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Mostrando postagens de Outubro, 2019

CADA UM COM SEU UMBIGO>>Nádia Coldebella

Ela entrou aos gritos, pisando forte, num misto de revolta e tristeza. 
- Não quero mais ter umbigo, Mário. 
O marido, que se arrumava para o futebol, a olhou inerte, com as meias na mão. 
- Quêêêê???? 
A frase seguinte saiu num gemido lamuriento. 
- Não quero mais fazer parte dessa merda toda. 
Ele sentou na cama. 
- Mas Marina… 
Agora ela estava furiosa. 
- Olha a sua volta, Mário! O que te faz humano? 
Ele pareceu confuso: 
- Eu? Humano? 
Foi fuzilado pelo olhar da esposa. Encolheu-se. 
- Sim, querida. Claro, querida. Sou humano. Claro que sou humano… quero dizer, que pergunta é essa? 
- É o umbigo, Mário! É o umbigo. 
Ela tremia e ele começou a ficar preocupado. Nunca a vira assim. 
- Marina, você se sente bem? 
Lágrimas rolaram, volumosas, pela sua face e ela o afastou. 
- Me deixa Mário! O pior cego é aquele que não quer ver… 
Ele a puxou pelo braço, confuso e condescendente. 
- Marininha, calma…. senta aqui do meu lado e me explica tudo. 
Limpando as lágrimas, ela sentou-se ao lado do esposo, se d…

SEGUNDA CHANCE >> Carla Dias >>

Às seis e meia, levanta-se da cama, de um salto, para não correr o risco de cair no sono novamente. Vem sendo sondada por um cansaço que desconhecia ser possível sentir, então prefere não criar oportunidade para ceder a ele. Às oito, já está no seu box, observando a fila que se estende por quarteirões. As pessoas chegam muito cedo, disputando um lugar que permita que entrem e saiam da fila no mesmo dia. Infelizmente, oitenta por cento delas ficam para amanhã, para depois de amanhã e por aí vai.
Ainda assim, elas esperam.
Decorou o texto já no primeiro dia de treinamento. É simples, tem certo ritmo, o que a ajudou muito, porque pensa em uma música preferida e a memória é ativada. Então, o monólogo se solta dela, aveludado, como reza o contrato de trabalho, porém firme o suficiente para não deixar margem para o cliente questionar o que é dito.
Nada de mudar o definido de lugar.
Não gosta do uniforme da firma, mas nunca contou isso nem mesmo para as amigas mais chegadas. É que elas, ass…

MISTÉRIOS DA LIGAÇÃO QUE NUNCA FOI FEITA >> Clara Braga

Lá estava ele, acompanhado de sua esposa, quando seu celular começou a tocar. O identificador de chamadas mostrou que ele conhecia bem o número, por isso atendeu sem hesitar.
Do outro lado da linha só ouvia o silêncio, tentava contato e nada. Depois de um tempo achou melhor desligar e retornar a ligação, pois alguma falha estava acontecendo. Quando retornou, a pessoa atendeu com surpresa. Ele questionou se a pessoa havia ligado para ele, e a pessoa prontamente respondeu que não.
Bom, de nada adiantaria continuar aquela ligação, ele afirmando que a pessoa ligou enquanto ela afirmava que não havia ligado. Desligou e, assim que desligou, sua esposa demonstrou insatisfação: se não era ela, é bom descobrir quem é que está te ligando, né!?
Enquanto isso, do outro lado, a pessoa que supostamente havia ligado decidiu conferir suas ligações recentes e, para sua surpresa, ela havia mesmo feito a ligação. Provavelmente o celular ficou destravado, esbarrou em algo e ligou sem querer.
A pessoa ex…

para os que não voltaram - parte III >>> branco

ato V
o bêbado precoce
15h29 o bêbado precoce está sentado na grama da praça olha para o prédio que está sendo construído enquanto divide seu naco de pão com um vira-lata está bêbado desde as primeiras horas da mesma maneira como estava na noite anterior
seus olhos enevoados observam o trabalho dos homens na obra - o cantar dos pedreiros o sobe e desce do elevador de carga as latas os sacos de cimento e o pó -  imagina que vai ter que conseguir novo financiador para o seu sustento - e vício -  que Deus guarde o bom homem - ele pensa -  enquanto lembra do velho senhor de olhos azuis - e camisa azul clara -  que todas as manhãs o abastecia de pão leite e café e com um sorriso maroto dava-lhe a moeda para o primeiro trago nunca mais a grande casa azul nunca mais aquela camisa azul clara nunca mais aqueles olhos azuis os tempos mudaram novamente os tempos sempre mudarão
seus pensamentos confusos o conduzem ao passado - outro lugar - era também uma cidade do interior o futuro prometia risos …

