SORVETE >> JANDER MINESSO
Curtíamos as férias, a esposa e eu, e já estava escuro quando encontramos nossa sorveteria favorita na praça principal da cidade. Ela parecia criança. Pulou, gritou e logo se enfiou na fila sem nem perguntar se eu também queria, afinal a resposta era óbvia. Não demorou para voltarmos ao passeio, agora de casquinhas em punho. Acabei me melecando com uma laranja cristalizada embebida em chocolate setenta por cento e, enquanto limpava os dedos, vi a cena se desenrolar em câmera lenta: primeiro, o bigodudo empurrando um carrinho de supermercado cheio de tranqueiras na direção da esposa; depois, ele estacionando diante dela, apoiando o queixo sobre a mão e o braço sobre a carriola enquanto a encarava; e senti um sorriso brotar no meu rosto enquanto ela olhava devagar para mim, os olhos num misto de tédio e horror. — Ah, não. Cheguei mais perto. O bigodudo não se mexeu, mas desviou o olhar para mim. — Vocês são casados? Gostaram do sorvete? — Sim. — Eu não acho. Todo mundo fala, mas eu...









