quarta-feira, 13 de julho de 2011

DA ARTE DE ACOMPANHAR CONSELHOS >> Carla Dias >>

De acordo com as revistas, ando por fora do que seja o caminho certo para a felicidade. E não desejar me tornar celebridade é pecado dos mais pecaminosos, porque todos nós desejamos um lugar ao sol. Também não importa se não há um diferencial para se chegar a essa celebridade toda. A revista jura que se eu seguir os dez conselhos da sua listinha da página vinte e três, eu chegarei lá, e nem preciso de talento, contanto que eu não falte à entrevista com um personal stylist que dê jeito no meu jeito brejeiro de ser.

Claro que me deu uma vontade daquelas de visitar o meu lugar ao sol. Por isso fechei a revista e fui dar uma volta no quarteirão. Manhãs de sol de inverno são dignas de serem celebradas.

Seriam celebridades?

O jornal, em nome do horóscopo do dia, prometeu-me um acontecimento inusitado, mas para isso eu teria de abrir os olhos e enxergar aqueles que não me querem bem, mas que ficam por perto apenas para usurpar a minha capacidade de enxergar a vida. E eu limpo os óculos na manga da blusa, lembrando a mim mesma que está na hora de visitar o oftalmologista, de remoçar a receita para a fotofobia. E fecho os olhos para descansar na escuridão, vasculhando o detrás das minhas memórias. Fecho o jornal.

O panfleto é claro quando quase grita que se eu não fizer no mínimo dez sessões de terapia, jamais saberei o significado da plenitude. Promete, sem qualquer pudor, mostrar-me o caminho para a autoaceitação, e que depois de chegar a tal destino, nada mais será o mesmo... Eu mesma não serei a mesma. Talvez, penso, os móveis continuem os mesmos. Eu gosto dos móveis... Apreciarei se eles continuarem os mesmos. E o panfleto ainda declama – acompanhada a frase de um ponto de exclamação gigantesco para dar ênfase à necessidade - que eu não posso perder a oportunidade de descobrir quem eu sou.

Quem eu sou suspira fundo que só, chega até a doer um tantinho o coração. Dobra o panfleto e coloca na bolsa, que não tem lixeira por perto. E se achega esse senhor de olhos marejados, coisa de doença da vista, ele diz, não é tristeza, moça... Achega-se para perguntar se eu sei onde fica a igreja de Santa Maria, na qual sua sobrinha se casará daqui a pouco. E tiro da bolsa a caneta, reviro e acho o panfleto, e faço um mapinha até a igreja, no verso. O senhor dos olhos marejados não precisará de dez sessões de terapia para encontrar a felicidade. Serão apenas dois quarteirões e ele até poderá abraçá-la.

No ponto de ônibus, sentada, uma senhora miúda, curvada. Sento-me ao lado dela e dividimos a espera pela condução. Ela resmunga algo e eu não entendo, pois não?, e então ela me encara, a feição dura. E diante dessa imagem tão severa, confesso a ela que não me interessa ser celebridade, que a armação e lentes dos meus óculos têm mais de dez anos, que eu prefiro inventar histórias a contar a verdade ao terapeuta, então não faço terapia. E então ela sorri e diz: cada coisa que a gente escuta em ponto de ônibus...

De acordo com o painel do ponto de ônibus, não há nada mais difícil do que não ter casa própria. E se eu pagar uma boa entrada, e me propor a parcelar o restante, em menos de 120 meses serei proprietária, não inquilina. E a senhora dá de falar até, sobre isso e aquilo, sobre assuntos que não são meus. Distraio-me com suas confissões de ponto de ônibus.

Sentadas ali, a nossa casa-painel de cenário, parecemos até duas amigas trocando confidências na varanda, enquanto esperamos o sol se pôr. Ela já despida da dureza, da severidade, gargalha miúdo quando me diz que foi celebridade ainda no domingo passado, quando almoçou na casa da filha e foi assediada por seus três netos. Eles queriam respostas para perguntas nada tradicionais, assim como disputavam a sua atenção, enquanto tiravam fotos e mais fotos dela. Fotos que serão publicadas no álbum de fotografias da infância deles.

O ônibus chega, estaciona e abre as portas. A senhora sorri, contradizendo a primeira impressão. Não confio em primeira impressão. Ela entra e o ônibus parte, levando uma celebridade.

Do outro lado da rua, um outdoor alega que o planeta vai desaparecer do mapa no daqui a pouco. Quando é daqui a pouco? E me sento na varanda-painel, fim de tarde já presente, sol partindo. O outdoor insiste: ele vai sumir, minha senhora! E eu o corrijo: senhorita.

Como o planeta desaparece nos outdoors? Escorre, silente, apático, esparramando-se no rodapé onde moram as letras miúdas? Como ele se livra do mapa, das fronteiras, dos contornos? O outdoor não desiste de mim. Sou sua presa, sua urgência em se fazer compreender. Então ele me agarra pelo olhar, escraviza a minha atenção, alimenta-me de pânico... E solidão.

Mas é apenas por alguns segundos...

Ele me avista e acena. Ela me avista, ele cochicha com ela, então ela acena. Eu aceno de volta, comprometida com a existência deles em um planeta que não vai acabar ao comando de um outdoor.

A vida insiste em sussurrar em meus ouvidos, enquanto a cena se desenrola diante de mim. E ela o faz com a profundidade indubitável das alegrias genuínas, de quem gargalha até a alma se encher de felicidade. É a vida que me convence, enquanto o Sr. Olhos Marejados caminha pela rua, ao lado da sua sobrinha vestida de noiva, sem limusine, seus pés acarinhando o concreto. Ao lado dela, amparado por sua presença, um noivo de bochechas rosadas, lançando um olhar fascinado a sua esposa. A festa, o Sr. Olhos Marejados diz, será em uma cantina logo ali. Vamos? E eu agradeço, e com agradecimento legítimo, mas tenho de voltar pra casa.

Eles somem na quase noite, meu ônibus chega.

Durante a viagem, um livro me diz que preciso ser mais corajosa com as oportunidades. Diz assim: agarre-se e desfrute! E eu o fecho para olhar pela janela que me oferece paisagem em movimento.

Agarro-me. Desfruto.


Imagem: Pandora © John Waterhouse

carladias.com

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7 comentários:

Marcio Rufino disse...

Como faço para publicar minhas crônicas no blog? Meu blog é http://emaranhadorufiniano.blogspot.com

Abrçs.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Olá, Marcio.
Para publicar no blog é preciso ser um cronista fixo. Quando aparece uma vaga, normalmente procuramos por pessoas que têm blogs de crônicas. Fui até o seu blog e vi principalmente poemas. Você tem algum blog de crônicas?
Abraço,
Eduardo

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Que lindeza, Carla! Coisa boa é desfrutar do seu desfrute. :)

Carla Dias disse...

Eduardo... Sempre agradecida pela gentileza das suas palavras. Seja bem-vindo para desfrutar do meu desfrute.

albir disse...

Pois é, Carla. Já não nos é dado receber ou não conselhos. Eles nos invadem. É preciso enxergar além deles. Beleza de texto.

Marisa Nascimento disse...

Carla, atrasada aqui nos comentários.
Que texto delicioso de se ler.
E, cá entre nós, para mim, você é celebridade, sim! :)

Carla Dias disse...

Albir... estamos na era em que tudo nos alcança. A boa notícia é que podemos permitir que esse tudo nos invada ao gosto da nossa percepção da vida. Somos invadidos, mas ainda somos os autores das nossas escolhas.

Marisa... Ser celebridade pra você é uma honra! Obrigada por me tornar um bicho do mato celebridade :)