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Mostrando postagens de Julho, 2011

É COM VOCÊ, LOMBARDI! [Carla Cintia Conteiro]

Se você já estava vivo e morando no Brasil entre o final dos anos 1970 e início dos 1980, há de lembrar de um quadro do Agildo Ribeiro no humorístico Planeta dos Homens em que ele representava um professor de mitologia que tinha a seu lado um mordomo que tocava uma campainha toda vez que ele falava bobagem ou ficava mais ousado. A Múmia Paralítica, como o personagem era chamado pelo seu patrão, ficava especialmente ativo com seu equipamento quando o acadêmico começava a falar de sua musa, a Bruna Lombardi.

Dizem que este quadro está presente também naquela “atração” chamada Zorra Total. Infelizmente, não posso confirmar, já que considero estar em casa na noite de que “todo mundo espera alguma coisa” tortura suficiente. Assim, me mantenho afastada da TV aberta nesse dia e horário.

Lembro daquele quadro desde que a mesma Rede Globo do antigo programa começou a apresentar o remake de O Astro. Na nova versão, além da previsível repaginada na história, uma edição ágil para tentar manter os…

A CURTA LINHA DA VIDA >> Leonardo Marona

O negócio estava começando a murchar, como de costume. Estava no quarto contando os minutos e jogando as sobras fora, pensando se conseguiria algum dia ser um sujeito prestável, quando ouvi umas pedrinhas batendo no vidro da janela.

Não importava muito que quiséssemos ser pessoas prestáveis. Não importava o que eu quisesse ser, um rapaz solidário, um atirador de elite, um entregador de gás. Outras coisas me puxavam pelo braço de um lado para o outro sem que ao menos eu conseguisse identificar que coisas eram essas. Era como se tivessem me soltado com uma bóia no meio de um aquário de piranhas e depois tivessem gritado: Vá! Nade! Salve sua vida! Era simplesmente inútil tentar mudar isso. Não importava um milímetro que eu quisesse um futuro de vez em quando. Que eu desejasse usar o meu tempo e sentir alguma progressão. Nem que algum bigodudo super concentrado em si mesmo falasse da transvaloração de todos os valores enquanto eu tomasse o meu café mal coado. Seria melhor esquecer os valor…

CANSEI DE SER COMBATENTE >> Fernanda Pinho

Normalmente, eu jogo a culpa no DNA. Não chega a ser indigno com meus entes nem desculpa esfarrapada. De fato, são assim. Os Pinho são pólvora. Os Barbosa são fogo. Sou fruto de uma combinação explosiva. E explodo. Quando me sinto injustiçada. Quando acho que alguém que gosto muito foi injustiçado. Quando não consigo ser compreendida. Diante da má vontade. Diante da arrogância - como se explodir também não tivesse algo de arrogante. A expressão "dou um boi para entrar numa briga e uma boiada para não sair" foi feita pra mim. Tenho certeza. Adoro falar "tenho certeza". E, pra falar a verdade, nunca sai mesmo de uma briga. Eu faço os outros saírem. Perdem por WO. Sou incansável na discussão. Tenho argumento pra tudo. Faço perguntas retóricas. Encosto na parede. Faço o outro cair em contradição, mesmo se estiver falando a verdade. Não abaixo a guarda. Não levo desaforo pra casa. Não tolero. Não volto atrás. Desenvolvi técnicas de linguagem corporal. Sustento o olhar d…

CARO VOCÊ... >> Carla Dias >>

A sua existência não decide guerras, mas certamente torna a batalha mais justa, juntando-se a você aqueles que crêem na felicidade como conquista diária, oriunda da labuta na construção de si e da ciência da importância do outro na arquitetura dela... Da vida.

Meu caro você, não há dinheiro que compre a sua essência, pelo simples fato de que certas coisas não são colocadas à venda, tampouco são vendadas, apenas para adiar sofrimento. E o que mais me impressiona em você é a sutileza, apesar da crueza, das tempestades, dos tombos. Apesar do peso das dolências e também de como, vez ou outra, somos desacreditados por aqueles que estão sempre a debochar da benfeitoria.

Como se estivesse fora de moda ser verdadeiro. Démodé.

