Pular para o conteúdo principal

SEGUNDA CHANCE >> Carla Dias >>


Às seis e meia, levanta-se da cama, de um salto, para não correr o risco de cair no sono novamente. Vem sendo sondada por um cansaço que desconhecia ser possível sentir, então prefere não criar oportunidade para ceder a ele. Às oito, já está no seu box, observando a fila que se estende por quarteirões. As pessoas chegam muito cedo, disputando um lugar que permita que entrem e saiam da fila no mesmo dia. Infelizmente, oitenta por cento delas ficam para amanhã, para depois de amanhã e por aí vai.

Ainda assim, elas esperam.

Decorou o texto já no primeiro dia de treinamento. É simples, tem certo ritmo, o que a ajudou muito, porque pensa em uma música preferida e a memória é ativada. Então, o monólogo se solta dela, aveludado, como reza o contrato de trabalho, porém firme o suficiente para não deixar margem para o cliente questionar o que é dito.

Nada de mudar o definido de lugar.

Não gosta do uniforme da firma, mas nunca contou isso nem mesmo para as amigas mais chegadas. É que elas, assim como boa parte das pessoas que conhece, acreditam que o trabalho desempenhado naqueles boxes é dos mais importantes. Não quer desmerecer a opinião delas, nem mesmo criar conflito, principalmente no que se refere ao “uniforme de firma mais descolado do planeta”.

Como se o planeta se importasse com ele.

Seu trabalho consiste em fazer perguntas e gravar as respostas em um maquinário de última geração, que praticamente pensa por si mesmo e usa as informações coletadas para definir se o cliente merece ou não uma segunda chance.

No primeiro dia de trabalho, antes que saísse de casa, a mãe a orientou a não permitir que nada, nem mesmo a própria, atrapalhasse a oportunidade de ela ser efetivada na firma. “Salário robusto, filha, dos que tiram famílias do buraco”. Tiram mesmo, que a dela conseguiu alcançar o status de sobrevivente. Há quase dois anos, ninguém do seu círculo familiar reclama da barriga vazia, do eco da fome.

Naquele dia, o primeiro como funcionária da firma, prendeu uma flor nos cabelos. Sabia que o trabalho era árduo, mas estava preparada para o que fosse, contanto que alcançasse o status de sobrevivente. Armou-se com um sorriso, dos que convencem que alegria pode ser acessada por todos. Então, foi lidar com seu primeiro cliente.

Nos primeiros minutos, comportou-se exemplarmente. A gerente, que a acompanhava de perto, estava satisfeita com o desempenho da nova funcionária e logo a deixou por conta. 

Era apenas fazer perguntas. Sorrir e fazer perguntas. Manter a tranquilidade no olhar e fazer perguntas. Cinco questões que levariam o maquinário a dizer se aquela pessoa estava apta ou não a receber uma segunda chance. Era um atendimento como o de outros tantos departamentos da firma.

Segundas chances andam raras nos dias de hoje. Os pais dela costumam comentar sobre as poucas que tiveram, como se elas fossem protagonistas de filmes de sucesso. 

Segundas chances andam raras, mas tão raras, que há comércio para cuidar das poucas que se apresentam. As atendentes se destacam em seus panos finos, cabelos delineados. A flor que colocou nos cabelos, no primeiro dia de trabalho, foi parar no lixo. Não há cor que ganhe espaço entre aqueles boxes de pessoas sorridentes dando péssimas notícias.

Quando pequena, conheceu uma atendente de segundas chances. Era uma prima que morava em outra cidade, apenas alguns anos mais velha que ela. Ela falava sobre o trabalho com tanto apreço, que a outra se encheu de desejo de chegar ali, naquele lugar onde as decisões tomadas eram importantes para a vida das pessoas. Foi a prima quem negou a segunda chance ao irmão dela. O maquinário mostrou que o rapaz não tinha condições de arcar com uma nova oportunidade para lidar com a vida e seus entraves. Assim, ele foi reduzido ao status de impróprio. Assim, ele foi levado da família para algum lugar onde deveria passar seu tempo a existir, até acabar. 

Sim, existir sem realizar, sem dar vazão às emoções, sem se proclamar capaz de se esbaldar em vida. Até acabar.

Existir em tarefas cotidianas, engrenagens para a criação de segundas chances para aqueles capazes de aproveitá-las a contento.

As decisões que toma são importantes para as pessoas que ela atende. Todos os dias, pula da cama às seis e meia e às oito já está sentada à sua mesa, no box 745, ainda que se sinta cansada como nunca se sentira antes. Ela sorri, enquanto dentro dela a tristeza trança os fios da saudade que sente do irmão com o medo de que a família precise de segundas chances e aos seus as tais sejam negadas.

Há uma fila que nunca termina, que dá voltas pelos quarteirões. As pessoas vivem para tentar segundas chances. Algumas nem mesmo percebem que não precisam delas e arriscam serem descartadas, como se valessem nada. 

