terça-feira, 19 de junho de 2018

CONTANDO COM A SORTE>> Clara Braga

Outro dia, em uma roda de conversa, ouvia alguns colegas contarem sobre suas experiências em sorteios. Achei curioso, pois pela primeira vez parecia que eu estava conversando com a pequena parcela de pessoas que adoram um sorteio pois sempre acabam ganhando alguma coisa. Um deles, inclusive, havia sido premiado com uma viagem nacional no dia anterior durante um curso que fazia.

As vezes é bom conhecer essas pessoas para acabar com aquela constante impressão de que todo sorteio é uma marmelada. Mas, quando me perguntaram sobre minha experiência acabei sendo obrigada a cair no clichê: de graça não ganho nem injeção na testa! Até naqueles sorteios bem bobinhos que servem só para ver quem vai ganhar o que, pois tem presente para todo mundo, eu fico sem nada pois esquecem de colocar meu nome.

Mas logo depois de compartilhar minha falta de sorte lembrei que eu estava sendo injusta. Houve uma vez na qual eu estava fazendo um curso de fotografia com um fotógrafo que eu admiro muito e, como parte da oficina, ele participou de uma mesa redonda com outros fotógrafos. Lá pelas tantas ele disse que sortearia um livro com suas fotografias. Para o sorteio precisávamos estar com um papel que entregaram no início da palestra com um número. Nunca me esqueci, meu número era o 10, mas não me preocupei em guardar bem o papel já que eu nunca ganhava nada mesmo.

Na hora do sorteio um milagre parecia estar acontecendo, chamaram o número 10! Eu demorei até ter uma reação, e então comecei a procurar meu papel comprovando que eu seria a dona daquele livro maravilhoso. 

O resultado vocês podem imaginar:: nunca encontrei o papel, nunca ganhei o livro e percebi que quando o assunto é sorteio, o melhor que faço é não participar!


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sábado, 16 de junho de 2018

EXAMES DE ROTINA >> Sergio Geia




 
Bom. Se crônica é isso, falar de coisas pessoais, assim, assado, e Clarice tentou fugir e não conseguiu — veja em Viajando por Mar, “um dia telefonei para Rubem Braga, o criador da crônica, e disse-lhe desesperada: ‘Rubem, não sou cronista, e o que escrevo está se tornando excessivamente pessoal. O que é que eu faço?’ Ele me disse: ‘É impossível, na crônica, deixar de ser pessoal’. Mas eu não quero contar minha vida para ninguém: minha vida é rica em experiências e emoções vivas, mas não pretendo jamais publicar uma autobiografia. Mas aí vão minhas recordações de viagem por mar” —, allá voy, ou, aí vai ela, pois, para o caso, deixo a crônica falar.

E ela fala assim: Sexta-feira brilhante, sexta-feira-ouro, bela, belíssima. Aliás, no outono é sempre igual — as folhas caem no quintal (by Sandy e Junior) — os dias tomam banho de tanta lindeza. É como se o dia ou o que entendemos por essa abstração chamada dia, suas manhãs, tardes, noites, brisas, luz, cores recebesse uma roupa nova, fosse vestido pela estação, tal qual um pobre alguém maltrapilho que recebe a visita de um mágico; com sua varinha à la Harry Potter, o pobre alguém surge reluzente, elegante, transformado. Esse mágico é o outono. Ó God, quantos de nós não andam precisando de um outono na vida?

Dia claro, nem tão quente, nem frio, ideal para um almoço na serra, Campos, Santo Antônio, São Bento, truta com pinhão, vinho branco, mas para quem trabalha e tem rotina como eu, essas maravilhas ficam para o fim de semana.

Mas nem trabalhei sexta, confesso, quanto menos subi a serra. Fiz exames que Laura pediu: eco, teste físico, mapa, exame de sangue, essas coisas mundanas e necessárias. Laura, com essa intimidade mesmo, embora nem intimidade exista, e sim juventude, olhos que brilham, entusiasmo, isso é Laura. Mas fica aqui o meu protesto. Desgosto. Profundamente desgosto. Exames cardiológicos me tensionam. Desce em mim uma coisa do outro mundo, tipo capa pesada, as costas arriam, não consigo segurar a onda. Nessas condições, o mau paciente que me torno contribui para o diagnóstico fake. Não sou eu esse homem cinza que faz exames. É caso de terapia. Qualquer dia vou.

Tenho medidor aqui em casa. Como meço regularmente, ELA sempre gira em torno de doze por oito. Tomo remédio desde 2001. Pois coloquei o aparelhinho no braço lá na clínica e a mocinha me perguntou se tenho ELA alta. Sim, quanto mais agora, disse; daqui a pouco baixa. Dezessete por oito.

No último mapa que fiz, uns dois anos atrás, não houve alteração, nenhumazinha. O de agora, embora sem o resultado ainda, foi uma festa de céu e terra. Ou o remédio anda mal, ou o remédio não dá cabo DELA, que sobe a serra por causas emocionais.

Até acabei fazendo arte. Como faria a esteira e ELA não baixava, tratei de dobrar o remédio por minha conta e risco perdoe, querida Laura , com resultados para lá de duvidosos. Em casos assim, normalmente me abasteço de um bom Lexotan. Na verdade, ele me recoloca no meu nível de ser, no que regularmente sou, mas no caso, não me atrevi, imaginando que seria o mesmo que degustar uma mousse de chocolate com bacon.

Fui para a esteira igual a um condenado que entra no corredor da morte (quanta bobagem). Nem me atrevi a perguntar à mocinha que fazia o exame quanto estava ELA, enquanto me paramentava com uma imensidão de fiozinhos — na verdade tinha receio de que ELA me boicotasse e eu não conseguisse fazer o exame. Pois andei, andei, suei, suei, depois corri, corri, e tudo seguiu nos conformes, sem que ELA me atrapalhasse.

Deixei a clínica e senti que já era o mesmo de sempre, leve como um barquinho de papel correnteza abaixo; a capa pesada ficou lá. Cheguei em casa, botei meu aparelhinho, medi a pressão: onze por seis. Registro: aparelhinho calibrado, após comparações com o esfigmomanômetro (cruzes!) da clínica.

Foi quando decidi. Tenho certeza que ELA, em dias comuns, é absolutamente normal. Pois a medirei algumas vezes por dia durante uma semana, repetindo o exame, depois passarei o resultado para a Laura.

Psicólogos, psiquiatras, terapeutas de plantão: SOCORRO!!!









