absurdo, quer alcançar o que a ele disseram ser invisível, impossível de ser tocado. Olhar gosta de tocar o improvável. É que meu olhar é ousado. Deu de existir diferente. Deu de existir. Deu de ser meu, desassombrado. Deu de ser de quem quiser hospedá-lo. 

Imagem: L’archeologo solitario © Giorgio de Chirico

carladias.com



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