Ela é famosa no seu setor. Consegue administrar segundas chances como ninguém. Dizem que há algo de sobrenatural ali, porque ela atrai os melhores, os mais capazes, raramente alguém que passa pelo box dela não é digno de uma segunda chance. A gerente do departamento dela anda preocupada, porque as segundas chances andam cada vez mais raras. Ela sabe que a atendente mexe seus pauzinhos, ensinando aos clientes como responder às perguntas que os ajudarão a receber a segunda chance. Acha ousado isso de ela ensinar pessoas a driblar tecnologia. Ela sabe que a atendente age fora da lei, mas prefere arriscar a história do sobrenatural, porque tem planos para quando as segundas chances não forem mais tão importantes. Pretende transformar as reuniões transgressoras que a funcionária faz com os clientes, antes de atendê-los, em eventos rentáveis. A tola atendente, toda cheia de orgulho por ajudar pessoas, não sabe no que se transformará a sua benfeitoria.

O irmão virou descarte. Não há um dia em que ela não pense sobre o que foi feito dele. Um dos companheiros de lida disse que ele virou tapete para alguma sala de estar de quem merece segunda chance. A brincadeira sem graça ecoou dolorida dentro dela.

Um dia, ela pediu para uma colega de trabalho que aplicasse nela o método da firma. A outra não queria, mas acabou cedendo, diante da graça que ela colocou no pedido, do jeito em que tornou o desafio um deboche. O maquinário negou a ela a segunda chance. A colega de trabalho gargalhou e disse, a voz esganiçada: que ironia, sua fornecedora de segundas chances, incapaz de se apropriar de uma que seja!

Naquele dia, ela aprendeu um pouco mais sobre o maquinário. No dia seguinte, ofereceu mais segundas chances do que já oferecera, até então. Tudo dentro da lei, diante dos olhos dos supervisores. 

A gerente sabe que ela vem tramando algo, mas prefere esperar e lucrar com o que virá, porque segundas chances vão acabar e não vai demorar muito. É preciso ter com o que ganhar a vida.

Ela não gosta do uniforme da firma. Amarra os cabelos em coque, o que a deixa com a feição austera. Não há flores nos boxes, tampouco em seus cabelos. A prima, hoje sua gerente, diz que é porque ela não sabe se comportar dentro de tecidos tão macios, de qualidade superior ao da maioria. 

Ela sorri para as pessoas, porque acha que seu sorriso pode ajudá-las a se acalmarem, antes de responderem às perguntas ao maquinário. Não sente vontade de sorrir, mas aprendeu a esboçar o sorriso sincero que leva muitos a se sentirem mais seguros. Prometeu a si mesma que evitaria cada descarte possível, em nome do irmão, de quem conhecia a capacidade de construir uma vida decente, feliz. Merecedor de todas as segundas chances.

Tem consciência de que a gerente sabe sobre o que anda fazendo e que tem seus planos para ela. Não importa. Levanta-se às seis e meia e às oito já está pronta para o trabalho. Sabe que chegará o dia em que a segunda chance lhe será negada e ela se tornará descarte. Não importa. Até lá, respeitará as segundas chances das quais seus pais vivem a lembrar, de quando elas dependiam exclusivamente do desejo de quem as buscava. Dessem certo ou não, elas existiam sem taxas ou racionamento. 

De quando as segundas chances eram dos livres para buscá-las.

Seis e meia. Oito. Flores, não.

carladias.com




Comentários

Sandra Modesto disse…
Carlinha, (Porque minha filha chama Carla e pra mim é sempre Carlinha). Poxa, sua crônica é um retrato da vida. Do passado ao presente. E a forma com o que você consegue escrever sobre segundas chances, é de uma força narrativa fascinante. Parabéns!
branco disse…
preciso de todas as chances para tentar conseguir "tirar tudo" o que é sentimento dentro das camadas de sentimentos que desfila em seu narrar.
Cristiana Moura disse…
Meusdusdocéu, Carla! Que texto gigante!!!
Carla Dias disse…
Sandra... Olhe só, sua filha e eu somos xarás. :) Carlinha está ótimo!
Obrigada pela leitura. Segundas chances são tão importantes, que não fazemos ideia de como seria se não as tivéssemos. Acho que estou nesse momento de rever o que tenho por certo.

Branco, esse tem sido o bem e o mal da minha escrita. As camadas que encantam e as que geram confusão. Só posso dizer que não sei ser, tampouco escrever diferente.

Cris! Ficou loooongo, né? Mas é meu desejo de que as segundas chances se revigorem na nossa capacidade de oferecê-las e fazermos uso delas.
Albir disse…
Tanto mais doloroso quanto preciso e inafastável o seu diagnóstico. Poderia ser uma distopia, mas é um retrato deste tempo. Brilhante como sempre!
Zoraya Cesar disse…
Carla Dias, PONTEQUEPARTIU. Esse é daqueles especialíssimos. Desculpe. Nem sei como te dizer o quanto esse texto está primoroso, dolorido, profundo. Parece um episófio de Black Mirror. Melhor q a maioria deles, aliás. P#tA escritora, você.
Nadia Coldebella disse…
Adorei! Tem uma ar de ficção cientifica, sim, como a Zo disse, mas tem um lado profundamente humano, de todas aquelas coisas que nos fazem gente.
Adorei a sacada de ela usar o poder que tem para que historias de sem segunda chance não se repetissem, mas o que eu mais gostei de todo o coração foi a ideia de que muitos de nós se colocam na prisão (no caso a fila e a aprovação da máquina) quando podem ser livres.
Sei lá se já não estamos chegando perto desse controle, do jeito que as coisas andam. Mas é como sua personagem pensa, enquanto as segundas chances não acabam a gente vive a chance que tem!
Grande Bjo!