domingo, 3 de julho de 2011

APRENDIZMANÍACO >> Eduardo Loureiro Jr.

Cada doido com sua mania. Eu com as minhas. Muitas. Tirar pelos da orelha e do nariz, por exemplo, com os próprios dedos. Coisa recente, de uns quatro anos para cá, essa minha pelomania. Quanto mais nova a mania, quanto mais fresca, mais fácil reconhecê-la como tal. Manias muito antigas perdem o status de mania, viram coisa normal — pelo menos para a própria pessoa que, às vezes, nem percebe que tem tal mania.

Semana passada, descobri uma mania muito antiga. Se duvidar, a tenho desde que nasci. Periga eu já tê-la antes mesmo de nascer. Corre o risco de meu nascimento ter sido já uma expressão dessa mania. Mas fique o leitor tranquilo que não irei tão longe em minha especulação durante esta crônica. Vidas passadas não movem o escrevinho.

Aqui nessa vida, que é a que interessa, minha lembrança mais antiga dessa minha recém-descoberta mania é de quando eu tinha uns 6 anos. Eu jogava firo com minha avó, sentado no chão da sala da Veneza, propriedade de meus avós à época. O leitor não sabe o que é firo? Pois se for dicionariomaníaco, pegue o Aurélio e descubra do que se trata. Não, buscomaníaco, não adianta apelar para o Google: os oião dele não enxergam a sala da casa-grande da fazenda de minha avó. O que atiçou minha mania não foi o firo em si, mas as peças que usávamos para jogá-lo. Minha avó desenhou o tabuleiro num pedaço de papelão e aproveitamos tampas de tubos de pasta de dente como peões.

Depois a mania se manifestou nos livros e nos filmes. Lembro nitidamente de, aos 7 anos, assistir a "O Velho e o Mar" na Sessão da Tarde. Eu que nem sabia ao certo o que era velhice, e que nem gostava de mar, fiquei de boca aberta diante daquela história. Já os livros me chegaram de enxurrada, porque minha mãe me inscreveu em uma "corrente de livros" e eu passei a receber, pelos Correios, livros de pessoas que eu nem conhecia (valeu, gente, quem quer que vocês sejam e onde quer que estejam). "O Sapateiro Feliz" e vários outros livros da coleção Fantasminha, da Ediouro, me acorrentencantaram durante muitas outras tardes.

Quando descobri a aritmética e a geometria, na escola, a mania se acentuou. Lá estava eu fascinado por cálculos. E uma expressão foi se juntando à outra. Os problemas de matemática se tornaram jogos, quebra-cabeças. E havia livros sobre isso, como o inesquecível "O homem que calculava".

Na faculdade, conheci Os internos do pátiO e a mania descambou para a poesia. Do número, voltei à palavra. Dessa vez, não apenas a palavra lida, mas também a palavra escrita. Como se escreve? Como se cria? Ah, aquilo alimentava minha mania...

Fiz um curso de Windows em 1995, ano em que também comprei um computador pela primeira vez, embora meu primeiro computador tenha sido um PC 200 que eu havia ganhado de meu pai — antes do disquete, no tempo em que os programas rodavam, literalmente, em uma fita cassete. No ano seguinte, a internet, quando a mania se instalou de vez.

O leitor, inteligente como ele só, ou pelo menos atento aos títulos das crônicas que lê, já deve saber que minha mania é aprender. Leitor esperto porque, em poucos minutos, apercebeu-se de algo que levei quarenta anos para notar. Até semana passada, eu não sabia por que, ao final de determinados dias, eu me sentia desanimado, vazio, infeliz. Agora eu sei: fico assim nos dias em que não aprendo nada.

Nos dias em que aprendo alguma coisa, melhora até o meu humor. Se aprendo não uma, mas várias coisas, a mania me leva ao entusiasmo, sinto-me potente feito um deus. Ontem, por exemplo, aprendi a usar esse espaço em que estou escrevendo esta crônica. Não, caro leitor, não é o mesmo espaço em que você está lendo esta crônica. A Silvana e a Marisa podem explicar melhor para você. Elas estão aqui me observando escrever e até ouvindo as músicas que ouço enquanto escrevo. Isso porque dia desses aprendi a usar um site que permite a um grupo de pessoas ouvir o mesmo som, ao mesmo tempo.

