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AGORA A NOITE >> Whisner Fraga

A menina enxota o cansaço com as costas das mãos.

Um choro ronda o rosto inacessível.

Pesadelo.

A madrugada se contorce pelo sono frustrado.

A menina pergunta.

A menina rasteja debaixo do lençol e sequestra um travesseiro.

Pergunta um devaneio.

Já se irrita enquanto puxa o cobertor.

Aproveito para sondar a calmaria das coisas.

O cão se queixa de uma sirene. Algo estala.

A menina se levanta novamente, aparece, enxuga o sobressalto dos olhos.

A menina descalça saboreia o desconcerto dos pés.

Uns fantasmas, ela se espanta. Uns espíritos.

Há fantasmas por toda a vida, repito.

Colho o suspiro, um resto de braços cruzados e pronto.

Devolvo a menina à cama.

Agora é comigo e com a noite.

Comentários

Cristiana Moura disse…
Delicadezas e intensidades da noite!!! Amei!
Zoraya Cesar disse…
A menina descalça saboreia o desconcerto dos pés.
Há fantasmas por toda a vida, repito.

O que dizer frente a isso? Qualquer coisa que eu diga ficará pequena. Lindo.
Nadia Coldebella disse…
Oi, Whisner!
Parece que vc está contando a historinha da minha filha mais nova. É desse jeitinho mesmo.
O seu texto, eu diria que é... como seria a palavra mesmo? Sabe quando a gente toca levemente a pétala de uma rosa para sentir a textura? Porque se a gente tocar mais forte, o nosso sentido se embota; e se a gente tocar muito muito levemente, o sentido não alcança? Você fez bem isso! Texto lindo!
Albir disse…
Continuo seguindo a menina musa, cada gesto, cada suspiro, cada olhar.