sábado, 2 de julho de 2011

MÃES - E PAIS [Debora Bottcher]

"As mães não nos dizem onde estamos e deixam-nos sós; onde os medos acabam e Deus começa aí talvez a gente esteja..." (Rilke)

Sempre ouço dizer que não é fácil assistir ao envelhecimento dos pais. Realmente não é. Então, é bom estar atento ao tempo que ainda se tem para desfrutar da companhia desses entes tão queridos — tempo esse que sempre será insuficiente, mesmo que no momento a gente nâo se dê conta disso.

Meu pai morreu jovem (aos 51 anos, há exatos treze anos na próxima segunda-feira), e isso já foi bastante difícil. Mas agora assisto minha mãe, que ainda é jovem também, envelhecer mais rápido do que considero normal por conta dos reveses da vida — perdas e danos emocionais insuperáveis para ela.

Eu a vejo pouco — moramos em cidades distantes e apenas nos falamos toda semana — e talvez por isso seja sempre um baque para mim nossos encontros: ela sempre está diferente. Não é só "mais velha", o que seria natural; é mais cansada, talvez mais triste, certamente mais solitária.

Na última semana, ela veio ficar comigo — pequenas férias a que se dá direito, longe dos meus irmãos. Foram dias agradáveis e leves. Mas, vez ou outra, eu me peguei com vontade de chorar, envolvida num enorme sentimento de saudade antecipada: e quando ela não estiver mais aqui, nem ao alcance do telefone? Colo de mãe é algo que nos renova, e essa inevitável ausência, que eu espero ainda demore, já me apavora.

Claro que, nessa breve convivência de uma semana inteira, eu aproveito sua companhia ao máximo: fazemos jantares juntas, inventamos doces e bolos, ficamos até tarde da noite papeando, ela costura minhas roupas, me ajuda a limpar o jardim e a cortar a grama, replanta minhas flores, passeia com as cachorras comigo, rimos, contamos histórias, lembramos outras tantas, e os dias passam como segundos.

E quando chega a hora de ela ir embora — hoje! — um vazio se instala em mim. Por alguns dias, eu fico me sentindo meio suspensa, com aquela sensação de que falta alguma coisa à minha volta e uma curiosa solidão interna me assola. Com a rotina, a emoção se aquieta e a vida se normaliza. Mas o medo de que o tempo a roube de mim, está sempre presente. Eu não quero dizer adeus, mas sei que um dia terei que fazê-lo.

Por isso, e por tudo mais, espero que minha mãe sinta meu amor por ela, mesmo que eu não seja tão presente nem esteja tão perto quanto eu e ela gostaríamos. Que ela me perdoe por toda e qualquer falha que cometi e a magoou, e que até o fim dos dias de uma de nós duas, estejamos amparadas pelo laço que nos une muito acima das distâncias e das diferenças.

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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Debora, uma declaração de amor já é linda. E bem escrita assim então...

Marisa Nascimento disse...

Debora, amor de mãe é algo indecifrável, apesar de todas as poesias em que já tentaram desvendá-lo. Apenas ame, porque filhos sempre amam menos e viva o momento. Ele é o mais importante! Que vocês duas tenham incontáveis momentos.

Debora Bottcher disse...

Marisa, Eduardo... Obrigada pelas palavras doces... Minha mãe agora já está em Campinas fisicamente, mas aqui comigo, sempre. Só que gente nunca se acostuma com as ausências, não? Os caminhos da vida são tão emaranhados... :) Um beijo nos dois.

ana disse...

Debora,

Era leitora do Expressões Letradas, e teus escritos sempre me tocaram profundamente. Com esse texto não podia ser diferente. Minha mãe também mora longe, e sempre que temos que nos despedir sinto o vazio do qual vc fala. Muito difícil e doído viver certas ausências. Muito bom poder ler você de novo.
um beijo carinhoso,