FARMÁCIA>> Lara Passini Vaz-Tostes
Farmácia Fui à farmácia com aquela pressa pouco heroica das dores de cabeça, urgências privadas, absolutamente irrelevantes para o funcionamento do mundo. A cabeça pulsava com disciplina exemplar, como um lembrete fisiológico de que o corpo possui agenda própria. Dois quarteirões apenas. Distância modesta, embora certas dores revelem notável talento para a expansão territorial. Caminhei devagar, não por virtude, mas por limitação operacional. Cada passo repercutia no crânio com uma convicção quase pedagógica. Cheguei. Naturalmente, havia fila. Filas são essas instituições silenciosas onde a experiência humana aprende, diariamente, a relativizar suas tragédias pessoais. Entrei na espera com a dignidade possível. À frente, dois senhores, uma moça e uma criança. À primeira vista, pareceu-me sozinha — hipótese que produziu breve estranhamento, como se a infância, desacompanhada numa farmácia, configurasse algum tipo de impropriedade metafísica. ...