A vida não se agarra a sua existência, mas certamente se perfuma com ela, e sai por aí em busca de outras que sejam tão preciosas ao equilíbrio da sua jornada. Existência que é sua, mas não é perfeita. Porque, meu caro você, não se trata de perfeição projetada ao gosto de u…

UM GOSTINHO A MAIS >> Clara Braga

Falar sobre morte é muito ruim, mas em algum ponto todo mundo passa por isso. E me desculpem aqueles que dizem saber lidar bem com a situação, eu não acredito que a morte seja algo com que se possa saber lidar.

Digo isso por acreditar que a morte seja um dos grandes mistérios da vida, por mais irônico que isso possa ser. A gente tenta definir de algum jeito, usa adjetivos, frases de efeito, mas não adianta, a morte é esse assunto inesgotável sobre o qual sempre vão ter perguntas sem respostas.

A morte é triste, fato! Causa dor, deixa um vazio, nos faz chorar, algumas vezes nos deixa com aquela sensação de não ter chão. É um dos poucos casos em que podemos usar a palavra "nunca" e ela realmente significar "nunca". Enfim, como muitos dizem, a morte é aquela única coisa para a qual não se tem solução, se é que ela é realmente um problema a ser solucionado.

Em alguns casos, a morte deixa um gostinho a mais. Não sabe do que eu estou falando? Pois vai entender agora. Ouv…

INVEJA >> Eduardo Loureiro Jr.

A verdade é que tenho inveja de muita gente...

Não apenas dos meninos felizes, que brincam despreocupados nos parques. Das crianças que não temem o tempo. Dos surfistas deslizando no mar. Dos meninos do Rio, calor provocando arrepios. Dos namorados apaixonados. Dos que são eternos enquanto duram. Dos jovens talentosos imediatamente reconhecidos. Dos que, quando havia festa na capela do lugar, eram os primeiros a ser chamados para ir cantar. Dos casais de comercial de margarina. Dos que são mais você e eu. Dos pais brincando com seus rebentos. Dos que têm um filho a quem só queiram bem, e a quem só digam que sim.

Tenho inveja também dos meninos traquinas que aprontam estripulias diante do olhar complacente de seus pais. Dos que nasceram assim, cresceram assim, são mesmo assim, vão ser sempre assim. Dos adolescentes que vão experimentando tudo que há no mundo sem pensar em consequências. Dos que são rebeldes porque o mundo quis assim. Dos sedutores que apaixonam uma aqui, outra ali, so…

SE FOSSE UM FILME... [Debora Bottcher]

Se fosse um filme no ar, o destino da cantora Amy Winehouse seria retratado com um final feliz de superação e glória. Ela ganharia sua já longa batalha pessoal contra o álcool, as drogas e a desnutrição, e seria um ícone vencedor de sua geração.

Dona de voz marcante - Diva para alguns - e visual arrojado, aos dezesseis anos já cantava profissionalmente. Consagrada e aclamada pela crítica aos vinte anos, com o lançamento de seu primeiro álbum musical, ela foi se transformando numa caricatura, enterrando rapidamente a excelência de seus dons como cantora prodígio, intérprete e musicista talentosa.

Mas, se fosse um filme, isso não teria acontecido e ela passaria ao largo do que chamam o terrível 'Clube dos 27', composto por personagens do rock/pop como Kurt Cobain, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison e Brian Jones (dos Rolling Stones) - todos mortos aos vinte e sete anos, com emblemáticos históricos de abuso de drogas e álcool.

Numa película de cinema, um personagem como Amy se…

HISTÓRIA DE PESCADOR >> Zoraya Cesar

O barco sempre tem algum problema que torna a vida mais arriscada e difícil, como se isso ainda fosse possível. As mãos são grossas, a pele crestada e sempre um pouco inflamada, não há óculos escuros contra os raios UV, nem se sabe o que é isso. Os lábios sempre rachados e as rugas ao redor dos olhos já cansados marcam o rosto como tatuagens de um deus antigo; as dores de cabeça e nas costas são tão constantes que parecem estar ali desde o início dos tempos, e a comida é sempre pouca para tanta fome e filhos. O descaso dos órgãos públicos e a concorrência maligna da pesca de arrastão e da poluição do meio ambiente dificultam assustadoramente o seu ganha-pão.

Não há auxílio que não o dos companheiros e de Deus. Às vezes, também de Yemanjá ou de Nossa Senhora dos Navegantes. Só. E quando tudo isso falha, o barco enfrenta uma tempestade que o tira do rumo, deixando-o à deriva, e, aos seus seis ocupantes, náufragos.

