DESCONEXÃO >> Carla Dias



Chega e se acomoda ao estranhamento causado. As pessoas o observam sem entender de onde veio; ele oferece a elas um sorriso demorado, tentativa de barganhar tempo na companhia delas.

Aprendeu cedo: sorriso escancarado, amparado pelo silêncio, aproxima em quase todas as ocasiões. Acredita e vive essa certeza, apesar de ter experimentado algumas situações que renderam humilhações e petelecos.

Considera-se um excelente profissional da leitura de pessoas: gestos, tiques, palavras-chave habilmente aplicadas durante conversas aleatórias. Peço permissão para me intrometer e compartilhar informação: ele não é tão talentoso assim. Na verdade, mora ali, naquele corpo embrulhado em roupas que não lhe caem bem — e levarão muitos acontecimentos para se gastar — a repetição, o que, não raro, estraga um ser humano sob o olhar do outro.   

No fundo, ele sabe. A escolha por se enganar alimenta mirrada esperança de alguém se ater à sua presença e reconhecer — entre os defeitos apontados em postagens nas redes sociais, vergonhas desnudadas durante os encontros com familiares, eventos de juntar gente para marcar quantos anos se passaram desde que saíram da escola e como se deram bem (mal) — que ele existe. A burocracia sabe disso, mesmo tendo sofrido para acertar a escrita de seu nome.

Os outros se acostumaram a ele, o ser que se aproxima e permanece, observa, sorri sempre, como se esperasse alguém lhe escovar os dentes, em gesto de dedicada gentileza e intimidade sem fronteira. Essa carência de presença de outros em sua história o faz criar algumas próprias, usando a fantasia como conexão. 

O grupo se despede, beijos e abraços, frases que estabelecem encontros futuros, planos e atividades extras. Para ele — por quem nutrem uma aversão quase apreciada —, acenos em distância apropriada para que nenhuma parte de seus corpos se toquem.

Os últimos funcionários vão embora. “Até amanhã, chefe!, diz o gerente antes de trancar a porta. Ele se levanta e segue da mesa próxima à saída ao balcão. Prepara seu drinque preferido e segue para o segundo andar do estabelecimento, onde mora, confortavelmente. No escritório, senta-se à escrivaninha para encontrar-se com a única pessoa que, apesar de resistente, concorda em conhecê-lo melhor. Nada como um personagem para compreender e fazer companhia a outro. 

Comentários

Nadia Coldebella disse…
Solidão, autoilusão, necessidade de pertencimento: esse teu texto traz todos os ingredientes amados da panelinha da desconexão social e humana. Especialmente se o cozinheiro se achar homem talentoso, sorrir escancarado e gostar de ficar embaixo dos holofotes. A comida será bem servida, aplaudida porque ele é o chefe, mas na solidão, o alimento que ele oferece será objeto de ranço puro. Nestes tempos modernos, somos estranhos no ninho, pode-se assim dizer. Show como sempre!!!
Ionio Paschoalin disse…
É um texto lindo e triste, e é também um estudo antropológico pois existem muitas pessoas como o "chefe". E a narradora o vê da mesma maneira que os demais funcionários. O protagonista tenta pertencer ao grupo mas fracassa miseravelmente. Mas isso não o faz desistir. Lindo Carlinha, parabéns!
Zoraya Cesar disse…
A solidão de quem está no poder é dolorosa para quem tem um mínimo de sensibilidade. A solidão, por si só, quando estabelecida em uma vida já é sofrimento suficiente. Mas a vontade de pertencer sabendo que jamais pertencerá é cruel. E quando exposta dessa maneira peculiar e extraordinária da D. Carla Dias, só torna tudo mais sofrido ainda.
Kiu Oliveira disse…
A beleza e a dor de dar vida aos personagens. Ótimo texto, Carla.
Albir disse…
Embora a regra seja o chefe oprimir, encontram-se alguns tão humilhados e sofridos quanto os subordinados.
Os pequenos poderes costumam doer em todos os envolvidos.

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