DOIS SÓCRATES >> Ionio Paschoalin
O sábio que percorreu os caminhos na era dos tempos idos deixou marcas no chão pisado. Sulcos e relevos: cuidado para não tropeçar! Encontrou sua sorte na pergunta que nunca formulou; na morte, a resposta da questão: existir, sim ou não? Sua vida, ânsia e indagação; na ceifa, o que tinha sido e o que ainda seria — explicação com sua justa negação: existir, sim ou não? Analisou enquanto trilhava, refutou os conceitos, os consensos e os conselhos; afirmou que nada sabia, inventou a humildade que apunhala a prepotência. Habitam no homem as ideias que semeiam o fato e sua contradição: existo, logo penso. Partiu; ficou sua filosofia, cicatrizes dos dias e palavras que jamais redigiu. Roubaram-nos-lo os poderosos da época: furto e latrocínio da razão, crime contra a humanidade. O que ele poderia fazer além de abraçar seu destino? Como se o conhecesse há muito, beijou sua face e agarrou suas mãos antes de seguirem juntos, rindo. Desprezou a possibilidade de fugir, os mil p...








