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Cerração >> Carla Dias

Assistir ao aparecimento de cerração era a sessão da tarde daquela época. Sentava-me no chão, em frente de casa, em um barranco miúdo. Era como se a rua fosse água e nela eu pudesse molhar os pés. Meus pés nunca foram tão ousados quanto minha mente, daí negaram qualquer aprofundamento e criaram a primeira ironia: uma vida passada em um lugar chamado Represa e não saber nadar.  A represa ficava um tanto para além da rua de casa. Ela tinha jeito de sem-fim, de senhora desabitada por escolha, feliz com a solidão, vivendo de ondulações induzidas pelo vento. Gerava peixes para o tio pescador levar para casa e reforçava o medo de me entregar à sua condução. Não me recordo de entrar nela, ainda que saiba que isso aconteceu uma vez, mas me lembro dos passeios às suas margens, tocando de leve, com os pés, a sua textura e seu movimento. E de tentar, com o olhar, alcançar um infinito que eu ainda não entendia pertencer aos quilômetros. Eu não sabia que ela era inventada. Como imaginar gente e...

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