terça-feira, 29 de maio de 2018

ANTECIPANDO TUDO >> Clara Braga

Sempre tive dificuldade para escolher algo para ganhar de presente. Sempre que me perguntam: o que você quer de aniversário? Ou então: do que você está precisando? Minha cabeça buga e eu não consigo pensar em nada.Talvez seja por isso que eu não esqueço um aniversário há anos que, mesmo antes de me perguntarem, eu já tinha escolhido meu presente.

Não vou lembrar o ano, mas lembro que duas semanas antes do meu aniversário os Hanson iriam lançar um vídeo clipe na MTV. Lógico que eu anotei a data, mas assistir à estreia não era suficiente, eu tinha que gravar e ter aquele momento registrado para a posteridade. Também não recordo se foram meus pais ou minha avó que perguntou primeiro, mas pela primeira vez na vida, na hora que disseram: Clara, já vai pensando o que você vai querer de aniversário porque você sempre demora para definir, eu não pensei duas vezes, respondi na mesma hora: quero um vídeo K7 para poder gravar clipes, e se não for pedir muito, também gostaria de ganhar adiantado porque o clipe dos Hanson estreia duas semanas antes do meu aniversário.

Ninguém acreditou que eu já tinha a resposta assim na ponta da língua, mas como também é difícil agradar, alguém foi logo comentando: caramba, duas semanas antes? Isso que é adiantamento hein... Fiquei meio sem graça, mas o que importava era que eu teria como gravar o clipe.

Passados essas anos, esses dias, por motivos um tanto inúteis, acabei relembrando sozinha essa história e desejando que ela acontecesse agora e não há anos, pois agora eu teria a resposta na ponta da língua. Segundo alguns sites de fofoca, a primeira aparição da atriz Megan Markle após seu casamento com o Príncipe Harry foi poucos dias após o casório na comemoração do aniversário do sogrão. E como essa notícia nada importante fez eu lembrar da minha história? Ah, por causa de um simples detalhe: o aniversário do Príncipe Charles é só em novembro, eu disse NOVEMBRO, mas como é um mês muito frio, anteciparam para maio para poderem fazer uma comemoração ao ar livre.

Esse era o momento que eu gostaria de ouvir a tal frase reclamando que eu estava adiantando muito meu aniversário pedindo presente com duas semanas de antecedência, responderia na mesma hora sem nem pensar: coisas da realeza, vocês não entenderiam!





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sexta-feira, 25 de maio de 2018

VIDA >> Paulo Meireles Barguil

  
"– Tudo passa, tudo passará
 
E nossa estória não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz
Teremos coisas bonitas pra contar
 
E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás -
Apenas começamos

O mundo começa agora -
Apenas começamos."
(Renato Russo, Metal contra as nuvens)

Às vezes, deslumbrante e sublime.
 
Outras vezes, devastadora e saqueadora.
 
Costuma chegar e sair sem anunciar.
 
Sua duração é incerta, embora sempre tenha prazo de validade.
 
Misteriosa, para uns.
 
Insensível, para outros.
 
E, de repente, pode ser misteriosa para outros e insensível para uns.
 
Ao longo de bilhões de anos, a despeito de oferendas e investigações, ela segue incólume a sua jornada.
 
Seu DNA permanece indecifrável: apenas alguns pequenos trechos foram interpretados.
 
O desconhecido é muito maior do que se acredita saber!
 
Vestida de transitória, ela disfarça a sua permanência.
 
Temos pistas do que podemos fazer para, por instantes, conservá-la ou dizimá-la.
 
Extraordinário aprendizado é aceitar, sem reclamar e com gratidão, o que ela, sem interrupção, nos oferece e retira.
 
Feliz é quem, sereno, sopra para a vida: "– Eis-me aqui!".
 
 
[Foto de minha autoria. 22 de maio de 2018]


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quinta-feira, 24 de maio de 2018

SEGUNDA>>Analu Faria

Manhã de segunda-feira, céu azul, frio. Brasília no inverno é a vida como me gusta. Nesses dias, as árvores do caminho de casa até o trabalho estão mais vivas e mais imóveis. Lembro-me do poema de um amigo: "As árvores por mim passam". Se a gente olhar direitinho, elas passam mesmo por nós, que nos movemos sem vê-las.  

Também me vem à mente a música de George Harrison, rejeitada num álbum dos Beatles:

Sunset doesn't last all evening
A mind can blow those clouds away
After all this my love is up
And must be leaving*

Olho a borra do café na xícara. A amiga que lia o futuro nesses traços hoje mora na Suíça, acho que nunca conseguiu prever que seus sonhos se realizariam assim tão depressa. Trabalha numa organização internacional, a vida como le gusta. Sinto saudades da amizade, penso que seria bom tê-la por perto para juntas lermos um futuro divertido naqueles restos de bebida. Temos o afã de captar em nós o movimento das árvores, como se a imobilidade delas, nesta e em outras épocas, fosse uma impertinência. Por isso as borras de café. Por isso o apego ao futuro.

