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HISTÓRIA DE PESCADOR >> Zoraya Cesar

O barco sempre tem algum problema que torna a vida mais arriscada e difícil, como se isso ainda fosse possível. As mãos são grossas, a pele crestada e sempre um pouco inflamada, não há óculos escuros contra os raios UV, nem se sabe o que é isso. Os lábios sempre rachados e as rugas ao redor dos olhos já cansados marcam o rosto como tatuagens de um deus antigo; as dores de cabeça e nas costas são tão constantes que parecem estar ali desde o início dos tempos, e a comida é sempre pouca para tanta fome e filhos. O descaso dos órgãos públicos e a concorrência maligna da pesca de arrastão e da poluição do meio ambiente dificultam assustadoramente o seu ganha-pão.

Não há auxílio que não o dos companheiros e de Deus. Às vezes, também de Yemanjá ou de Nossa Senhora dos Navegantes. Só. E quando tudo isso falha, o barco enfrenta uma tempestade que o tira do rumo, deixando-o à deriva, e, aos seus seis ocupantes, náufragos.

Você, por favor, feche os olhos um instante, largue o jornal, desligue a televisão e siga comigo: você está sem agasalho, num frio doloroso e úmido, perseguido por um vento salgado que gela a água que respinga em seu corpo. Do frio, que enrijece seus membros até a dor, não há como escapar. Dormir, você não consegue: o medo de uma onda soçobrar o barco não deixa e o desconforto é enorme. Comer, só o suficiente para não morrer. Ainda está comigo? Preste atenção: não tem geladeira, não tem televisão, não tem comida. Não tem casaco. Não tem como deitar. O rádio para comunicações quebrou. Você está com sede, cansado e com medo. Você é pobre e desconhecido. Sabe que a Terra se move devagar e, assim como ela, as autoridades e o mundo. Você está perdido.

Continue de olhos fechados só mais um pouco e me diga: o que aconteceu durante o tempo em que você e seus companheiros estiveram sumidos? Que contas foram acertadas, quais verdades reveladas, que segredos descortinados? Que ressentimento, há muito guardado, explodiu em violência e amargor? Que recordações já enrugadas levantaram do fundo aquoso da memória? Se, sob condições extremas, o ser humano mostra o melhor ou o pior de si mesmo, que parte sua você teria revelado? A do herói? A do covarde? A sua? Você manteria o controle ou se jogaria ao mar no final do terceiro dia, na loucura de acabar logo com aquele horror? Teria chorado de medo e saudade, rezado com fé, lembrado dos mortos que encontraria e dos vivos a quem deixaria? Ter-se-ia arrependido de seus erros? Sim, você, como reagiria? Roubaria o quinhão de comida do companheiro mais fraco? Empurraria o mais doente mar adentro, para sobrar mais água? Pediria a Deus para morrer logo? Mataria para sobreviver mais um pouco? Sentir-se-ia um desgraçado ou mostraria toda a sua fibra? Hein?

A sede é tanta que você bebe a própria urina. Você só está vivo porque seus companheiros não te deixam morrer. Por isso, aguentou até ser resgatado. Por isso, ainda foi levado com vida para o hospital. Tudo bem? Pode relaxar agora. Essa é a história de uma outra pessoa.

A do pescador que, após 21 dias à deriva, com outros cinco companheiros, foi resgatado somente para morrer, quinze dias depois, entre as paredes de um hospital. Tanta luta e desespero para morrer trancado, cercado de gente estranha, sem contato com o vento, o mar ou o céu.

Homens da natureza deveriam morrer em liberdade. Em honra ao pescador que morreu longe de sua casa, faremos uma procissão de barcos e pediremos à Grande Mãe do Manto Azul que o receba em seu reino, sem olhar se ele foi herói ou covarde. E pedir também por nós, pois, na verdade, quem sabe como nos revelaríamos nas mesmas circunstâncias?

Comentários

Seja bem-vinda, Zoraya, ao time de escritores do Crônica do Dia. Sou grato ao Léo pela generosidade de abrir espaço para você. Muito boa sua primeira crônica, bem crônica, partindo do cotidiano e nos levando pelo mar das emoções.
albir disse…
Parabéns pelo texto, Zoraya. E seja bem-vinda.
Anônimo disse…
Lindo, amiga! Parabéns pelo texto emocionado, pela força com que o tema é tratado e pelo estilo cativante.
Olá, Zoraya! Você estreou em grande estilo. Muito emocionante a sua construção!
Bom saber que se tem uma escritora nova junto a todos os talentos do Crônica!
Anônimo disse…
Zoraya,
Parabéns pela crônica, me fez ver de uma nova forma o que aconteceu com os pescadores.
Aretuza
Clarisse disse…
Zô, parabéns, a sua crônica me levou ao torvelinho das marés e das emoções de seu personagem. Bjs,
Clarisse

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