Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Outubro, 2019

MAMÃE >>> Nádia Coldebella

Minha primeira lembrança é a de mamãe sentada em frente ao grande espelho. Ela o herdara da bisavó e ele chegara pesado, antigo, moldado em fina prata, convocado a refletir sem piedade ou julgamentos tudo o que via. Não havendo em nosso pequeno apartamento cômodo que o comportasse, fora destinado a permanecer na sala de jantar, para a alegria de mamãe e para o estranhamento de nossas visitas pouco costumeiras. 

Em dias chuvosos ela o evitava. O cobria com um grande lençol e eu, sentada em uma cadeira da mesa de jantar, ficava imaginando se, sob aquela grande mortalha branca, estariam escondidos os gênios, fadas, elfos e toda sorte de seres mágicos que ouvia na histórias contadas por papai. Quando o lençol era retirado, iam-se com ele as doces lembranças deixadas por meu pai e eu era tomada pela concreta certeza de que, à minha frente, encontrava-se um monumental colosso, destinado a exaltar as belezas de Narciso, minha mãe.

Ela era linda. As vezes, quando eu era criança, levantava da mi…

INSIGNIFICÂNCIAS INDOMÁVEIS >> Carla Dias >>

Eu tenho medo de lagartixa e de atravessar rua quando o sinal está vermelho, ainda que não haja carros por perto. Meu medo é um algo estupendo, com suas pequenas armadilhas. Faz com que eu tema a alegria, enquanto me preencho de coragem ao lidar com desesperos indeléveis.
Eu tenho medo de errar a palavra, de sair a outra, a mais torta, a menos a ver com o que eu, de fato, gostaria de dizer. E ainda tem o tom... sou desprovida de talento, quando dele depende o tudo do momento. Aquela coisa de a voz sair rascante, de se entregar à possibilidade de se aventurar no impossível, envergonhando-se dessa ousadia no segundo seguinte.
Envergonhamento feroz é este.
Tenho medo de me embrenhar em lamentos infindáveis, sem me dar conta do feito, para então me perceber, a certa altura de mim, uma incapaz de voltar ao início do silêncio. Uma repetição desmedida de ninharias de vida. Isso me tornaria das pessoas mais tristes deste planeta, das que tricotam tristezas e as presenteia - disfarçadas de am…

SERÁ??!! >> Clara Braga

Era uma vez um músico/compositor que, como muitos outros (provavelmente todos), sonhava em ter seu trabalho reconhecido e poder viver da sua própria música.
Trabalhou duro e um belo dia, nos encontros que a música lhe proporcionava, conheceu uma pessoa e se apaixonou perdidamente. Ficou ainda mais inspirado, compôs várias músicas dedicadas ao seu novo amor e teve ainda mais motivação para acreditar que seu trabalho ganharia o reconhecimento merecido.
Dito e feito, o tal músico ficou mais famoso do que ele mesmo imaginava ser possível, suas músicas estavam na boca do povo, embalando novos casais, tocando na entrada da noiva e sendo até tema de novela. Não tinha um que não desse um suspiro com suas músicas apaixonadas.
Porém, um belo dia, o tal músico notou que as coisas já não eram mais como antes, que seu relacionamento trazia mais tristezas do que alegrias e que continuar era um erro. O casal decidiu se separar, e a decepção foi tão grande que cantar as músicas que fez para aquela p…

apenas uma questão de rotina - parte II >>> branco

ato IV
para os que não voltaram
ele saiu de casa antes do alvorecer levando consigo sua alegria e esperanças o resultado do jogo de domingo e outras coisas que não podia entender tão longe da felicidade - e sem saber - tão próximo do descanso encontrou-se com outros - como ele - que saíram de seus lares - ao encontro do destino -  antes do alvorecer
qual o pecado cometido para viver dessa forma - com seu uniforme azul botas e capacete de segurança -  construindo casas - lares ? -  para outras pessoas diferentes dele aquelas que sentam-se nos tronos da prepotência
rostos cobertos de pó e cimento  esculturas de concreto cada um se sabe sozinho apesar de terem o mesmo sonho e do resultado do jogo de domingo
sonham no voltar e nas palavras que serão ditas - o entendimento será perfeito - que suas mulheres terão rostos felizes - e não o de guerreiras sofridas cansadas - e do sorriso dos filhos também felizes - e não famintos doentes  escusos - e que esta chama esperançosa transforme-se em r…

VENDE-SE (VENDIDO) >> Fred Fogaça

Qual é a da adversidade? 
Se descomprimi na necessidade de uma solução para que, só daí, sagaz, reafirmar-se na busca: de qualquer coisa. A cobra, com fome, come seu próprio rabo. 
Temos de assumir que a tranquilidade não traz consolo, não traz certeza – se você for inocente, não deve continuar a leitura. O pior é perene. 
Eu ter de vendê-lo era o meu morde assopra. 
Eu tê-lo vendido é meu pecado maior. 
Agora, o que? Se a mão pesada da burocracia me impedir o caminho, e irromper nos processos – kafkeanos, infinitos – e me atrasar o trato? Se o depósito de boa fé estiver ausente em fé envelope adentro? Se o tratante esvair, o que sobra? 
A praça conhece meu nome. 
Mas desconto seja dado, eu escrevo ainda de mãos à cruz, no calor desgraça; a hora exímia do paradoxo: me livrara, mas e agora?

