segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

AUTO DE RESISTÊNCIA >> Albir José Inácio da Silva


- Foi bom o senhor fazer contato, meu Tenente. Já ia te ligar. Vasculhamos tudo. Tão limpos. Vou soltar e dizer que foi denúncia falsa. Dou um susto só pra não irem fofocar na Corregedoria.

No sofá rasgado, um casal, meio inclinado por causa das algemas, aguardava com os olhos no chão de cimento. Na porta, o Sargento falou baixo e de costas para não ser ouvido pelos presos.

- Tá maluco, Lênis? – gritou o Tenente Paiva, mostrando a cara no vídeo do zap. - Se a gente te mandou é porque tem o que fazer. Presta atenção: isso aí já matou polícia! Gosta de fazer crocodilagem  com gente de bem! Tem que passar os dois! Tem muita coisa envolvida, Lênis. E muita gente também!

Lênis não conseguiu falar e o Tenente insistiu:

- Fica tranquilo, irmão. Agora a gente tá por cima. O grande-pai tá do nosso lado. Acabou a perseguição!

- Não, Tenente, o senhor me conhece. Sabe que eu não entro nisso. Não tenho nada contra quem entra, mas já recusei antes e não vou entrar agora. Tô indo pra base preencher meu relatório.

- Calma, sargento! Não é assim, não! Isso é coisa séria, meu irmão! Dá uma olhada aqui, ó!

Na tela do celular, Lênis vê grama, árvores, um pequeno lago, galinhas, patos e cavalos. A imagem continua girando até chegar na varanda com mesas, cadeiras churrasqueira e um freezer. Lênis acompanha entediado, querendo terminar tudo e ir embora. Mas numa das mesas está uma mulher jovem e um menino de uns cinco anos.

- Quê qué isso, Tenente? Quê qué isso, Paiva? O que significa isso? – explodiu o sargento, já sem se preocupar com a altura da voz.

- Calma, Lênis! Tá tudo bem! Debaixo do banco da viatura tem uma caixa. Manda o soldado Plínio ir lá buscar. Tem tudo que você precisa. Depois tira o grampo dos dois, senta o dedo e bota esse oitão na mão do comédia. Liga pra perícia. Deixa esse pó aí pra eles acharem. Os caras já estão avisados pra liberar vocês rapidamente. Aí vocês vêm pra cá. Todos três. Depois você faz o relatório.  Aqui tem cerveja gelada e carne na brasa. Além da sua mulher lindinha e do seu filho lindinho.


Uma dúzia de homens e mulheres, policiais, esposas e filhos já tinham chegado no sítio. A mulher de Lênis estava mais relaxada, conversando, apesar da demora do marido.

- Ele saiu numa missão, mas já tá chegando – tranquilizou o Tenente.

Depois que despachou o Sargento pra diligência , Paiva foi à casa dele buscar a mulher e o filho. Disse a ela que era uma festa surpresa pro Lênis e que ele iria direto pro sítio. Ia ficar feliz em vê-los.

Elisa ficou meio tensa, principalmente enquanto esperava sozinha com o filho e o tenente. Paiva se afastava frequentemente para falar ao telefone e voltava sorridente, dizendo que Lênis não ia demorar. Não sabia porque não gostava do Paiva. Mas era bobagem, ele era de confiança, ela que tinha mania de cismar com as pessoas. E seu marido sabia se proteger. Quantas vezes prometeu não se meter nessas furadas que rolavam no quartel!

Outras pessoas começaram a chegar. Até o Comandante veio com a mulher e já chegou perguntando pelo Lênis.

- Já tá chegando. Falei com ele agora. – informou o Tenente Paiva.

Mais alguns minutos e a viatura do Lênis entrou. O Cabo Souza ainda manobrava pra estacionar, quando Lênis desceu do carro. O menino veio correndo e ele abaixou para abraçá-lo. Outros cumprimentavam, acenavam e ele respondia com meio sorriso e monossílabos. Abraçou a mulher e ela viu que ele estava trêmulo. Devia ser emoção pelas homenagens.

O Comandante se levantou da mesa e estendeu a mão:

- Parabéns, Lênis! Assim que eu gosto, missão dada é missão cumprida.

O sargento Lênis prestou continência antes de apertar a mão do Coronel.

Trouxeram copo, cerveja e prato. Lênis virou a cerveja e encheu outro copo, mas não tocou na carne. O menino brincava com outras crianças, Elisa conversava, agora sorridente.

O tenente chamou Lênis e ficou esperando. Foram andando pra fora da varanda e Paiva colocou no bolso da farda de Lênis um envelope que de tão gordo não cabia.

- Aqui um presentinho nosso. Você mereceu.

- Não, Tenente, você sabe que eu não gosto...

- Para de palhaçada, Lênis! Você tá tão dentro disso quanto qualquer um de nós!



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sábado, 15 de dezembro de 2018

BOAS FESTAS >> Sergio Geia



Ainda em novembro a gente olha e o vê chegando, mas ainda um pouco distante, sabe?, como a montanha escondida no nevoeiro; você a imagina perto, mas anda, anda e ela não chega, é apenas uma caricatura no horizonte. Mas também você sabe, ou tem a sensação que, embora distante, ele está mais perto, muito mais que ontem, e sabe também que o tempo voa na velocidade de uma nave alienígena, bem Independence Day, que o fim de semana voa, principalmente por ser apenas dois dias, ou dois dias e meio ― vamos contar a noite de sexta , e a semana seguinte também voa, e a próxima, e assim o tempo vai passando, como a água do rio que desce montanha abaixo, vai corroendo caminhos, deixando marcas, esbranquiçando fios, vincando a pele, e a juventude, a melhor fase da vida ― e não me venha com essa de dizer que a velhice é a melhor idade, ok? Conversa pra boi dormir; como não sou boi, não caio nessa ―, a juventude vai se tornando um ponto equidistante no horizonte, que ficou para trás, mas bem para trás mesmo.
E de repente, pombas, ele chegou!
As noites estão mais bonitas, principalmente mais quentes, iluminadas e alegres, as pessoas mais felizes e solidárias; na esquina, o bom velhinho recebe os pedidos da criançada, com sua veste pesada e vermelha ― bem Coca-Cola, inapropriada para o nosso verão, sua barba espessa e branca ― que horror as postiças, não? Meu caro Papai Noel, se você não tem uma barba natural, branca, que possa crescer, por favor, desista, vai procurar outro serviço, ok?
Quando criança, lembro que nessa época íamos pra cidade ― a gente tem mania de chamar de cidade o centro ― comprar presentes de Natal. Eu parava nas lojas, ficava namorando a bicicleta, às vezes sentava no banco e segurava o guidão, ou um novo jogo da Estrela; era um sonhar delicioso e pueril. E quando encontrava o Noel? Em cada esquina eu o procurava, ansioso, e quando se destacava aquela mancha vermelha ao longe? Nossa, o coração disparava!
Dizem que em dezembro os anjos, inclusive os mais poderosos, tipo Miguel e Gabriel, estão aí, visitando casas, guardando criancinhas, zelando por idosos, harmonizando famílias que brigam, resgatando corações. Ninguém vê, ninguém acredita. Os mais sensíveis, aqueles que ainda conseguem sentir o perfume das flores, percebem. Sem contar os anjos que agem pelo humano. Quantos anjos você já não encontrou em sua vida, hein?
Pois bem. O Natal chegou. E com ele todas as preocupações mundanas: presentes, roupas, ceia, viagens, sete pulinhos no mar.
Este ano, como no ano passado, e no outro, e no outro, vou passar em Taubaté mesmo, na casa da Roseli, com a família, comendo, bebendo, celebrando a vida, dando risadas, relembrando o passado, pegando no pé do Ricardinho do Pânico (gente, pra quem não sabe, o Ricardo é meu primo; ele deu um nó no Carioca e sua trupe; veja lá no YouTube e dê boas risadas), e à meia-noite, rezando juntos, de mãos dadas, vamos celebrar o Natal em nossos corações.
Grato pelo carinho, pelas palavras sempre gentis, pelo amor, pelos anjos que vocês foram em minha vida.
Saio de férias por um mês, isso significa que será um mês sem crônicas Nossa! Será que consigo?
Ano que vem retornamos.
Beijos, feliz Natal e um mágico 2019!
A gente merece.




