Pular para o conteúdo principal

CRIATURAS >> Carla Dias >>


É tempo de falarmos sobre como o tempo anda curto, mesmo o relógio contradizendo a informação, insistindo que anda mais preciso do que nunca. É coisa de fim determinado, de daqui a pouco de frescor que durará cinco minutos apurados por esse relógio enlouquecido que já não conseguimos compreender.

Contabilidade sazonal: quantos horrores foram encarados no último ano? Quantas noites foram gastas em melancolia? Quantas vozes não disseram o que morava no seu desejo? Quantos sorrisos foram coletados pela memória? Quanto amor foi concebido no desvio da determinação de não mais permitir ter o coração partido? Quantos gritos? Quantos medos? Quanto desesperos? Quantos deslumbramentos?

Somos essas criaturas conflitantes, que hoje pensam isso e amanhã requentam o aquilo. Instáveis criaturas. Adoráveis criaturas. Desprezíveis criaturas. Transgressoras criaturas.

No nosso corpo moram necessidades. Na nossa mente vivem questionamentos. No nosso espírito culminam pequenos temporais. Temos de nos agarrar a nós mesmos, diariamente. Precisamos nos esconder de nós mesmos, vez em sempre. Carecemos de nos lamentarmos pelo outro, em nome do alívio de não sermos personagens de tais devassos desencantamentos.

Voláteis criaturas distraídas consigo mesmas. Criaturas acostumadas a delegar ao tempo o desespero que lhes carcome. Divinas criaturas que, vez em quando, entregam-se à generosidade e chegam mesmo a distribuí-la.

Criaturas de flores nos cabelos, armas nas mãos, corpo adormecido pelo medo, o desejo gritando saudade.

Há dias em que somos criaturas de tantas identidades.

Não há culpa que pertença ao tempo. Ela é nossa, pois somos nós que o gastamos com insignificâncias; que o tratamos como moeda; que despimos sua necessidade de cadenciar; que fazemos caber nele um tudo que nele não cabe.

Ah, nós, criaturas perturbadoras, intrigadas com o que não podemos controlar. Rebeladas por sentirem irrefreável necessidade de nos firmarmos como soberanas. Criaturas que somos a nos rastejarmos pelos cantos sombrios de nós mesmas, para então desaguarmos em alegrias febris.

Não é o tempo que passa mais depressa. É a nossa pressa que o atropela. É a nossa urgência que o devora.

Imagem: O Sonho do Pastor © Henry Fuseli

carladias.com

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …