LEMBRANÇAS >> KIU OLIVEIRA
Depois de deixar as chuteiras no lavador de roupas, corri para dentro de casa e só percebi os cacos de vidro, louça, cerâmica, resina e gesso ocupando toda a sala quando a dor veio à tona. Paralisado no meio da bagunça, olhei para as lascas espetadas em meus pés e, com as mãos sobre a boca, segurei o grito. Não era a primeira vez que eu via as lembranças da casa — que minha mãe fazia questão de exibir na estante — espatifadas no chão. No entanto, nas outras vezes, elas estavam em menor número, e menos danificadas. Tentei levantar o pé direito para retirar as farpas, mas desisti ao sentir o esquerdo sendo dilacerado. Chamei por minha mãe uma, duas, muitas vezes, até ela surgir no corredor que ligava o quarto dela e de meu pai à sala. Sua roupa estava manchada de sangue e seus olhos lembravam um grito. Perguntou, com a voz entrecortada, por que eu não estava na aula de esportes. Falei que a professora liberou a turma mais cedo para acompanhar o velório da tia dela. Enquanto m...