George Harrison é que era sabido (ele ou o eu lírico que escreveu "All things must pass", porque a gente às vezes escreve o que não sabe, mas o eu-lírico sempre conhece as coisas...). O amor também passa por nós, como as árvores imóveis. Aliás, o amor também passa, dentro de nós, como a descarga elétrica de um desfibrilador - faz renascer, cumpre seu papel e depois de um tempo já não é mais sentido, já não faz mais sentido. Um processo tão natural como as árvores do caminho de casa ao trabalho; tão simples, terno e cheio de lembranças carinhosas como as manhãs de segunda-feira no inverno seco de Brasília.
_____________________________________
*O pôr-do-sol não dura a tarde inteira
Uma mente pode levar aquelas nuvens embora
Depois de tudo, o meu amor está no fim
E deve ir embora.


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quarta-feira, 23 de maio de 2018

ATRAVESSE... >> Carla Dias >>


Noite passada, voltando para casa, esperando o semáforo mudar de cor e me permitir atravessar.

Avistei aquele homem no meio da avenida. Desligada que sou - porque enquanto caminho até em casa, minha mente toma conta de mim e relembro, reinvento, crio e desejo o que não me cabe desejar - e acostumada ao furor das buzinas, de quando as pessoas estão ansiosas para voltar aos seus lares, bares ou arredores, não percebi antes que havia confusão ali.

Sinal verde, atravessei a primeira pista. Na segunda, as pessoas se aproximavam do homem e ele as afastava com um gesto brusco. Na calçada, muitas pessoas observavam e comentavam sobre o que entendi ao alcançar o outro lado e o sinal abrir para os carros.

O homem estava na metade do seu trajeto. Caminhava na faixa de pedestres. Um problema físico o condicionava a dar passos muito miúdos. Mas muito miúdos mesmo. Ele atravancou a passagem dos carros, colocando-se ali, diante do furor de atrapalhar o ritmo, o horário, a pressa do outro.

As buzinas enlouquecidas, os gritos: saí daí!

Houve quem se atravesse a bancar a bola de boliche desviando dos pinos, passando pelo homem a quase relar em seu corpo meio torto. Definitivamente, limitado. Claramente, um desafio para ele.

O atendente da farmácia de esquina saiu de seu posto e foi até o homem. Quem sabe uma roupa branca e um tom ligado à saúde pudesse ser menos ofensivo. Mas não foi assim. O homem balançou os braços, nervoso, distanciando o gentil moço da farmácia, que estava realmente compadecido por ele.

Pensaram que ele estava louco.

Pensei: o corpo... O homem está desafiando as limitações de seu corpo. É busca por certo conforto que a realização de uma tarefa pode oferecer.

Plateia a postos, fui caminhando em direção a minha casa, mas muito inquieta com as buzinas e os gritos.

Saí daí! Vai morrer! Idiota!

Olhei para trás e me dei conta de que o homem dera dois, no máximo três passos miúdos, miúdos. Prestei mais atenção: cada gesto que ele fazia era truncado. Seu caminhar era uma coreografia dolorosa, de movimentos minimalistas, apesar do desejo escancarado dele de se livrar das correntes das suas limitações e se esticar todo.

Agoniei-me ainda mais. Não consegui me juntar aos espectadores, até o final da cena. Demorou para que o homem atravessasse a avenida, porque eu escutava as buzinas enlouquecidas e os gritos dos motoristas, enquanto comprava laranjas no supermercado. Ele ainda estava nessa travessia, quando paguei pela minha compra.

Caminhei até em casa, o coração pesado. Estava claro para mim que aquele homem saiu da casa dele com o objetivo de encarar suas limitações e mandá-las plantar batatas. Realizar um desejo, que também era mágoa, porque quem não quer ter o direito de atravessar a avenida no tempo que o sinal verde oferece? Por conta? É simples, é básico e vivemos a nos esquecer do valor do que é tão nosso, que nem imaginamos como seria não ter isso.

Aquele homem tinha ciência disso.

Sim, o homem atrapalhou o trânsito, e havia muitas pessoas atrasadas para continuar com suas vidas. Eles as atrapalhou. Ele e seus passos miúdos, mas miúdos mesmo. Só que tem dias em que atravessar uma avenida é tarefa árdua, requer mais do que a necessidade ou o desejo de fazê-lo.