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sexta-feira, 15 de junho de 2018

SIGA O SEU HORÓSCOPO >> Zoraya Cesar

O horóscopo de seu signome* para aquele dia não podia ser mais objetivo:

No dia de hoje tudo dará certo. Ou não. Cuidado: complete suas tarefas com atenção. Você vai receber um inesperado pedido de ajuda. Não negue. E não esqueça, Feiticeiro estúpido, de alimentar seu gato, limpar a gaiola dos Pássaros Lunares e mantê-los bem guardados. Ou tudo dará errado. Durma cedo.

O Sr. Amadan sentiu-se incomodado com o epíteto. “Aposto que foi aquela velha mofenta, a Srta. Ollean, quem fez o horóscopo de hoje. Ela não trabalha com seriedade. Vai ver ainda está chateada porque a poção de amor que preparei não funcionou. Não há feitiço no mundo que faça alguém gostar daquele dragão de Komodo vesgo!” Convencido que o horóscopo daquele dia não deveria ser levado a sério, e que a Srta. Ollean queria se vingar, resolveu fazer tudo ao contrário. Afinal, ele era um feiticeiro, não um supersticioso qualquer. Por via das dúvidas, no entanto, leu toda a mensagem de trás para frente, a fim de desencantar qualquer magia com que a temível Srta. pudesse ter embebido as palavras. 

Congratulando-se pela própria astúcia, o Sr. Amadan viu as tarefas do dia – aquelas que ele não iria terminar: 

- uma beberagem para o Sr. Pedro Salamandra parar de arrotar fogo (por duas vezes os papeis da repartição foram queimados)

- um creme desverrugante de efeito prolongado para D. Inyoka, esposa do Secretário de Permissões Mágicas. (Esta senhora tinha uma doença interessante: a cada vez que pensava mal de alguém aparecia uma enorme verruga em seu rosto. Doença de efeitos desastrosos durante campanhas políticas).

- ... e por aí seguia a lista, cada uma tão importante e urgente quanto a outra; cada uma, se não atendida, resultando em consequências catastróficas. Para o cliente, certamente. Mas também para o Sr. Amadan. Que, no entanto, aferrou-se à ideia de que o horóscopo de seu signome havia sido fraudado pela pérfida Srta. Ollean. Não cumpriu, portanto, nenhuma de suas tarefas. 

Os Pássaros Lunares, irritados em sua gaiola suja, jogavam restos de comida, penas e fezes no chão. Um feiticeiro que conseguisse um par desses pássaros era tido como um profissional de alto nível e afortunado, pois eles traziam status, inspiração e sorte. Ou azar. Perder um deles era razão de opróbrio eterno para seu possuidor. Sem falar que a Justiça Mística costumava processar o desinfeliz que deixasse morrer um desses seres, quase tão raros quanto o Pássaro Dodo. O Sr.  Amadan, no entanto, arriscou deixá-los sem cuidados e soltou-os da gaiola. Iria contrariar o horóscopo à risca. 

Os sinais de que escolhera um caminho equivocado não tardaram a aparecer. A geladeira quebrou, azedando todas as poções. Os clientes voltaram para casa de mãos abanando, rogando pragas horrendas. Depois, D. Inyoka apareceu um dia antes do marcado e se desesperou por não encontrar o creme – um jantar importante surgira para aquele dia, eu quero o creme agora!, chorava. Saiu sem creme e prometendo cassar a licença do Sr. Amadan. Que, ultrajado, pegou suas anotações. E quase desmaiou. Estava ali, escrito com sua própria letra: entregar cr. desverrugante com um dia de antecedência... “Faça suas tarefas com atenção”, dizia o horóscopo. Mas ele não se deu por convencido. Deve ser, pensou, uma armadilha daquela bruxa gagá para confundir-me. E continuou no firme propósito de contrariar o que lhe fora aconselhado.

Por isso não atendeu ao rogo choroso da vizinha, uma Duende Amarela de Olhos Esbugalhados. Era uma boa vizinha, só incomodava quando cismava de fazer um assado com restos de penugens e bolotas regurgitadas, fedorentíssimo, que forçava os vizinhos mais próximos a usarem máscaras antigás. Jamais pedira nada. Mas, nesse dia, resolveu pedir um pouco de ectoplasma ao Sr. Amadan. Nunca se  nega um favor a uma Duende Amarela de Olhos Esbugalhados, ele bem sabia, sob pena de incorrer na Maldição dos Vidros Quebrados. Mas negou, para contrariar o horóscopo. 

Não deu outra. Tão logo fechou a porta, ouviu o barulho de todos os vidros da casa se quebrando. 

Foi nesse momento que, finalmente, deu-se conta de que interpretou tudo errado. Talvez outra maga, que não a Srta. Ollean (ainda furiosa com a poção do amor que não dera certo), tenha feito o horóscopo, chamando-o de feiticeiro estúpido. Aquelas magas velhuscas eram muito rudes mesmo. 

Fórmulas perdidas, cremes azedados, geladeira e vidros quebrados, clientes insatisfeitos, ameaças... resolveu, enfim, seguir o conselho do horóscopo e deitou-se cedo, naquele momento mesmo. Quanto antes terminasse aquele dia horrível, melhor. Estando deitado e dormindo, o que mais poderia acontecer? 

No quarto ao lado, o gato Stevenson ronronava satisfeito e saciado, ainda saboreando um dos Pássaros Lunares. Você esqueceu de alimentar o gato, Feiticeiro estúpido, pensou, enquanto olhava, cobiçoso, para o Pássaro que sobrara.

(Esse foi um conto curto. Temi pelos outros danos e prejuízos irreparáveis que poderiam ser causados ao pobre Sr. Amadan caso a história continuasse.

*Signome: junção das palavras signo e nome – horóscopo personalizado que conjuga a numerologia associada ao nome da pessoa e seu título honorífico (Kolurt, Duende dos Portais, por exemplo). Somente magas com mais de 300 anos eram reconhecidamente capazes de fazer esses horóscopos. Os requisitos eram ser meio ceguetas e só saberem fazer contas com os dedos. Algo sempre podia dar errado, claro. Ou muito certo. 



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quinta-feira, 14 de junho de 2018

GATOS>>Analu Faria

Há alguma coisa no movimento dos gatos que deve se assemelhar ao movimentos dos deuses. Sabe as histórias mitológicas em que seres divinos se moviam sem esforço pelo céu, pairavam sobre águas, flutuavam no vazio? Os gatos fazem tudo isso. O céu, no nosso pobre cotidiano, são os telhados das casas. As águas são as poças que se formam depois da chuva, mini-piscinas de sujeira por sobre as quais qualquer filhote de gato sabe pular. Ah, o pulo do gato! Contemple um pulo de gato e você saberá o que é flutuar no vazio.