A CADEIRA >> Fred Fogaça

Uma cadeira descansa no canto admirando o vazio do quarto.  Às vezes eleva o olhar pela janela e tenta ver lá fora, depois do muro, camuflada na cor da parede pra passar despercebida de ser trocada pela ausência. Suas pernas largas encostadas em livros não se deixam desfalecer. Se apoia nos fechados, segura os abertos e vai derramando as palavras devagar na corrente de vento. No armário, as lembranças empilhadas em ordem cronológica se misturam com as roupas e restos de ser. Como as portas estão sempre fechadas, suas cores escorrem furtivamente pelas frestas, saem de soslaio pelo vidro aberto e levam um pouco do colorido das paredes também. O tempo, talvez, fuja sem volta. Paulatino em sua paciência, cerra a porta com o cuidado de não ser notado, põe-se na cadeira e se entrega. A lua disfarçada com as lâmpadas dos postes observa discreta o vão entre dias, esconde segredos libidinosos no desabitado das ruas e reflete o desatino nas páginas brancas. Dar de ombros: quem sabe o que há lá fora…

WALLACE >> Sergio Geia

Depois de golfadas de chuva que vestiram o sábado com uma capa cinza de melancolia quase londrina, eis que rompe a manhã o sol, um garoto na melhor fase da vida — a juventude. Sem titubeios e aflições por não agradar, com o ímpeto do valente, pronto para encarar qualquer embaraço. E como se dissesse aos amantes primaveris: hoje, não. Hoje faço verão! 
Wallace então me surge à frente. Quando vejo, esqueço-me da beleza da manhã; percebo-me nele, meditando. 
Será Wallace um jovem que de repente desfilou seu frescor de homem forte e sarado perante uns olhos sedentos de amor? Ou quem sabe Wallace já roubou para si um lugar no coração desses mesmos olhos? 
Isso era, de fato, comum. 
Em velhos tempos, a paixão era desenhada na areia, ou em vidros embaçados ou sujos, a giz no asfalto ou na lousa verde do colégio. Às vezes, no recanto privado da casa, no espelhinho depois de banho enfumaçado; mas este, diga-se, era logo apagado, para que em casa ninguém soubesse. 
Às vezes a paixão era anunci…

QUAL RETA É A SUA VIDA? >> Paulo Meireles Barguil

Conforme a Geometria, as retas, que são linhas sem curvas, podem ser de 3 tipos.

O segmento de reta tem começo e fim, motivo pelo qual pode ser medido, diferentemente dos demais.

A semirreta é infinda: tem começo, mas não tem fim.

A reta, também, é infinita: não tem começo, não tem fim.

Seja no plano ou no espaço, se a sua vida fosse uma reta, qual delas seria?

PIANO >> Whisner Fraga

a menina se cala na beirada.

escora os dedos num rumor de cuidados.

depois um acorde se entranha nas sombras.

a menina acompanha as mãos e se assusta com os movimentos ressoando a música.

a menina para, vasculha as teclas.

uma formiga pisoteia o infinito e não encontra o ninho.

a menina percebe.

a menina reconhece o incalculável e prova um mal-estar.

contempla uma serenidade quase comovente.

a janela é um infinito em um quadro.

o que busca?

a menina apaga a luz e se deita.