O homem atravessou a avenida, sem a ajuda de um alguém que fosse. Eu já estava em casa, quando ele atravessou a linha de chegada. Escutei as buzinas e os gritos silenciarem, assim que entrei no apartamento.

A vida é mesmo frágil, e alguns de nós são fortes, de força que faz com que atravessemos avenidas, apesar dos gritos e xingamentos.

Onde já se viu? Catarse alheia a atrapalhar o trânsito.

E não consigo tirá-lo da minha cabeça: passos miúdos, corpo tremendo, cara feia para afastar compadecidos que tendem a atrapalhar com sua compaixão amansando o que tem direito a ser raiva, ainda que por algum tempo apenas.

A falta de palavras berrando: encontro vocês do outro lado da avenida!

Imagem: The Dinky Bird © Maxfield Parrish

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sábado, 19 de maio de 2018

BALADA DE UM AMOR INABALÁVEL? >> Sergio Geia



Céu azul de outono, sol forte, calorão de verão. Apesar do calor, um ventinho entra pela sacada. Anima. Dá vontade de colocar Skank, de ouvir “Balada de um amor inabalável”. Não ouvir Skank — quer dizer, o álbum todo —, ouvir apenas a “Balada”, somente ela e nenhuma mais. Coloco o CD no aparelho, sento no sofá, respiro fundo, olhar lá fora, no céu azul, no sol que ilumina casas e prédios, a “Balada” vai entrando, tomando conta.
Mistura de céu azul, sol forte, dia quente, não me pergunte que no momento sou incapaz de responder, mas esses elementos sempre me remetem à minha avó, Ita, que todos a chamavam de Ita, mas que se chamava, na verdade, Maria Antonieta. Lembro dela se arrumando pra sair, vestido estampado, toda perfumada, às vezes passava o dedo molhado atrás de minha orelha, eu sentia um geladinho perfumado. Sempre me levava junto, e nessas vezes, certamente na maioria, o céu era azul, o sol forte, o dia quente — pelo menos me vem agora essa ideia. Não se trata de lembranças, “ah, quando eu saía com a minha vó o dia estava assim, assado”, mesmo porque nem lembro concretamente desses passeios. Mas lembro algo do tipo, e se o dia está assim como hoje, lembro dela, que deve estar no céu, costurando para anjos, arcanjos e querubins, ou para os maltrapilhos mesmo, que, de repente, chegam estropiados do Purgatório.
Dona Ita era uma excelente costureira. Costurava todas às segundas-feiras para os mais necessitados no Convento de Santa Clara. Lembro que no quarto de sua casa tinha uma máquina de costura. Vez em quando, eu sentava nela pra pilotar. Ela achava engraçado. Todos os anos ela me presenteava com uma blusa de lã (eu adorava). Certa vez, ela costurou uma blusa parecida com a que o Leão usava no jogo: na frente era listrada, uma lista branca, outra verde, uma lista branca, outra verde, atrás era toda verde.
Outra lembrança: vó Ita ouvia todos os dias o programa de rádio do Silvio Santos. Sim, o Silvio tinha um programa no rádio. Eu chegava em sua casa, lá estava ela na sala costurando, ladeada de seu pequeno rádio que propagava vozes que eram do Silvio, do Nelson Rubens, do Décio Piccinini.
Quase todos os domingos almoçávamos em sua casa, na Barão, a família toda reunida. Minha mãe, meu pai e eu. Vinham de Campos do Jordão tia Tutu, tio Paulo, João, não lembro se Zé já era nascido. Viviane vinha de Pinda com o Neto. Nesse tempo, meu avô ainda vivia. O cardápio era sempre igual: macarronada e frango. Às vezes minha vó fazia doce de abacaxi, ou charlote, de sobremesa.  Lembro de uma mesinha vermelha de madeira que arrumavam pra mim no quintal; eu almoçava lá, e quase sempre o céu era azul.
Escrevo isso hoje e juro, juro por Deus que desconheço a razão que fez minha mente viajar para essas lembranças, que poderiam ser doces, mas que deixam um gosto amargo na boca. Na verdade, apenas queria ouvir a “Balada de um amor inabalável”, coloquei o CD no aparelho, sentei no sofá, foi quando bati o olhar no céu, no sol (você sabe o resto).
O vil metal às vezes mata uma família. Matou a minha. Até hoje me sinto destroçado, e choro às vezes com saudades de tanta coisa.
Vó Ita morreu triste, abandonada por uma de suas filhas, por dois de seus netos, um abandono cruel e totalmente sem sentido.
De inabalável nosso amor não teve nada.  Ele implodiu, como esses prédios velhos colocados abaixo por explosivos abraçados às colunas de sustentação. Em cinco segundos, raízes, laços, afinidades, amores, preocupação, presença, uma história profunda e intensa, tudo virou pó, poeira, como se nunca tivessem existido, e se foram, longe, levados pelo vento.
O mais estranho é pensar que uma balada que fala de um amor inabalável, sublimando um céu pintado de azul, possa despertar tamanhas inquietações.