Você, por favor, feche os olhos um instante, largue o jornal, desligue a …

ESSE NEGÓCIO DE LIVRO >> Fernanda Pinho

O livro que eu procurava era “Borralheiro”, do Fabrício Carpinejar. Já estava há mais de dez minutos escarafunchando as prateleiras da livraria tendo sido, inclusive, abordada por uma funcionária da loja, oferecendo ajuda. Neguei. Eu sempre nego. Se tem uma coisa da qual eu faço questão é de encontrar sozinha os livros que quero. E não se trata apenas de fazer questão. É um pequeno prazer. Tenho particular apreço pelas livrarias mais desorganizadas, o que torna minha tarefa ainda mais gostosa. Adoro procurar um livro e, até encontrá-lo, me deparar com tantos outros. Às vezes, gosto de imaginar que estou na biblioteca da minha casa e que todos aqueles livros são meus. Também gosto de observar as pessoas que parecem se interessar por livros tanto quanto eu. Foi numa dessas, quando eu procurava meu “Borralheiro”, que notei a presença da Rafaela. Devia ter doze anos. Treze, no máximo. Carregava três livros de capa colorida, dos quais não pude identificar os títulos. Ela não os segurava si…

UM HOMEM SÓ É SÓ O MESMO >> Carla Dias >>

Feito um esquete de telenovela que poupa no diálogo, ele zanza pela madrugada do quarto, da sala, da cozinha. Nem cogita sentir autopiedade, porque sabe que, por aí, tantos outros zanzam pela madrugada, solitários que são a rodopiarem em quartos, salas, cozinhas.

Foi educado para jamais temer casa vazia, tampouco bolso vazio. O pai esbravejava, a cada infortúnio familiar: “a gente vai sair dessa porque sim!”. Apesar de admirá-lo pela ousadia da certeza, filho que era, desejava um pouco de maciez naquela realidade ouriçada. O “porque sim!” de seu pai se tornou, ao longo de uma vida, da dele, a repetição de um desejo inalcançável. Foram tantas as negativas, que a força que havia na certeza de seu pai envelheceu com ele. Enfraqueceu-se feito os ossos de seu corpo miúdo.

Esses passeios notívagos são como uma dança secreta para acalmar o espírito. De um olho já não enxerga tão bem, apesar de ainda estar na idade dos homens com energia para descobrir uma nova versão de si mesmo e fôlego para …

EU QUASE NÃO VOU >> Clara Braga

Eu, assim como boa parte da população, tenho um costume que considero péssimo, mas todas as pessoas que partilham desse mesmo costume comigo sabem que é muito, muito difícil se livrar dele. Falo isso sem orgulho algum, mas infelizmente tenho costume de deixar tudo para a última hora.

Às vezes, deixar algumas coisas para a última hora não é assim tão ruim, mas, na grande maioria das vezes, a gente sabe que perde algumas oportunidades importantes.

Logo que anunciaram que o próximo Rock in Rio seria de fato no Rio de Janeiro, eu e alguns amigos combinamos de ir. Nós começamos a combinar antes mesmo de serem anunciadas as atrações. E então começamos a olhar preço de ingresso, procurar local para ficar, preço de passagem... Os que trabalham já marcaram férias para a data, os que não trabalham, como infelizmente é o meu caso, começaram a fazer o pé-de-meia, e assim por diante.

A situação parecia estar se desenrolando com uma organização fora do padrão para mim, o que era ótimo. A única co…

O TRAJETO >> Kika Coutinho

Dia desses, fui levar minha filha em uma aula de férias, uma espécie de recreação que ela está fazendo, aqui perto. Os vizinhos compartilham o mesmo horário e, por pura praticidade, combinei com uma amiga, mãe das crianças que moram ao lado, que ela iria levar e eu buscar.

Num instante, minha memória sacou de seu baú bagunçado uma lembrança antiga, tão despretensiosa e tola, que não sei como grudou suas raízes em minha mente com tamanha força.

Íamos para a escola levados pela minha mãe, que dirigia ao som da Jovem Pan: “Vambora, vambora, vambora, que tá na hora, na hora, na hora”. Além da música e do cheiro forte do estofado de carro antigo, minha memória adocicada guardou a imagem do banco de trás cheio de outras crianças, filhos dos vizinhos que dividiam a mesma escola que eu. As idades eram diferentes, não éramos grandes amigos, mas estávamos ali, unidos por um mesmo trajeto, e ficávamos calados ouvindo “o homem do tempo”.