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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

UMA CARTA PARA MEU FALECIDO AVÔ >> Clara Braga

Vô, 

sei que você se foi faz tempo, mas suas lembranças ficarão para sempre!

Nunca vou esquecer de você inventando melodias para encaixar fórmulas matemáticas e tentar me fazer decorar a tabuada através de músicas. Também não esqueço que eu sempre encrencava com seu jeito de escrever a letra F, não era como eu tinha aprendido na escola e, por isso, dizia que era errado.

Lembro das brincadeiras que tinham que ser sempre de um jeito que você não precisasse sair da sua poltrona e lembro também que no natal você sempre tinha pilhas para colocar nos brinquedos que a gente ganhava, afinal, ganhar um brinquedo e não poder brincar por causa de pilha não é justo com nenhuma criança.

Hoje te escrevo para falar exatamente dessa questão da pilha. Você acredita que, embora muitos brinquedos já funcionem com bateria, ainda existem brinquedos a pilha? Acredito que você tenha acompanhado essas evoluções tecnológicas e todas as outras coisas que acontecem aqui na terra aí do céu, não é mais sentado na sua velha poltrona com seu cigarro na mão, mas com certeza é de camarote. Justamente por isso, deve ter ficado um tanto decepcionado quando eu levei seu bisneto para o evento de natal desse último fim de semana e entreguei para o Papai Noel o presente que ele deveria ganhar.

Sim, o presente precisava de pilha para funcionar e eu não levei as pilhas.

Aí você deve estar pensando: não Clara, o pior não é nem você não ter levado pilhas, o pior é que hoje em dia eu já vi aqui do céu que as lojas de brinquedos te lembram que o produto que você está levando precisa de pilha e oferecem para colocar, e você disse que não precisava pois, como é uma ótima mãe, não deixava faltar pilhas em casa. 

Vô, você não imagina quantas vezes eu pude ouvir sua voz com clareza na minha cabeça dizendo a palavra pilha enquanto eu esperava o tal Papai Noel aparecer para entregar os brinquedos. Nos meus olhos já podia ver a cena do Theo abrindo o brinquedo e não dando a mínima já que o brinquedo não funcionava e tentando brincar com os brinquedos dos outros meninos. Me passei do posto de super mãe das pilhas para o de pior mãe do mundo, e confesso que cheguei a preferir que o Theo ficasse com medo do bom velhinho e não quisesse pegar o presente.

Bom, para minha sorte, alguém aí de cima - que eu acho inclusive que foi você - percebeu meu desespero e fez uma intervenção divina: fez o Theo capotar em um sono profundo antes do aparecimento do Papai Noel. Nós, pais esquecidos, fingimos estar muito tristes, pegamos o presente e levamos para casa, local protegido com várias pilhas a disposição. No dia seguinte, quando o Theo acordou, estávamos prontos para brincar o dia todo.

Como pôde ver vô, a história teve um final feliz, mas sei que nem sempre terei a sorte de ser assim. Por isso hoje te escrevo para renovar a promessa de que presente nenhum será dado sem pilha e, sempre que a moça da loja me perguntar se eu quero pilhas para acompanhar vou dizer um lindo SIM!


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quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

CRIATURAS >> Carla Dias >>


É tempo de falarmos sobre como o tempo anda curto, mesmo o relógio contradizendo a informação, insistindo que anda mais preciso do que nunca. É coisa de fim determinado, de daqui a pouco de frescor que durará cinco minutos apurados por esse relógio enlouquecido que já não conseguimos compreender.

Contabilidade sazonal: quantos horrores foram encarados no último ano? Quantas noites foram gastas em melancolia? Quantas vozes não disseram o que morava no seu desejo? Quantos sorrisos foram coletados pela memória? Quanto amor foi concebido no desvio da determinação de não mais permitir ter o coração partido? Quantos gritos? Quantos medos? Quanto desesperos? Quantos deslumbramentos?

Somos essas criaturas conflitantes, que hoje pensam isso e amanhã requentam o aquilo. Instáveis criaturas. Adoráveis criaturas. Desprezíveis criaturas. Transgressoras criaturas.

No nosso corpo moram necessidades. Na nossa mente vivem questionamentos. No nosso espírito culminam pequenos temporais. Temos de nos agarrar a nós mesmos, diariamente. Precisamos nos esconder de nós mesmos, vez em sempre. Carecemos de nos lamentarmos pelo outro, em nome do alívio de não sermos personagens de tais devassos desencantamentos.

Voláteis criaturas distraídas consigo mesmas. Criaturas acostumadas a delegar ao tempo o desespero que lhes carcome. Divinas criaturas que, vez em quando, entregam-se à generosidade e chegam mesmo a distribuí-la.

Criaturas de flores nos cabelos, armas nas mãos, corpo adormecido pelo medo, o desejo gritando saudade.

Há dias em que somos criaturas de tantas identidades.

Não há culpa que pertença ao tempo. Ela é nossa, pois somos nós que o gastamos com insignificâncias; que o tratamos como moeda; que despimos sua necessidade de cadenciar; que fazemos caber nele um tudo que nele não cabe.

Ah, nós, criaturas perturbadoras, intrigadas com o que não podemos controlar. Rebeladas por sentirem irrefreável necessidade de nos firmarmos como soberanas. Criaturas que somos a nos rastejarmos pelos cantos sombrios de nós mesmas, para então desaguarmos em alegrias febris.

Não é o tempo que passa mais depressa. É a nossa pressa que o atropela. É a nossa urgência que o devora.

Imagem: O Sonho do Pastor © Henry Fuseli

carladias.com



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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

O QUE VOCÊ FARIA? >> Clara Braga

Toda nova fase da vida é marcada por uma mudança. Essas mudanças, não importa se são grandes como a chegada de um filho ou pequenas como um corte de cabelo, sempre precisam de um período de adaptação e podem apresentar consequências tanto boas quanto ruins.

Muito se fala sobre as mudanças mais clássicas que a gente passa na vida como uma formatura, um casamento ou um novo emprego, mas tem uma situação pela qual muita gente passa que eu considero subestimada e que já deve ter gerado tanto conflito quanto um divórcio não consensual: partilha de bens de uma família quando os filhos saem de casa!

Tenho certeza que em algum lugar do mundo existem irmãos que se estranham há anos pois não souberam o que fazer com o computador que foi comprado em parceria, dividido até os centavos. Afinal, como definir quem tem mais direito?

E aquele vídeo game que a mãe comprou no natal para que os dois filhos dividissem? Quem está saindo de casa pode achar que os objetos são de quem sai primeiro, já quem fica acredita que merece ganhar algo nem que seja um prêmio de consolação por ter sobrado sozinho com os pais. Quem está certo?

E os livros que estão nas áreas comuns da casa, é para deixar ou eu posso levar aqueles que eu comprei com meu suado dinheirinho? E os CD's, são de quem ouve mais ou de quem coleciona? E o cachorro, vai ou fica?

São tantas questões que eu poderia ficar aqui durante horas só pensando nessas situações, como definir quem está com a razão e quem não está? Mas a única coisa que me passa pela cabeça é que nas vésperas do natal é ótimo não ser papai noel e não ter que escolher entre dar dois presentes de qualidade inferior para cada um deles ou dar um presente só e esperar o circo pegar fogo. 

O que você faria?




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segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

SUSTOS E LENÇÓIS >> Albir José Inácio da Silva


O cansaço desmaiava Willians na cama, mas os acontecimentos do dia não o deixavam dormir. Olhos entreabertos, braços estendidos pra baixo, queria descansar, mas a imagem da velha enrolada no lençol até a cabeça esperando o caixão na casa da frente não o abandonava.

Arrependia-se agora das brigas com Dona Dalva desde que pisou naquela vila. Não se passou
um dia em que não arengasse com a Senhoria. E hoje não tinha sido diferente.

- Nada faz o senhor fechar esse portão, né, Seu Ilha?

- Que Ilha, Dona Dalva? Que Ilha? É Willians! Willians! – gritava. - Metade desse quintal tá sem muro, e a senhora tá preocupada com o portão?

 Willians ainda reclamava com a esposa Aline do inferno que era morar ali, quando se ouviram os gritos de socorro na casa da frente.

- Acode lá, Will! – exigiu Aline.

Dona Dalva estava caída no chão e a filha ajoelhada. Willians pegou a velha no colo e colocou na cama. Mas a SAMU chegou só pra dizer que ela estava morta.