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sexta-feira, 18 de maio de 2018

O JOGADOR - 2a PARTE >> Zoraya Cesar


Lucio nunca fora tão feliz. Conseguira a vida que pedira a Deus, mas que lhe foi dada pelo Diabo. E queria mais.

Solícito, como sempre, o Sr. Pedro Botelho fez-lhe uma proposta:

- Hoje você vai para um cassino clandestino de alto nível. Eu banco suas apostas. Crédito ilimitado. Só peço uma garantia.– E buscou algo no bolso.

Talvez influenciado pelos filmes de TV, Lucio esperou, sinceramente, ser obrigado a assinar um contrato com sangue. O homem, no entanto, pegou o celular.  

- Enviei o contrato para o seu whatsapp. Basta confirmar que aceita os termos do acordo. Veja bem, amigo, as regras me obrigam a esclarecer: este é um contrato de adesão. Não cabem ressalvas nem apelações. 

Lucio nem se preocupou em ler os termos e condições.
Nada tinha a oferecer.
O que poderia perder?
Como esperado, Lucio mal leu os termos. Que lhe importava uma barganha, com o Diabo que fosse, desde que realizasse seus desejos? O que tinha de seu? Bens? Nenhum, nada. Sua alma? Bobagem. Sua alma já estava perdida mesmo, que o Sr. Pedro Botelho fizesse bom uso dela. Se Lucio soubesse latim, falaria alea jacta est. Como não sabia, falou apenas foda-se. E clicou no quadradinho. 

Mais uma vez, a palavra do Sr. Pedro Botelho foi líquida e certa. Lucio agora jogava apenas nas melhores mesas da cidade. A excitação o tomou por completo, principalmente porque podia faltar dinheiro para tudo, menos para o jogo. Ele não comia, não dormia, não fazia sexo com Juçara (que, finalmente, concedera-lhe seus préstimos afetivos e sexuais. Não sei se por artes do Sr. Pedro Botelho ou se por amor ao dinheiro que Lucio agora ostentava). 

De repente, do nada, o dinheiro desapareceu; seu “empresário” também. E agora? Sem dinheiro, não podia apostar. Passou dias em aflição, a abstinência a consumi-lo. Dias depois, recebeu uma mensagem: "Realmente, eu merecia o céu, por conta da minha paciência. Faça o favor de cumprir a primeira cláusula do contrato. Ou vai se arrepender muito."  

Lucio apressou-se pegar o contrato. Era uma lista de afazeres que começava por pequenos delitos e ia num crescendo de crueldade e barbárie tais que ele não conseguiu ler até o final. Roubar a caixa de doações de uma Igreja; deixar um amigo na miséria; atear fogo em um abrigo de... ele vomitou.  

Depois de alguns dias, porém, Lucio sucumbiu. Precisava daquela vida de luxo e jogatinas intermináveis como o adicto precisa de sua droga. Não aguentava mais fugir de credores, não ter onde jogar e até Juçara saíra de casa. Lucio sucumbiu. 

Suando e tremendo, cumpriu o primeiro item da lista. Assim que viu as coisas voltarem ao normal, ele se sentiu estimulado a ir executando as outras tarefas, cada vez mais complexas e sórdidas. Percebendo que, por algum sortilégio, ele prosseguia impune, ganhou confiança. Até que, forçoso dizer, começou a encontrar um certo prazer na prática da crueldade. Era com olhos ávidos que procurava, no contrato, a próxima missão. 

De novo, nunca fora tão feliz. 

Até o dia em que, hospitalizado por conta de um mal-estar, descobriu que seu corpo fora invadido pelo mesmo câncer que acometera sua alma. 

Lucio tentou implorar por perdão, por uma nova chance, prometia viver em função da caridade...

O Sr. Pedro Botelho, no entanto, desfez suas esperanças. 

- Amigo, só em filmes esse negócio de pedir perdão funciona. Aqui, no mundo real, a lei do retorno é implacável. Além disso, você só está arrependido porque está com medo.

Lucio chorava, barganhava, pedia clemência. Não queria morrer. Faria qualquer coisa.

- Bem, bem, tenha calma. Vejamos, já me diverti tanto com seus crimes, que vou fazer um trato. Aposte a alma de Juçara comigo. Se perder, morre. Se ganhar, Juçara morre. Que tal?

Leitor Amigo, não vou mentir. Lucio não hesitou. Não lhe passou pela cabeça que era um jogador medíocre nem que seu oponente era o próprio Senhor das Trapaças. Muito menos que jogava contra a vida de outra pessoa. 