Não preciso fechar os olhos para lembrar o rosto de cada …

ABANDONA NÃO, EDUARDO
>> Eduardo Loureiro Jr.

Tenho uma longa história de abandonos. E fique tranquilo o leitor, porque não bancarei a vítima nesta crônica já que muitas das vezes eu fui não o abandonado, mas o abandonador.

Uma das coisas boas de envelhecer é que as coisas começam a se repetir na vida da gente, como se a vida fosse um video game ou um "feitiço do tempo". Essa repetição nos dá a oportunidade de trocar o lamentoso "a vida não é justa comigo" pelo investigativo "será que sou eu mesmo que estou criando isso vez após vez?".

Esses dias, tenho sentido minha velha vontade de abandono se aproximar de mim, nova e perigosamente. E tenho me lembrado de dois outros abandonos: o do Circus e o do Labirinto.

"Circus" era o nome de uma pequena exposição de poesia e artes plásticas que eu e Fabiano, auxiliados por outr'Os internos do pátiO, fizemos como trabalho final da disciplina Arte na História, ofertada por nossa então mestra e hoje também amiga Luiza de Teodoro — e isso já faz vint…

RAZÕES PARA INTERDIÇÕES OBSOLETAS [Carla Cintia Conteiro]

Algumas interdições que ainda sobrevivem na segunda década do terceiro milênio se parecem com um cóccix, lembrando da cauda que não está mais lá.

Em algum momento, a ideia de casamento como instituição surgiu na história do homem porque era preciso garantir que aquele frágil filhote humano, fruto do encontro carnal entre o macho e a fêmea da espécie, fosse abrigado e alimentado. Por outro lado, o macho provedor necessitava assegurar-se de que aquele era mesmo seu descendente. Daí também a força com que sempre se exigiu e se cobrou a fidelidade feminina.

Já do homem algumas puladas para a caverna ao lado sempre foram mais toleradas, desde que não deixasse faltar nada em casa, garantindo à legítima parceira, de pedra cuneiforme passada e lavrada em cartório e diante do sacerdote da tribo, e à sua prole, a segurança física e material.

Com o teste de DNA, essa coceira na testa masculina – nada mais que a síndrome de godero – enfim se dissipa. Ou não. O certo é a pergunta das sogras maldosa…

PESSIMOTIMISMO ou POEMAS DE ESCÁRNIO >> Leonardo Marona

"um a menos"

por ora os abutres sobrevoam
a lagoa fetal e, muito em breve já munidos
com as devidas garras de enxofre,
eles darão o rasante metálico
e tudo isso será apenas uma história,
um mito, um terá-alguma-vez-isso-acontecido,
mas os amantes estarão esfarelados
em suas carnes antigas, abraçados numa confusão pagã,
a carne nova estará no balcão vermelho dos negócios de feira,
as breves frases delicadas ter-se-ão tornado
bustos pesados de paz em vírus.

a galope o pequeno órgão ratifica
a vaga culpa, estamos nus sob um sol úmido,
não há realmente porque falar sobre isso com ninguém,
as salas minúsculas e os alquimistas calvos
afunilaram o ambiente com paciência e muito ânimo.
serás processado, triturado e lançado ao acaso
em tua própria tendência succínea, e não será possível
abrir mão deste silêncio como osso tranca-traquéia,
ainda nem uma cabeça, um todo
verminal que no entanto pulsa.

a morte da Grécia está nas ruas
e já não poderei vê-la porque a partir de agora
os olhos forçam para dentro as …

DOCE DELEITE >> Fernanda Pinho

Eu sou o leite e você me pôs no fogo. Me aqueceu sem que eu pedisse. Me tirou do conforto da minha Tetra Pak. Me deixou em fogo baixo. Parecia não ter pressa. E não tinha mesmo. Seu prazer estava em ficar ali, vigilante, a me observar. Mas mesmo quando aquecido em fogo baixo, uma hora o leite atinge a fervura. É a lei natural da química. Ou seria da física? Não entendo nada disso. E também não entendo nada de você. Como compreender que depois de tanta vigilância você iria se dispersar justo quando fervi? E agora? Quem vai pagar o preço pelo leite derramado?