Willians se arrepiou quando soube que carregara um defunto. Não que tivesse medo. Era macho, ex-pqd, fã de Bruce Willis em Duro de Matar e seus heróis todos eram matadores, socadores e explosivos. Mas não gostava dessas coisas.

A sogra de Will, Dona Deca, gostava da Dona Dalva por uma única razão: ela infernizava a vida de Will, que era uma coisa que ela mesma gostaria de fazer pessoalmente, mas a filha Aline atrapalhava.

A noite encontra Will na cama, morto de cansaço, tentando pegar no sono, mas a cabeça errando pelos acontecimentos do dia. O ventilador empurra a porta aberta que encosta na parede com um gemido e um baque ritmados. Haja nervos. Will já percebeu, mas está cansado demais pra levantar e  pensando na defunta que carregou. Não que tivesse medo, mas não gostava dessas coisas.

Embora não tivesse medo, Will reconhecia a conspiração universal para assustá-lo. Defunto na casa da frente e agora um vento que mais parece gemido. Cai a chuva. O trovão foi bem perto. Acaba a luz, deve ter sido todo o bairro. Só os relâmpagos iluminam o quarto. Will se encolhe.

Mais um relâmpago e ele vê um vulto branco de cócoras na porta do quarto, que levanta e se agita em direção à cama. Will quer gritar, mas a voz não sai. Segura o abajur pelo meio e levanta a base de metal.

Baque, grito, novo clarão. Aline acorda.

A luz acende. A sogra está enrolada no lençol, os olhos arregalados e o sangue começa a descer pela testa. Will está em choque.

- O que é isso, mamãe?

A velha urra:

- Maldito cão dos infernos!

- O que a senhora tá fazendo aqui? – pergunta a filha.

- Eu vim prender a porta que o ventilador tá balançando. Não consigo dormir com esse barulho. - o sangue chega na boca e ela grita mais ainda. – Ele quer me matar!

- Mas embrulhada num lençol, mamãe!? Ficou maluca?

- Eu tô de camisola e não ando por aí expondo minhas vergonhas.

Na delegacia Dona Deca quer a prisão de Will por tentativa de homicídio. Aline quer ir pra casa, embora não esteja convicta da inocência de Will.

O delegado queria mesmo era prender todo mundo.

Will diverte-se sabendo que não vai dar em nada. Sente-se corajoso por enfrentar o perigo e se alegra por ter sido a sogra e não a Dona Dalva. Que Deus a tenha!




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sábado, 1 de dezembro de 2018

UM CONTO SOBRE PLANOS FRUSTRADOS >> Sergio Geia



Ele sonhava assim: ...
Não. Sonhava não. Mais planejava do que sonhava. Pode parecer bobagem, mas não é, e há sim uma grande diferença. O sonho tem feições obscuras. Não. Nada disso. Quanta bobagem. Não é isso o que eu quero dizer, que sonhos têm feições obscuras, esse tom que você pensou, exatamente porque eles não têm. Tipo as estantes de livros da minha casa. Sim, os sonhos são das cores de minhas duas estantes que tenho aqui sobre a televisão, cheias de livros coloridos. Sonhos são leves, coloridos, balão voando no céu. Melhor assim, nada de “feições obscuras”. Ai meu anjo, perdoe-me; acho que estou um pouco confuso hoje. Talvez esteja precisando de um gole de uísque. Vamos reformular. Sonhos têm uma feição, digamos, Everest, algo difícil de alcançar, era isso o que eu queria dizer. Sim, muitos alcançam, quantos alpinistas não chegam lá, mas quantos não ficam pelo caminho? Sonhos são desejos a perseguir, lugar que se quer alcançar, e que exige de você. Sonhos iluminam a vida, e não era isso o que eu queria contar; portanto, o sonho, diferente de vida, não cabia aqui, daí toda essa explicação confusa.
Então ele não sonhava. Vamos dizer: ele planejava. Mas antes de dizer o que ele planejava, digo para você que não vou interromper mais, que já está ficando chato. O personagem é ele, não eu. E não vou falar tentando explicar as coisas, visto que (bem juridiquês) quebra totalmente o tesão, faz a história parecer mais uma crônica dessas que eu publico, que você está acostumado a ler, e tudo o que eu não quero é que você se lembre de mim hoje, porque quero que a leitura seja mais conto que crônica, mais ficção que real, água límpida com aquele sonzinho suave que desce a montanha e acalma, embora já ache que o que vai sair de tudo isso é muito menos que um conto, muito menos que uma crônica, um cruzamento mal-acabado dos dois, uma espécie de transmutação literária, bem confuso mesmo.
Então...
Ele planejava assim:
Numa dessas noites, de preferência numa noite fria, ele planejava tirar do armário o Clos de Fous que havia ganhado de uma amiga no dia de seu aniversário. Planejava vestir uma roupa quente — qualquer uma, não iria receber ninguém —, acender incenso, um cigarro, e antes de ouvi-lo, planejava introduzir o momento relax com um conto de Borges, ou de Pirandello, nesse caso não havia decidido, mas não importava, queria apenas entrar no clima, saborear as palavras, a bebida, o cigarro, sem pressa, saborear lentamente o momento especial.
Na última semana, o tempo esfriara. Depois de dias de inverno quente, a temperatura em algumas manhãs chegara à casa dos 8 graus, tornou-se um desespero tomar banho num chuveiro que não esquenta como o seu, até os encontros semanais com Dáfine, que o faziam despender uma boa quantia mensal por elevados interlúdios sexuais, rarearam por causa do frio, do resfriado, da tosse; mas, ainda assim, ainda que o frio trouxesse essas e outras adversidades, ele o preferia, principalmente porque no frio conseguia dormir bem, coisa que não fazia quando as temperaturas batiam o ápice no famigerado verão dos trópicos.
Mas enfim, o inverno chegara. E, pelo correio, também o disco. Foi outro dia. Quando comprava livros pela internet, um novo Ian McEwan, “Onde andará Dulce Veiga”, do Caio, viu a chamada e não teve dúvidas: lançou para dentro de seu carrinho o “Caravanas”, coisa que já devia ter feito há bastante tempo. Desde que chegara ele planejava o ritual. Sim, ouvir discos para ele tornou-se um ritual. E agora, com o frio, o vinho, planejava degustar daquelas preciosidades a seu modo, sem pressa, como fazia com Dáfine, claro, quando ela o permitia, e não exigia, ainda que indiretamente, um gozo rápido para, talvez, correr atrás de outro cliente.
Mas andava cheio de compromissos. Cerveja com amigos numa noite, o lançamento de um livro de uma amiga, a série da HBO que o estava consumindo, (aliás, nunca pensara que ficaria tão escravo dela), cinema, às vezes preguiça mesmo, eram semanas que procurava encontrar um dia, um humilde dia, para vestir sua roupa mais quente, para abrir o Clos de Fous, acender o incenso, depois o cigarro, ler Borges ou Pirandello, e aí sim, colocar o CD no aparelho, pegar o encarte com as letras, e ouvir, ouvir, ouvir, uma, duas, três vezes cada música, degustar o sentido das frases, a história empurrada (e Caravanas tinha dezenas delas).
E planejava que mais uma vez um disco assim iria surpreendê-lo. Assim foi com o outro. “Sem você”, por exemplo. Ela talvez o tenha feito mudar a sua vida, o tempo todo seu, ir ao futebol, ao museu. “Nina” o fez sonhar, e quantas não foram as vezes que bebeu vinho sonhando? “Querido Diário” o remeteu ao Rio, às coisas da cidade grande. Buscando a delicadeza confessional, o pequeno detalhe, a frase solta, perdida, que dizia muito. Alimentava o sonho, ou planos, diariamente, pensava na roupa quente, no frio entrando pela janela, o aquecimento com o Clos de Fous, Borges, as melodias sofisticadas penetrando suavemente, ganhando vida, enchendo-o de emoção.
Mas não foi nada disso.
Numa tarde de sol, temperatura superando os trinta, sentado na frente da tevê vendo uma morosa partida de futebol, comendo pipocas e tomando coca, ele, e até hoje não sabe a razão, abandonou sem qualquer remorso os planos, o ritual de audição tão ansiosamente planejado, apagou a tevê, encheu o copo duplo de coca e gelo, nem pensou em Borges ou Pirandello, de supetão enfiou o CD no aparelho, nem quis pegar o encarte. Ouviu “Caravanas” de enfiada, uma vez, gostou, mas tão logo terminou a última música, desligou o aparelho, ligou novamente a tevê, ajustou na HBO, já sentindo o coração palpitar com o início de outro capítulo de GoT.




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sexta-feira, 23 de novembro de 2018

DEBAIXO DO FUNDO DO POÇO >> Paulo Meireles Barguil

Se existem várias espécies de poço, também é verdade para as tipologias de fundo do poço.

Há poços secos, cheios e com nível variável de água ou de outro líquido.

Às vezes, a pessoa está lá por escolha.

Outras vezes, foi colocada contra a sua vontade.

Às vezes, ela consegue sair com vida.

Outras vezes, até o resgate do corpo é difícil.

E o que dizer quando alguém está debaixo do fundo do poço?

Se há um fundo, é porque tem um limite e, portanto, algo debaixo dele...

Durante essa vida, estive nele algumas vezes.

Em todas, eu consegui sair.

Ou será que ainda estou nele há décadas e não sei?

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quinta-feira, 22 de novembro de 2018

O FUNDO DO POÇO>> Analu Faria

Nos três anos em que escrevi aqui, eu quis fazer o que os ditados fazem para se tornarem ditados. Quis pegar umas palavras, juntá-las e arremessá-las de modo que caíssem naquele poço dentro da gente onde as coisas fazem sentido quando atingem o fundo. Eu sei, é muita pretensão.

Não sou escritora, o que fiz aqui no Crônica do Dia foi um exercício de escrita, ainda que parecesse ter pompa e circunstância (prova maior de que não sou, de verdade, uma escritora). Mas mesmo no nível "aprendiz", eu me joguei nessa tarefa de falar de alguma coisa que não fosse o clima, o jantar, o gato dormindo na cadeira, por si sós, ou seja, como aqueles quadros na parede de casa, que a gente, de tanto ver, esqueceu de que estão ali. Eu quis sempre o que era singular, mesmo no corriqueiro e no mínimo. Eu sei, é muita pretensão.

Essa vontade de que a escrita fosse mais (não tem complemento aqui)  deve ter a ver com a forma como tento viver a vida. Entre "louca" e "intensa" eu já ouvi descrições interessantíssimas sobre a minha personalidade. Todas elas, contudo, tinham em comum tanto a fuga da realidade (e por realidade eu quero dizer a solidez desse sistema casa-trabalho-estudo-amigos-conta bancária-família-cachorro-chefe-boleto, com sono e refeições entremeados) como essa estranha busca pelo extraordinário. Eu sei, é muita pretensão.

Agora eu não pretendo mais muita coisa. Não com a escrita. Pode ser que eu lance um livro com os melhores momentos deste tempo em que estive aqui. Considerando que todo mundo lança livro hoje em dia, não acho isso tão aviltante à humildade geral. Pode ser também que eu leve para a terapia o que escrevi e adiante a alta, ou convença o psicólogo de que eu sou mesmo um caso sem jeito.  Mais provável é que eu não faça nada com o que escrevi, porque o escrito já fez muito comigo, e por mim. Se o que escrevi neste espaço, durante estes anos, fez alguma coisa por você também, ainda que seja te causar enfado, eu tenho mais é que agradecer. Na minha sanha por atingir o fundo daquele poço onde tudo faz sentido, esqueci que a trajetória que as palavras percorrem depois de eu lançá-las, seja que forma essa trajetória tenha, é o que mais importa.


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quarta-feira, 21 de novembro de 2018

ELUCIDAÇÃO DIVAGANTE >> Carla Dias >>


Tem prédio sendo construído logo ali. Tenho nada contra prédios, eu moro em um. Só que acontece de eu achar que uns e outros se assanham com a ideia de tocar o céu. E aquele céu, aquele no qual o meu olhar costumava se aconchegar, transforma-se, rapidamente, em janelas. Janelas que darão para ouras janelas.

Falta modéstia aos prédios.

De uns dias para cá, pessoas que conheço e estimo vêm comentando seus feitos comigo. Algumas me pediram para ajudá-las com eles. Eu gosto de ajudar. Há livro sobre a morte sendo escrito com apreço à vida, porque lida com problemas que são bem difíceis de encarar, ao observarmos alguém que amamos partindo aos poucos. Há música sendo composta em homenagem a sentimentos profundos e genuínos, que provavelmente nunca se transformarão em declaração desmascarada. Há personagem criado em imagem que se embrenha em sonhos e poesia.

Há projetos sobre assuntos com os quais nunca flertei, mas neste caso, o importante é a conversa para aliviar a pressão da pessoa e afinar o olhar dela a respeito de sua própria busca. Há pessoa que se encontra nesse lugar de reflexão sobre se encontrar em uma nova profissão, e que busca, entre desapontamentos e sustos, mas com uma disposição e gentileza com a vida que me emociona, um amor para renovar sua capacidade de amar.

Há pessoa a ruminar desejo de mudança, mas sem declará-lo escancaradamente, sequer assumi-lo com propriedade. No humor sarcástico, busca pelo caminho que a levará a essa mudança, sem estardalhaço. Tenho a impressão de que, em breve, ela compreenderá que a mudança que busca é muito mais profunda e significativa, e que ela será bem barulhenta. Mais do que isso, ela será inevitável.

Paralelamente aos projetos desses meus afetos, há os meus próprios. Confesso que os troquei por algumas séries e filmes antigos. Que o Netflix tem suprido minha necessidade de me ausentar deles. Há tanto a ser feito, decidido, tocado adiante, mas sinto como se a melhor coisa a se fazer, nesse momento, seja abraçar uma pausa e esperar.

Abraço dado.

Espera em andamento.

Há prazos, urgências. Há caos, geral e pessoal. Há questionamentos escandalosamente indesejáveis, mas fundamentais. Muitas coisas boas aconteceram nesse ínterim, e tenho consciência de que elas têm me ajudado a não só repensar o que julguei impossível de ser questionado, mas também a compreender a brevidade da vida. Claro que a leitura de um livro aí vem me ajudando nessa reflexão que já vem acontecendo há algum tempo: somos um quase nada diante do tudo do qual participamos.

Mudanças acontecem o tempo todo, quase todas à revelia dos nossos desejos. Acontece de sonhos serem mudanças necessárias que cobiçamos em segredo, e por conta de serem segredo, pelo nosso medo de não funcionarem a nosso contento, não ganham voz, espaço, realização. Há quem seja capaz, vez ou outra, de prever o futuro do outro, ao colaborar com as realizações dele.

O que espero que nunca mude é a minha disponibilidade em escutar aos meus afetos sobre suas jornadas. E de, às vezes, colaborar com elas. E de que minha honestidade nesse processo jamais se esgote, apenas porque ela se sentiu cansada de se repetir. Há tanta beleza nas buscas. Há tantas descobertas. Não importa se sejam minhas ou daqueles que me cercam.

Estou na a torcida para que chegue logo ao Netflix a próxima temporada da série Marcella. Que eu consiga escrever aquele livro no prazo. Que eu seja capaz de não me perder ao explicar, mais uma vez, que a minha essência é a mesma, o que mudou, e sempre será passível de mudança, é a forma como eu aprendo com a vida e me exponho a ela.

Tenho passado um bom tempo observando os andares daquele prédio serem erguidos. As janelas dele, em breve, impedirão meu olhar de alcançar aquele céu de sempre, que me encanta, enquanto o observo entre um gole de café e uma lida na próxima página de um livro.

Ao observar a mim como uma ínfima parte de uma história que tem nada a ver com meus desejos pessoais, acabo por perceber que há prazos, mas nem todos eles merecem ser cumpridos. Há urgências, mas nem todas realmente são urgentes. Há caos, mas que eu até me viro bem ao encará-lo.

Sobreviverei a mim e aos prédios em construção.

carladias.com

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terça-feira, 20 de novembro de 2018

AO MESTRE, COM CARINHO >> Clara Braga

Outro dia ouvi uns alunos conversando sobre professores que foram marcantes para eles. Achei curioso e triste perceber que a maioria dos relatos não eram de professores que haviam deixado uma boa lembrança, a grande maioria falava de situações chatas que envolviam aquele professor e, por isso, não esqueciam a pessoa.

Um caso em particular me chamou mais a atenção, um aluno disse que um dia a professora perdeu a paciência com ele e avisou que não se importaria mais com ele já que ele não prestava nem para ser gari!

Não vou nem comentar essa frase, pela quantidade de preconceitos e desrespeitos que ela carrega, mas fiquei triste após refletir e concluir que realmente estamos constantemente nos deixando ser mais influenciados por momentos e sentimentos ruins, mesmo quando eles acontecem em menor quantidade do que os momentos bons!

Comecei a pensar nos meus professores e, adivinhem, o primeiro que me veio a mente foi um professor de matemática que me chamou até o quadro para resolver um problema e, quando eu não consegui, me pediu para sentar e fez comentários um tanto agressivos e constrangedores na frente da turma toda.

Mas eu não poderia deixar que todos os meus anos na escola estudando matemática fossem resumidos a uma experiência horrível com um professor que não tinha didática alguma. Me esforcei para lembrar dos outros professores de matemática que tive e, embora vários tenham sido legais, lembrei de um que na época realmente fez a diferença na minha vida.

Esse professor me deu aula no cursinho preparatório para o vestibular. O curso começava de manhã bem cedo e as amigas com quem eu andava chegavam sempre com os cabelos ainda um pouco molhados, com aquele ar de que tinham acabado de sair do banho. Vira e mexe o banho de manhã cedo virava assunto nas rodas de conversa, e todas afirmavam que não conseguiam começar o dia sem um bom banho logo cedo. Quando elas falavam parecia até um ritual para passar no vestibular, se você quer ir bem nas provas precisa acordar e já tomar logo um bom banho. Eu ouvia calada, até meio envergonhada, mas confesso que nunca trocaria uns minutos a mais de sono por um banho logo cedo. Sempre gostei de tomar banho para dormir, aquele momento para desligar, deixar o peso do dia ir embora e deitar relaxada, mas para acordar o banho soa mais como tortura.

Nunca contei isso para as minhas amigas, ficava com vergonha delas acharem que eu era a suja do grupo. Mas um dia, um belo dia pela manhã, uma aluna chegou atrasada na aula de matemática com os cabelos ainda molhados. O professor não perdeu tempo, foi logo fazendo piadas com a menina, dessas bem características de professor de cursinho. E foi nesse momento que ele aproveitou para fazer um desabafo: gente, não entendo essas pessoas que tomam banho de manhã cedo. Acho horrível, nunca na minha vida vou acordar mais cedo para sair do quentinho da minha cama para passar frio no chuveiro. Banho bom é banho para dormir, mas para acordar só café mesmo!

Esse professor não tem ideia do quão libertador foi para mim ouvir alguém dizer aquilo. Fiquei tão feliz que passei até a gostar um pouco mais da matéria dele. Se eu lembro o que ele estava ensinando? De jeito nenhum, não tenho a menor ideia, mas o que importa é que desde esse dia eu passei a ter coragem de falar para quem quisesse ouvir: EU ODEIO TOMAR BANHO DE MANHÃ CEDO!

Ufa, falei!





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segunda-feira, 19 de novembro de 2018

ARMAS, ATROPELOS E BRAZÕES >> Albir José Inácio da Silva


Ouviu os primeiros acordes do hino nacional. Queria descer correndo os nove andares, mas conteve-se esperando o elevador e conferindo no espelho o patriotismo da faixa na cabeça, da camisa da CBF e do xale de bandeira brasileira.

Já tinha se conformado a assistir da janela como das outras vezes, agitando a bandeira, àquele auto de fé e civismo. Não tinha coragem de deixar sozinho o seu Duque, querido e manco, que a maledicência da vizinhança dizia ser retardado. Mas a presença da diarista naquele dia salvou a sua passeata.

“Você vai ficar sentada, Lurdinha, só cuidando do Duque! Não precisa fazer nada!”

O Duque recebeu esse nome para encarnar as duas paixões de Leopoldina: a glória de Caxias e a dignidade da nobreza.

Ao exército de Caxias devia tudo que era e tudo que tinha. Seu pai chegou rapidamente a coronel nos tempos da gloriosa revolução, tão caluniada pelos vermelhos. Até hoje ouve boatos sobre a atuação do Coronel Diamante nos interrogatórios. Esse era o agradecimento pelo rigor com que tratou os inimigos da pátria!

 Mas o pai deixou-lhe ainda outro motivo para venerá-lo: pensão vitalícia enquanto permanecesse solteira. E quem precisa de casamento com uma pensão dessa? Bastava-lhe o Duque.

Quanto à nobreza, Dina – como era conhecida - se julgava descendente. Mesmo que o galho genealógico não se tenha confirmado na direção da Arquiduquesa da Áustria, a Imperatriz Dona Maria Leopoldina, “Coincidências não existem, este nome não é à toa”, dizia.

Na Avenida Atlântica, milhares de pessoas vibravam ao som do hino nacional. “Brasil um sonho intenso, um raio vívido...”. Dina acompanhou os intervencionistas, estendendo o braço direito com a mão espalmada para baixo na direção do general que, nesse momento, prestava continência de pé sobre o jipe. Talvez não fosse exatamente um general, mas era com  certeza alguém imbuído de generalismo.

No caminhão que vinha logo atrás dos militares, outra de suas paixões: o Príncipe herdeiro - um legítimo Orléans e Bragança. Ele acenava e jogava beijos. Dina ainda se perguntou se não seria quebra de protocolo, atirar beijos durante o hino. “Mas o Príncipe é o Príncipe”, acalmou-se.

Não podia mesmo perder aquele momento histórico por causa de sua neurose com o Duque!

Lurdinha colocou na máquina uma cápsula de capuccino. Depois sentou-se na cadeira-do-papai com a xícara na mão e os olhos fechados. Essas palhaçadas de passeata costumam demorar e ela esperava estar na hora de ir embora quando a velha chegasse. Paz.

Mas o café pediu cigarro e ela se levantou. Nem pensar em fumar ali dentro que a doida era neurótica com fumaça e reclamava do cheiro até no seu cabelo. Saiu pela porta da cozinha, empurrando o Duque com a perna. Fechou a porta atrás de si e acendeu o cigarro, enchendo os pulmões de felicidade.

Barulho de  alguma coisa caindo do lado de dentro. Lurdinha abre uma fresta, mas não consegue ver o cão. Abre mais e enfia a cabeça. Ele surge de repente, embarafusta-se entre as pernas dela, que recua. Bem a tempo de ver uma mancha preta se precipitar pela escada de serviço.

Lurdinha engasga com a fumaça enquanto desce os degraus tentando alcança-lo. “Maldito cão do inferno!”, blasfema. Cinco degraus à sua frente, o cachorro tropeça, rola dois ou três degraus, se apruma de novo e torna a cair e torna a rolar. Agora já são oito degraus de diferença. Ganha terreno com essas quedas e rolamentos, enquanto ela tenta descer de dois em dois degraus. Arqueja, mas está confiante: do portão ele não passa!

Mas o maldito do Zeca segura o portão com o corpo enquanto joga charme pra cima da piriguete que trabalha no 401. Ele olha assustado e sem entender os gritos da Lurdinha. Enquanto isso o Duque passa entre suas pernas e ganha a calçada.

No calçadão Dina não pisca, coração batucando ao ritmo do hino. Agora o trecho que ela mais gosta: “Mas se ergues da justiça a clava forte, verás que um filho teu não foge à luta, nem teme quem te adora a própria morte, terra adorada...”

Mas, mãe é mãe. Primeiro aquela sensação ruim de que algo pode estar acontecendo. Depois ela reconhece a voz do filho entre dezenas de outras. O latido rouco e cansado do Duque foi sentido antes que ela pudesse vê-lo.

Saindo do meio de centenas de pernas Duque desce o meio-fio, mancando na direção de Dina parada do outro lado do asfalto.

- Para! Para! – grita Dina com todas as suas forças, mas o general não ouve, o jipe não para e Duque corre, tropeça e cai sob a roda.

Dina cai de joelhos.

Duque ainda se mexe. O caminhão do Príncipe se aproxima. Sem saber de onde retira forças, Dina grita de novo.

- Para! Pelo amor de Deus, para!

A nobreza continua avançando como se a vida de uma súdita não estivesse no asfalto. Lá sobre os carros estão seus heróis, supremos e majestosos, quase deuses, sem ao menos se dar conta de sua desgraça.