A partida foi demorada e tensa. Lucio jogava por sua vida. O Diabo jogava por... quem sabe? Sei apenas que, contrariando toda a lógica, Lucio ganhou o jogo..
Lucio ganhou a partida com um incrível
Royal Flush.
Mas, não tendo lido os termos do contrato,
perdeu o jogo.

Se tivesse forças, pularia de alegria, sem se importar, nem por um átimo, que outra pessoa morreria em seu lugar. O Sr. Pedro Botelho também parecia contente, pois gargalhava descontroladamente. Pegou, quase carinhosamente, a mão de Lucio:

- Não me canso de admirar a estupidez humana. Amigo, o bom jogador não joga com quem lhe é superior. E nunca, jamais, aposta o que não tem. Você viu filmes demais. Não se pode entregar a alma alheia. – Ria de se acabar.

- Mas eu ganhei, você disse que Juçara morreria em meu lugar. – Lucio gritava.

- Você não entendeu. Não lhe prometi vida eterna. Não tenho esse poder. Você não morrerá agora. Só isso. Porque, amigo, a morte é para todos. Juçara vai morrer, sim, mas no tempo dela. Como você tentou trapacear, apostando o que não tinha, sofrerá penalidade. É a regra. 

Lucio não acreditava. Arranhava o próprio corpo, em desespero. 

- Por quê? Meu Deus, por quê?

O Sr. Pedro Botelho sorriu, educadamente.

- Deus não tem nada a ver com isso, amigo. Trato é trato. Veja – ele colocou esquisitos óculos de leitura e leu, compenetradamente: “Se o contratante apostar algo que não lhe pertence, perde todos os direitos à salvação de seu corpo e alma”

- Assim, não lamento lhe dizer: você vai viver muito, cada vez mais doente. Quando seu corpo definhar, seu espírito enlouquecer e não sobrar mais que um espectro do que um dia foi humano, só então morrerá. Você não vai para o céu, já me informaram. Nem, por tempos incontáveis, para o inferno. Sua alma rota vai penar na Terra, sempre ansiando por uma forma física, sempre desesperado pelo sono eterno, sempre assombrado pelos seus crimes. 

Lucio olhava para ele, paralisado de pânico. O Sr. Pedro Botelho se levantou.

- Foi um acordo justo. Não te forcei a nada.Você teve a vida que pediu e eu consegui o que queria: vício, maldade, sofrimento, dor. É disso que me alimento. E eu não sou sôfrego, sabe? Tenho zilhões de almas como a sua. E a eternidade para esperar por mais uma...

Lucio gritou. Mas ninguém ouviu. 

Pessoal, entro de férias. Volto em meados de junho e, prometo, com uma história levezinha.

Foto: david-k. Pinterest
https://pixabay.com/en/poker-royal-flush-card-game-win-2198117/


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quarta-feira, 16 de maio de 2018

CENA DE CINEMA >> Carla Dias >>


O olhar se bandeou para a cena acontecendo no outro lado da rua. Ele logo pensou em como seria levá-la para as telas de cinema. Qual seria o tom que usaria? Como descreveria o que seu olhar alcançava assim, na rotina? Qual seria a história imaginada para ela?

Decidiu que seria filme em preto e branco, com roteiro muito bem trabalhado e poucos efeitos. As cenas seriam cuidadosamente conectadas por transições sutis. Os atores seriam dirigidos de jeito em que a linguagem corporal diria mais do que um longo diálogo.

Não que ele não preze pelas palavras. Na verdade, construiria diálogos longos, talvez mais longos do que muitos costumam apreciar. Mas a eles dedicaria pausas muito bem colocadas, pontuadas por uma coreografia de gestos que lhe dessem respaldo.

Gestos. Os movimentos. Afinal, é uma cena de cinema e o olhar precisa mergulhar nela. E a sonoplastia: os pés se arrastando pela calçada, a água descendo quente e suja pela garganta, ainda assim, matando sede. Carros, burburinho, o choro de uma criança faminta e cansada. Alguém cantarolando o canto do pássaro.

Pensa na música. Violão? Violão... Música melancólica para cena descabida. Cena que revela as mazelas humanas, explora cenário inquietante, embrenha-se em realidade indigesta.

A música levaria os espectadores pela alma. Deslizaria pelos sentidos deles, que, ao encararem a tela escura, onde vai surgindo um isso e um aquilo, formando essa cena que ele observa agora.

13h58.

Escolheria os atores com esmero. As entrevistas se dariam em um pequeno café, perto de sua casa, e seria uma longa conversa sobre tudo, exceto cinema. O teste seria eles sobreviverem à curiosidade dele. A mesma que não permite que ele desvie os olhos. Para que olhar?  Cena... Não de cinema, mas de realidade leviana.

