FECHADURAS >> KIU OLIVEIRA
Mãe Ana não
conseguiu muito na vida, apesar do seu esforço. Acordava cedo todos os dias, conferia
sua penca de chaves e caía no mundo, ela e Deus. Eu sempre quis tocar nas
chaves com o mesmo gosto e zelo que ela; percorrer, com as pontas dos dedos, a
foto no chaveiro, as quinas, curvas e segredos guardados. Agora que as herdei, abriria
mão delas, se Mãe Ana voltasse.
Meu irmão
de criação ficou com a casa e não questionou a minha parte, o que foi um alívio,
pois lembro dele raptando as chaves quando Mãe Ana se distraía com a pia, o
tanque de roupas, o piso breado, o pó nos móveis, as panelas no fogão, a
papelada com todos aqueles números. Ele saía, enquanto eu ficava com a obrigação
de assoviar alto se ela o procurasse. Eu nunca descobri aonde ele ia. De Mãe
Ana eu sempre soube, porque a segui muitas vezes e a vi tentando abrir portas
emperradas e, em suas investidas, parecia escolher a chave errada, então
tentava outra até não sobrar nenhuma. Com cara de quem correu o dia todo, ela
se sentava na calçada ao lado,
sobrancelhas e olhos lembrando uma pessoa muito machucada. Pouco depois, seu
rosto ganhava contornos de brincadeira de criança e ela voltava para casa. E,
no dia seguinte, outra porta errada.
Todas as
noites eu pedia a Deus uma ajudinha com as engrenagens escondidas dentro da próxima
fechadura. Sonhava com a chave sendo girada, fazendo trac, a porta rangendo
baixo, Mãe Ana entrando. As tentativas fracassadas martelavam dentro da minha
cabeça; ainda assim, eu acordava cedo todos os dias, curioso para saber o que ela
encontraria depois da porta.
Quando Mãe
Ana se foi, guardei as chaves por semanas. Vez ou outra, eu as tirava do cofre para
observar as formas geométricas em seus
desenhos, os tons entre as cores cobre e prata, o brilho de umas, o desbotado
de outras. O chaveiro com a foto de nós três, do dia em que ela nos acolheu no
orfanato.
Amanheci
decidido a continuar aquela busca e, assim que saí na rua, dei de cara com
portas de diferentes tamanhos, formas e cores. Cheguei rápido à primeira.
Enfiei a
chave. No pensamento, a imagem de Mãe Ana. Girei.



UAU!! É de tirar o fôlego, é emocionante, bordou o texto como se fosse tecido. Seus olhos observam e tragam as histórias que ficam guardadas em você. Deve pesar, fazer doer suas costas, sobrecarregar as juntas. Mas aí, ao escrever, as derrama, alívio. Eu sinto a sua dor, respiro junto contigo amigo. Acho que não vai precisar mais dessas chaves, está voando sobre as portas. Parabéns, sua crônica é linda demais.
ResponderExcluir👏👏👏👏
ResponderExcluirQue texto mais lindo! Cheio de camadas, sensibilidade, memórias, dor, nostalgia. Que encadeamento ótimo. E que interessante, o irmão ficar com a casa, mas vc ficar com as chaves. E que final, hein, Seu Kiu? Que final!
ResponderExcluirBelíssimo texto mestre. Tira o ar do início ao fim.👏👏👏
ResponderExcluirA metáfora bateu fundo aqui. E ainda tem um final aberto pra gente sofrer ou sonhar. Belo texto.
ResponderExcluirBelíssimo texto! Emocionante.
ResponderExcluirE as portas que mãe Ana não conseguiu abrir, o narrador abrirá? Nem sei se importa muito, mas mais q deixar as chaves, mãe Ana ensinou um caminho. Linda história, uma metáfora q chega fundo na gente.
ResponderExcluirMuito bom, Kiu!
ResponderExcluirNão importa o que acha ou procura, lá está Mãe Ana.