NÉLIDA, GRAVETINHO, BICHOS >> Sergio Geia

Não vou escrever sobre elas, as maritacas, pelo menos hoje, mas quase todas as manhãs elas voam aqui perto; devem morar nas árvores da Santa Teresinha. Cantam alto, forte. Andam em grupo, mas sempre de duas em duas. Serão casais? E cantando, numa felicidade de causar inveja. Não vou escrever, mas achei que valia a pena pelo menos uma menção, uma fotografia; quem sabe, um dia, uma crônica inteira, um álbum. 
Leio até com os ouvidos. Embora esse seja o slogan da 451 MHz, minha leitura usou Ilustríssima Conversa, o podcast da Folha, numa entrevista pra lá de saborosa que Nélida Piñon concedeu ao jornalista Marco Rodrigo Almeida. Aliás, atenção: podcast é o que há, gente! Se você, como eu, pega estrada todos os dias, além de ouvir música, uma boa pedida é ouvir podcasts. Tem muita coisa boa. Indicação? Ilustríssima Conversa, 451 MHz, Papo H, com a lindíssima e simpática Bárbara Duarte e o editor do site Canal Masculino Ricardo Terrazo Jr. 
Nélida lançou “Uma furtiva lágrima”, que condens…

(DES)ILUSÃO >> Paulo Meireles Barguil

Elas estão aí.

Mas é uma promessa vã, pois, em breve, cairão.

Nada há que eu possa fazer.

A Natureza tem suas regras, a despeito de eu não conhecê-las.

As babaninhas nascidas no umbigo, que é a flor da fruteira, não se desenvolvem. 

E mais: elas roubam a seiva que poderia desenvolver as suas irmãs mais velhas.

O adequado nessa situação é arrancar essa parte da bananeira, também conhecida como coração. Não precisa jogar fora, pois é possível preparar algum quitute com ele.

Ilusão é não compreender o caráter transitório da existência, nem identificar o seu aspecto eterno.
O que precisamos extirpar ou manter para crescer?
Cultivar e celebrar a vida, em meio a tantos sons e imagens sedutores, são desafios cada vez maiores.
Ah, Maya, esses seus véus... [Eusébio – Ceará] [Foto de minha autoria. 06 de outubro de 2019]

AGORA A NOITE >> Whisner Fraga

A menina enxota o cansaço com as costas das mãos.

Um choro ronda o rosto inacessível.

Pesadelo.

A madrugada se contorce pelo sono frustrado.

A menina pergunta.

A menina rasteja debaixo do lençol e sequestra um travesseiro.

Pergunta um devaneio.

Já se irrita enquanto puxa o cobertor.

Aproveito para sondar a calmaria das coisas.

O cão se queixa de uma sirene. Algo estala.

A menina se levanta novamente, aparece, enxuga o sobressalto dos olhos.

A menina descalça saboreia o desconcerto dos pés.

Uns fantasmas, ela se espanta. Uns espíritos.

Há fantasmas por toda a vida, repito.

Colho o suspiro, um resto de braços cruzados e pronto.

Devolvo a menina à cama.

Agora é comigo e com a noite.

SUJEITOS >> Carla Dias >>

Fosse acostumado ao mundo, colhendo histórias jogadas ao vento. Mesmo se fosse dos que se aprazem a ver tempo passar, com a paciência de quem entende silêncios. Será que se sentiria assim? Tão acuado diante do universo. Solfejando saudade do desconhecido, demorando o olhar no perder de vista.
Fosse capaz de praticar a vida, sem aprisioná-la em tantos segredos, o que seria das suas máscaras? Quantos atos teria a sua existência? Como seguiria com seus inéditos desejos?
“Quem sou?” é pergunta que a resposta insiste em ignorar. Há quem floreie seus dramas com muitas versões de quem é, apenas para ocupar o silêncio que se segue, após tal questionamento. Ele não sabe viver de versões, ainda que seu eu, na necessidade de sobreviver aos infortúnios e confusões, disfarce-se recorrentemente, a fim de sobreviver aos delírios do destino.
É sujeito simples, com emprego honesto, carteira assinada, aluguel em dia. Não lhe falta comida, tampouco diversão. Gosta das gargalhadas que, mesmo diante de t…