A mãe tenta acalmar a criança, mas ela não para de chorar a fome. Empanturrada de desalento, a mulher abraça sua cria, como se prometesse um futuro menos cruel, onde o quarto da sua casa não seja na calçada de avenida movimentada, onde sua vida fosse observada com indiferença. Então, ela desnuda o seio, onde a fome da criança é aliviada. Ele consegue ler no olhar dela: até quando?

O homem ao lado dele comenta “que pouca vergonha é essa. Onde já se viu botar o peito pra fora na rua? Só sabe fazer filho mesmo!”.

É que na cabeça dele, esse filme é protagonizado pela esperança. A cena que o outro sujeito assiste é diferente da que ele assiste. Ele enxerga a lei da sobrevivência aos berros, assustando uma tímida esperança. O outro vê a indelicadeza de uma nudez que em nada tem a ver com o desejo dele.

Música aumentando aos poucos, tomando conta da cena. Qual história ele contaria? Quais seriam os nomes desses personagens? Onde seria a rua deles? Qual seria a fome deles?

O semáforo sinaliza em verde. Ele atravessa a rua, refletindo sobre a cena assistida ao vivo e em dores.

Imagem: Bodegón mitificado © Angel Planells


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terça-feira, 15 de maio de 2018

PERGUNTAS DE SALA DE AULA >> Clara Braga

Aluno definitivamente é um bicho estranho. Nem eles sabem explicar o que se passa pela cabeça deles enquanto você está dando sua aula. E é justamente desse inexplicável limbo que surgem as melhores perguntas sem nexo.

Outro dia estávamos em sala discutindo sobre um documentário que havíamos assistido que falava sobre a importância dos africanos para a cultura brasileira. Então um aluno perguntou: professora, sabia que faltar trabalho as vezes faz bem? É bom para refrescar a mente! Hoje só temos a sua aula, os outros professores faltaram, você bem que podia faltar também não é?

Não sei dizer se ele aprendeu algo sobre a cultura afro-brasileira, mas com certeza não gosta muito das minhas aulas.

Já um outro, durante uma atividade prática cujo comando era criar um alfabeto inspirado no alfabeto egípcio, perguntou: professora, você acompanha futebol? – Não! – E seu marido, acompanha? – Sim! – Professora, qual o time dele? – Menino, você não acha que está perguntando coisa demais não? Você tem atividade para fazer! – Ixi, já vi que é vascaíno.

Qual a relação de um hieróglifo e o campeonato de futebol? Eu não sei, mas com certeza entendi o motivo do meu marido estar xingando o vasco há uns dias.

Para fechar com chave de ouro teve a menina que timidamente me chamou à mesa dela para tirar uma dúvida enquanto eu falava sobre a arte indígena. Pela cara dela e pelo fato de ter me chamado tão sem graça até sua mesa já imaginei que perguntaria algo como: os índios ainda existem? Ou então: os índios andam pelados? Perguntas comuns em todas as turmas, para minha tristeza. Mas para a minha surpresa ela não queria saber nada sobre os índios, a pergunta dela foi: professora, mulher virgem pode usar o.b?

É, depois não entendem porque professor é tudo doido, mas até o ministério da saúde já advertiu: buscar relação entre sua disciplina e os questionamentos dos alunos causa danos irreparáveis para sua sanidade mental.



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sexta-feira, 11 de maio de 2018

QUASE... >> Paulo Meireles Barguil

Temos uma vida repleta de quases.
 
Eles se referem a situações do passado ou do presente, as quais são, a depender da perspectiva do narrador, agradáveis ou desagradáveis.
 
As ocorrências de outrora, embora não possam ser objetivamente modificadas, são passíveis de mudança subjetiva no que se refere à interpretação.
 
Um quase choroso, portanto, pode se transformar num quase risonho.
 
A recíproca, como você sabe, é igualmente verdadeira.
 
Os acontecimentos da hora também são suscetíveis dessas alterações.
 
Um relacionamento que quase terminou ou que quase não se findava: "– Se eu (não) tivesse feito ou dito aquilo...".
 
Um livro que está quase pronto: "– Falta só um capítulo...".
 
Uma viagem – de avião, metrô, ônibus, táxi, trem... – que quase (não) aconteceu: "– Foi por um triz!".
 
Uma amizade que está quase se iniciando: "– Será que eu confio?".
 
Uma aprovação no concurso que quase ocorria: "– Se eu estivesse estudado aquele assunto!".
 
Um sonho de décadas que está quase se materializando: "– Junho está aí...".
 