Não há o que o gato faça que não fascine um bom humano. Podiam mesmo mudar aquele versinho de samba para "Quem não gosta de gato bom sujeito não é." A forma como se aboletam nas suas pernas quando você tenta dormir ou a preguiça durante quase todo o dia, que se transforma no fuzuê das três da manhã, é tolerada com parcimônia por qualquer um que tenha um arremedo de coração. Não entendo por que não dizem que o gato é o melhor amigo do homem.

Também não sei  por que essas criaturas tão incríveis, que já vivem conosco há tanto tempo, não foram ainda completamente domesticadas. Sim, o gato é considerado um bicho ainda "meio selvagem". Talvez isso explique as brincadeiras e o esconde-esconde num apartamento de quarenta e cinco metros quadrados. Para ele, esse ínfimo território é uma selva. Para o gato, tudo há de ser explorado, ainda que pela milésima vez. Êta coisa boa ser gato e fazer do mesmo lugar sempre uma aventura nova! Deve ser assim que nem ser mulher.




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quarta-feira, 13 de junho de 2018

A MORTA >> Carla Dias >>


Está morta.

É preciso que vocês entendam: morta. Morta de morte que nem ressurreição resolveria. Não está dormindo. Beijo de príncipe não a traria de volta. Não está apenas apagada. Medicina não resolveria.

Morte morrida, zero batimento cardíaco.

Ao redor dela, que está ali, deitada no meio da sala, há uma variedade de lamentos mudos, ecoando, gritantes, na cachola dos convidados. Obviamente, os lamentos em nada têm a ver com a morta, mas sim com os próprios lamentadores. É que a morte do outro serve de roupa de gala à preocupação dos vivos, dos que ficam à mercê do ocorrido.

E se fosse eu?

Alguns choram, estarrecidos com a ousadia da morta em partir justo em dia de festa. Alguém ganhou algo. Não importa se por merecimento, mas sim o fato de ter ganhado algo que vale um jantar envolvido por requintes. O evento seria uma comemoração, que não importa qual, assim, com detalhes, ou quem, assim, com nome e sobrenome. Importante mesmo é a fartura da mesa posta para a comemoração, assim, intocada.

Onde já se viu morrer antes do jantar!

O grande problema provocado pela morta é outro. Ninguém sabe quem ela é. Deram uma geral nas bolsas, mas não encontraram a dela. Nenhum documento. Antes de chamarem a polícia, tentam decifrar quem diabos é essa mulher, a esparramada no meio da sala. Uns passam por ela, copos de bebida nas mãos, olhares enojados pela cena. A morte dela provoca nojo neles, como se o corpo ali, ainda quente, já estivesse no ponto alto da putrefação. Eles sentem o cheiro da morte e pedem para que borrifem odorante no recinto.

Onde já se viu rescender à morte na casa do outro? Alguém ousou verbalizar. Diante dos olhares cúmplices, a governanta se adianta alguns passos, pede passagem, contrariando as ordens do patrão, que se enfiou em um dos quartos da casa com a amante número quatro.

Assim, o mistério é resolvido, feito folhetim pobre sobre pessoas rasas e expectativas vis. Resolvido por subalterna, enfiada em um impecável uniforme que não lhe caía bem. Ficaram todos horrorizados, deram passos para trás, executaram gestos coreografados para demonstrar tristeza que não sentiam.

A governanta ligou para a polícia. Uns e outros raptaram itens da mesa posta, que o desejo de os enfiar na boca e apreciar seus sabores se sobrepôs à tragédia. Mastigavam quitutes com nomes estrangeiros, enquanto o dono da casa se aproximava, a amante número quatro o acompanhando, meio descabelada.

Ajoelha-se diante da morta. Segura as mãos da morta entre as suas. Arrota um silêncio constrangedor, de quem não sabe como reagir. O dono da casa conforta a si mesmo, ao olhar para a amante número quatro e pedir a ela que traga um lençol para cobrir o corpo de sua esposa.

Abalados por necessidade de agradá-lo, os amigos o cercam e reverberam condolências. A amante número quatro esconde um sorrisinho faceiro, que agora se enxerga no futuro, como a senhora plena da casa e da vida de seu homem.

A governanta lamenta, silente, com gritos enclausurados na cachola, que tenha sido a patroa a escolhida pela morte. Onde já se viu a morte errar a mão em uma sala cheia de escolhas mais justas?

Enquanto esperam a polícia, que parece ter problemas para chegar à casa visitada pela morte, todos se sentam à mesa. O jantar segue, assim como as conversas sobre trabalho e algumas manchetes de jornal sensacionalista. A amante número quatro insiste para que o dono da casa coma algo, “você precisa se alimentar, meu bem”. Ele diz que não, mas ela insiste, carinhosamente. Ele não resiste e aceita o prato que ela faz para ele.

Quarenta e sete minutos depois, todos bêbados e falando alto, nem mesmo se lembram da morta estirada no chão da sala. Um dos ébrios empunha sua taça de cristal e diz: um brinde à...

Está morta.

Acreditem que não há o que se possa fazer a respeito. O que eles não sabem, além do nome dela, a esposa do chefe deles, a anfitriã da noite, é que antes, muito antes dessa noite, ela já estava morta.

A governanta recebe a polícia, que encontra a festa em seu ápice.

Morreu de quê?

E a governanta responde, a voz arrastada: de falta de bom senso da morte.

Imagem © Toyen

carladias.com



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terça-feira, 12 de junho de 2018

QUEM É A CRIANÇA MESMO?? >> Clara Braga

Sei que a data pede uma crônica de amor. Talvez, dependendo do seu ponto de vista, o que estou prestes a contar pode ser puro amor. Porém, para uns pode parecer loucura pura. Mas tudo bem, afinal, amor e loucura não estão intimamente ligados?

Bom, lá estava eu sentada em um restaurante almoçando. Já reparei que meu filho, embora tenha apenas 8 meses, já é muito simpático. As pessoas olham para ele ele começa logo a sorrir. Se no local onde estamos tiverem outras crianças, aí é que ele ri mesmo. Dá uns gritinhos para chamar a atenção da outra criança e estica os bracinhos indicando querer chegar perto. Até então, a aceitação da tentativa de contado dele, mesmo sendo limitada, tinha sido de 100%, por isso imaginei que isso fosse uma "coisa de criança", elas se comunicam, se entendem e interagem por gostarem de outras crianças.

Eis que senta à mesa logo atrás um casal com seus três filhos. Pela conversa dava para perceber que eram estrangeiros, mas isso não vem ao caso nem justifica nada.

