ACOMPANHANTE >> Carla Dias
Tira o pó da janela chapiscada de realidade, sabendo que limpo ela ficará, mas somente por alguns minutos. Lá fora, as máquinas trabalham por um futuro melhor, é o que escuta por aí. Janela é quadro, sabe bem. Às vezes, repousa o pano de limpeza na pele fria do vidro e se perde a caminhar, com o olhar, no passeio das pessoas, observando as portas serem abertas e fechadas, os sinais reguladores de trânsito fazerem sua parte, os barulhos de quem prefere não esperar e atropela a pressa do outro. As paredes do apartamento vibram a cada vez que a máquina toca o chão com a força de chacoalhar universo interior. Gosta desse verbo: vibrar. Mas não assim, não desse jeito. As máquinas têm sido uma constante nas suas tardes, cantando alto o escândalo de um progresso que lhe parece trincado, que avança em seus dias com as mãos ávidas para tecer desconserto, sem deixar espaço para a singeleza dos fones de ouvido ao berrar suas tarefas diárias, a necessidade de atender programação. Hoje, a lua ...







