sexta-feira, 1 de julho de 2011

UM DIA ESCREVEREI
UMA HISTÓRIA BONITA E ALEGRE
>> Leonardo Marona

Um dia vou contar uma história alegre e bonita sobre flores rindo quando desabrocham, sobre meninas atingidas por raios de sol, sobre a bola laranja enfurecida do sol, sobre pinguins se coçando em cima do gelo, sobre uma cadela dando de mamar a dez cãezinhos, sobre um inverno enfiado num casaco de novelo, três meninas lambuzadas suspirando por Cary Grant numa foto em sépia diante dos seus milk-shakes, sobre saias rodadas pelo vento, sobre garotos olhando assustados por mais velho que seja o tempo, um sorriso que não se segurou na boca de uma freira que conversa com um bêbado na porta de um bar, um bêbado que alegremente me paga uma cerveja e não me pede nada em troca, outro bêbado que entra no último ônibus da última noite com um papel colado nas costas no qual se lê: “promoção! 1 R$” – pelo que um sujeito metido numa japona ri e eu também – sobre rios de águas cristalinas, sobre templos budistas, hindus, pré-colombianos, sobre estrelas de mil cores e continentes flutuantes, sobre uma estrada sem curvas em cujo asfaltado azeitado vejo meu rosto borrado refletido – e ele ri mais do que eu –, sobre o asfalto dançante diante do deus iguana a quilômetros de distância do deserto imaginário que liga o Desaguadero ao Lago Titicaca, o diálogo do vento frio com meu rosto quente enquanto finjo que flutuo, sobre cachoeiras intocadas e diamantes brutos extraídos do fundo da África morta, sobre beijos para sempre guardados em bolsas e retratos, sobre olhos que um dia foram todos os olhos que poderíamos ver, sobre abraços cheios de repente sem medo e não de medo sem repente, sobre despedidas sem choro, um ônibus partindo e você me vendo pela janela até a poeira não deixar mais, sobre a sensação que um poema é capaz de causar, a falta de ar, a vergonha do raso, a bolha de vida, o instante do abate, o mundo perdido em palavras da mais doce ilusão, uma história sobre uma amizade madura e silenciosa que colhe frutos de cacau debaixo de uma árvore de dois séculos, verde como nem mesmo um daltônico seria capaz de ver, sobre a vida de uma semente e não a morte de uma árvore, sobre anjos de vidro que descem dos céus e me jogam água no rosto e não sobre serpentes de dez cabeças das profundezas do inferno, sobre um vulcão ativo que cospe açúcar caramelado, sobre ouvir uma música do início ao fim e não falar nada, nem mesmo obrigado, durante um dia inteiro e o dia seguinte, com a pessoa certa ao lado – e na minha história haveria a pessoa certa –, sobre uma menina que me abana de dentro de um ônibus e quando eu me viro ela abaixa a cabeça e depois levanta e ri e dá tchau com a língua de fora e o dedo na ponta do nariz, sobre uma corrida de três amigos adultos numa calçada para ver quem chega mais rápido, onde?, não importa, sobre paixões uma vez correspondidas e duas vezes esquecidas, sobre inícios de partida, feridas cicatrizadas com a baba da pessoa amada, que não queira nada, qualquer amada, seja boa, má ou dada, sobre respirar fundo pela primeira vez e não sentir o peito doer de tão oco – tão fundo que nunca mais se volta a ser triste outra vez –, e agradecer pelo ar não ser ainda tão pouco, sobre montes que formam lembranças que formam as nuvens do esquecimento e se juntam às montanhas do pensamento de um minuto que se passou, sobre um nenê que junta pedras do chão sem saber o que é uma pedra e que tudo começa e termina num chão de pedra, sobre o charme das casas de alvenaria (por fora), sobre bonecos de papel e não sobre homens de papel, sobre esfregar os pés no frio ou sobre virar o travesseiro suado do outro lado no verão, sobre certezas duvidosas pelo senso e não sobre dúvidas certificadas pelo censo, sobre um velho jogando ioiô numa cadeira de rodas, dois velhos em duas cadeiras de rodas, com seus netinhos atrás empurrando os dois numa corrida de aposta, sobre o último espreguiço da morsa, as bocas abertas da inocência, o primeiro imprevisto que acaba num grande sorriso displicente, sobre o último copo d’água, o último dente, uma escada de gengivas desdentadas sem vampiros aos seus pés esperando por sangue quente, sobre o silêncio complacente das marés, sobre a última gota de sangue que se pode beber – pois o sangue é doce! –, sobre mim e sobre você como se não fosse tão longe, mesmo que fosse ontem.

Tenho perdido tempo demais pensando na morte que a vida perdeu no fim da sua última curva derrapada, sobre a força arrasadora que foi deixada para trás com as obrigações de ser qualquer coisa transitória e ao mesmo tempo parada, sobre o fim do trovejar das cornetas, sobre a limpeza dos instrumentos debaixo da chuva torrencial da tristeza. Mas um dia, tenho certeza, vou escrever uma história pura, limpa, sem vírgulas nem pontos de exclamação, sem chutes no estômago nem pedidos de perdão, sem perdedores em ruelas úmidas atrás de um pão, sem cuspes na cara, nenhum palavrão. Vai ser uma história alegre e verdadeira. Quem sabe a história sobre o último dia do último homem na face escura dessa caverna que chamamos de planeta. Quem sabe a história sobre o meu.





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3 comentários:

Mary disse...

E estaremos aqui lendo sobre tudo isso, também. Bjs.
Mary

Eduardo Loureiro Jr. disse...

E essa história será tão bela e leve, Léo, como é crônica-projeto de escrevê-la. :)

Marisa Nascimento disse...

Leonardo, independente do tema, o escritor é que deixa tudo mágico e você faz isso com maestria!