Quando meu filho viu aquelas três crianças já começou a olhar e encarar, na esperança de que um deles olhasse para ele. Rapidamente a menina olhou para ele e ele abriu seu sorriso, satisfeito por ter feito seu contato visual. Fiquei acompanhando, sempre acho muito divertida essa interação entre crianças. Mas dessa vez as coisas não saíram como esperado, a menina começou a fazer cara feia para o meu filho. Ele nem ligou, continuou sorrindo. A menina fazia caras ainda mais feias, meu filho continuava sorrindo e eu já começava a não gostar da situação. Foi então que a menina cutucou a mãe, apontou para o meu filho e reclamou com sua mãe que ele estava olhando para ela e ela não queria que ele olhasse.

A mãe, que já deve estar acostumada com essa situação, olhou meu filho, sorriu e ignorou a reclamação da filha. Já eu, antes mesmo que pudesse imaginar já estava falando pro meu marido: você não acredita o que está acontecendo, essa menininha está reclamando do nosso filho para a mãe, que menina mais chata! Depois, quando ninguém olhar para ela ela vai achar ruim!

Sim, eu sou uma pessoa horrível e depois de racionalizar a situação, vi o quão cruel era meu comentário. Mas, já era tarde demais. Pelo menos não entrei na onda e dei língua ou fiz cara feia para a menina também. Todo mundo diz que quando nasce uma criança, nasce uma mãe. O que nunca dizem é que essa mãe pode se tornar mais infantil que seu próprio filho. Coitada de mim quando esse menino entrar na escola, já vi que vou sofrer... ou pagar muito mico.


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sexta-feira, 8 de junho de 2018

NINHO >> Paulo Meireles Barguil

 
"Todo mundo quer voar além
Mas é preciso aprender."
(Paulinho Pedra Azul, Voarás)

Rubem Alves, na crônica Gaiolas ou asas?, declara o seguinte aforismo: "Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas.".
 
Inspirado nele, eu postulo que "Há famílias que são gaiolas. Há famílias que são asas.".
 
Talvez, seja mais adequado dizer que não existem escolas e famílias puras nas categorias acima.
 
Escolas e famílias são constituídas de pessoas, que, por motivos diversos, oscilam, durante a vida, nesses dois polos.
 
Portanto, somos, cada um de nós, gaiola e asas, para a gente e para os outros.
 
As minhas asas podem ser gaiola ou asas para outra pessoa.
 
Da mesma forma, minha gaiola pode ser gaiola ou asas para outro indivíduo.
 
Por mais que goste e precise de voar, um pássaro não faz isso o tempo todo.
 
Há várias pausas, as quais possuem finalidades diversas.

Lembro-lhe, também, que várias são as aves: cada uma se desloca de modo peculiar.
 
A família é o ninho do ser humano: nela recebemos os nutrientes para, posteriormente, voarmos.
 
Quase todos nos queixamos que não fomos zelados como queríamos, mas ignoramos o fato de que nossos cuidadores fizeram o seu melhor.
 
Se não nos deram – mais – amor é porque não o tinham para dar.
 
Simples assim.

Interagimos, com graus distintos de proximidade, com várias pessoas no cotidiano.

Às vezes, em virtude dos seus movimentos, parece que algumas delas são cobras e não aves, mas a natureza, que é repleta de predadores, possibilita várias camuflagens.

Aos olhos de si mesmo, alguém pode avaliar sua atitude como típica de um pássaro, mas a outros olhos ela pode ser entendida como característica de uma serpente.

Ficar no ninho é uma opção sensata para evitar ser devorado, mas ela não pode se tornar o padrão, sob pena de não progredirmos.

Durante a troca das asas, que acontece com frequência e duração variadas, recolher-se é um imperativo.

Nessa fase, podemos curtir o presente e olhar para a futuro e não somente para o passado.

Tentar desprezar o vivido é ignorar o fato de que ele está dentro de nós, motivo pelo qual, em prol de viagens mais proveitosas, é sensato analisá-lo e compreendê-lo, de modo especial para identificar o que podemos em nós modificar.

O céu nos espera...
 
 
[Eusébio – Ceará]

[Foto de minha autoria. 16 de julho de 2017]
 

[Crônica dedicada aos estimados tios Pierre Brasileiro e Walter Pavam, que, recentemente, foram voar em outra dimensão. Permanecem, nos familiares e amigos, as incontáveis atitudes e palavras repletas de amor]


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quarta-feira, 6 de junho de 2018

INSTÁVEL >> Carla Dias >>


Foi elaborado com cuidado, desenvolvido com paciência. Está pronto, implementado, trabalhando como se deve. É possível se perceber os resultados positivos. As pessoas se sentem mais animadas, dedicam-se com mais ousadia, o que sempre respinga no departamento criativo e lota a pequena área comum, em momentos de café e conversa fiada.

Porém, é a sua criatividade que anda trabalhando meio na borderline.  Entediou-se durante a reunião de replanejamento, porque tudo que começa com “re” anda abusando da sua paciência. Veja o recomeço... Quem mesmo quer passar a vida a celebrá-lo? Recomeço é bom quando é primeiro. Experimente o segundo e mantenha o pique. Trabalhe duro e dedicadamente na terceira versão.

Depois conte aos amigos como foi recomeçar pela centésima vez, com o mesmo tom de esperança da primeira na voz.

Fez essa lista para pontuar seus recomeços. Está no vigésimo segundo. No anterior, desapegou-se dos mistérios do espírito. Amanheceu nesse a flertar com as viradas da ciência. Abandonou meios-termos na décima sétima vez. Diante da eminente falha da vigente, planeja retomá-los. Nunca foi bom em extremos, gosta de comida agridoce. O que estava pensando ao vestir o casaco separatista?

Logo no começo da reunião de reestruturação, desliza a caneta sobre o papel em branco reciclado. Pensa na natureza das árvores. Então, na natureza das coisas. Então na natureza de si, esse ser desconexo, encaixado em um cenário de reformulações e recriações, um círculo vicioso de repetições. Para distrair a mente, evitando palavras decoradas há quatrocentas reuniões, pensa em pele, olhares, toques e a sinfonia de deleites que planeja para o próximo recomeço. Chega de solidão arrecadada para ser trocada pela sabedoria. O que a sabedoria fez até aqui? Como sabedoria pode vingar em terreno árido para sentimento? Que sabedoria é essa que descarta, em vez de mergulhar?

Nada de recato, que os beijos acontecerão na impulsividade do desejo, na intimidade do afeto. Porque é hora de recrutar novos integrantes para esse comboio de sonhadores de sonhos recolocados. Há vezes em que esses sonhos se despem da originalidade e aceitam, empilhados em normas, tornarem-se outros, apesar de a versão original ser possível.

Essa coisa de ter de caber em algum lugar para ser.

