BUNDA NA JANELA >> JANDER MINESSO
Era um ritual inusitado. Todo início de primavera, ele entrava na mesma casa e dirigia-se à mesma janela, abrindo bem as duas vidraças. Depois, arriava as calças e sentava-se no parapeito com as nádegas viradas para a rua. Lá ficava durante toda a estação. O hábito vinha de longa data; ele já havia esquecido a motivação original. Na sua lembrança, alguém tinha feito aquilo antes e alguém faria aquilo no futuro, muito depois de sua partida. Inclusive, era pago para isso. Ademais, as pessoas tinham prazer em ver aquelas nádegas escancaradas para a rua. Nem todos admitiam, claro. Gente acima do bem e do mal vivia dizendo: “Não tenho tempo para essas coisas”. Porém, mesmo de costas, ele sabia que todos arriscavam uma olhadela diária ao passarem pela calçada. A maior parte, porém, não fazia tanta cerimônia. Acampavam ali em frente já no final do inverno. Debatiam como estaria o rabo naquele ano: mais enrugado, mais peludo, talvez com um furúnculo. Apreciavam o feio, mas isso ele preci...







