segunda-feira, 11 de julho de 2011

PEDIGREE >> Albir José Inácio da Silva

Já entraram aqui antes para roubar comida, mas havia menos injúria. Interrompiam meu sono, eu tinha de persegui-los, surrá-los, mas nem os odiava por isso. Cumpria meu papel e às vezes até me divertia. Mas agora não. Não roubaram, não fugiram, não adivinharam minha presença, ou melhor, não se importaram com ela. Insolência? Não. Desrespeito. De um tipo que não se pode tolerar.

Não me incomoda o fato de serem criaturas vis. Finjo não ver seus trejeitos e requebros como se isso não fosse uma afronta. O que não podem é querer deixar de ser o que são: vira-latas. Rastejem, esgueirem-se pelos cantos, imundos e repulsivos, e não me incomodarão. Exaltem-se lá com os seus. Festejem, chafurdem e recebam homenagens de seus pares. Mas respeitem quem não é da sua laia, quem tem certificado e licença.

Chego a desacreditar na justiça superior que dá petulância e embota a inteligência que deveria ser suficiente para reconhecer o próprio lugar. Já não há fronteiras. Eles não passarão correndo como convém. Invadirão lentamente, de cabeça erguida, olhando pros lados como a ocupar o que é seu. Absurdo dos absurdos.

Começaram não saindo da frente. Depois olharam nos nossos olhos. Saíram a qualquer hora do dia ou da noite. Fizeram passeatas, cartazes, programas de rádio e TV. Votaram, frequentaram, entraram por cotas. Comeram pelas bordas, se empertigaram , se espalharam. Deram-lhes a mão e agora eles querem leis. Leis que igualem, que desconsiderem o sagrado, a genealogia. Infâmia.

Mas não é deles a culpa não. Estão ocupando os espaços que lhes dão os direitos humanos, as abolições, as anistias. Subvertem incentivados por idiotas românticos, de moral frouxa e permissiva. Idiotas que foram lá conversar fiado e pedir paz, esquecendo-se que a paz romana nunca precisou pedir nada a ninguém.

Que fazer diante da ignomínia? Tivessem pedigree e eu os desafiaria para um duelo. Mas não me bato com plebeus. O desagravo deveria vir pelas mãos do verdugo: o chicote, os ferros, a forca, a fogueira. Em praça pública, com todo o aparato do auto de fé. Aí estaria dada a devida satisfação. Mas isso não é mais possível. Matá-los, simplesmente, só lhes aumentaria o prestígio.

Não há solução e para mim é insuportável. Deixo a vida para retornar à superioridade da raça.

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5 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Muito bom, Albir! Bela construção de "vista a carapuça quem quiser". :)

Carla Dias disse...

Concordo com o Eduardo... Muito bom!

albir disse...

Obrigado, Edu e Carla.

Marisa Nascimento disse...

Atrasada aqui, para variar...
Albir, sensacional! Um texto com "n" interpretações. Adoro esse seu ecletismo na escrita.

albir disse...

Obrigado, Marisa. Sua gentileza é oportuna a qualquer momento.