GRITO >> Carla Dias >>

Existimos neste lugar que tememos quebrar, porque ele pode se romper e nos lançar ao imenso vazio. Antes, as pessoas temiam o diabo, arqui-inimigo de Deus, o herói. Agora, as pessoas temem o vazio, não apenas no sentido figurado. Se o mundo se rasgar, passaremos a vida a cair. Tememos a queda livre, o chegar nunca, a possibilidade de darmos o último suspiro, quando já acostumados a um caimento sem fim. 
Tememos que a flacidez da nossa própria pele se torne a única forma de nos aproximarmos do contabilizar o tempo. Um filósofo contemporâneo proferiu que seria o mesmo que morrer duas vezes. Perguntado sobre como pode saber disso, já que nunca morreu - com direito a voltar para contar como foi -, ele sorriu, declarando que nos preocupamos mais do que deveríamos com a morte que é fim. Para ele, o interesse está na morte parcelada, impregnada nas nossas histórias, embaralhadas à nossa rotina.
Não imagine um ambiente estéril. Não vivemos em um planeta imaginado por encantados por placas de…

HISTÓRIA DA ARTE INFANTIL >> Clara Braga

Criar um filho é uma arte! Com certeza você, tenha filho ou não, já ouviu essa frase antes.
E devo afirmar, quem criou esse dizer não estava nada errado. Criar um filho é uma arte literal, que pode, inclusive, ser dividida didaticamente em movimentos artísticos.
Logo que o filho nasce você abraça forte Salvador Dalí e entra de cabeça em um período surreal! Seus hormônios não permitem que você seja racional, você ignora o materialismo do mundo lá fora e se torna uma pessoa introspectiva que, apesar de lidar diariamente com elementos muito reais, se permite mesclar tudo isso com seus sonhos e acaba tendo resultados bem fora de contexto! Principalmente quando junto dos sonhos você inclui os medos e inseguranças! As novidades apresentadas a cada novo dia te fazem agir muitas vezes por impulso e a inexperiência te obriga a seguir seus instintos. E se você acha estranho que toda essa bagunça possa ser inspiradora, não só não conheceu as obras surreais como nunca reparou o quão empreendedor…

O MARTELO DO BEM - Quinta parte >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 07/10/2019)
Mas a gota d’água veio quando ela confirmou um escândalo que antes considerava fofoca. Viu Padre Antônio agarrado numa sirigaita, que também não saía da Igreja e trazia tanto lanche que ele já estava barrigudo. Isso já era demais.
Penha abandonou aquele sacerdote de Belzebu e foi pro Rio de Janeiro.
Ficou na casa da Tia Rute, religiosa de conduta exemplar e discurso inflamado que já a encantava antes, quando ainda era fiel a Padre Antônio. Passou lá um mês indo à igreja três vezes por dia. Fez jejum, subiu no monte, teve revelações e sonhos. Fez promessas e assumiu compromissos.
Voltou à cidadezinha disposta a resgatar as almas que chafurdavam no pecado sob o olhar complacente daquele padre que, agora sabia, estava a serviço do mal. Com improviso e fé, no galpão onde antes Zé Maria guardava suas ferramentas de hortelão, fundou a Nova Cruzada - uma franquia humilde da catedral de vidro fumê e aço escovado que ela conheceu na Capital.
A matriz forneceu impre…

CAMINHOS >> Sandra Modesto

Ela tem a boca bonita 
A cintura delgada 
Os olhos cor de mel. 
Brilho na alma. 
Enche a bolsa de valores... 
Livros, óculos, batons, celular e gosta de ouvir alguns sons. 
Aquela rotina sempre encantadora. 
Desce por uma rua deserta caminhando e olha atrás pra os lados e não tem ninguém. 
Resolve correr com o que resta daquela manhã... 


A visão turva o coração acelerado. 
Vai! Cai!
O moço da oficina de bicicletas a socorre. 
Tudo escuro. Bebe água respira e responde que está tudo bem 
Agradece e continua andando. Muitos caminhos. Muitos sinais e tanta dúvida. 



O médico disse que convulsão cerebral é... 
Não interessa. 
Nunca mais soube do cara que tinha o conserto de bicicletas. E ele foi tão gentil. 
Depois de seis meses subiu andando e descendo aqueles rumos... 
Na oficina de bicicletas, nada. Porta fechada. Nenhum rumor. 