UM PEDIDO SINCERO >> Clara Braga

Caros organizadores do festival Rock in Rio,

sei que o Rock in Rio provavelmente é o maior festival de música do Brasil. Justamente por isso, é impossível negar a competência da equipe de vocês. Dito isso, gostaria de pedir licença para a minha pretenção de tentar colaborar com uma crítica construtiva.
Sou uma grande admiradora do Rock in Rio. Em todas as edições me pego acompanhando até os shows de artistas que nem gosto, mas que assisto pela ligação que sinto ter com o festival em si.
O Rock in Rio foi o primeiro grande festival de música que eu fui quando ainda nem tinha idade suficiente para ir sozinha a um lugar desses. O ano era 2001 e eu tinha meus 12 anos quando meus pais me disseram para escolher entre a primeira e a segunda semana do festival. Escolhi a segunda, embora isso me fizesse abrir mão de assistir Foo Fighters, show que sonho em poder assistir até hoje! Mas assisti tantos outros que ficarão na memória para sempre, como: Silverchair, Guns, Red Hot, Iron Maiden e out…

O MARTELO DO BEM - Quarta parte >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 23/09/2019)
Não porque tivesse pecado muito, pelo contrário, foi coisa de adolescente, mas deixou marcas profundas. E fez com que ela se aprofundasse no assunto. Como já não pecava, especializou-se no pecado alheio.
MARIA DA PENHA
Para a mãe, os tios e os vizinhos, Zé Maria era egoísta, bruto e controlador, que transformava num inferno a vida de todos e principalmente a da filha. Mas para Penha não era bem assim. Ela via um pai dedicado e protetor, disposto a ficar descalço e usar roupa velha para que não lhe faltasse nada.
A menina achava que ele estava sempre certo, não ousava discordar e muito menos discutir. Aceitava como inevitável que a acompanhasse até a escola e sabia que estaria lá na hora da saída. Nem à igreja ela podia ir sozinha. Desprezado por todos, ele se refugiava no amor da filha.
Quando ela completou catorze anos, apareceu por lá, em férias na casa dos avós, um moleque ruivo e cheio de espinhas, vindo das profundezas dos infernos cariocas, que se eng…

HISTÓRIA DE QUALQUER MULHER > > Sandra Modesto

Quantos sentimentos sucumbidos? Por que elas olham o mundo e o mesmo não as entende? Não é de novo. No repente...
— Meu nome é Maria. Assim como as Marias esquecidas depois do olho roxo e da costela quebrada.
— Meu nome é Ana. O que eu faço dona? Perdi-me nessa história. 
A gente se perde.

Todos os dias tentando gritar o que está entalado na garganta. 
Ninguém ouve ninguém. 
Quem lê só se espanta. 

Uma narradora prossegue rasgando o tempo: 
“Havia numa cidade de porte (de armas?)”. "Não, calma". 
"De porte médio. Dois lados do poder. Duas mulheres aflitas trocando olhares". 

Um diálogo dá a largada... 
 — Falando sozinha ou pensando alto?
— Aflita. E quando aflita eu falo comigo. 
— Eu também. Fala aí... 
A mulher sentada no banco da praça onde ao fundo há uma igreja resume que está grávida. 
— Eu também. Logo agora que vou estudar em Harvard. Meu Deus! 
— Então. Logo agora que eu ia tentar começar meu curso superior pelo sistema de cotas... 
Nas duas, uma certeza…

TRAZ A PESSOA AMADA << Cristiana Moura

Depois de alguns minutos quebrei o silêncio.
— Vou trocar você pela Sarah. Instantes de mais silêncio. — Já viu os cartazes pelos postes?
— Traz a pessoa amada!
— Isso!
E do lado de trás do divã, onde não o vejo, ele riu. Venho deixando no divã linhas e entrelinhas da vida. E as desventuras do amor. Talvez por permitir que a ilusão se faça em véus sobre a minha face. Talvez por amar secretamente, sem confessar ao outro meus sentimentos. Ou por tantas outras nuances que nem sei.
Mas neste dia, levantei-me do divã pensando na Sarah, na Estrela Guia, mãe Jurema, pai Arnaldo. Pensando em buscar algo, fora de mim mesma, capaz de trazer a tal pessoa amada. Não contei isto para o Walmy, psicanalistas não costumam ser afeitos `as buscas místicas.
Saí da terapia disposta a marcar uma consulta no primeiro sinal fechado onde eu encontrasse um desses cartazes. Só então, dei-me conta que tenho medo da Sarah e de seus colegas de profissão. E se me mandar fazer algum ritual macabro? A pessoa amada que não…