Minha mania, embora me garanta o prazer de cada dia, pode ser trabalhosa às vezes. Aulas, por exemplo. Como professor, nunca consigo dar a mesma aula. Em vez de usar o material do ano passado, lá vou eu planejar tudo de novo, procurar novas coisas, rearranjar ideias. Não quero que apenas meus alunos fiquem com o gostinho de aprender. Também quero um pouquinho desse prazer para mim.

Até para escrever minha crônica dominical, que é uma expressão da minha mania, do aprendizado de minha escrita e, principalmente, do aprendizado de minhas vontades e sentimentos (pois a crônica, para mim, começa sempre com as perguntas "O que eu quero escrever?", "O que me move para escrever essa semana?"), até para essa atividade já prazerosamente maníaca, gosto de acrescentar mais alguma coisa. Dessa vez, esta escrita ao vivo com compartilhamento de minha trilha sonora.

Ah, leitor... se você me deixar, eu fico aqui escrevendo por horas. A mania é um trem desembestado de prazer. Mas o leitor talvez não seja um leitormaníaco e prefira textos curtos como, aliás, devem ser mesmo as crônicas. Então fico por aqui. Ou não exatamente por aqui, porque já estou com uma vontadezinha de ir bem acolá. É que ontem, já quase na hora de dormir, descobri um site em que a gente escreve histórias para as ilustrações de desenhistas e estou me coçando para aprender como fazer isso.

Então fique aí o leitor com sua mania que eu vou lá cuidar da minha...


SITES (em inglês — minha mania inclui idiomas) para aprendizadomaníacos:
- Escrita ao vivo: PiratePad
- Música compartilhada: MuMu Player
- Escrever para ilustrações: StoryBird
- Lista das melhores ferramentas de aprendizado: C4LPT 

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8 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Oi, Eduardo!
Eu acompanhei toda sua escrita. É a segunda vez que tenho este privilégio. E a cada frase, pensava: como pode ser tão fácil escrever (e escrever bem) para alguém? Tudo se completava com maestria, aí acaba o texto e você vai para a revisão.Como, num passe de mágica, você consegue deixar ainda mais perfeito, o que eu imaginava ser impossível!
Você tem um dom que, não sei se é inato ou foi desenvolvido, mas é seu esse dom. Que você seja sempre abençoado para sua alegria de aprendiz e satisfação de seus leitores.

Alba Mircia disse...

Como disse a Marisa, é bão dimais ser aprendiz das suas manias, querido! Inda bem que que você inventa essas modas generosas pra gente, mesmo quem mora longe, estar sempre por perto e participar aprendendo também. Acho que essa aprendizmania é mais comum do que se pensa, embora talvez em você ela seja gostosamente agravada... he he.

Marilza disse...

Também aprendo com vc! É muito bom tê-lo (lê-lo) por aqui, sempre aos Domingos...

fernanda disse...

Tem manias que são chatas. Incomodam os outros. A sua é das melhores. Todo mundo sai ganhando. Sabe, vou confessar que eu já cheguei a escrever um texto sobre minhas manias para postar aqui. Mas acabei desistindo por ter percebido o quanto eu pareceria estranha com aquelas revelações todas. Agora que você falou sobre essa sua mania tão nobre é que eu não posto sobre as minhas mesmo! rs
Bjos!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Marisa, a maneira como escrevo hoje é fruto da minha mania de aprender. E ainda há MUITO o que aprender nesse ofício. :) Bom tê-la por perto.

É, Querida, o caso é grave. Que bom que gostosamente grave.

Marilza, aprender na companhia de vocês é mais bonito.

Ah, Fernanda... Conta, vai! Conta! Na sua prosa bonita, qualquer mania fica nobre.

albir disse...

Como diz o Faustão, quem sabe faz ao vivo e a cores.

kr;)s disse...

Vira mania aquilo q gostamos mto. Essa minha mania de te ler é uma das mais prazerosas. BIG bjo

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Meu fausto Albir, grato. :)

kr;)s, ler seus comentários também são uma mania que tenho, mas que não depende só de mim para se manifestar. ;)