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Mostrando postagens de Maio, 2018

ANTECIPANDO TUDO >> Clara Braga

Sempre tive dificuldade para escolher algo para ganhar de presente. Sempre que me perguntam: o que você quer de aniversário? Ou então: do que você está precisando? Minha cabeça buga e eu não consigo pensar em nada.Talvez seja por isso que eu não esqueço um aniversário há anos que, mesmo antes de me perguntarem, eu já tinha escolhido meu presente.
Não vou lembrar o ano, mas lembro que duas semanas antes do meu aniversário os Hanson iriam lançar um vídeo clipe na MTV. Lógico que eu anotei a data, mas assistir à estreia não era suficiente, eu tinha que gravar e ter aquele momento registrado para a posteridade. Também não recordo se foram meus pais ou minha avó que perguntou primeiro, mas pela primeira vez na vida, na hora que disseram: Clara, já vai pensando o que você vai querer de aniversário porque você sempre demora para definir, eu não pensei duas vezes, respondi na mesma hora: quero um vídeo K7 para poder gravar clipes, e se não for pedir muito, também gostaria de ganhar adiantado…

VIDA >> Paulo Meireles Barguil

"– Tudo passa, tudo passará E nossa estória não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz
Teremos coisas bonitas pra contar E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás - Apenas começamos
O mundo começa agora -
Apenas começamos." (Renato Russo, Metal contra as nuvens)
Às vezes, deslumbrante e sublime. Outras vezes, devastadora e saqueadora. Costuma chegar e sair sem anunciar. Sua duração é incerta, embora sempre tenha prazo de validade. Misteriosa, para uns. Insensível, para outros. E, de repente, pode ser misteriosa para outros e insensível para uns. Ao longo de bilhões de anos, a despeito de oferendas e investigações, ela segue incólume a sua jornada. Seu DNA permanece indecifrável: apenas alguns pequenos trechos foram interpretados. O desconhecido é muito maior do que se acredita saber! Vestida de transitória, ela disfarça a sua permanência. Temos pistas do que podemos fazer para, por instantes, conservá-la ou dizimá-la. Extraordinário aprendizado é a…

SEGUNDA>>Analu Faria

Manhã de segunda-feira, céu azul, frio. Brasília no inverno é a vida como me gusta. Nesses dias, as árvores do caminho de casa até o trabalho estão mais vivas e mais imóveis. Lembro-me do poema de um amigo: "As árvores por mim passam". Se a gente olhar direitinho, elas passam mesmo por nós, que nos movemos sem vê-las.  
Também me vem à mente a música de George Harrison, rejeitada num álbum dos Beatles:
Sunset doesn't last all evening A mind can blow those clouds away After all this my love is up And must be leaving*
Olho a borra do café na xícara. A amiga que lia o futuro nesses traços hoje mora na Suíça, acho que nunca conseguiu prever que seus sonhos se realizariam assim tão depressa. Trabalha numa organização internacional, a vida como le gusta. Sinto saudades da amizade, penso que seria bom tê-la por perto para juntas lermos um futuro divertido naqueles restos de bebida. Temos o afã de captar em nós o movimento das árvores, como se a imobilidade delas, nesta e em ou…

ATRAVESSE... >> Carla Dias >>

Noite passada, voltando para casa, esperando o semáforo mudar de cor e me permitir atravessar.

Avistei aquele homem no meio da avenida. Desligada que sou - porque enquanto caminho até em casa, minha mente toma conta de mim e relembro, reinvento, crio e desejo o que não me cabe desejar - e acostumada ao furor das buzinas, de quando as pessoas estão ansiosas para voltar aos seus lares, bares ou arredores, não percebi antes que havia confusão ali.

Sinal verde, atravessei a primeira pista. Na segunda, as pessoas se aproximavam do homem e ele as afastava com um gesto brusco. Na calçada, muitas pessoas observavam e comentavam sobre o que entendi ao alcançar o outro lado e o sinal abrir para os carros.

