COISA DE LAGOA >> KIU OLIVEIRA
Por anos tentei esquecer a história. E depois de repeti-la em algumas sessões, a psicóloga receitou escrevê-la, que me faria bem. Enfatizou a necessidade da verdade em cada palavra, mas isso eu não pude garantir, porque a memória e o espelho não são um poço de sinceridade. Ela também indicou convidar minha mãe a voltar ao local do acontecido, e, de mãos dadas, revisitar a memória, perguntar o que engasga e fere. Não quero levar minha mãe lá, o lugar não é mais o mesmo, aterraram tudo e construíram uma casa no lugar. Mal conheço os donos. Não vou desenterrar nada. Aconteceu em um domingo, a família toda reunida na lagoa da herança, como de costume. Chegamos quando o sol nascia, minha mãe e meu pai zangados e eu não podia dar palpite para não estragar o passeio. Ir embora cedo não estava nos planos. Assanhados com seus anzóis coloridos e iscas vivas, meus primos correram até a margem. Escolhi o lugar com a melhor vista e fiquei à espreita, observando todos eles refletidos no ...








