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RAZÕES PARA INTERDIÇÕES OBSOLETAS [Carla Cintia Conteiro]

Algumas interdições que ainda sobrevivem na segunda década do terceiro milênio se parecem com um cóccix, lembrando da cauda que não está mais lá.

Em algum momento, a ideia de casamento como instituição surgiu na história do homem porque era preciso garantir que aquele frágil filhote humano, fruto do encontro carnal entre o macho e a fêmea da espécie, fosse abrigado e alimentado. Por outro lado, o macho provedor necessitava assegurar-se de que aquele era mesmo seu descendente. Daí também a força com que sempre se exigiu e se cobrou a fidelidade feminina.

Já do homem algumas puladas para a caverna ao lado sempre foram mais toleradas, desde que não deixasse faltar nada em casa, garantindo à legítima parceira, de pedra cuneiforme passada e lavrada em cartório e diante do sacerdote da tribo, e à sua prole, a segurança física e material.

Com o teste de DNA, essa coceira na testa masculina – nada mais que a síndrome de godero – enfim se dissipa. Ou não. O certo é a pergunta das sogras maldosas – “Filhos de minhas filhas meus netos são, filhos de meus filhos meus netos serão?” – finalmente tem uma resposta. Não é preciso o vínculo marital para garantir que o pai contribua para o sustento dos filhos. A criança está legalmente protegida. A alimentação não depende da caça e da força masculina. A comida pode ser adquirida em qualquer mercado. E o dinheiro para comprá-la, a mulher já o ganha com o suor de seu próprio rosto, não depende de um provedor. A outra mulher não é mais aquela que pode roubar não apenas seu homem, mas também seu pão. A sociedade mantém (ou deveria manter) todo um aparato para garantir segurança a todos, livrando o cônjuge masculino da tarefa de segurança e guarda-costas.

Como as razões de sobrevivência para casamento e fidelidade evaporam, deveria ficar junto quem quer, enquanto quer e a exclusividade deveria fluir de acordo com o combinado casal a casal. Para conquistar e manter um relacionamento saudável agora basta que ele seja companheiro, inteligente, carinhoso, engraçado, fofo, sensível (mas não muito), cheirosinho, sarado e adorável, participe das tarefas domésticas, não cochile nos encontros de família, tenha um contracheque ou um contrato social e não ronque. Enquanto isso, a mulher só precisa ser linda, gostosa, magra, culta, saber se vestir, se maquiar, se alimentar e se comportar, ter uma carreira brilhante, ser boa mãe, boa filha, boa esposa, boa irmã, boa cunhada, boa nora, boa amiga, boa vizinha, boa funcionária, falar ao motorista somente o indispensável, cozinhar pratos originais, gostosos e saudáveis (isso ele também deve saber fazer) e manter a casa impecável. E fazer força o tempo todo para não apertar o botão de ejetar. Pensando bem, ninguém disse que era fácil.

Retomando, quando os índices de mortalidade infantil eram altos e a expectativa de vida baixa e havia um mundo inteiro a ser povoado, o dever de cada um era ter o máximo possível de filhos. Isso se dava também não apenas para aumentar as chances de passar seus genes adiante, mas para garantir mão de obra para trabalhar nas terras da família ou da comunidade.

Portanto as pressões que ainda sofre uma mulher que decide não ter filhos ou por uma outra razão não os têm são reflexos de valores obsoletos. Tanto quanto esse tipo de pressão recair principalmente sobre o lado feminino da equação. Um homem sem filhos, na maioria das vezes, não é visto como um traidor da espécie, já que, supostamente, ele está o tempo todo procurando uma forma de espalhar sua semente por aí.

A questão de ele não estar buscando mulheres e sim outro(s) homem(ns) e ela também se sentir melhor em braços semelhantes aos seus e o ódio que isso ainda suscita, deve ser observado sob a ótica que a análise transcendental chama de adulta. Isso quer dizer não analisar um assunto com as respostas prontas que recebemos. Devemos estudar a realidade à nossa volta e tirar nossas próprias conclusões, de acordo com o cenário atual, a despeito do que nos é incutido por quem luta pela preservação de um mundo extinto. As argumentações que ouço não condizem com um mundo superpopuloso, em que o ímpeto guerreiro e caçador não mais se justifica. A continuidade da vida humana sobre a Terra não repousa na orientação sexual de ninguém. Mas o ódio continua a exterminar alguns espécimes humanos diariamente.

Desta forma, quando ouço certos discursos, o que entendo é que aquela pessoa não fez seu dever de casa em termos de análise crítica, não está ainda consciente de que negar a mudança não vai fazer com que ela desapareça e que falta um pedaço de chão a percorrer para ela estar apta a agir, pensar e viver neste novo mundo, neste novo tempo.

Comentários

Ah, que bom seria se o progresso mental se desse na mesma velocidade com que o homem progride em termos materiais...
A sensação que eu tenho é a de que o progresso material está sempre a mais ou menos um século à frente do pensamento.
Achei ótima a crônica.
Abraços. Paz e bem.
Sueli Corrêa disse…
Excelente crônica, Cíntia. Parabéns!
Beijos,
Su
albir disse…
Beleza de crônica, Carla Cíntia, pela segunda semana seguida.
Tavito disse…
Apesar desse novo tempo não se configurar propriamente como sinônimo de bonança social, ele pelo menos parece mais justo. Beijão procê, bela crônica / Tav
Cacá, todo avanço demora umas duas gerações para se instalar na sociedade. Às vezes mais. Mas conversar sobre isso ajuda, não?
Obrigada, Sueli. Seu apoio significa muito.
Agradecida, Albir. Que bom que você gostou.
Tavito, bonança social é uma utopia da qual não me canso. Quem sabe ainda viva para vê-la?

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