AMOR DE PUTO >> ALLYNE FIORENTINO
Ligo a Tv de madrugada, como há muito tempo não fazia. As madrugadas são reservadas aos fracassos. Não há fracasso humano que não tenha atravessado a noite: vícios, excessos, dores, incapacidades... tudo isso se cultiva no caos do dia, mas, ao contrário do que pensam, é preciso silêncio para sofrer. Imagino o tríptico de Bosch, a melodia satânica vindo da partitura escrita na bunda de um qualquer, as máquinas de tortura rangendo ao som dos gritos e gemidos, os animais e os humanos em saliências ruidosas, as trombetas soando na boca de um demoniozinho: o inferno é um grande escarcéu, uma grande metrópole sem silêncio para sofrer. Passo pelos canais e vejo uma figura conhecida pelas redes, uma daquelas que jamais apareceria em um programa à luz do dia, pois durante o dia apenas noticiários mostrando pessoas trucidadas eram aceitos. O trabalho dele era noturno, poeticamente falando porque, na verdade, todo o seu dia, desde a manhã até a madrugada, era reservado para cumprir sua jornada ...








