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CARTA << KIU OLIVEIRA

  Mãe, Encontrei um jeito de tirar da cabeça as palavras que perturbam. Dá até para afugentar a agonia do peito. Aprendi a escrever. Aqui vem professora toda quarta, ela traz livros com histórias parecidas com a vida da gente. Ler tem sido saída, passaporte. Conheci novos lugares, pessoas, artes, amores. Hoje em dia eu seria motivo de orgulho aí do lado de fora, né, mãe? O problema aqui são essas grades e paredes escondendo a nossa existência. Aqui não somos. Mas eu mereço não ser, o que fiz não tem nome, não cabe em palavra.  As vezes em que a senhora esteve aqui, eu quis recebê-la, mas não consegui. A tal vergonha na cara, que a senhora tanto cobrava, finalmente apareceu. O problema é que ela veio tarde, e isso me deixa ainda pior.  Quem troca o gás de cozinha pra senhora? E faz as compras na padaria, no mercadinho? Perdeu a vergonha de buscar os ossos no açougue, mãe? E quem pica a mortadela e espreme o limão com o devido cuidado para não escorrer o sumo junto? Isso eu...

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