Dina desmaia.

Na barraca de socorro médico, ela tem de ser contida em seus delírios. “Para meu General! Para meu Príncipe!”, balbucia, antes que a paz diazepínica se espalhe pelas suas veias.

No domingo seguinte, a passeata é outra. Sem brasões, sem fardas e sem clarins. Mas lá está Dina na comissão de frente gritando palavras de ordem, “DITADURA NUNCA MAIS”, enquanto soca o ar com o punho esquerdo fechado acima da cabeça.




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sábado, 17 de novembro de 2018

HÁ TRINTA DIAS ME BATEU UMA COISA DOWN >> Sergio Geia


Assim do nada, como surgem dores e resfriados (doenças também), há trinta dias me bateu uma coisa down. Senti algo ruim no peito, um vazio, que virou desânimo e, típico movimento reverso, vontade de mergulhar numa piscina de nada, e eu fiquei assim. Como a vida não pode parar em razão de nossos vazios e desânimos, segui em frente. Calhou de no meio dessa coisa estranha, sai de casa um dia pra andar e buscar inspiração a fim de escrever algo sobre a primavera que batia à porta.
É claro que o resultado foi zero de inspiração. Não achei coisa alguma que me remetesse à primavera. Talvez, minha vibe sendo outra, achasse.
Decidido assim mesmo a escrever sobre a primavera, como um teimoso convicto, cheguei em casa, sentei na frente do computador e escrevi. Obviamente, uma crônica baixo-astral, reflexo do baixo-astral de seu criador, que foi publicada neste espaço em 22 de setembro de 2018.
O pior dessa coisa estranha é que o universo baixo-astral do escritor criou um texto baixo-astral. Em seguida, esse mesmo texto baixo-astral, como um bumerangue, voltou ao escritor em forma de mais baixo-astral. Ainda mais que o primeiro dia da primavera foi lindíssimo, desmentindo o cronista, ensolarado, céu azulíssimo, flores se abrindo talvez, se o mau humor não o cegasse (veja, por exemplo, o comentário do amigo Dimas sobre a crônica: “Então eu sou um privilegiado e não me dei conta, porque aqui em casa estão brotando florzinhas no pé de abóbora, no pé de romã, nas laranjeiras que plantamos há pouco tempo, e até nos trevinhos da grama.”). Fiquei mal.
Então, mergulhado num baixo-astral horrendo, céu nublado e com trovoadas, comecei a ler e a responder os comentários de vocês no facebook, coisa que gosto de fazer. Senti que o céu começou a clarear.
A começar pela querida Marialice (para mim, assim mesmo, “Marialice”, tudo junto e misturado, como sempre a chamei lá na infância, na Rua Barão): “Acho que temos dentro de nós dias de inverno e dias de primavera...rsrs. Mas ela chegou pra colorir e florescer nosso coração”. Pensei: que coisa linda, Marialice. E pensei também: nada mais facebookiano que viver sempre na primavera. Pois na vida não há invernos?
Depois, o amigo Érito, mostrando um jeito quântico de ser: “Quando me pego olhando pela ótica de sua crônica, lembro que eu decido como enxergar o mundo e então lembro de amigos como você, lembro que a física quântica me mostra que as vibrações para o universo sou eu quem escolho. E assim vejo uma primavera que se inicia e tenho dezenas de coisas para agradecer e uma delas é a sua amizade e seu talento que mesmo distante nós faz estar próximos. Gratidão, gratidão e gratidão!!”
E tantos outros, como a Marlene: “Que venha a primavera quando ninguém mais espera”; a Sandra: “Eu também fico apreciando as árvores de ipê da JK que estão lindas!!!”; a Cidinha: “Que tenhamos mais amor florindo nesta primavera”; a Karina: “Geia, você precisa de flores em sua vida!”; o Téo: “Beleza, Serginho, mas como fala a música que você postou, a primavera vem quando menos se espera e ela tá chegando, meu amigo!”; a Toninha: “A primavera é maravilhosa”; a Regina: “Feliz você, primo, que com todo esse papo sobre eleição e melhor candidato, consegue nos presentear com essa crônica sobre a primavera e mencionando ainda Beto Guedes, que adoro!!”; o Paulo Amaral: “Sergio, primavera é o renascer”; a Vanessa: “A primavera é inspiradora, primo”; a Adriana: “É engraçado, sempre que escuto alguma música da primavera vem o Tim Maia com a primavera e o amor. Enfim, eu adoro olhar nessas épocas as árvores com suas lindas flores coloridas de todos os jeitos; primavera é cor, é alegria, é paixão”, e a Ademara, o Paulo Castilho, o Paulo Pereira, a Marlene, a Regina, a Ana Favali, a Cristiane Amarante, o João Vasco, o Darci, a Luciana, a Neusa Santos e tantos, tantos outros que com uma simples palavra, encheram meu dia de primavera.
De mal, comecei a ficar bem, mais leve e agradecido. Até tomei uma taça de vinho, desisti de “Mar adentro”, filme tristíssimo, mergulhei em “Mamma Mia”, o primeiro, de 2008.


P.S.: Sabe, até deu vontade de sair pulando com a Meryl Streep, em Dancing Queen? Coisa louca. Ah, e obrigado, meus queridos, pelas palavras de carinho após aquele acidente na Dutra e que foi o tema da crônica “Eu estou bem”. Foram tantas as mensagens que a vida ficou mais leve.


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sexta-feira, 16 de novembro de 2018

O ÚLTIMO JANTAR ROMÂNTICO >> Zoraya Cesar

Claudia acordou de um sono profundo, olhou o relógio, duas horas da manhã. Levantou, foi à cozinha, tomou um copo de água, passou no banheiro, fez pipi e voltou para o quarto. Deitou e dormiu. Acordou de novo, olhou o relógio, duas horas da manhã. Como assim? Levantou, foi à cozinha, bebeu água, mas não encontrou o banheiro. Devo estar sonhando, pensou, vai ver vou fazer pipi na cama. Deitou e dormiu.

Acordou, mais uma vez. Olhou o relógio. Duas horas da manhã. Tsc, acerto esse treco assim que amanhecer. Ainda cheia de sono, levantou e... não foi à cozinha, sequer conseguiu sair do quarto. Procurou pelo interruptor. Não encontrou. Nem as paredes, nem a porta, muito menos o celular. Meu Deus, o que está acontecendo? Não enxergava nada, a escuridão absoluta só era quebrada pelo écran vermelho do relógio digital, a refletir as mesmas duas horas. Gemendo de medo, e a muito custo, conseguiu encontrar a cama. Deitou, e percebeu, surpresa, um estranho odor de velas recém-apagadas e flores passadas. Vou tentar dormir, deve ser um pesadelo provocado pela bebida que tomei ontem. 

Ontem... Paulo estava tão romântico. Nem parecia o mesmo homem belicoso e irracional que pleiteava mesada e metade dos bens como garantia de que ela o amava de verdade. Era o Paulo de antigamente, por quem se apaixonara. Depois de dois meses afastados, resolveram tudo pacificamente, e reataram. Poucas mulheres resistem a um homem penitente e arrependido. Claudia era uma dessas. Fizeram amor. Transaram. Tiveram sexo. Ele ainda me ama, pensou, do contrário, não teriam aquela noite de reis. Dormiu. E acordou de novo. Mesmo ressabiada, olhou o relógio, duas horas da manhã. Tudo estava ainda muito escuro, mas, confiante de que o pesadelo  terminara, levantou, decidida a sair do quarto.

Não, não levantou. Estava imobilizada, como se encaixada num recipiente do tamanho exato para seu corpo. As mãos estavam cruzadas sobre seu peito e havia algo estranho em suas narinas. Claudia começou a gritar desesperadamente, mas nem ela mesma ouviu sua voz.