Sua única chance seria aceitar dividir essa conta comigo. Eu estou te dando essa chance. Uma chance e uma dica: cuidado para não perder o ponto. A linha entre o doce de leite e o leite azedo é tênue. E se eu azedar, alguém vai ter uma indigestão das brabas.
Foto: www.sxc.hu
www.twitter.com/ferdipinho

DA ARTE DE ACOMPANHAR CONSELHOS >> Carla Dias >>

De acordo com as revistas, ando por fora do que seja o caminho certo para a felicidade. E não desejar me tornar celebridade é pecado dos mais pecaminosos, porque todos nós desejamos um lugar ao sol. Também não importa se não há um diferencial para se chegar a essa celebridade toda. A revista jura que se eu seguir os dez conselhos da sua listinha da página vinte e três, eu chegarei lá, e nem preciso de talento, contanto que eu não falte à entrevista com um personal stylist que dê jeito no meu jeito brejeiro de ser.

Claro que me deu uma vontade daquelas de visitar o meu lugar ao sol. Por isso fechei a revista e fui dar uma volta no quarteirão. Manhãs de sol de inverno são dignas de serem celebradas.

Seriam celebridades?

O jornal, em nome do horóscopo do dia, prometeu-me um acontecimento inusitado, mas para isso eu teria de abrir os olhos e enxergar aqueles que não me querem bem, mas que ficam por perto apenas para usurpar a minha capacidade de enxergar a vida. E eu limpo os óculos na manga…

A PROPOSTA >> Clara Braga

Outro dia, um amigo veio conversar dizendo ter recebido uma tal proposta e estar na dúvida quanto ao que deveria fazer.

Essa proposta, de emprego, era uma dessas que envolvem uma grana muito boa e que com certeza fez a namorada dele pensar mais ainda naquele outro tipo de proposta que algumas mulheres ainda esperam ansiosamente.

Mas como eu sou adepta da filosofia que diz quando a esmola é demais, o santo desconfia, já fiquei esperando qual seria o “mas” da proposta que ele recebeu. Não demorou muito e ele logo disse: “Mas eu teria que ir embora de Brasília.”

Eu, em um pensamento que só depois fui perceber ser um pouco egoísta e talvez até pessimista, já questionei logo: Mas e nós, seus amigos? E a nossa banda? E a sua família? E a sua namorada? Você vai deixar tudo para trás? E se der errado?

E mesmo eu sendo a única que estava ligando para essas coisas, afinal o pai dele disse que não sabia por que ele ainda não tinha feito as malas, a minha ficha do egoísmo demorou a cair. Só caiu …

PEDIGREE >> Albir José Inácio da Silva

Já entraram aqui antes para roubar comida, mas havia menos injúria. Interrompiam meu sono, eu tinha de persegui-los, surrá-los, mas nem os odiava por isso. Cumpria meu papel e às vezes até me divertia. Mas agora não. Não roubaram, não fugiram, não adivinharam minha presença, ou melhor, não se importaram com ela. Insolência? Não. Desrespeito. De um tipo que não se pode tolerar.

Não me incomoda o fato de serem criaturas vis. Finjo não ver seus trejeitos e requebros como se isso não fosse uma afronta. O que não podem é querer deixar de ser o que são: vira-latas. Rastejem, esgueirem-se pelos cantos, imundos e repulsivos, e não me incomodarão. Exaltem-se lá com os seus. Festejem, chafurdem e recebam homenagens de seus pares. Mas respeitem quem não é da sua laia, quem tem certificado e licença.

Chego a desacreditar na justiça superior que dá petulância e embota a inteligência que deveria ser suficiente para reconhecer o próprio lugar. Já não há fronteiras. Eles não passarão correndo como c…

DE LICENÇA >> Kika Coutinho

A todas as mães que trabalham fora de suas casas.

A todas as mães que deixam seus filhos com jovens desconhecidas para aventurarem-se entre planilhas, papéis e reuniões intermináveis.

A todas as mães que já deixaram um bebê aos prantos para ir trabalhar e ganhar o tal do próprio dinheiro.

A todas as mães que já saíram de suas casas aos prantos porque precisavam trabalhar e ganhar o tal do próprio dinheiro.

A todas as mães que, talvez, nem precisem, mas querem trabalhar e ganhar o tal do próprio dinheiro. Ser uma escolha não torna a ausência em casa menos dolorosa. Em nada.

A todas as mães que já largaram uma planilha por fazer, uma reunião por participar, um email por mandar, porque, pelo menos hoje, juro, vou pôr meu filho para dormir.

A todas as mães que não conseguiram pôr o filho para dormir porque não puderam largar uma planilha por fazer, uma reunião por participar ou um email por mandar.

A todas as mães que já sentiram o coração apertado enquanto assistiam às horas correrem no …