Quando se lembra do passado. 
Quer o presente. Ou de repente um futuro. 
Silêncios. 
Até porque anda sonhando umas imagens estranhas. 
Mas deixa pra lá. 
A mort…

INVENTANDO O AMOR >> Cristiana Moura

Era tanto o encantamento entre palavras e sorrisos — desilusão entre a palavra escondida e a lágrima endurecida. Naquela noite, voltei para casa com escala planejada na padaria. Dirigia e só pensava naquelas tortinhas de morango. Ao avistar a vitrine e não vê-las meus olhos se encheram d'água. Aproximei-me. Estavam lá. Expirei aliviada. Há tempos, não procurava no açúcar cura para as dores impalpáveis. Pensei num banho de mar mas já era  noite. Precisava de algo que me aquietasse os sentidos e a melancolia oriunda da desilusão. Coisa de quem se entregara, desvelando-se em incontinência de palavras e sorrisos para um outro que era quase de verdade.
Fui chegando em casa pensando em me deitar no sofá e inventar um amor para Joaquina enquanto comia os docinhos. Ao menos para Joaquina serei capaz de dar um amor — pensei. Ah, ainda não lhes apresentei Joaquina. Nossa! Ela mal nascera e já a amo. Joaquina é minha personagem. Para ela estou a escrever dez contos. Ela me encanta. Leva uma…

AMOR E REDENÇÃO >> Zoraya Cesar

O dito popular ‘pobre, mas limpinho’ seria até injusto, se aplicado ao apartamento. Era, perdoem o superlativo - limpíssimo. E de uma simplicidade espartana.
Na sala, uma mesa, duas cadeiras, um sofá - cujo estofado dava vergonha - onde mal cabiam duas pessoas, e uma televisão de tubo. Banheiro e cozinha só continham o absolutamente essencial. Em lugar algum do apartamento se viam enfeites ou adereços; nada de toalha na mesa, quadros nas paredes – descoloridas num soturno tom de branco sujo – ou flores em qualquer canto. Tudo seco como um osso descarnado.
Ali vivia um casal.  Vamos nos concentrar na mulher, afinal, ela é a protagonista dessa história. 
Pequena, não gorda, mas rechonchuda – ficava muito bem no uniforme de enfermeira, que mal tirava, por conta dos inúmeros plantões. Devia ter 40 anos, um pouco mais, um pouco menos, impossível dizer pelo rosto, onde as rugas apenas se pressentiam. Seus cabelos louros e cacheados eram curtos, naquele corte prático do tipo ‘lavou, tá pronto’.…

MAMÃE >>> Nádia Coldebella

Minha primeira lembrança é a de mamãe sentada em frente ao grande espelho. Ela o herdara da bisavó e ele chegara pesado, antigo, moldado em fina prata, convocado a refletir sem piedade ou julgamentos tudo o que via. Não havendo em nosso pequeno apartamento cômodo que o comportasse, fora destinado a permanecer na sala de jantar, para a alegria de mamãe e para o estranhamento de nossas visitas pouco costumeiras. 
Em dias chuvosos ela o evitava. O cobria com um grande lençol e eu, sentada em uma cadeira da mesa de jantar, ficava imaginando se, sob aquela grande mortalha branca, estariam escondidos os gênios, fadas, elfos e toda sorte de seres mágicos que ouvia na histórias contadas por papai. Quando o lençol era retirado, iam-se com ele as doces lembranças deixadas por meu pai e eu era tomada pela concreta certeza de que, à minha frente, encontrava-se um monumental colosso, destinado a exaltar as belezas de Narciso, minha mãe. 
Ela era linda. As vezes, quando eu era criança, levantava d…

INSIGNIFICÂNCIAS INDOMÁVEIS >> Carla Dias >>

Eu tenho medo de lagartixa e de atravessar rua quando o sinal está vermelho, ainda que não haja carros por perto. Meu medo é um algo estupendo, com suas pequenas armadilhas. Faz com que eu tema a alegria, enquanto me preencho de coragem ao lidar com desesperos indeléveis.
Eu tenho medo de errar a palavra, de sair a outra, a mais torta, a menos a ver com o que eu, de fato, gostaria de dizer. E ainda tem o tom... sou desprovida de talento, quando dele depende o tudo do momento. Aquela coisa de a voz sair rascante, de se entregar à possibilidade de se aventurar no impossível, envergonhando-se dessa ousadia no segundo seguinte.
Envergonhamento feroz é este.
Tenho medo de me embrenhar em lamentos infindáveis, sem me dar conta do feito, para então me perceber, a certa altura de mim, uma incapaz de voltar ao início do silêncio. Uma repetição desmedida de ninharias de vida. Isso me tornaria das pessoas mais tristes deste planeta, das que tricotam tristezas e as presenteia - disfarçadas de am…