Segue-se o recadastramento de indivíduos desconhecidos, conjugados pelos seus números do CPF. Assim, será decidido quem sim e quem não. Regado a silêncio, o momento é arremessado ao mundo como projeto de sucesso. Não vê muito sucesso nisso, não. Não enxerga a si encarando outro recomeço a recadastrar mentiras distribuídas aos que ainda cultivam alguma esperança por serem reconhecidos.

Debruça-se na máquina de xerox, que cospe cópias de um mesmo relatório sobre reservas de bilhetes aéreos. Reveza-se entre labor e horror ao pensar que recomeçará mais uma vez. Dirão que é algo bonito, honrado, repleto de perspectivas. Só consegue pensar que recomeço é coisa que se engole uma vez só. Depois, resta somente respirar e se render à certeza de que a vida é instável.

Demorou cem recomeços para entender isso.

Deita-se no chão, aos pés da máquina de xerox. Os colegas relatam o ocorrido ao chefe do departamento de relações inteligentes, mas não antes de tirarem uma foto para espalhá-la pelas redes sociais. Apinham-se indivíduos na sala do café.

Pensa que o único “re” que lhe pode salvar é o de respirar. Respira fundo, levanta-se e, instável que só, decide finalizar em vez de recomeçar.

Imagem © Max Ernst

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sábado, 2 de junho de 2018

DOCE FÁBULA DE UMA TRAIÇÃO >> Sergio Geia



Desde que a conheceu ele sonhava com aquele dia. Não queria se amarrar, mas com ela foi diferente. Nas baladas, era comum ficar com uma ou outra, beijar, uns amassos, terminar a noite num motel às vezes, mas depois, não queria saber. Um amor destruído por picuinhas fechara a sete chaves o seu coração.
Mas aí ela veio, meiga, doce que só ela, ele não aguentou. No começo, até que tentou resistir; dizia a seu coração, como se diz a alguém, como se ele fosse gente que nem eu, você, e ouvisse: “deixa disso, migão! Você sabe como funciona, não entra nessa!”. Tentou dominar o sentimento (e sentimento se domina?), controlar o ímpeto da paixão, mas aqueles olhos de mel, a pele branca igual neve, os cabelos quase ruivos, bom, você deve saber.
Passaram-se quase dois anos de namoro fresco, calmo, como uma tardezinha de domingo, mas também quente entre quatro paredes, e ele tratou de ir à casa do sogro pedir a mão daquela que escolhera para acompanhá-lo por todo o sempre.
O pai da noiva, homem rústico, criado na roça, que vivia do pequeno sítio que possuía, vendo chegar aquele mocinho da cidade, todo mauricinho, gel no penteado, perfume, carro moderno, ficou apreensivo. Mas educado sempre foi, e não tratou mal o sujeito escolhido pela filha, ainda que com reservas.
Mais tarde, percebeu quão justo é o ditado que diz que as aparências enganam. Conhecendo mais de perto o moço, logo se encantou com a natureza morna do bom rapaz, respeitoso, educado, e — o mais importante —, estava conseguindo pôr um freio na filha, coisa que jamais conseguira. Ela, que cismara com um tal de Pedro Salustiano, filho de um fazendeiro da região, moço impetuoso, tipo Gael no início de “O outro lado”, agora parecia encantada com aquele moço da cidade; até sossegara um pouco, e, comparando os dois, ele via com clareza que o moço da cidade tinha mais aptidão para fazer a filha feliz.
Passado um ano do dia em que a filha apresentara o namorado ao pai, decidiram todos, noivo, noiva, pais, mães, irmãos, irmãs, cachorro, gato, periquito, papagaio e coisa e tal, que chegara a hora de marcar o casamento. O pai da noiva, feliz pela escolha da filha, cedeu o sítio para a cerimônia e festança.
O vilarejo todo se animou. O pai da noiva mandara convidar a roça toda (você sabe como é festa na roça), comprou chope, matou uns bois, contratou gente para assar a carne, até dupla caipira ele chamou. Preparou uma grande festa, a noite era convidativa, apesar do frio que desce nervoso depois que o sol se põe. Ouviam-se rojões, balões passeavam no céu, a criançada soltava bombinha, uma enorme fogueira foi acesa.
Ocorre que na hora marcada para a cerimônia a noiva não apareceu. Quem apareceu foi o pai, sozinho, macambúzio, sem saber o que dizer. Procurara em todos os cantos da casa, a cabeleireira jurava que a tinha deixado pronta. Mais tarde, um vizinho pra lá de Marrakesh disse tê-la visto na garupa de uma moto agarrada a Pedro Salustiano.
A noite terminou com o pai da noiva consolando o futuro e agora ex-genro, que bebeu como nunca. Dizem que até desmaiou e foi levado às pressas ao hospital (coma alcoólico?), mas sobreviveu.
Depois veio a confirmação: Pedro realmente fugira com a noiva.
Ela hoje mora no Rio, é atriz, solteira, mãe de duas ruivinhas adoráveis.
O noivo estudou agronomia, mas não chegou a se formar.
Hoje vive em Amsterdam, casado com uma holandesa, com dois filhotes também ruivinhos, dizem que tem um bar nas proximidades da Red Light District.
Pedro sumiu pelo mundo, ninguém sabe dele.


P.S.: Essa história bobinha, mas secular, agora aberta a fórceps, e reciclada, foi a forma que encontrei para saudar este junho frio que chega carregado de festanças. Viva São João!












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terça-feira, 29 de maio de 2018

ANTECIPANDO TUDO >> Clara Braga

Sempre tive dificuldade para escolher algo para ganhar de presente. Sempre que me perguntam: o que você quer de aniversário? Ou então: do que você está precisando? Minha cabeça buga e eu não consigo pensar em nada.Talvez seja por isso que eu não esqueço um aniversário há anos que, mesmo antes de me perguntarem, eu já tinha escolhido meu presente.

Não vou lembrar o ano, mas lembro que duas semanas antes do meu aniversário os Hanson iriam lançar um vídeo clipe na MTV. Lógico que eu anotei a data, mas assistir à estreia não era suficiente, eu tinha que gravar e ter aquele momento registrado para a posteridade. Também não recordo se foram meus pais ou minha avó que perguntou primeiro, mas pela primeira vez na vida, na hora que disseram: Clara, já vai pensando o que você vai querer de aniversário porque você sempre demora para definir, eu não pensei duas vezes, respondi na mesma hora: quero um vídeo K7 para poder gravar clipes, e se não for pedir muito, também gostaria de ganhar adiantado porque o clipe dos Hanson estreia duas semanas antes do meu aniversário.

Ninguém acreditou que eu já tinha a resposta assim na ponta da língua, mas como também é difícil agradar, alguém foi logo comentando: caramba, duas semanas antes? Isso que é adiantamento hein... Fiquei meio sem graça, mas o que importava era que eu teria como gravar o clipe.

