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A ÚLTIMA CASA >> Carla Dias >>


Construiu muitas coisas, mas as que mais apreciou construir foram casas.

Ele adorava imaginar quem moraria nelas, as histórias que se desenrolariam pelos seus corredores, as palavras que ecoariam pelos seus cômodos. Foram centenas de casas, em uma variedade de bairros. Apreciava a diversidade que beneficiava a arquitetura do acolhimento.

Casas sempre foram lares de histórias para ele.

Lembra-se da primeira, em um bairro classe média, nascida do zero. Era chão que o proprietário herdara de uma tia. Perguntou o nome dela ao herdeiro, porque gosta de dar nome aos benfeitores e aos sádicos. Ele disse que era tia mesmo, porque o nome civil serviu apenas para resolver a burocracia que lhe enredava o afeto.

“Minha tia era de enfeitar os cabelos das crianças com flores e de contar histórias fantásticas, às vezes de fazer sonhar, em outras, inspiradoras de pesadelos. Não sabia ser unicamente leve. Atirava-se à devassidão do espanto, aos arrepios construídos pelo suspense. Adorava o choro provocado pelos deleites do amor e também pela invasão que é o medo. Eu gostava disso nela, dessa incapacidade de escolher um sentimento para ser único, de se mostrar multifacetada.”   

Foram muitas as histórias garimpadas durante as conversas com proprietários das casas que construiu. Nem todas eram leves e repletas de afeto feito a do herdeiro.  Uma delas veio da demolição de outra. Foi uma tristeza imensa para ele ceifar aquela combinação de cores que se apossava de um vasto jardim. O proprietário adquiriu a propriedade em um jogo de cartas. A casa era da família de um bem-sucedido chef de cozinha local, que vivia a perder dinheiro com as cartas. Até que ele perdeu o único bem que ainda lhe restava, a casa que construíra com muito trabalho e durante um longo tempo. Teve de se mudar da cidade, porque lhe corroia a tristeza de ver sua casa ser transformada em escritórios.

Houve história de lhe arrepiar, feito o terreno onde, enquanto cuidava da fundação da casa, encontrou uma dezena de corpos enterrados. Daqueles corpos ele nunca soube a história. Ninguém descobriu, porque foram desovados há tanto tempo, que não encontraram quem pudesse reconhecê-los. Eram criaturas enterradas não apenas em um terreno que foi mantido baldio por décadas, mas também nas suas próprias histórias. A casa construída seria para um jovem casal com desejo de formar uma grande família. Contudo, não conseguiram criar raízes onde histórias foram perdidas. Acabaram por encerrar a obra e vender o terreno, onde foi erguido um pomposo shopping center, onde pessoas desfilam, armadas com seus desejos capazes de serem saciados por vitrines e cartões de crédito, ignorantes a  respeito dos moradores que chegaram antes àquele lugar, que àquela terra foram misturados.

Sempre preferiu as casas e, por sorte, foi possível escolher se dedicar a elas. Gostava da ideia de criar um espaço no qual um solitário pudesse ruminar as nuances da sua solidão; onde crianças corressem por largos corredores e os amantes se encontrassem para matar saudade. Porém, não conseguiu recusar o convite para construir um teatro. Pequeno, modesto, coisa de artista independente, mas um teatro. Tomou-lhe a ideia de pessoas se encontrando ali para desfrutar de um tempo de contemplação das mazelas e das belezas que um ser humano carrega.

O teatro era uma casa muito parecida com aquela onde passou sua infância. A sala era o palco, a cozinha abrigava os bancos que, mesmo de madeira, eram confortáveis e davam charme ao lugar. Os quartos: camarins. O quintal era a antessala, o hall, o ponto de encontro dos interessados naquela catarse.

Algo ali ele não encontrara nas casas que amou construir, enquanto imaginava as histórias que a frequentariam. Ali, ele sabia que o imaginário deslocaria a realidade, nem que por algumas horas. A ficção seria muito mais importante do que o fato, o que significava que, eventualmente, ela teria de se render às duras voltas que a realidade costumava desferir à biografia das pessoas.

Desde a sua criação, tornou-se frequentador daquela casa. Tornou-se parte da história dela. Aprendeu a sagacidade daqueles inquietos seres que interpretavam histórias alheias, enquanto aperfeiçoavam ou mesmo destruíam as próprias.

Por isso, sente-se agradecido pela oportunidade de construir essa última casa. Não importa que haja espectadores, aqueles que tentam interferir em uma trama que já está amarrada. Não há mais pontos de virada para a história dele. 

Desliza a mão pelas paredes de sua casa. Pronta, um cômodo que irá acolher a ele e às histórias que ele foi capaz de imaginar, conhecer e viver.

Alguém suspira demorado.

Alguém disfarça um soluço.

Alguém repercute um palavrão. 

Ele sempre soube da fragilidade da existência, da sua brevidade. Enxerga casas como um abrigo para a efemeridade da vida das pessoas que por ela passam. Casas feito templo de humanidade escancarada e de máscaras tantas. 

Gozos e agonias.

Deita-se em sua casa. Alguém se espanta e sai da sala. Alguém diz que ele é um idiota sem tamanho. Alguém diz que o ama. Alguém diz que sentirá sua falta. Ele pede para alguém colocar a tampa na sua casa, a última, porque precisa saber se ela não esmagará seu nariz. Todos gargalham. Todos sentirão saudade dele e isso o conforta, como se também ele fizesse parte da história dos moradores daquele lugar que o acolheu, ele próprio um ser em construção, feito cada casa que colocou no mundo.

Imagem © Nikolai Astrup

carladias.com

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Que soturno, Carla! E, como sempre, excepcional!
Cristiana Moura disse…
Este texto deveria ser obrigatório a tod@s aqueles que dedicam-se a construir casas para pessoas. para que as casas sejam feiras para os corpos e não os corpos tenham que se adaptar aos espaços. Para que a invenç˜åo do cotidiano íntimo seja tão sensível quanto a tua palavra.
Albir disse…
Quanta humanidade!