ESPERA >>> KIU OLIVEIRA
Meu pai encolhe os olhos ao me ver chegar sem minha mãe. O médico me conduz até um canto reservado do quarto, “a qualquer momento, ele virá a óbito. O coração está fraco, não há o que fazer. Talvez ele não amanheça. Melhor avisar os outros familiares”. Então sai a passos rápidos pela porta que dá acesso ao corredor do hospital. A enfermeira recolhe os instrumentos e outros materiais usados pelo doutor durante o exame. Depois arruma as pontas do lençol da cama onde meu pai termina sua existência. Não há mais a necessidade dos serviços dela, mas avisa que, se precisar de alguma coisa, é só chamar. Sai e fecha a porta. “Sua mãe não vem, filho?”, a sua voz está se apagando, ainda assim, afunda em meus ouvidos, na pele, na memória. Palavras ácidas me vêm à ponta da língua e queimam a minha boca. Meu pai não as suportaria, então não respondo, apenas o observo. Não há mais força em seus olhos, a pele perdeu o viço. Foi um homem duro a vida inteira, armado com palavras ásp...



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