Passados essas anos, esses dias, por motivos um tanto inúteis, acabei relembrando sozinha essa história e desejando que ela acontecesse agora e não há anos, pois agora eu teria a resposta na ponta da língua. Segundo alguns sites de fofoca, a primeira aparição da atriz Megan Markle após seu casamento com o Príncipe Harry foi poucos dias após o casório na comemoração do aniversário do sogrão. E como essa notícia nada importante fez eu lembrar da minha história? Ah, por causa de um simples detalhe: o aniversário do Príncipe Charles é só em novembro, eu disse NOVEMBRO, mas como é um mês muito frio, anteciparam para maio para poderem fazer uma comemoração ao ar livre.

Esse era o momento que eu gostaria de ouvir a tal frase reclamando que eu estava adiantando muito meu aniversário pedindo presente com duas semanas de antecedência, responderia na mesma hora sem nem pensar: coisas da realeza, vocês não entenderiam!





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sexta-feira, 25 de maio de 2018

VIDA >> Paulo Meireles Barguil

  
"– Tudo passa, tudo passará
 
E nossa estória não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz
Teremos coisas bonitas pra contar
 
E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás -
Apenas começamos

O mundo começa agora -
Apenas começamos."
(Renato Russo, Metal contra as nuvens)

Às vezes, deslumbrante e sublime.
 
Outras vezes, devastadora e saqueadora.
 
Costuma chegar e sair sem anunciar.
 
Sua duração é incerta, embora sempre tenha prazo de validade.
 
Misteriosa, para uns.
 
Insensível, para outros.
 
E, de repente, pode ser misteriosa para outros e insensível para uns.
 
Ao longo de bilhões de anos, a despeito de oferendas e investigações, ela segue incólume a sua jornada.
 
Seu DNA permanece indecifrável: apenas alguns pequenos trechos foram interpretados.
 
O desconhecido é muito maior do que se acredita saber!
 
Vestida de transitória, ela disfarça a sua permanência.
 
Temos pistas do que podemos fazer para, por instantes, conservá-la ou dizimá-la.
 
Extraordinário aprendizado é aceitar, sem reclamar e com gratidão, o que ela, sem interrupção, nos oferece e retira.
 
Feliz é quem, sereno, sopra para a vida: "– Eis-me aqui!".
 
 
[Foto de minha autoria. 22 de maio de 2018]


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quinta-feira, 24 de maio de 2018

SEGUNDA>>Analu Faria

Manhã de segunda-feira, céu azul, frio. Brasília no inverno é a vida como me gusta. Nesses dias, as árvores do caminho de casa até o trabalho estão mais vivas e mais imóveis. Lembro-me do poema de um amigo: "As árvores por mim passam". Se a gente olhar direitinho, elas passam mesmo por nós, que nos movemos sem vê-las.  

Também me vem à mente a música de George Harrison, rejeitada num álbum dos Beatles:

Sunset doesn't last all evening
A mind can blow those clouds away
After all this my love is up
And must be leaving*

Olho a borra do café na xícara. A amiga que lia o futuro nesses traços hoje mora na Suíça, acho que nunca conseguiu prever que seus sonhos se realizariam assim tão depressa. Trabalha numa organização internacional, a vida como le gusta. Sinto saudades da amizade, penso que seria bom tê-la por perto para juntas lermos um futuro divertido naqueles restos de bebida. Temos o afã de captar em nós o movimento das árvores, como se a imobilidade delas, nesta e em outras épocas, fosse uma impertinência. Por isso as borras de café. Por isso o apego ao futuro.

George Harrison é que era sabido (ele ou o eu lírico que escreveu "All things must pass", porque a gente às vezes escreve o que não sabe, mas o eu-lírico sempre conhece as coisas...). O amor também passa por nós, como as árvores imóveis. Aliás, o amor também passa, dentro de nós, como a descarga elétrica de um desfibrilador - faz renascer, cumpre seu papel e depois de um tempo já não é mais sentido, já não faz mais sentido. Um processo tão natural como as árvores do caminho de casa ao trabalho; tão simples, terno e cheio de lembranças carinhosas como as manhãs de segunda-feira no inverno seco de Brasília.
_____________________________________
*O pôr-do-sol não dura a tarde inteira
Uma mente pode levar aquelas nuvens embora
Depois de tudo, o meu amor está no fim
E deve ir embora.


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quarta-feira, 23 de maio de 2018

ATRAVESSE... >> Carla Dias >>


Noite passada, voltando para casa, esperando o semáforo mudar de cor e me permitir atravessar.

Avistei aquele homem no meio da avenida. Desligada que sou - porque enquanto caminho até em casa, minha mente toma conta de mim e relembro, reinvento, crio e desejo o que não me cabe desejar - e acostumada ao furor das buzinas, de quando as pessoas estão ansiosas para voltar aos seus lares, bares ou arredores, não percebi antes que havia confusão ali.

Sinal verde, atravessei a primeira pista. Na segunda, as pessoas se aproximavam do homem e ele as afastava com um gesto brusco. Na calçada, muitas pessoas observavam e comentavam sobre o que entendi ao alcançar o outro lado e o sinal abrir para os carros.

O homem estava na metade do seu trajeto. Caminhava na faixa de pedestres. Um problema físico o condicionava a dar passos muito miúdos. Mas muito miúdos mesmo. Ele atravancou a passagem dos carros, colocando-se ali, diante do furor de atrapalhar o ritmo, o horário, a pressa do outro.

As buzinas enlouquecidas, os gritos: saí daí!

Houve quem se atravesse a bancar a bola de boliche desviando dos pinos, passando pelo homem a quase relar em seu corpo meio torto. Definitivamente, limitado. Claramente, um desafio para ele.

O atendente da farmácia de esquina saiu de seu posto e foi até o homem. Quem sabe uma roupa branca e um tom ligado à saúde pudesse ser menos ofensivo. Mas não foi assim. O homem balançou os braços, nervoso, distanciando o gentil moço da farmácia, que estava realmente compadecido por ele.

Pensaram que ele estava louco.

Pensei: o corpo... O homem está desafiando as limitações de seu corpo. É busca por certo conforto que a realização de uma tarefa pode oferecer.

Plateia a postos, fui caminhando em direção a minha casa, mas muito inquieta com as buzinas e os gritos.

Saí daí! Vai morrer! Idiota!

Olhei para trás e me dei conta de que o homem dera dois, no máximo três passos miúdos, miúdos. Prestei mais atenção: cada gesto que ele fazia era truncado. Seu caminhar era uma coreografia dolorosa, de movimentos minimalistas, apesar do desejo escancarado dele de se livrar das correntes das suas limitações e se esticar todo.