O ELETRICISTA – 2ª e última parte >> Zoraya Cesar

Clique para ler a íntegra da Parte 1 – Quando o primo saiu da prisão, começou o inferno de Seu Paulinho, promovido, principalmente, por sua mãe, D. Mercedes. 
Como essa é uma história com início, meio e fim, retomemos. Ou melhor, recomecemos. 
(RE)INÍCIO  Pois a morte do pai e a vinda do primo abriram um novo capítulo na vida de Seu Paulinho. Um novo capítulo que não começou muito bem. 
Mas, enfim, o famoso primo. D. Mercedes e a irmã deram início a uma campanha acirrada para que Seu Paulinho o empregasse. Dia e noite, madrugada adentro, até, as duas cascavéis atravessavam o terreno que separava as casas (ele fizera questão de se mudar quando o pai morreu), pra entoar sua cantilena choraminhosa e interminável (e-xa-ta-men-te como D. Mercedes fazia para enlouquecer o falecido marido). 
“É seu primo, um bom rapaz, só se meteu com os amigos errados, não custa nada ajudar”. E a tia “meu filho precisa de uma chance, tão meigo, tão sensível, foram os invejosos que estragaram a vida dele, você nã…

LEVEI ÁGUAS DENTRO DE MIM >> Nádia Coldebella

Quando eu era criança me chamavam de Nina. Eu elaborei muitas teorias que solucionaram a questão “Estamos sozinhos?”, mas logo as esqueci, pois minha cabeça de criança não retinha tanta complexidade. Porém, me recordo de que a resposta sempre era “Não, não estamos”. Eu nasci em Águas, no ano de 1965. Até hoje é uma cidade muito pequena, sem grandes prédios ou poluição, com noites de céus tão estrelados que muitas vezes tentei pegar com a mão. Então, eu esperava a noite chegar e, quando todos dormiam, subia no telhado da minha casa e ficava deitada lá em cima, observando as estrelas, esperando a prova incontestável e cabal para minhas elucubrações.
Com o passar dos anos, foi ficando cada vez mais difícil e mais ridículo enganar meus pais para subir no telhado esperar por alienígenas, até porque não era adequado que moças de família - especialmente da minha, que era tradicionalíssima - tivessem esse tipo de comportamento. Auxiliada pelos gritos e castigos de meus pais, eu tentava contr…

A ÚLTIMA CASA >> Carla Dias >>

Construiu muitas coisas, mas as que mais apreciou construir foram casas.
Ele adorava imaginar quem moraria nelas, as histórias que se desenrolariam pelos seus corredores, as palavras que ecoariam pelos seus cômodos. Foram centenas de casas, em uma variedade de bairros. Apreciava a diversidade que beneficiava a arquitetura do acolhimento.
Casas sempre foram lares de histórias para ele.
Lembra-se da primeira, em um bairro classe média, nascida do zero. Era chão que o proprietário herdara de uma tia. Perguntou o nome dela ao herdeiro, porque gosta de dar nome aos benfeitores e aos sádicos. Ele disse que era tia mesmo, porque o nome civil serviu apenas para resolver a burocracia que lhe enredava o afeto.
“Minha tia era de enfeitar os cabelos das crianças com flores e de contar histórias fantásticas, às vezes de fazer sonhar, em outras, inspiradoras de pesadelos. Não sabia ser unicamente leve. Atirava-se à devassidão do espanto, aos arrepios construídos pelo suspense. Adorava o choro prov…

DAS COISAS QUE EU NÃO SEI >> Clara Braga

Sempre quis saber o que os âncoras dos jornais conversam ao final do jornal, naquele momento em que aquelas letrinhas já estão subindo mas eles ainda aparecem no enquadramento conversando e rindo horrores com o microfone já cortado, sabe?
E quando a bancada não é de vidro e eles não têm que ficar em pé para dar nenhuma notícia, será que ficam arrumadinhos ou só mesmo uma boa bermuda com o chinelo?

E naquele The Voice, quando os jurados viram a cadeira para um participante que foi eliminado na edição anterior e eles dizem que lembram do cara, será que lembram mesmo ou já foram previamente avisados de tudo?
E sabe aquela banda que atrasa mais de uma hora pra entrar no palco? Pois é, está bebendo no camarim e rindo da cara de quem chegou cedo ou realmente são motivos de força maior, tipo: pegaram muito trânsito para chegarem ao local do show?
E logo depois do show, para onde eles vão? Saem para badalar ou só aguentam mesmo dormir?
E os fãs, como descobrem o horário do voo, o hotel onde v…