O homem estava na metade do seu trajeto. Caminhava na faixa de pedestres. Um problema físico o condicionava a dar passos muito miúdos. Mas muito miúdos mesmo. Ele atravancou a passagem dos carros, colocando-se ali, diante do furor de atrapalhar o ritmo, o horário, a pressa do outro.

As buzina…

O JOGADOR - 2a PARTE >> Zoraya Cesar

O Jogador - 1a parte: Lucio era um jogador inveterado. Mas medíocre. Vivia endividado. E, como todo viciado,  não media esforços para atingir seus objetivos. Mesmo que isso implicasse fazer tratos escusos. 
Lucio nunca fora tão feliz. Conseguira a vida que pedira a Deus, mas que lhe foi dada pelo Diabo. E queria mais.
Solícito, como sempre, o Sr. Pedro Botelho fez-lhe uma proposta:
- Hoje você vai para um cassino clandestino de alto nível. Eu banco suas apostas. Crédito ilimitado. Só peço uma garantia.– E buscou algo no bolso.
Talvez influenciado pelos filmes de TV, Lucio esperou, sinceramente, ser obrigado a assinar um contrato com sangue. O homem, no entanto, pegou o celular.  
- Enviei o contrato para o seu whatsapp. Basta confirmar que aceita os termos do acordo. Veja bem, amigo, as regras me obrigam a esclarecer: este é um contrato de adesão. Não cabem ressalvas nem apelações. 
Como esperado, Lucio mal leu os termos. Que lhe importava uma barganha, com o Diabo que fosse, desde que real…

CENA DE CINEMA >> Carla Dias >>

O olhar se bandeou para a cena acontecendo no outro lado da rua. Ele logo pensou em como seria levá-la para as telas de cinema. Qual seria o tom que usaria? Como descreveria o que seu olhar alcançava assim, na rotina? Qual seria a história imaginada para ela?

Decidiu que seria filme em preto e branco, com roteiro muito bem trabalhado e poucos efeitos. As cenas seriam cuidadosamente conectadas por transições sutis. Os atores seriam dirigidos de jeito em que a linguagem corporal diria mais do que um longo diálogo.

Não que ele não preze pelas palavras. Na verdade, construiria diálogos longos, talvez mais longos do que muitos costumam apreciar. Mas a eles dedicaria pausas muito bem colocadas, pontuadas por uma coreografia de gestos que lhe dessem respaldo.

Gestos. Os movimentos. Afinal, é uma cena de cinema e o olhar precisa mergulhar nela. E a sonoplastia: os pés se arrastando pela calçada, a água descendo quente e suja pela garganta, ainda assim, matando sede. Carros, burburinho, o cho…

PERGUNTAS DE SALA DE AULA >> Clara Braga

Aluno definitivamente é um bicho estranho. Nem eles sabem explicar o que se passa pela cabeça deles enquanto você está dando sua aula. E é justamente desse inexplicável limbo que surgem as melhores perguntas sem nexo.
Outro dia estávamos em sala discutindo sobre um documentário que havíamos assistido que falava sobre a importância dos africanos para a cultura brasileira. Então um aluno perguntou: professora, sabia que faltar trabalho as vezes faz bem? É bom para refrescar a mente! Hoje só temos a sua aula, os outros professores faltaram, você bem que podia faltar também não é?
Não sei dizer se ele aprendeu algo sobre a cultura afro-brasileira, mas com certeza não gosta muito das minhas aulas.
Já um outro, durante uma atividade prática cujo comando era criar um alfabeto inspirado no alfabeto egípcio, perguntou: professora, você acompanha futebol? – Não! – E seu marido, acompanha? – Sim! – Professora, qual o time dele? – Menino, você não acha que está perguntando coisa demais não? Você…

