FARMÁCIA >> Lara Passini Vaz-Tostes

 


Farmácia 

Fui à farmácia com aquela pressa pouco heroica das dores de cabeça — urgências privadas, absolutamente irrelevantes para o funcionamento do mundo. 

A cabeça pulsava com disciplina exemplar, como um lembrete fisiológico de que o corpo possui agenda própria. Dois quarteirões apenas. Distância modesta, embora certas dores revelem notável talento para a expansão territorial. Caminhei devagar, não por virtude, mas por limitação operacional. 

Cada passo repercutia no crânio com uma convicção quase pedagógica. Cheguei. Naturalmente, havia fila. Filas são essas instituições silenciosas onde a experiência humana aprende, diariamente, a relativizar suas tragédias pessoais. Entrei na espera com a dignidade possível. 

À frente, dois senhores, uma moça e uma criança. À primeira vista, pareceu-me sozinha — hipótese que produziu breve estranhamento, como se a infância, desacompanhada numa farmácia, configurasse algum tipo de impropriedade metafísica. 

Inclinei-me. Ela segurava um pequeno pacote de balas. Nada que alterasse o curso da história. Ainda assim, o rosto sustentava uma satisfação serena, imune à ansiedade que governa os adultos em ambientes comerciais. Não havia cálculo, expectativa ou inquietação. 

Apenas a tranquila suficiência de quem, ao que tudo indicava, não aguardava absolutamente nada da vida além daquele instante. Sorriu. Não para alguém. Para coisa nenhuma. Um sorriso economicamente inútil, desses que não participam de estratégia social alguma. 

A fila avançou sem que eu percebesse. Fenômeno recorrente: o tempo adquire surpreendente fluidez sempre que deixamos de monitorá-lo com a devida vigilância. Quando dei conta, era minha vez. 

 Achei curioso como a dor, até então empenhada em monopolizar a consciência, aceitara um recuo discreto. Permanecia presente, é claro — dores raramente abdicam de seus direitos —, mas já não exercia domínio absoluto. Talvez tivesse sido momentaneamente desautorizada por aquele espetáculo mínimo de contentamento sem causa. 

 Saí. A cabeça doía menos. O que, registre-se, não consta em nenhuma bula.

Comentários

Zoraya Cesar disse…
"Filas são essas instituições silenciosas onde a experiência humana aprende, diariamente, a relativizar suas tragédias pessoais". Amei isso. Que crônica mais leve, interessante, bonita! Vc tem o mesmo olhar do Geia para as coisas ínfimas e belas. Uma crônica-oásis
Ionio Paschoalin disse…
Isso Zoraya! Crônica- oásis, bela definição pra esse texto lindo.
Ionio Paschoalin disse…
"...o tempo adquire surpreendente fluidez sempre que deixamos de monitorá-lo com a devida vigilância". Incrível! Parabéns Lara, que crônica bonita!
Nadia Coldebella disse…
O tempo é relativo, a dor tbm, tudo depende do foco, mas mesmo fora de foco, estão sempre por aí. E depois q pensei isso me toquei que algo na sua cronica me fez pensar que a fila é uma espécie de conexão metafísica entre tudo o que dói e o tempo que resta. Se bem que filas são também um teste para civilidade: não pega nada bem perder as estribeiras numa fila, pois rico ou pobre - com exceção de deficientes, grávidas e idosos - numa fila somos todos iguais. De qualquer forma, odeio filas, mas amei seu texto!
Albir disse…
Que beleza, Lara!
Um texto leve para tratar urgências que sempre se embaralham: dor e pressa.

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