Agoniei-me ainda mais. Não consegui me juntar aos espectadores, até o final da cena. Demorou para que o homem atravessasse a avenida, porque eu escutava as buzinas enlouquecidas e os gritos dos motoristas, enquanto comprava laranjas no supermercado. Ele ainda estava nessa travessia, quando paguei pela minha compra.

Caminhei até em casa, o coração pesado. Estava claro para mim que aquele homem saiu da casa dele com o objetivo de encarar suas limitações e mandá-las plantar batatas. Realizar um desejo, que também era mágoa, porque quem não quer ter o direito de atravessar a avenida no tempo que o sinal verde oferece? Por conta? É simples, é básico e vivemos a nos esquecer do valor do que é tão nosso, que nem imaginamos como seria não ter isso.

Aquele homem tinha ciência disso.

Sim, o homem atrapalhou o trânsito, e havia muitas pessoas atrasadas para continuar com suas vidas. Eles as atrapalhou. Ele e seus passos miúdos, mas miúdos mesmo. Só que tem dias em que atravessar uma avenida é tarefa árdua, requer mais do que a necessidade ou o desejo de fazê-lo.

O homem atravessou a avenida, sem a ajuda de um alguém que fosse. Eu já estava em casa, quando ele atravessou a linha de chegada. Escutei as buzinas e os gritos silenciarem, assim que entrei no apartamento.

A vida é mesmo frágil, e alguns de nós são fortes, de força que faz com que atravessemos avenidas, apesar dos gritos e xingamentos.

Onde já se viu? Catarse alheia a atrapalhar o trânsito.

E não consigo tirá-lo da minha cabeça: passos miúdos, corpo tremendo, cara feia para afastar compadecidos que tendem a atrapalhar com sua compaixão amansando o que tem direito a ser raiva, ainda que por algum tempo apenas.

A falta de palavras berrando: encontro vocês do outro lado da avenida!

Imagem: The Dinky Bird © Maxfield Parrish

carladias.com



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sábado, 19 de maio de 2018

BALADA DE UM AMOR INABALÁVEL? >> Sergio Geia



Céu azul de outono, sol forte, calorão de verão. Apesar do calor, um ventinho entra pela sacada. Anima. Dá vontade de colocar Skank, de ouvir “Balada de um amor inabalável”. Não ouvir Skank — quer dizer, o álbum todo —, ouvir apenas a “Balada”, somente ela e nenhuma mais. Coloco o CD no aparelho, sento no sofá, respiro fundo, olhar lá fora, no céu azul, no sol que ilumina casas e prédios, a “Balada” vai entrando, tomando conta.
Mistura de céu azul, sol forte, dia quente, não me pergunte que no momento sou incapaz de responder, mas esses elementos sempre me remetem à minha avó, Ita, que todos a chamavam de Ita, mas que se chamava, na verdade, Maria Antonieta. Lembro dela se arrumando pra sair, vestido estampado, toda perfumada, às vezes passava o dedo molhado atrás de minha orelha, eu sentia um geladinho perfumado. Sempre me levava junto, e nessas vezes, certamente na maioria, o céu era azul, o sol forte, o dia quente — pelo menos me vem agora essa ideia. Não se trata de lembranças, “ah, quando eu saía com a minha vó o dia estava assim, assado”, mesmo porque nem lembro concretamente desses passeios. Mas lembro algo do tipo, e se o dia está assim como hoje, lembro dela, que deve estar no céu, costurando para anjos, arcanjos e querubins, ou para os maltrapilhos mesmo, que, de repente, chegam estropiados do Purgatório.
Dona Ita era uma excelente costureira. Costurava todas às segundas-feiras para os mais necessitados no Convento de Santa Clara. Lembro que no quarto de sua casa tinha uma máquina de costura. Vez em quando, eu sentava nela pra pilotar. Ela achava engraçado. Todos os anos ela me presenteava com uma blusa de lã (eu adorava). Certa vez, ela costurou uma blusa parecida com a que o Leão usava no jogo: na frente era listrada, uma lista branca, outra verde, uma lista branca, outra verde, atrás era toda verde.
Outra lembrança: vó Ita ouvia todos os dias o programa de rádio do Silvio Santos. Sim, o Silvio tinha um programa no rádio. Eu chegava em sua casa, lá estava ela na sala costurando, ladeada de seu pequeno rádio que propagava vozes que eram do Silvio, do Nelson Rubens, do Décio Piccinini.
Quase todos os domingos almoçávamos em sua casa, na Barão, a família toda reunida. Minha mãe, meu pai e eu. Vinham de Campos do Jordão tia Tutu, tio Paulo, João, não lembro se Zé já era nascido. Viviane vinha de Pinda com o Neto. Nesse tempo, meu avô ainda vivia. O cardápio era sempre igual: macarronada e frango. Às vezes minha vó fazia doce de abacaxi, ou charlote, de sobremesa.  Lembro de uma mesinha vermelha de madeira que arrumavam pra mim no quintal; eu almoçava lá, e quase sempre o céu era azul.
Escrevo isso hoje e juro, juro por Deus que desconheço a razão que fez minha mente viajar para essas lembranças, que poderiam ser doces, mas que deixam um gosto amargo na boca. Na verdade, apenas queria ouvir a “Balada de um amor inabalável”, coloquei o CD no aparelho, sentei no sofá, foi quando bati o olhar no céu, no sol (você sabe o resto).
O vil metal às vezes mata uma família. Matou a minha. Até hoje me sinto destroçado, e choro às vezes com saudades de tanta coisa.
Vó Ita morreu triste, abandonada por uma de suas filhas, por dois de seus netos, um abandono cruel e totalmente sem sentido.
De inabalável nosso amor não teve nada.  Ele implodiu, como esses prédios velhos colocados abaixo por explosivos abraçados às colunas de sustentação. Em cinco segundos, raízes, laços, afinidades, amores, preocupação, presença, uma história profunda e intensa, tudo virou pó, poeira, como se nunca tivessem existido, e se foram, longe, levados pelo vento.
O mais estranho é pensar que uma balada que fala de um amor inabalável, sublimando um céu pintado de azul, possa despertar tamanhas inquietações.



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sexta-feira, 18 de maio de 2018

O JOGADOR - 2a PARTE >> Zoraya Cesar


Lucio nunca fora tão feliz. Conseguira a vida que pedira a Deus, mas que lhe foi dada pelo Diabo. E queria mais.

Solícito, como sempre, o Sr. Pedro Botelho fez-lhe uma proposta:

- Hoje você vai para um cassino clandestino de alto nível. Eu banco suas apostas. Crédito ilimitado. Só peço uma garantia.– E buscou algo no bolso.