QUASE... >> Paulo Meireles Barguil

Temos uma vida repleta de quases. Eles se referem a situações do passado ou do presente, as quais são, a depender da perspectiva do narrador, agradáveis ou desagradáveis. As ocorrências de outrora, embora não possam ser objetivamente modificadas, são passíveis de mudança subjetiva no que se refere à interpretação. Um quase choroso, portanto, pode se transformar num quase risonho. A recíproca, como você sabe, é igualmente verdadeira. Os acontecimentos da hora também são suscetíveis dessas alterações. Um relacionamento que quase terminou ou que quase não se findava: "– Se eu (não) tivesse feito ou dito aquilo...". Um livro que está quase pronto: "– Falta só um capítulo...". Uma viagem – de avião, metrô, ônibus, táxi, trem... – que quase (não) aconteceu: "– Foi por um triz!". Uma amizade que está quase se iniciando: "– Será que eu confio?". Uma aprovação no concurso que quase ocorria: "– Se eu estivesse estudado aquele assunto!". Um sonh…

TALVEZ VOCÊ QUEIRA SABER >> Carla Dias >>

Água escura de rio dá medo, mas também atiça curiosidade. Há dias em que as horas têm preguiça de passar. Verdade é que ninguém diz a verdade na amplitude da sua verdade. Há sempre uma palavra engasgada, devidamente domesticada, ansiosa para soar no mundo.

Ofensor se ofende quando suas ofensas são ignoradas. Morte é coisa que faz a vida gritar dentro dos que ficam. Às vezes, partimos de quem não queremos. Partimos para onde não queremos. Partimos.

Abraço revigora o espírito. Labirintos treinam nossos sentidos. Ocorre de abismos se revelarem ótimas ferramentas de catarse. Banho quente, depois de banho de chuva, é relaxamento do qual todos deveriam provar.

Observar vista, das que se perde de vista, refresca urgências. Ninguém deseja abandono, dor de dente, coração partido. Cuidar de si é tarefa árdua, até para os indiferentes. Cuidar do outro é escolha que merece ser acolhida.

Violência sorri com seus grandes dentes de quem sabe que tem poder. Sangue esparramado na calçada comprova que…

COPO VAZIO >> Sergio Geia

Na cozinha ainda pálida do lilás da manhã, sobre uma pia molhada, ladeando uma xícara com água, jaz um copo de uísque da noite anterior, sujo, vazio. Respiro fundo, escapa um sorriso. Saio de casa contente levando comigo “O crime do Padre Amaro”, presente para a Chiara. Outro dia falei dele pra ela, incentivei a leitura, falei dos banhos de mar como medida de tempo, até brincamos em Ubatuba contando nossos banhos de mar; disse que o de casa tinha letras miúdas, uma sacanagem, que iria comprar um que fosse mais decente. Comprei. Dou de presente. Ela adora. “O crime do Padre Amaro”... Me inspirou, escrevi “Confidências”. Houve outro na mesma linha, “O Seminarista”, de Bernardo Guimarães, leituras que me deram fôlego para pensar no arcabouço de história de Antonio e Liane. Mas havia um copo vazio sobre a pia molhada da cozinha, era o que eu dizia, e você vai entender o que aconteceu. Aliás, você deve pensar: mas o que pode vir de um copo vazio? Como deve ter pensado também: que título mais…