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Alguns conhecidos e amigos se espalhavam pelo salão, atônitos e sussurrantes. Como é a vida, não? Num dia linda, rica e feliz, depois, morta, literalmente da noite pro dia. Cochichava-se, aqui e ali que ela bebera muito, irresponsavelmente, aliás, por conta dos remédios – psiquiátricos e renais – que tomava. Mas gente feliz não raciocina, reprovavam, entre si, sacudindo a cabeça, onde já se viu, morrer desse jeito - como se a morta tivesse culpa por sua própria morte, como se estar feliz fosse crime. Que pena, né, logo agora que eles voltaram às boas... E que sorte que um médico amigo do Paulo tenha conseguido agilizar todos os trâmites hospitalares e burocráticos, quanto mais rápido o enterro, menos sofrimento pro coitado, olha lá, se acabando de chorar num canto do salão! Se não fosse esse amigo, talvez a pobre Claudia nem fosse velada naquele dia, pois houvera um grande acidente na cidade, com muitos mortos e feridos. Os médicos, atarefadíssimos, não poderiam perder tempo com alguém que morrera de um simples ataque cardíaco às duas horas da manhã. 

Na morta, mesmo, ninguém prestava muita atenção. Ou veriam que o rigor mortis dera à sua face uma estranha expressão de espanto.

Depois de o caixão ser fechado e o corpo entregue ao seu novo lar, Paulo recebeu as condolências, compungido e choroso. Sim, respondia, estive com ela, mas saí cedo, ela estava viva e bem, nós nos amávamos, íamos voltar, não sei o que fazer de minha vida...

Até, que, finalmente, todos foram embora, deixando que os mortos enterrassem seus mortos.

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Sozinho, o cínico Paulo brindou à própria astúcia
Sozinho, Paulo comemorava com uísque o sucesso de seu plano perfeito. Convencer a ingênua Claudia de que estava arrependido e ainda apaixonado, embebedá-la de álcool e sexo depois do jantar, e, antes de sair do apartamento, injetar-lhe cloreto de potássio na veia do pé, para o furo ficar bem escondido. Seu amigo médico - na verdade, seu amante - lhe forneceria o álibi perfeito. Sendo viúvo de Cláudia, em breve todo o muito dinheiro que era dela seria seu. E eles poderiam sair do país e viver juntos. Pensou na mulher, sem arrependimento algum. Tivesse ela me dado o que eu queria, nada disso seria necessário. E bebeu mais uma dose.

∞∞∞∞∞∞∞ ∞∞∞∞∞∞∞                              ∞∞∞∞∞∞∞ 

Felipe Espada leu sobre o caso nos jornais. Uma pequena nota, que quase lhe passou despercebida, tão discreta era, no meio das notícias, comentários, análises especializadas sobre o deslizamento do morro que matou, desalojou e feriu tantas pessoas.  

Mulher sofre parada cardíaca durante o sono após reatar com marido.
Claudia Mirim morreu em casa há duas noites, depois de um jantar romântico de reconciliação com o marido. Claudia era última herdeira da rica família Mirim, da indústria moveleira. O marido, Paulo Antonio, funcionário licenciado do Banco do Brasil, ficará com todos os bens. Amigos relatam que ele está sob o efeito de sedativos devido ao choque e blá blá blá. 

Felipe Espada leu, releu e achou tudo muito estranho. O enterro rápido, a liberação do corpo em tempo recorde pelo hospital, o laudo da necropsia mal elaborado (pois não levantou suspeitas nem levou o tempo hábil), um álibi frágil – ora, não havia câmeras de segurança que confirmassem os horários alegados e, pelo Bom Pastor, quem sai de um jantar romântico com a esposa e vai para a casa de um amigo, tarde da  noite, para tomar cerveja? Por que não passara a noite com ela?

Hercule Poirot¹ dizia sempre ‘cherchez la femme’². Mas ele, Felipe Espada, por mais que admirasse o detetive belga, tinha outro motto: “find the monney”³. Onde estivesse o dinheiro, ali, também, o principal suspeito. Que poucas vezes era o mordomo. 

No dia seguinte tomaria algumas providências. Há muitas maneiras de se induzir um ataque cardíaco e forjar uma morte natural. Ele sabia que havia meios de se encobrir um crime. A injeção de cloreto de potássio, por exemplo, a 'morte branca', assim chamada por não deixar vestígios. Mas não existia crime perfeito para um investigador tenaz como ele. E se havia algo que tirava seu sossego era um assassino impune. Sim. No dia seguinte ele iria investigar aquele caso.

¹ detetive mais famoso criado por Lady Agatha Christie
² procurem pela mulher, em tradução livre
³ encontre o dinheiro, em tradução livre

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Pessoal Querido, saio de férias, volto em dezembro. Fiquem bem e, por favor, sintam saudades. 

Outras aventuras de Felipe Espada



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sexta-feira, 9 de novembro de 2018

FRUTO >> Paulo Meireles Barguil

 
 
"Já podaram seus momentos
Desviaram seu destino
Seu sorriso de menino
Quantas vezes se escondeu
Mas renova-se a esperança
Nova aurora a cada dia
E há que se cuidar do broto
Pra que a vida nos dê flor e fruto"
(Milton Nascimento, Coração de estudante)

Diversas variáveis influenciam a trajetória e o destino da semente: a terra, a luz, o vento, a água, os predadores, o cuidador...

É por isso que o fruto sempre será uma possibilidade!

A qualidade do cuidar externo guarda íntima relação com a do cuidar interno.
 
Do ponto de vista energético e psíquico,  não há externo e interno, pois a dimensão física não é capaz de separar o fluxo entre os seres, pois o corpo é o instrumento que proporciona ao indivíduo, ao mesmo tempo, vivenciar e expressar uma fração do metabolizado por ele.
 
É por isso que o futuro sempre será uma possibilidade!
 
 
[Eusébio – Ceará]

[Foto de minha autoria. 09 de novembro de 2018]


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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

NADA DE IMPORTANTE >> Carla Dias >>


Tornei-me dedicada escutadora de histórias alheias. Acredite, sempre presto atenção a elas, não importa quem as conte. Há sempre algo nessas histórias que me levam à reflexão.

Pode ser que eu seja um pouco apegada à reflexão, que elas tomem boa parte do meu tempo e se misturem, sem pudores, às divagações. Mas quem não tem seus apegos, certo? Eles até podem não ser lá muito saudáveis, mas são inevitáveis. Assim, sugiro fazermos as melhores escolhas possíveis ao nos apegarmos a quem ou ao que seja.

Sim, às vezes nos perdemos do direito à escolha. Quando nos damos conta: apego.

Sou apegada a certos livros, certas mágoas, certos prazeres, certas bebidas: café, sempre. A certas pessoas, certos lugares, certos sonhos. No caso dos sonhos, não me importo de quão maleáveis eles se tornam. Adoro como eles vão se encaixando na realidade, trazendo outras nuances, algumas que nem eu imaginei para eles.

Há certa ironia em como os sonhos nos mostram que sua realização vive na realidade. Que eles não precisam ser sonhados, apenas localizados na nossa bagunçada vida cotidiana.

No caso das pessoas, há sempre o risco de a saudade tomar conta. Para ser apegada às pessoas, sem que isso faça mais mal do que bem, repito a mim mesma, até alcançar a consciência a respeito, que aquela pessoa não me pertence, que ela não nasceu para atender aos meus desejos e/ou necessidades. Então, compreendendo que posso esperar do outro somente o que ele quer e pode me oferecer, acabo aproveitando o melhor desse apego.

É um apego desapegado de posse, porque também eu não desejo ser propriedade. Meu desejo é de ser pessoa que caiba no pertencimento a um afeto legítimo.

Então, acontece de nos apegarmos a um período das nossas vidas. Acontece... pode até não ser com todos, mas certamente com muitos. Aquele tempo em que tudo parecia perfeito, apesar de não ter sido. Quando tudo parecia estar no lugar certo, apesar de nós nunca estarmos. O olhar ao ontem que reverbera nessa cadência de nostalgia por um tempo fácil, leve, rico, adjetivado com todas as palavras mais bonitas do dicionário.

A verdade é que adoramos enganar a nós mesmos.

Acontece, eu sei... já permiti acontecer muitas vezes, mas tenho aprendido a evitar, sempre que me dou conta, antes da aceitação dessa enganação toda.

Por que tudo isso importaria a você?

Não importa.

É que tenho esse hábito de refletir, às vezes, em voz alta, outras vezes, escrevendo. Penso que, assim como as histórias de outras pessoas me levam a refletir profundamente sobre as minhas próprias, e as daqueles por quem cultivo certo apreço, talvez meu apego lhe provoque algum pensamento pronto para ser despertado ou que não merece esquecimento, mas sim uma nova versão.

Tem dias em que é assim...

