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A PROPOSTA >> Clara Braga

Outro dia, um amigo veio conversar dizendo ter recebido uma tal proposta e estar na dúvida quanto ao que deveria fazer.

Essa proposta, de emprego, era uma dessas que envolvem uma grana muito boa e que com certeza fez a namorada dele pensar mais ainda naquele outro tipo de proposta que algumas mulheres ainda esperam ansiosamente.

Mas como eu sou adepta da filosofia que diz quando a esmola é demais, o santo desconfia, já fiquei esperando qual seria o “mas” da proposta que ele recebeu. Não demorou muito e ele logo disse: “Mas eu teria que ir embora de Brasília.”

Eu, em um pensamento que só depois fui perceber ser um pouco egoísta e talvez até pessimista, já questionei logo: Mas e nós, seus amigos? E a nossa banda? E a sua família? E a sua namorada? Você vai deixar tudo para trás? E se der errado?

E mesmo eu sendo a única que estava ligando para essas coisas, afinal o pai dele disse que não sabia por que ele ainda não tinha feito as malas, a minha ficha do egoísmo demorou a cair. Só caiu mesmo, acreditem ou não, depois de assistir a um filme, desses bem mamão com açúcar, chamado "Cartas para Julieta".

No filme, resumindo de forma bem rápida, Sophie vai com seu noivo passar uma temporada em Verona e visita a casa de Julieta (de Romeu e Julieta). Lá ela descobre que as mulheres escrevem cartas para Julieta e colocam na parede da casa. Ao final do dia, um grupo de voluntárias recolhe todas as cartas e responde uma por uma.

Sophie se encanta com aquilo e passa a ajudar essas voluntárias. Um dia, recolhendo as cartas da parede, ela descobre uma que foi deixada lá tão escondida que durante meio século ninguém encontrou. Ela responde essa carta de uma mulher, agora já uma senhora, que se apaixonou por um Italiano, mas deixou seu amor escapar.

Depois disso, muita coisa (que eu não considero muito relevante para o ponto onde eu quero chegar) acontece, e só ao final do filme a carta é lida. Peço licença a quem não viu o filme para contar o que dizia a carta, afinal, por mais bobo que o filme seja, essa carta consegue fazer a gente pensar.

Ela diz mais ou menos assim, as palavras “e” e “se”, quando colocadas separadamente, não representam nenhuma ameaça, mas quando colocadas juntas lado a lado, elas tem o poder de nos assombrar a vida toda. E se?

Foi aí que eu percebi que essa proposta não poderia ter vindo em hora melhor para ele, afinal ele está apenas começando, e é exatamente quando estamos começando e ainda não temos ninguém dependendo de nós que estamos na fase de ter experiências que dão errado, pois é muito mais fácil recomeçar. E por outro lado, tudo sempre tem 50% de chance de dar certo. Se ele não aceitar, vai passar o resto da carreira se perguntando “e se eu tivesse ido?”.

Quantas vezes deixamos de fazer coisas por medo, medo de dar errado, medo de levar um não. E então passamos um bom tempo nos perguntando “e se eu tivesse feito?”. Se fazer essa pergunta é muito pior do que ser rejeitado ou ter uma experiência que deu errada, até porque quando algo dá errado, nós crescemos quando passamos por cima disso. Quando deixamos de fazer algo e nos perguntamos “e se?”, é porque deixamos para trás a oportunidade de crescer, tanto com um experiência que pode dar certo quanto com uma que pode dar errado.

Comentários

É, Clara, no interior diziam uma metáfora pra gente sobre isso: "não é todo dia que passa um cavalo arreado na sua porta".

Eu costumo dizer para os mais jovens que a hora de errar sem medo é na juventude. Depois a gente vai ficando mais temoroso, menos ousado e aí é que não erra nem acerta mais.

Como disse o Fernando Pessoa:
"tudo é ousadia na vida daqueles que a nada se arriscam."

Abraços. Paz e bem.
Ana Braga disse…
Melhor correr o risco de se arrepender daquilo que fez, do que nunca ter sido feito. Falam as palavras de uma tia mais ou menos vivida. Bjs.
Clara, já coloquei o filme aqui em minha lista. E nessa história de ir ou ficar, cada um é cada qual. Às vezes acontece do "não" também trazer uma GRANDE oportunidade.

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