segunda-feira, 11 de julho de 2011

DE LICENÇA >> Kika Coutinho

A todas as mães que trabalham fora de suas casas.

A todas as mães que deixam seus filhos com jovens desconhecidas para aventurarem-se entre planilhas, papéis e reuniões intermináveis.

A todas as mães que já deixaram um bebê aos prantos para ir trabalhar e ganhar o tal do próprio dinheiro.

A todas as mães que já saíram de suas casas aos prantos porque precisavam trabalhar e ganhar o tal do próprio dinheiro.

A todas as mães que, talvez, nem precisem, mas querem trabalhar e ganhar o tal do próprio dinheiro. Ser uma escolha não torna a ausência em casa menos dolorosa. Em nada.

A todas as mães que já largaram uma planilha por fazer, uma reunião por participar, um email por mandar, porque, pelo menos hoje, juro, vou pôr meu filho para dormir.

A todas as mães que não conseguiram pôr o filho para dormir porque não puderam largar uma planilha por fazer, uma reunião por participar ou um email por mandar.

A todas as mães que já sentiram o coração apertado enquanto assistiam às horas correrem no trânsito parado.

A todas as mães que já ligaram para a babá, a escola ou a própria mãe, mentindo que estavam quase chegando.

A todas as mães que já correram de salto alto, na garagem de suas casas, para ver logo o rostinho do seu filho, um minuto que seja, antes que o rebento durma.

A todas as mães que já choraram porque não deu tempo.

A todas as mães que sentem o coração partido de culpa quando o elevador desce e escutam o som infinito do choro do seu filho, pedindo para que ela ficasse mais um pouco.

A todas as mães que já se esconderam na casinha do banheiro público de seus escritórios para chorar a falta que faz em casa.

A todas as mães que têm de explicar para os seus filhos o inexplicável fato de não poderem estar com eles, simplesmente quando querem estar.

A todas as mães que já se viram surpreendidas com o próprio filho num sábado, porque a criança cresceu demais durante a semana.

A todas as mães que não estavam lá, nas inúmeras horas em que achavam que deveriam estar.

A todas as mães que já sentiram uma angústia fina no fim de um feriado longo.

A todas as mães que já invejaram as suas babás.

A todas as mães que já pensaram em abrir um buffet, uma escola ou um site e, assim, ser dona dos próprios horários, e dos próprios filhos.

A todas que não conseguiram fazer isso.

A todas, à imensa multidão de mães que tentam resolver a equação insolúvel de equilibrar filhos com trabalho.

A todas elas, hoje, apenas hoje, eu posso oferecer-lhes o meu abraço.

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3 comentários:

Mariana Velozo disse...

Ótimo texto =)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Kika, você é uma talentosíssima porta-voz de todas as mães.

Cristiane disse...

Eu, que nem sou mãe e que nem tenho um filho para deixar em casa, senti um aperto no peito como se tivesse. E já padeci de solidão e tristeza só de imaginar deixar um pequeno ainda por vir para trás enquanto ganho o pão de cada dia pelo mundo afora. Pude entender um pouquinho a solidão diária de cada mãe.