AMIGOS DA RUA DE ANTES >> Sergio Geia

 


Nos últimos dias de férias, abri uma manhã sob a companhia de ninguém menos que Antônio Maria, conhecem? Antônio Maria era um cronista recifense que se estabeleceu no Rio de Janeiro entre as décadas de 1940 e 1960, que foi contemporâneo de Rubem Braga, e que escreveu crônicas tão saborosas quanto as do próprio mestre da crônica. 
 
A narrativa está no livro Vento Vadio e fala sobre amigos de infância. Ele havia encontrado Francisco, mas não se lembrou dele. Isso só ocorreu quando Francisco deu-se a conhecer, foi a expressão utilizada pelo cronista, linda por sinal. A esse esquecimento momentâneo e tão comum, ele defendeu uma tese no mínimo curiosa: 
 
O natural é que o gato seja manhoso; a águia, nobre; e o homem, esquecido
 
Portanto, a falha não foi daquele que se esqueceu, mas sim, daquele que se lembrou. 
 
O argumento é divertido, queria mesmo explorá-lo mais. Acontece que minha mente começou a viajar, e viajou muito e longe, indo parar lá na década de 1980, em meus amigos de infância, na Domingos Cordeiro Gil — rua onde morei por mais de vinte anos, em Taubaté. 
 
Sandrão (Alessandro Squarcini), por exemplo, era meu vizinho. Andávamos de bicicleta (certa vez, ele pintou minha Caloi, que era vermelha, de verde; ficou linda), jogávamos bola na rua e em certa época, chegamos até mesmo a tocar numa banda (eu exploro mais essa história no livro Futebol, seu mágico — Driblando memórias, que deverá ser lançado este ano pela Editora Letra Selvagem). Encontrei-o outro dia em Texas, no Teatro Metrópole. Era a comemoração dos vinte e cinco anos da Academia Taubateana de Letras, com show de Renato Teixeira e Luana Camarah. Por essas coincidências da vida, ele se sentou à minha frente, com a esposa Ana Cláudia, e a filha. Sandro, funcionário da Unitau, recebeu um prêmio pelo seu talento como designer gráfico. 
 
Outro que me lembro bem é o Fabião (Fabiano Ortiz), motorista de ônibus, não vejo há algum tempo. Foi o primeiro da turma a começar a trabalhar. Ele saía de casa com o uniforme de cobrador da ABC Transportes Coletivos e a gente lá, de papo pro ar, na maior vagabundagem. Guardo na mente uma imagem dele mais velho, casado e com família, saindo de uma pizzaria na Pena Ramos com uma redonda na mão. 
 
Fernandinho (Banana) nunca mais vi, disseram que morreu, será verdade? Janui (Janui Camargo), melhor goleiro do nosso time, sempre vejo com Roberta de Deus. Pérsio (Pérsio Camargo), seu irmão, foi meu colega de Municipal. Está sempre nas redes falando de política e da FAMUTA. Junior (Atair Junior), me chamou certa vez no Facebook. Perguntou: você é o Sergio que morou na Domingos Cordeiro Gil na década de 70–80? Não o reconheci de pronto, Junior está diferente, vive em São Paulo, encontrou uma pessoa com sobrenome Gaia e se lembrou de mim. 
 
Lembro ainda Bertinho, Oderval (Derval), Paulo Henrique, Siderval (Sid), Silvio Luiz, Roberval (Negão), Adimerval (Di), Zé Antônio (Tatu), Curtão, Batata, Carlinhos (Veludo), Edilson, Marquinhos, Juninho, Luisão, Alemão, Silvinho, Flavinho, Arésio, Joãozinho, e o pessoal da rua de cima, João Carlos (Pocã), Fernando, Marcelo, Alexandre (Bentê), Adilson, Fofinho, Aristóteles e tantos outros inhos e ãos
 
A galera ficava na porta de casa chupando um geladinho (chup-chup para alguns, ou sacolé, juju ou dindim); jogando futebol de botão na garagem; em algum muro fazendo a bola voltar; batendo figurinha; comendo lanche no Batista. 
 
Para a minha tristeza, hoje, quando passo lá, não vejo mais ninguém. 
 
Só ouço o silêncio. 
 
E vejo sombras, como se a noite tivesse decidido não terminar nunca. 
 
 
 
Ilustração: ChatGPT

Comentários

Anônimo disse…
Aquela crônica que começa leve, passa por uma nostalgia quase agridoce e termina com uma nota grave. Foi legal passear pelo seu ontem, Sergio. E a escrita continua reta e afiada como nunca.
Kiu Oliveira disse…
Sua crônica me levou longe, Sérgio. Leve no início, uma pancada no final. Belo texto.
Ionio Paschoalin disse…
O Sérgio nos deu muito o que pensar. Existe mesmo uma pancada no final mas, ao invés de machucar, a crônica te acalenta, te carrega. Toca naquele lugar onde levamos as lembranças e os carinhos. Me deu vontade de ligar pra velhos amigos, obrigado Sérgio.
Edna Kamezawa disse…
Que saudades! Em Santana onde foi minha infância, em SJCampos, também era geladinho. O melhor era o "creme holandês" que nada mais era que leite com groselha. Corria de bicicleta pelas ruas não tão movimentadas como agora. E amigos, muitos amigos. Lembro-me dos nomes, sobrenomes e alguns números de telefone. Bons tempos! Mas agora também é bom. ; )
sergio geia disse…
Quantos comentários lindos!
Anônimo disse…
Blz Serginho, que bom lembrar dos amigos de velhos tempos!
Zoraya Cesar disse…
Quanta delicadeza nessas lembranças! Sem nostalgia ou drama, apenas a doçura da memória. Até chegar no final e puxar nosso tapete, deixando um gostinho de lágrima chegando ao coração. Mas puxar o tapete é muito violento. Antes, é como se você fosse desligando os interruptores da sala. Aos poucos. Que beleza de crônica!
Nadia Coldebella disse…
Eu ja achei uma nostalgia linda, mas muito doida. Aquela sensação de q certas coisas não voltam, embora as desejamos profundamente. Show! (Ainda bem q vc não esquece, senão não poderia nos deliciar com essas lembranças)
Albir disse…
Suas crônicas me remetem à minha própria nostalgia! De um jeito que, de outra forma, eu não acessaria.
Allyne disse…
Bela crônica nostálgica, Sérgio.

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