Talvez influenciado pelos filmes de TV, Lucio esperou, sinceramente, ser obrigado a assinar um contrato com sangue. O homem, no entanto, pegou o celular.  

- Enviei o contrato para o seu whatsapp. Basta confirmar que aceita os termos do acordo. Veja bem, amigo, as regras me obrigam a esclarecer: este é um contrato de adesão. Não cabem ressalvas nem apelações. 

Lucio nem se preocupou em ler os termos e condições.
Nada tinha a oferecer.
O que poderia perder?
Como esperado, Lucio mal leu os termos. Que lhe importava uma barganha, com o Diabo que fosse, desde que realizasse seus desejos? O que tinha de seu? Bens? Nenhum, nada. Sua alma? Bobagem. Sua alma já estava perdida mesmo, que o Sr. Pedro Botelho fizesse bom uso dela. Se Lucio soubesse latim, falaria alea jacta est. Como não sabia, falou apenas foda-se. E clicou no quadradinho. 

Mais uma vez, a palavra do Sr. Pedro Botelho foi líquida e certa. Lucio agora jogava apenas nas melhores mesas da cidade. A excitação o tomou por completo, principalmente porque podia faltar dinheiro para tudo, menos para o jogo. Ele não comia, não dormia, não fazia sexo com Juçara (que, finalmente, concedera-lhe seus préstimos afetivos e sexuais. Não sei se por artes do Sr. Pedro Botelho ou se por amor ao dinheiro que Lucio agora ostentava). 

De repente, do nada, o dinheiro desapareceu; seu “empresário” também. E agora? Sem dinheiro, não podia apostar. Passou dias em aflição, a abstinência a consumi-lo. Dias depois, recebeu uma mensagem: "Realmente, eu merecia o céu, por conta da minha paciência. Faça o favor de cumprir a primeira cláusula do contrato. Ou vai se arrepender muito."  

Lucio apressou-se pegar o contrato. Era uma lista de afazeres que começava por pequenos delitos e ia num crescendo de crueldade e barbárie tais que ele não conseguiu ler até o final. Roubar a caixa de doações de uma Igreja; deixar um amigo na miséria; atear fogo em um abrigo de... ele vomitou.  

Depois de alguns dias, porém, Lucio sucumbiu. Precisava daquela vida de luxo e jogatinas intermináveis como o adicto precisa de sua droga. Não aguentava mais fugir de credores, não ter onde jogar e até Juçara saíra de casa. Lucio sucumbiu. 

Suando e tremendo, cumpriu o primeiro item da lista. Assim que viu as coisas voltarem ao normal, ele se sentiu estimulado a ir executando as outras tarefas, cada vez mais complexas e sórdidas. Percebendo que, por algum sortilégio, ele prosseguia impune, ganhou confiança. Até que, forçoso dizer, começou a encontrar um certo prazer na prática da crueldade. Era com olhos ávidos que procurava, no contrato, a próxima missão. 

De novo, nunca fora tão feliz. 

Até o dia em que, hospitalizado por conta de um mal-estar, descobriu que seu corpo fora invadido pelo mesmo câncer que acometera sua alma. 

Lucio tentou implorar por perdão, por uma nova chance, prometia viver em função da caridade...

O Sr. Pedro Botelho, no entanto, desfez suas esperanças. 

- Amigo, só em filmes esse negócio de pedir perdão funciona. Aqui, no mundo real, a lei do retorno é implacável. Além disso, você só está arrependido porque está com medo.

Lucio chorava, barganhava, pedia clemência. Não queria morrer. Faria qualquer coisa.

- Bem, bem, tenha calma. Vejamos, já me diverti tanto com seus crimes, que vou fazer um trato. Aposte a alma de Juçara comigo. Se perder, morre. Se ganhar, Juçara morre. Que tal?

Leitor Amigo, não vou mentir. Lucio não hesitou. Não lhe passou pela cabeça que era um jogador medíocre nem que seu oponente era o próprio Senhor das Trapaças. Muito menos que jogava contra a vida de outra pessoa. 

A partida foi demorada e tensa. Lucio jogava por sua vida. O Diabo jogava por... quem sabe? Sei apenas que, contrariando toda a lógica, Lucio ganhou o jogo..
Lucio ganhou a partida com um incrível
Royal Flush.
Mas, não tendo lido os termos do contrato,
perdeu o jogo.

Se tivesse forças, pularia de alegria, sem se importar, nem por um átimo, que outra pessoa morreria em seu lugar. O Sr. Pedro Botelho também parecia contente, pois gargalhava descontroladamente. Pegou, quase carinhosamente, a mão de Lucio:

- Não me canso de admirar a estupidez humana. Amigo, o bom jogador não joga com quem lhe é superior. E nunca, jamais, aposta o que não tem. Você viu filmes demais. Não se pode entregar a alma alheia. – Ria de se acabar.

- Mas eu ganhei, você disse que Juçara morreria em meu lugar. – Lucio gritava.

- Você não entendeu. Não lhe prometi vida eterna. Não tenho esse poder. Você não morrerá agora. Só isso. Porque, amigo, a morte é para todos. Juçara vai morrer, sim, mas no tempo dela. Como você tentou trapacear, apostando o que não tinha, sofrerá penalidade. É a regra. 

Lucio não acreditava. Arranhava o próprio corpo, em desespero. 

- Por quê? Meu Deus, por quê?

O Sr. Pedro Botelho sorriu, educadamente.

- Deus não tem nada a ver com isso, amigo. Trato é trato. Veja – ele colocou esquisitos óculos de leitura e leu, compenetradamente: “Se o contratante apostar algo que não lhe pertence, perde todos os direitos à salvação de seu corpo e alma”

- Assim, não lamento lhe dizer: você vai viver muito, cada vez mais doente. Quando seu corpo definhar, seu espírito enlouquecer e não sobrar mais que um espectro do que um dia foi humano, só então morrerá. Você não vai para o céu, já me informaram. Nem, por tempos incontáveis, para o inferno. Sua alma rota vai penar na Terra, sempre ansiando por uma forma física, sempre desesperado pelo sono eterno, sempre assombrado pelos seus crimes. 

Lucio olhava para ele, paralisado de pânico. O Sr. Pedro Botelho se levantou.

- Foi um acordo justo. Não te forcei a nada.Você teve a vida que pediu e eu consegui o que queria: vício, maldade, sofrimento, dor. É disso que me alimento. E eu não sou sôfrego, sabe? Tenho zilhões de almas como a sua. E a eternidade para esperar por mais uma...

Lucio gritou. Mas ninguém ouviu. 

Pessoal, entro de férias. Volto em meados de junho e, prometo, com uma história levezinha.

Foto: david-k. Pinterest
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