Entre próximos e distantes, vivemos um roteiro que é continuamente reescrito pela vida, pois ela adora uma surpresa e faz de tudo – tudo mesmo! – para evitar que alguém revele o final.
 
Com ela, não tem spoiler, mesmo que alguém, tolamente, diga: "– Eu já sabia!".
 
 
[Pôr do sol no Pico Alto – Guaramiranga – Ceará]
 
[Foto de minha autoria. 23 de agosto de 2017]


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quarta-feira, 9 de maio de 2018

TALVEZ VOCÊ QUEIRA SABER >> Carla Dias >>


Água escura de rio dá medo, mas também atiça curiosidade. Há dias em que as horas têm preguiça de passar. Verdade é que ninguém diz a verdade na amplitude da sua verdade. Há sempre uma palavra engasgada, devidamente domesticada, ansiosa para soar no mundo.

Ofensor se ofende quando suas ofensas são ignoradas. Morte é coisa que faz a vida gritar dentro dos que ficam. Às vezes, partimos de quem não queremos. Partimos para onde não queremos. Partimos.

Abraço revigora o espírito. Labirintos treinam nossos sentidos. Ocorre de abismos se revelarem ótimas ferramentas de catarse. Banho quente, depois de banho de chuva, é relaxamento do qual todos deveriam provar.

Observar vista, das que se perde de vista, refresca urgências. Ninguém deseja abandono, dor de dente, coração partido. Cuidar de si é tarefa árdua, até para os indiferentes. Cuidar do outro é escolha que merece ser acolhida.

Violência sorri com seus grandes dentes de quem sabe que tem poder. Sangue esparramado na calçada comprova que a paz ainda é um dos itens das listas particulares da maioria. Uma paz que não seja frágil e debilmente benevolente. Talvez a paz que almejamos seja a justiça.

Acontece de a ausência do outro doer no corpo da gente, algo a ver com psicossomatismo. Saudade é sentimento que agonia ao senti-lo e oferece um dos alívios mais intensos. Às vezes, ela é para a vida. Não há como escoá-la. A saudade fica.

Corujas têm olhar enigmático, dos que enxergam além. Noturnas, banham-se de lua. Pirilampo é palavra iluminada. Girassóis orientam sorrisos. Há quem colecione mágoas, botões de camisa e números de telefones desativados.

Quando desejado, beijo ecoa na pele. Solidão, que parece infinita, deixa o espírito deselegante e resseca desejos. Nunca teremos Paris. Nem Ulaanbaatar. Tampouco Tel Aviv. Teremos a nós mesmos, na geografia da ocasião.

Imagem: I Lock My Door Upon Myself © Fernand Khnopff


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sábado, 5 de maio de 2018

COPO VAZIO >> Sergio Geia



Na cozinha ainda pálida do lilás da manhã, sobre uma pia molhada, ladeando uma xícara com água, jaz um copo de uísque da noite anterior, sujo, vazio. Respiro fundo, escapa um sorriso. Saio de casa contente levando comigo “O crime do Padre Amaro”, presente para a Chiara. Outro dia falei dele pra ela, incentivei a leitura, falei dos banhos de mar como medida de tempo, até brincamos em Ubatuba contando nossos banhos de mar; disse que o de casa tinha letras miúdas, uma sacanagem, que iria comprar um que fosse mais decente. Comprei. Dou de presente. Ela adora.
“O crime do Padre Amaro”... Me inspirou, escrevi “Confidências”. Houve outro na mesma linha, “O Seminarista”, de Bernardo Guimarães, leituras que me deram fôlego para pensar no arcabouço de história de Antonio e Liane.
Mas havia um copo vazio sobre a pia molhada da cozinha, era o que eu dizia, e você vai entender o que aconteceu.
Aliás, você deve pensar: mas o que pode vir de um copo vazio? Como deve ter pensado também: que título mais chinfrim! Pois também penso, mas não me vem outro à cabeça que se encaixe melhor. Fica então “Copo vazio”, embora copo vazio não diga nada. Mas eu digo. Digo que tinha acabado de receber pelos correios “As You Were”, do Liam Gallaguer — começando a história, agora você vai entender —, e estava doido de vontade de ouvir. Doido. Já ouviu? Pois saí do banho, coloquei o CD no som, estiquei as pernas, fui bebericar meu uisquinho. Baratotal: chegar em casa, dosezinha de uísque no copo, música, música, música.
Eu já tinha lido que o álbum do Liam, o vocalista marrento do Oasis, era muito bom, que tinha vendido mais que todos os álbuns que o Noel, outro líder do Oasis, tinha produzido depois do fim da banda, que era o que mais se aproximava daquele som anos-90, mas renovado, oxigenado, repaginado, com influências até dos Beatles. E o disco é ótimo! Adorei tudo, tudo. Wall Of Glass, Bold, porque está tudo bem, tudo bem agora, Greedy Soul, For what it’s Worth, só para constar. As músicas fazem bem ao ouvido.
Já disse certa vez que não sei onde estava quando Oasis estourou em 90/ 2000; vai ver eu me desesperava. Pena. Perdi a onda. Perco a onda sempre, mas adoro descobrir coisas velhas, filmes velhos, livros, músicas. Outro dia descobri Belchior cantando “A palo seco”, lembra? “Se você vier me perguntar por onde andei, no tempo em que você sonhava. De olhos abertos eu lhe direi, amigo, eu me desesperava. Sei que assim falando pensas que esse desespero é moda em 73, mas ando meio descontente, desesperadamente eu grito em português.” A gravação original de 74 é uma beleza, mas se você a quer oxigenada, veja Los Hermanos , aliás, ambos se apresentaram, Belchior e Los Hermanos, no Altas Horas.
Álbum ouvido, curtido, sensação delirante, tratei de comer alguma coisa e me ligar em “O Outro lado do Paraíso”, essa novela que anda pegando fogo. Pois fico nesse revezamento cruel: “O Outro Lado” e “Suits”, novela e “Suits”. “Suits” é a série da Netflix que trata do advogado-não-advogado gênio, Mike Ross, que milita nos Tribunais sem ter frequentado uma universidade.
Pois foi antes do apagar das luzes. Bebendo água na cozinha, me deparei com um pobrezinho de um bebê-lagartixa no copo vazio de uísque. Como não se mexia, deduzi que tinha bebido um pouco do que restava do líquido precioso. Ou estava embriagado o bebê, tadinho, ou a bebida o tinha levado a óbito, cruzes! Deixei lá. Fui dormir torcendo para que no dia seguinte o copo estivesse vazio, o que, na minha humilde concepção, significaria que o coitadinho tinha se recuperado da bebedeira e estava de volta à batalha da vida.



