Pular para o conteúdo principal

ESSE NEGÓCIO DE LIVRO >> Fernanda Pinho






O livro que eu procurava era “Borralheiro”, do Fabrício Carpinejar. Já estava há mais de dez minutos escarafunchando as prateleiras da livraria tendo sido, inclusive, abordada por uma funcionária da loja, oferecendo ajuda. Neguei. Eu sempre nego. Se tem uma coisa da qual eu faço questão é de encontrar sozinha os livros que quero. E não se trata apenas de fazer questão. É um pequeno prazer. Tenho particular apreço pelas livrarias mais desorganizadas, o que torna minha tarefa ainda mais gostosa. Adoro procurar um livro e, até encontrá-lo, me deparar com tantos outros. Às vezes, gosto de imaginar que estou na biblioteca da minha casa e que todos aqueles livros são meus. Também gosto de observar as pessoas que parecem se interessar por livros tanto quanto eu. Foi numa dessas, quando eu procurava meu “Borralheiro”, que notei a presença da Rafaela. Devia ter doze anos. Treze, no máximo. Carregava três livros de capa colorida, dos quais não pude identificar os títulos. Ela não os segurava simplesmente. Ela os abraçava. Uma cena afetuosa que foi desarmonizada pela chegada da mãe.

- Vou querer esses três, mãe!
- Três livros? Você doida, Rafaela? Eu disse que era só um.
- Mas, mãe! Por favor. Eu quero muito ler esses livros.
- Ah não, Rafaela, não inventa moda. Escolhe um e vê se para de me encher com esse negócio de livro.

Não sei qual coração doeu mais. O da Rafaela, que teve que deixar dois livros pra trás, ou o meu, que vi uma crueldade daquela e não pude fazer nada. O que me consolou, mais tarde, enquanto eu me remoia de arrependimento por não ter me oferecido pra dar os livros de presente pra menina, foi pensar que, apesar da insensibilidade literária da mãe, Rafaela já está irremediavelmente fisgada pela literatura. Uma adolescente que abraça três livros com aquele carinho, foi picada pela mosquinha. A mesma que me picou. Mesmo eu tendo nascido numa casa sem o menor hábito de leitura e tendo sido alfabetizada um pouco mais tarde que o habitual, por não conseguir me concentrar nas aulas. Mas quando, aos oito anos, eu consegui ler um livro sozinha, decidi que aquilo era a coisa mais legal que podia existir. O livro chamava-se “A Bombaboa”. E, motivada pela emoção do final épico – a bomba explodia e soltava milhões de corações pelo ar – fui atrás de outros livros. Queria sentir aquela emoção de novo. E então li “Pretinho, Meu Bonequinho Querido”, “Memórias de Uma Bola de Futebol”, “A Vida Acidentada de Um Vampirinho” e não parei mais.

Até ter minha primeira crise com a literatura, o que aconteceu quando eu estava no Ensino Médio. Pensem na situação: eu tinha 16 anos e tinha que ler em cinco dias “O Crime do Padre Amaro”, do Eça de Queiroz. Minha mãe havia pegado o livro numa biblioteca pública e o exemplar mais parecia um original da época. A cada página que eu passava, três espirros. Ah, e os cinco dias em questão era o carnaval e eu iria pra praia.

Revoltada e sem opção, levei o livro na mala. O que eu não esperava era terminar a leitura ainda no domingo de carnaval. Aos prantos. Chorava de pena da protagonista. Chorava de ódio do padre. Chorava por ter que devolver o livro que não era meu. Fui arrebatada e voltei pra Belo Horizonte doida atrás de outros livros do Eça. Eu já havia sido picada pela mosquinha, afinal! Graças a Deus!

Mais de dez anos depois, os livros continuam sendo minha companhia mais constante. Sempre levo um na bolsa, mesmo que eu não vá ter tempo de ler. Mas é quase como se fosse um amuleto. Se não tenho um livro comigo, sinto como se estivesse pelada.

Hoje, me considero uma grande consumidora de livros (haja espaço pra guardar e tempo pra ler tudo o que quero). Uma média multiplicadora de livros (o hábito de leitura já foi devidamente instalado aqui em casa). E uma pequena fazedora de livros (já colaborou com a produção do livro do Crônica do Dia, garantindo seu exemplar? Faltam apenas quatro dias!).

E, definitivamente, não entendo nem nunca vou entender quem não gosta desse negócio de livro. 

Imagem: www.sxc.hu

Comentários

Jujú disse…
Lindo amiga! Eu tb amo livros, amo estar em uma biblioteca, em sebo, livrarias...acho mágico, e tb não entendo quem não os ama! Na época da escola, lembro que lia todos os livros do semestre em uma semana, e depois os relia novamente! Além de ler todos os textos do livro de português assim que ele chegava em minhas mãos...era um prazer absurdo!

E acho triste pais que não incentivam seus filhos a ler...fui em uma palestra com o Ziraldo semana passada e o que ele disse eu concordo: o futuro do Brasil está no prazer de ler!

Então, bora comprar o livro do "Crônica do Dia"!

Beijos
Fernanda, pra mim esse negócio de livro é tão sério que livro, pra mim, é até melhor que gente. E talvez só perca pra música.
Eu adoro ler, só que ultimamente confesso que estou em falta com a leitura... mas às quintas eu nunca falho, sua crônica é prioridade!!! Beijão minha flor.
Gostei muito dessa crônica, pois me identifiquei em vários aspectos. Primeiro porque não tive o hábito no núcleo familiar e, ao contrário de você, demorei muito para começar a gostar de leitura, é um romance recente. Curiosamente, sempre gostei de escrever, mas não tinha a mesma paixão pela leitura, não li a maioria dos clássicos da literatura brasileira que se lê na escola e vivo me culpando por isso.
Segundo, porque também sinto prazer em procurar e comprar livros, também sonho com a biblioteca e também vivo com um na bolsa. Têm os livros de estudo que nem por isso deixam de ser prazerosos. Ficam em casa, são rabiscados, marcados e destacados de todas as maneiras. É trabalho. E tem os de entretenimento, que leio por puro prazer e curiosidade. Esses passeiam pelas áreas que me interessam, psicanálise, filosofia, literatura, cinema. Não tenho preconceitos e o que me interessar, ta valendo. É paixão.

Agora, quanto aos que não gostam, explico: leram os livros errados.
Essa explicação não é minha, é do Miguel Sanches Neto que contou que fez seus alunos gostarem de ler, pesquisando as coisas que eles mais gostavam de fazer na vida, e dando um livro que tratasse do assunto. A maioria foi seduzida!

Beijo

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …