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INSIGNIFICÂNCIAS INDOMÁVEIS >> Carla Dias >>


Eu tenho medo de lagartixa e de atravessar rua quando o sinal está vermelho, ainda que não haja carros por perto. Meu medo é um algo estupendo, com suas pequenas armadilhas. Faz com que eu tema a alegria, enquanto me preencho de coragem ao lidar com desesperos indeléveis.

Eu tenho medo de errar a palavra, de sair a outra, a mais torta, a menos a ver com o que eu, de fato, gostaria de dizer. E ainda tem o tom... sou desprovida de talento, quando dele depende o tudo do momento. Aquela coisa de a voz sair rascante, de se entregar à possibilidade de se aventurar no impossível, envergonhando-se dessa ousadia no segundo seguinte.

Envergonhamento feroz é este.

Tenho medo de me embrenhar em lamentos infindáveis, sem me dar conta do feito, para então me perceber, a certa altura de mim, uma incapaz de voltar ao início do silêncio. Uma repetição desmedida de ninharias de vida. Isso me tornaria das pessoas mais tristes deste planeta, das que tricotam tristezas e as presenteia - disfarçadas de amparo - a todos a sua volta. 

Melhor evitar.

Tenho medo reverberante de nunca chegar. Não a um lugar, a um destino. Falo sobre chegar ao ser invadida pelo pertencimento. Zerar a ansiedade desconcertante de não ter sido escolhida pela sensação plena de estar onde, tornar-se quem. 

Há quem diga que meus medos são banalidades travestidas de tragédias. Há os que não suportam meus dramas, de tão ridículos os tantos lhes parecem. Contudo, tenho certa dificuldade em compreender a irrelevância de se sentir deslocada no tempo e no espaço, desprovida de identidade, além daquela criada para atender à necessidade de tocar a vida, sem direito a toque que não seja o de recolher-se na própria impotência de provocar o movimento.

Estagnar-se em conluio com um adiantamento robusto de arrependimentos. 

Meus dramas, essas insignificâncias indomáveis, embebidas em esperança desmilinguida de, dia desses, a vida me oferecer e entregar o oferecido. 

Que susto será! 
Que prazer de curar azedumes!
Que loucura eficaz!

Reviravoltas constantes me deixam com desejo aguçado de parar à porta da insanidade, para observar obsoletos santos sendo pessoas em busca de pessoas para conversar sobre seus desvios de conduta, ao se proclamarem heróis, enquanto comentem suas covardias e benevolências. 

Falar mal, fazer bem, desacreditar para então identificar o que vale a pena. 

Amar... odiar... amar odiar. Odiar a mando do tempo perdido com o vazio.

Mas que o ser humano é de uma incoerência que encanta, enquanto aflige.

Tenho medo de lâminas. Há certa perversidade do medo ao se estabelecer entre nós e os objetos inanimados. É o jeito dele de exigir que observemos a nós mesmos com uma distância quase nenhuma. A dança vem da coreografia do ser humano, da sua habilidade em manipulá-los, os tais objetos, envolvendo a diligência do corpo ou a extravagância da mente.

Ou ambos. 

A mente tem seus truques, e como ótima equilibrista de absurdos que é, acontece de ela projetar na nossa história uma proteção que acaba por se mostrar precipício. Então, há vezes em que ela se desapega de nós, inventando uma realidade alternativa na qual nos enveredarmos, feito o filme que assisti, sobre a mente de um homem mudando todo o enredo do ocorrido, a fim de protegê-lo do impossível que ele acabara de cometer.

Sim, ela também comete benevolência, improváveis realizações, descobertas necessárias. 
Sim, ela tem seu lado sórdido.

A mente me mete medo. Ainda assim, é ela que mais me fascina. Não a minha, que dela eu nunca vou saber ao certo. A tal vai seguir os seus delírios e, talvez, eu nem me dê conta da existência deles ou venha a saber quais provocações eles lideraram. 

A do outro...

A mente que para mim é mistério, que me provoca a curiosidade sobre o que não sou ou penso. Sobre as versões do que conheço. Basta um espaço que a mente injeta na certeza para se construir aquela pausa onde moram frágeis pontes que conectam improváveis, porém compatíveis buscas.

Tenho medo de viver busca que é tempo perdido disfarçado de exuberante conquista. É ali, no limiar das suas agonias, que eu me esparramo. Meu corpo vibra buscas e medos e perdas e fantasias. 

Minha mente diz que não tenho saída.
Permaneço.

Meu sentimento diz que minha mente mente.
Fujo.

Meu medo, ah, meu medo... 
Ele me coloca cara a cara com a vida.
Vivo.

Imagem: Transferencia © Leonora Carrington

carladias.com

Comentários

Sandra Modesto disse…
A crônica que eu precisava ler nesta quarta - feira. E todos os dias. Porque de medos somos feitos. Arrasou, Carla. Narrativa cheia de esquinas. Amei!
Carla Dias disse…
Obrigada, Sandra. E não me canso de agradecer pela leitura e também pelo mergulho, porque é neles que se escondem os desfechos.