ALGO BOM >> ANDRÉ FERRER

 

IMAGEM: Gemini

Para levar o lixo até a rua, ele tinha que atravessar o jardim (o que fez, às oito horas da manhã, intrigado por duas coisas: o calor e o silêncio). Abriu o portão. Ajustou o nó da sacola. “Que é da algazarra dos Silva hoje?” Somente um anúncio da Ford e o assovio da chaleira vindos da cozinha.

De repente, alguém disse no rádio que já era outono. A voz anasalada do locutor, prometendo baixas temperaturas, arrancou-lhe um muxoxo (ele vivia descrente). “’Magina!” O clima e a estação, apartados por uma contenda antiga, pareciam nunca mais fazer as pazes. Frescor e árvores desfolhadas entre março e abril? Só mesmo na capa da Reader’s Digest.

Quando terminou a tarefa, ele mirou a casa e a árvore nua contra o sol. Os galhos do ipê e a expectativa combinavam, o que parecia bom.

“Pelo menos isso”, pensou. Depois, apressou-se para acudir a fervura da água.

Comentários

Anônimo disse…
Meu pai assinava a Reader’s Digest (que, claro, ele chamava de Seleções). Gosto muito dessas cenas do cotidiano onde as coisas são contadas nas entrelinhas.
Ionio Paschoalin disse…
Ô André, alguns minutos de um dia da vida de qualquer um de nós, uma tarefa doméstica que fazemos mecanicamente enquanto nossos pensamentos voam pra longe e, de repente, uma urgência nos convoca! Só escreve bem assim quem sabe, parabéns amigo, seria só mais um momento mas você o imortalizou transformando em literatura. Mandou bem demais!
Nadia Coldebella disse…
E assim é: o estranhamento que temos quando o mundo não segue as regras que aprendemos, e como buscamos pequenos sinais de normalidade para nos sentirmos situados no tempo. Agora, me conta, mestre André, quando foi que o mundo fez sentido?
Zoraya Cesar disse…
às primeiras linhas pensei q ia desenvolver um conto de terror. não foi. e foi. pq a quebra do cotidiano é sempre meio desestabilizadoras. Que recorte sensível! Ferrer, vc é cronista!
Albir disse…
Ele ouvia no rádio a voz anasalada do locutor. Não desconfiava que o divórcio entre clima e estação iria aumentar. E que em 2024 a temperatura estaria 1,5 graus acima do período pré-industrial.

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