segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

SUSTOS E LENÇÓIS >> Albir José Inácio da Silva


O cansaço desmaiava Willians na cama, mas os acontecimentos do dia não o deixavam dormir. Olhos entreabertos, braços estendidos pra baixo, queria descansar, mas a imagem da velha enrolada no lençol até a cabeça esperando o caixão na casa da frente não o abandonava.

Arrependia-se agora das brigas com Dona Dalva desde que pisou naquela vila. Não se passou
um dia em que não arengasse com a Senhoria. E hoje não tinha sido diferente.

- Nada faz o senhor fechar esse portão, né, Seu Ilha?

- Que Ilha, Dona Dalva? Que Ilha? É Willians! Willians! – gritava. - Metade desse quintal tá sem muro, e a senhora tá preocupada com o portão?

 Willians ainda reclamava com a esposa Aline do inferno que era morar ali, quando se ouviram os gritos de socorro na casa da frente.

- Acode lá, Will! – exigiu Aline.

Dona Dalva estava caída no chão e a filha ajoelhada. Willians pegou a velha no colo e colocou na cama. Mas a SAMU chegou só pra dizer que ela estava morta.

Willians se arrepiou quando soube que carregara um defunto. Não que tivesse medo. Era macho, ex-pqd, fã de Bruce Willis em Duro de Matar e seus heróis todos eram matadores, socadores e explosivos. Mas não gostava dessas coisas.

A sogra de Will, Dona Deca, gostava da Dona Dalva por uma única razão: ela infernizava a vida de Will, que era uma coisa que ela mesma gostaria de fazer pessoalmente, mas a filha Aline atrapalhava.

A noite encontra Will na cama, morto de cansaço, tentando pegar no sono, mas a cabeça errando pelos acontecimentos do dia. O ventilador empurra a porta aberta que encosta na parede com um gemido e um baque ritmados. Haja nervos. Will já percebeu, mas está cansado demais pra levantar e  pensando na defunta que carregou. Não que tivesse medo, mas não gostava dessas coisas.

Embora não tivesse medo, Will reconhecia a conspiração universal para assustá-lo. Defunto na casa da frente e agora um vento que mais parece gemido. Cai a chuva. O trovão foi bem perto. Acaba a luz, deve ter sido todo o bairro. Só os relâmpagos iluminam o quarto. Will se encolhe.

Mais um relâmpago e ele vê um vulto branco de cócoras na porta do quarto, que levanta e se agita em direção à cama. Will quer gritar, mas a voz não sai. Segura o abajur pelo meio e levanta a base de metal.

Baque, grito, novo clarão. Aline acorda.

A luz acende. A sogra está enrolada no lençol, os olhos arregalados e o sangue começa a descer pela testa. Will está em choque.

- O que é isso, mamãe?

A velha urra:

- Maldito cão dos infernos!

- O que a senhora tá fazendo aqui? – pergunta a filha.

- Eu vim prender a porta que o ventilador tá balançando. Não consigo dormir com esse barulho. - o sangue chega na boca e ela grita mais ainda. – Ele quer me matar!

- Mas embrulhada num lençol, mamãe!? Ficou maluca?

- Eu tô de camisola e não ando por aí expondo minhas vergonhas.

Na delegacia Dona Deca quer a prisão de Will por tentativa de homicídio. Aline quer ir pra casa, embora não esteja convicta da inocência de Will.

O delegado queria mesmo era prender todo mundo.

Will diverte-se sabendo que não vai dar em nada. Sente-se corajoso por enfrentar o perigo e se alegra por ter sido a sogra e não a Dona Dalva. Que Deus a tenha!




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