domingo, 24 de julho de 2011

INVEJA >> Eduardo Loureiro Jr.

A verdade é que tenho inveja de muita gente...

Não apenas dos meninos felizes, que brincam despreocupados nos parques. Das crianças que não temem o tempo. Dos surfistas deslizando no mar. Dos meninos do Rio, calor provocando arrepios. Dos namorados apaixonados. Dos que são eternos enquanto duram. Dos jovens talentosos imediatamente reconhecidos. Dos que, quando havia festa na capela do lugar, eram os primeiros a ser chamados para ir cantar. Dos casais de comercial de margarina. Dos que são mais você e eu. Dos pais brincando com seus rebentos. Dos que têm um filho a quem só queiram bem, e a quem só digam que sim.

Tenho inveja também dos meninos traquinas que aprontam estripulias diante do olhar complacente de seus pais. Dos que nasceram assim, cresceram assim, são mesmo assim, vão ser sempre assim. Dos adolescentes que vão experimentando tudo que há no mundo sem pensar em consequências. Dos que são rebeldes porque o mundo quis assim. Dos sedutores que apaixonam uma aqui, outra ali, somente para abandoná-las depois. Dos que fazem o outro valer nada, página virada, descartada de seu folhetim. Dos que produzem o que não presta e são idolatrados. Dos que pera aí que tem mais um pouquinho de "u". Dos homens que espancam suas esposas. Dos caras que têm consumido a elas e a tudo que elas quiseram com seus olhinhos infantis, como os olhos de um bandido. Dos estupradores. Dos que fazem festa lá no seu apê, com gente até fazendo orgia. Dos pedófilos. Dos que estão cantando pra suas meninas para ver se elas entram na deles. Dos assassinos. Dos que adoram pelo avesso. Dos que enganam. Dos que trazem mil rosas roubadas pra desculpar suas mentiras. Dos que manipulam. Dos que primeiro azucrinam, entortam a cabeça, botam na boca um gosto amargo de fel, depois vêm chorando desculpas, assim meio pedindo, querendo ganhar um bocado de mel. Dos que passam por cima. Dos que 'tão nem aí, 'tão nem aí.

E, acima de tudo — disto ou daquilo —, tenho inveja do tempo, de três semanas silenciosas que vivi em um pequeno quarto separado do mar apenas por uma estreita faixa de areia. Do café da manhã feito quase sem higiene por uma calada mulher de pescador. De, desempregado, cumprir meu expediente diário de caminhar descalço, em silêncio, na areia plana da praia. De descansar à sombra de um coqueiro, desenhando com um pequeno galho, sem barulho, sobre a areia ainda úmida. De entrar num mar calmo, tão calmo que era possível sentir, ao mesmo tempo, a corrente morna e ondulada da superfície e a fria corrente submarina. De subir a falésia enquanto o sol, taciturno, descia a tarde. De retornar com a luz discreta da lua, das estrelas e de uma pequena lanterna. De tirar o sal e a areia com um banho pausado. De deitar na cama e dormir acalentado pela música sussurrante, e sem canção, do mar.

É esta a verdade: tenho uma inveja marulhada de mim mesmo.

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6 comentários:

Marilza disse...

Puxa, Eduardo...que inveja boa rsrs. Eu também tenho inveja (boa viu?) da sua maestria, do seu dom bonito e gostoso de escrever...fazendo ou não trocadilhos com 'certas canções que ouço e que cabem tão dentro de mim"...

Abner Martins, disse...

puta q o pariu, com todo o respeito das palavras vãs q não são necessárias agora, neste momento, mas qro mostrar o quanto impressionado estou com esse seu texto. Cara, vc conseguiu me surpreender e chamar minha atenção.
Vou lhe confessar uma coisa: não tenho dislexia, mas preciso estar em silêncio absoluto para ler algo, ou dedicarme-somente àquele momento para prestar atenção e entender o que leio. Neste exato momento estou ouvindo meu Rock preferido e lendo sua crônica.
Ao ler, um filme passava em minha mente sobre os anos 80. Sua inveja é a minha, todo o seu enredo me leva aos 80". Anos dourados da vida brasiliera juvenil.

Parabéns.

Abraços do abner

abnerlmesmo.blogspot.com

Marisa Nascimento disse...

Eduardo, mais uma vez e sempre perfeito!
Nesse seu texto é facinho de explicar porque escrever é muito mais transpiração que só inspiração. Suas linhas demonstram conhecimento, estudo e carinho em tudo que faz.
Eu não sei as invejas que tenho trancafiadas, mas sei que tenho um privilégio enorme por conhecer seus textos e um orgulho por, mesmo virtualmente, poder conhecer você.

Alba Mircia disse...

E por falar em inveja, ontem vi um homem admirável: um profissional talentoso, criativo e reconhecido por seus ótimos trabalhos, faz um molho de macarrão que “huumm” – saborosíssimo, amigo fiel, carinhoso e cuidadoso com a família ao saírem do carro numa rua onde a segurança merecia atenção para uma festa. Aliás, durante essa festa eu o observava: brincou de totó e ganhou de um contra duas com a maestria de quem treina diariamente pra um campeonato; jogou sinuca que me lembrava o Pedro do filme “Não por acaso”; brincou de Guitar Hero e, adivinhem, me deliciava ver a sua destreza; jogou à mesa Aero Rockey (mesa de disco) onde mais parecia um menino de 10 anos “viciado” nesse ambiente. Quando parou, pensei: agora não há mais novidades. Ledo engano: ele se direcionou para a máquina de dança. Aí eu disse a mim mesma: ah não, agora é que vamos ver. Esse brinquedo não é do “tempo” dele, então será uma piada. Menino, até filmei! Pois o bicho pulava daqui pra lá e de lá pra cá no tempo certo da música, ora com um pé, ora com o outro e ora com os dois! Causava inveja nas pequenas meninas que tentavam acompanhá-lo sem qualquer vestígio de sucesso... É... Esse cara é mesmo invejável... Ops, é você né? Ah, então tá certo. Você é mesmo digno da sua própria inveja!! :) E eu, de cá, só tenho mesmo inveja das pausas do seu banho.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Grato, gente. Quase chego a invejar a disposição de vocês em fazer comentários tão bon(doso)s.

fernanda disse...

Eu tenho inveja desse texto lindo. Nele cabe o que não cabe na despensa :)