JANELA DE VIDRO >> KIU OLIVEIRA
O que tem dentro de vó Aurita, além das tripas, do sangue, da doença, dos órgãos e da papa que ela come? É o que me pergunto todo sábado, quando a visito em seu quarto, no Lar Esperança. Peço aos cuidadores para nos deixar a sós. A equipe — de posse do termo de responsabilidade que assinei — não reluta, como acontecia nas primeiras visitas. Fico por conta e risco quando a porta se fecha. Pela centésima vez, contarei a ela sobre o ocorrido com a minha mãe — o que dói sempre, mesmo eu repetindo a história. Então, tentarei atiçar uma memória nela. Espero que a lembrança não encalhe em algum ponto entre meu estômago e a minha garganta, como das outras vezes, porque, se isso acontecer, enfiarei todos os dedos na goela, até vomitar o assunto. Juro que o farei. A porta está aberta. Uma cuidadora passa por mim e sussurra: hoje sua vó está mais distante que de costume, mas está calma . Fecha a porta ao sair. Troco passos sem pressa, sem barulho. Vó está onde a encontro t...

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