O JOGADOR - 1a PARTE >> Zoraya Cesar

A regra n°1 do bom jogador é ser um bom jogador. E só apostar o que pode se dar ao luxo de perder. O bom jogador é tudo, menos um viciado.
Lucio não era bom jogador. Tinha alguma técnica, alguma astúcia e muita disposição em ganhar dinheiro fácil. Sua maior ambição era enricar jogando cartas. O baralho a desembaralhar sua vida de pequenos expedientes e muitos débitos. Uma ilusão, claro, dada a mediocridade de seu jogo e a pouca disponibilidade financeira de seus parceiros de mesa. Perdia? Jogava para compensar. Ganhava? Jogava para aproveitar a “maré de sorte”. Talvez fosse viciado, não sei. Sei que a tal “maré de sorte” sumira há muito tempo de sua vida. 
As dívidas se acumulavam, as mesas de jogo começavam a fechar-lhe as portas, os credores o perseguiam.  O desespero e a abstinência do carteado estavam-no levando à loucura. Nem mesmo os amigos de fé, irmãos, camaradas queriam jogar com ele. As apostas podiam ser modestas, mas jogo é jogo. Sentou, tem de mostrar as fichas. Perdeu, tem…

GATO DE SCHRODINGER, CÃO DE PAVLOV

O "experimento hipotético" do gato de Schrodinger, consistente em colocar um gato em uma caixa com um medidor de atividade radioativa e um frasco de veneno, visa a ilustrar o comportamento quase imprevisível de certas partículas subatômicas e, também, a questionar a influência do observador no resultado observado.  Pensada pelo austríaco Erwin Schrodinger, nos anos 30 do século passado, o gato estaria morto se um dos átomos de uma substância radioativa decaísse e acionasse o medidor mencionado, que por sua vez acionaria uma martelo, que, ainda, quebraria o frasco de veneno, matando o gato. Se, porém, a substância se mantivesse "inerte", o gato não morreria. Acontece que não se sabe ao certo se esse decaimento aconteceria ou não. Em tese, portanto, o gato da caixa poderia estar vivo e morto ao mesmo tempo. Acontece também que um observador não conseguiria captar, em um instante determinado, um gato morto-vivo. Ao abrir a caixa, quem observasse o conteúdo só consegu…

FICA PARA A PRÓXIMA >> Carla Dias >>

Sentei-me de frente ao computador, tomada pela certeza de que escreveria uma crônica das rebeldes. É que tem tanto acontecendo que nos fere, cidadãos do mundo e autores dos nossos universos particulares, que eu estava certa de que a voz que ecoaria seria a que pede por justiça. Não falo sobre a justiça que se tornou fantoche nas mãos de alguns. É sobre a de fato. A que ampara aqueles que realmente necessitam da sua intervenção.

Basta um desvio, uma bobagem de nada e muda-se o rumo. Não raro isso acontece comigo, mas realmente acreditava, até há pouco, que esta seria uma crônica sobre defender interesses coletivos, despindo-se dessa egoísta jornada do “eu importo mais do que o outro”.

Apenas me desviei, depois de uma palavra qualquer, que alguém, que não me lembro quem, disse. Na verdade, nem mesmo da palavra eu me lembro. Só que ela me chegou assim, meio cantada. Recordo-me de ter me sentido tentada a sorrir. Havia uma lembrança ali, que tinha nada a ver com o momento. Ela veio com es…

BIPOLARIDADE CRÔNICA >> Clara Braga

O fato do dia das mães estar chegando me deixou um pouco reflexiva, já que esse vai ser meu primeiro dia das mães com meu filhote no colo. E nesses dias eu, que não sou muito fã de frases clichês mas uso todas as que conheço, me peguei pensando no clichê máximo da maternidade: ser mãe é padecer no paraíso. Não é possível que alguém tenha definido que maternidade é padecer, embora seja uma verdade, como todo bom clichê, achei injusto dizer que é apenas padecer. Maternidade é muito mais que isso.
Ser mãe é se perguntar como em pleno século 21 as músicas principais dos brinquedos infantis ainda são dona aranha e brilha brilha estrelinha, mas mesmo assim cantar mil vezes ao dia pra ver seu filho sorrir.
É desejar que ele durma pelo menos 30 minutinhos para você dar uma adiantada nas suas coisas, mas 15 minutos depois que ele dormiu se perguntar se ele não vai acordar logo, pois bate uma saudade.
É sonhar constantemente com o dia que ele vai dormir a noite toda para você descansar um pouc…