RETRATO DE FAMÍLIA >> KIU OLIVEIRA
Revirando a estante à procura de um pedaço de papel em branco, no qual pudesse escrever um bilhete que deixasse a minha mãe feliz no dia de seu aniversário, encontrei o nosso velho baú do tempo. Era chamado assim por conter em sua estrutura, na parte de fora, várias peças de relógios antigos, que vô Luiz fazia questão de tocar com as pontas dos dedos ao explicar a funcionalidade de cada uma e finalizar se gabando por já ter trabalhado com relógios. Aquele baú não tinha tranca. Abri e recebi uma baforada de coisa esquecida. Encontrei alguns papéis com anotações matemáticas, panfletos da igreja, caixas vazias de remédio, tubos de linhas com agulhas espetadas e um álbum de fotografias. Minha mãe foi criança um dia, meu pai também, e não sei por quê, mas eu tinha a impressão de eles terem nascido adultos. A foto de menina estava desbotada, mas dava pra ver ela toda acanhada, os pés descalços, a cabeça baixa, olhando sabe-se lá pra onde. A dele parecia desenhada, e meu pai, meni...