Acordamos meio distribuidores de mensagens que ninguém pediu, e, mesmo não tão sábios quanto ontem, oferecemos o melhor possível. E, acreditem, há dias em que o melhor possível do outro é exatamente do que precisamos para encarar o que nos parece impossível.

carladias.com





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terça-feira, 6 de novembro de 2018

SANTUÁRIO >> Clara Braga

Passei para os meus alunos um seminário para ser apresentado em grupo. Para apresentarem o tal seminário os grupos tinham que estudar duas músicas que constam na lista do PAS (programa de avaliação seriada) e explanar para a turma, entre várias coisas, o significado da letra e o contexto histórico no qual foi composta.

Para não ter problemas com alunos dizendo não terem entendido o que era para fazer e para evitar qualquer tipo de confusão separei algumas aulas apenas para orientação do trabalho, mas a verdade é que alunos sempre dão um jeito de criar uma confusão, parece até que quanto mais você se esforça para que nenhum problema aconteça, mais eles acontecem.

Entre as músicas da lista estava uma chamada Santuário da banda Jenipapo, uma banda local. A música é bem bonita, um rock pop que mistura instrumentos clássicos do rock com instrumentos indígenas. E o significado também é bem interessante, é um posicionamento crítico em relação à construção de um setor habitacional em uma região que era habitada por índios e chamada de Santuário dos Pajés. O assunto é super atual e eu estava ansiosa pela apresentação dessa música pois muitos outros tópicos poderiam ser tratador a partir da reflexão trazida pelo grupo.

Bom, mas como nem tudo são flores, quando o grupo começou a apresentar disseram: vamos começar nossa apresentação falando sobre a vida da cantora. Achei estranho já que a música é de uma banda sem integrantes mulheres, mas não quis interromper a apresentação pois imaginei que eles pudessem ter se confundido e escutado uma versão que a tal artista fez.

Eu não poderia estar mais enganada, os alunos seguiram com a explicação que ia ficando cada vez mais confusa. Tive certeza que algo estava errado no momento em que eles explicaram que Santuário é um local sagrado de devoção mas não falaram nada sobre a questão indígena.

Chegado o momento de ouvir a música o grupo colocou uma música gospel que fala basicamente sobre ser um santuário para alcançar a salvação. Levei um tempo para pensar em como avisar que eles tinham feito um trabalho todo errado, e nisso a música foi rolando. Olhava para os alunos e ninguém parecia achar aquilo estranho, então deixei rolar. O grupo logo tirou a música e então eu questionei a turma: quem aqui entrou no site do cespe e olhou a lista de obras que irão ser cobradas na avaliação? Vários levantaram a mão, mas quando eu questionei se nenhum deles tinha achado algo estranho na apresentação dos colegas alguns já foram logo assumindo que na verdade nunca tinham olhado nem o que são as matrizes do PAS.

Fiquei na dúvida se era melhor rir ou chorar, eu mesma tinha colocado no quadro dias antes todas as músicas e artistas que poderiam ser estudados. Fiz isso a contra gosto, pois me questiono muito sobre o educador que dá tudo de mão beijada para o aluno e não os incentiva a desenvolverem suas responsabilidades e autonomia. Mas o pior disso tudo é que o grupo comete um erro grave desses mas eu é que ainda tenho que tomar cuidado, pois do jeito que as coisas estão eu ainda posso acabar sendo denunciada por doutrinação religiosa sem nunca ter nem ouvido falar da tal artista. É, não está fácil para ninguém. 


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sábado, 3 de novembro de 2018

UM ANJO VISITA GABRIEL >> Sergio Geia



Ele cumpria uma missão confiada pelo Departamento de Missões do Céu. Naquele dia, entrou em diversas casas, a maioria, casas modestas, de humildes moradores. Testemunhou a fé inabalável de muitos, impôs suas mãos carinhosas em homens, mulheres, crianças, até que no fim da jornada, aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, quando já se preparava para pegar carona numa nuvem veloz que passava, se deparou com Gabriel, um senhor bastante idoso que morava sozinho. O homem bebericava uma taça de vinho, esparramado sobre uma aconchegante poltrona em sua sala; na televisão, The Human Stain, filme baseado no livro A Marca Humana, de Philip Roth.
Não estranhe o conhecimento desse nosso anjo sobre cinema. Exceto por essas viagens, pouco tem a fazer. Ele fica lá em cima se divertindo com produções criadas pelo homem, cinema, livros, música, às vezes até pede licença ao Superior dos Anjos para descer e se embrenhar em teatros pelo mundo. Ele não perde um espetáculo da Broadway, do Teatro Oficina, é fã de Scarlett Johansson, assistiu a tudo do Woody Allen, adora Paulo Coelho.
Pelo que ficou sabendo numa das reuniões antes de descer, Gabriel é um homem solitário e muito idoso, mas mesmo só, saltou aos olhos do anjo a dignidade com que ele envelheceu. Seus cabelos são finos e brancos, mas bem cuidados. Tem a pele lisa, hidratada, são poucas as rugas; seu banheiro está cheio de cremes antissinais, esfoliantes e outros produtos. Veste-se bem, roupas de alfaiataria, sapatos Oxford, novos e bem engraxados. Mexe-se com classe, os gestos são bem articulados, bebe um vinho argentino muito bom, e traz uma delicadeza que o anjo pouco viu em outros seres desse nosso planeta.
Tão logo encostou suas mãos sobre a cabeça de Gabriel, o anjo descobriu seus segredos. Ainda que distraído com o filme, um pouco alterado pelo vinho, o anjo pôde perceber que Gabriel sofria de solidão. Ruminava o passado com grande dose de melancolia, lembrava de amigos que se foram, de partidas repentinas, mulheres que passaram em sua vida, más escolhas que fez. Trazia consigo uma enorme carga de arrependimentos, pensava que se pudesse voltar, faria tudo diferente.
Gabriel bebericava o vinho, e se emocionava com as cenas de The Human Stain. Em alguns momentos os olhos até umedeciam. O anjo percebeu que ao mesmo tempo em que assistia ao filme, Gabriel fazia uma retrospectiva de sua vida, analisando dimensão por dimensão, pensando-se satisfeito com isso, com aquilo, insatisfeito com outro tanto, mas agoniado por não ter mais o tempo necessário para transformar em créditos as dimensões cujo saldo visivelmente estava no vermelho.
Sua saúde não era mais a mesma. Ainda que um enfarte o tivesse assustado, conseguiu recuperar-se, fazia exercícios, academia, corria, tinha uma alimentação regrada e saudável. Mas ainda que se sentisse bem, sabia que não poderia recuperar o tempo perdido, e que precisaria de outra vida para viver tudo de uma forma diferente.
O anjo apiedou-se de Gabriel. Dentro de si, o anjo sabia que não dependia dele a concessão de uma nova chance àquele pobre homem só. Sem contar que já estava acostumado com esse tipo de drama. Os homens faziam escolhas erradas, tinham medo de arriscar, acomodavam-se em situações, não queriam mudar, e quando chegavam ao final da vida, na hora de fazer o balanço, descobriam que eram infelizes por não terem vivido aquilo que deveriam.
Mas Gabriel era diferente, o anjo sentia. Não sabia explicar a razão, mas o anjo enxergava em Gabriel uma sinceridade atípica, um desejo alucinado de viver, uma energia limpa. Deitou suas mãos novamente sobre a cabeça de Gabriel, coisa que não fazia, e depois partiu carregado por uma nuvem gordinha, mais lenta que as demais, mas também com um regaço mais aconchegante. Viu que Gabriel, tão logo ele saíra, se levantou com disposição, bebeu mais do vinho, e começou a dançar Cheek to Cheek, embalado pela cena antológica de Anthony Hopkins e Gary Sinise. Pela primeira vez, o anjo sorriu.
P.S.: No décimo quinto andar de um apartamento bem confortável em Perdizes, Gabriel Garcia Marquez da Silva desliga a televisão. Após deixar a taça vazia sobre a pia, segue até o quarto. Incomodado com a corrente de vento que entra pela janela, ele fecha o vidro, depois se deita na cama, enfiando-se entre as cobertas. No fundo, pensa ter ouvido alguém falar, uma voz suave vinda de longe, mas logo Cheek to Cheek o embala, o corpo se aquece e tudo vai deliciosamente se derretendo até acabar.


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