NO FUNDO DOS COPOS >> KIU OLIVEIRA
Depois de colocar o copo para encher debaixo da torneira do filtro, tia Graça tocou na própria cabeça enquanto olhava para a minha, então me perguntei se tinha sido uma boa ideia termos raspado os cabelos, porque depois disso ela ficou meio desligada, a ponto de o copo transbordar até ela perceber que deveria fechar a torneira. Curvou-se, e, com os lábios na borda, sugou o excesso de água; depois o virou na boca. Copos lembram o meu pai. Há um bom tempo, ele saiu para beber com alguns amigos e não voltou, me deixou plantado numa espera que feria e cansava. Eu só queria entender por que ele não voltava, mas não deveria falar sobre isso nem ficar remoendo. Certa vez, tia Graça ficou irritada, então prometi aceitar no tempo de Deus, como ela gostava de esperar por tudo. Mas aí apareciam os copos, e meu pai estava em todos. Ele dizia preferir os arredondados, especialmente os transparentes, porque dava para a gente ver tudo o que tinha dentro. Esbravejava que os quadrados eram uma ab...








