quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

CRIATURAS >> Carla Dias >>


É tempo de falarmos sobre como o tempo anda curto, mesmo o relógio contradizendo a informação, insistindo que anda mais preciso do que nunca. É coisa de fim determinado, de daqui a pouco de frescor que durará cinco minutos apurados por esse relógio enlouquecido que já não conseguimos compreender.

Contabilidade sazonal: quantos horrores foram encarados no último ano? Quantas noites foram gastas em melancolia? Quantas vozes não disseram o que morava no seu desejo? Quantos sorrisos foram coletados pela memória? Quanto amor foi concebido no desvio da determinação de não mais permitir ter o coração partido? Quantos gritos? Quantos medos? Quanto desesperos? Quantos deslumbramentos?

Somos essas criaturas conflitantes, que hoje pensam isso e amanhã requentam o aquilo. Instáveis criaturas. Adoráveis criaturas. Desprezíveis criaturas. Transgressoras criaturas.

No nosso corpo moram necessidades. Na nossa mente vivem questionamentos. No nosso espírito culminam pequenos temporais. Temos de nos agarrar a nós mesmos, diariamente. Precisamos nos esconder de nós mesmos, vez em sempre. Carecemos de nos lamentarmos pelo outro, em nome do alívio de não sermos personagens de tais devassos desencantamentos.

Voláteis criaturas distraídas consigo mesmas. Criaturas acostumadas a delegar ao tempo o desespero que lhes carcome. Divinas criaturas que, vez em quando, entregam-se à generosidade e chegam mesmo a distribuí-la.

Criaturas de flores nos cabelos, armas nas mãos, corpo adormecido pelo medo, o desejo gritando saudade.

Há dias em que somos criaturas de tantas identidades.

Não há culpa que pertença ao tempo. Ela é nossa, pois somos nós que o gastamos com insignificâncias; que o tratamos como moeda; que despimos sua necessidade de cadenciar; que fazemos caber nele um tudo que nele não cabe.

Ah, nós, criaturas perturbadoras, intrigadas com o que não podemos controlar. Rebeladas por sentirem irrefreável necessidade de nos firmarmos como soberanas. Criaturas que somos a nos rastejarmos pelos cantos sombrios de nós mesmas, para então desaguarmos em alegrias febris.

Não é o tempo que passa mais depressa. É a nossa pressa que o atropela. É a nossa urgência que o devora.

Imagem: O Sonho do Pastor © Henry Fuseli

carladias.com



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