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sexta-feira, 4 de maio de 2018

O JOGADOR - 1a PARTE >> Zoraya Cesar

A regra n°1 do bom jogador é ser um bom jogador. E só apostar o que pode se dar ao luxo de perder. O bom jogador é tudo, menos um viciado.

Lucio esperava que o
baralho desembaralhasse
sua vida.
Lucio não era bom jogador. Tinha alguma técnica, alguma astúcia e muita disposição em ganhar dinheiro fácil. Sua maior ambição era enricar jogando cartas. O baralho a desembaralhar sua vida de pequenos expedientes e muitos débitos. Uma ilusão, claro, dada a mediocridade de seu jogo e a pouca disponibilidade financeira de seus parceiros de mesa. Perdia? Jogava para compensar. Ganhava? Jogava para aproveitar a “maré de sorte”. Talvez fosse viciado, não sei. Sei que a tal “maré de sorte” sumira há muito tempo de sua vida. 

As dívidas se acumulavam, as mesas de jogo começavam a fechar-lhe as portas, os credores o perseguiam.  O desespero e a abstinência do carteado estavam-no levando à loucura. Nem mesmo os amigos de fé, irmãos, camaradas queriam jogar com ele. As apostas podiam ser modestas, mas jogo é jogo. Sentou, tem de mostrar as fichas. Perdeu, tem de pagar.

Lucio, reles que fosse como jogador, era persistente. Ou teimoso – a diferença entre um e outro pode ser medida, quem sabe, pelo grau de sucesso da empreitada. Saiu de casa, decidido a encontrar uma mesa de carteado que ainda o recebesse. Sentia que aquele era seu dia de sorte (aí aquela cambada de pobres macacos vai implorar pra jogar comigo). Apostaria seus últimos recursos. Sei que posso ganhar dinheiro hoje. Só preciso de uma chance. 

Baços raios de sol davam às ruas uma atmosfera onírica e sufocante. O momento do ocaso, em que a claridade some aos poucos, levando desânimo e temor aos corações mais fracos, enquanto os amantes da noite e seus segredos começam a despertar. Pessoas andavam afoitas, premidas pela pressa de chegar ao seu destino, atormentadas pela solidão, as contas a pagar, o casamento infeliz, o trabalho frustrante. Não havia quem estivesse satisfeito ou em paz consigo mesmo. Não aqui, não nessa história.

Lucio vagava há horas, em busca de sua sorte. Estava disposto a qualquer coisa por uma rodada de carteado. Uma chance, pensou pela milionésima vez, só preciso de uma chance

Um homem caminhou em sua direção.

Vestia terno azul-marinho, camisa preta e gravata listrada de vermelho, branco e cinza. Cabelos grisalhos e fartos, sorriso branco-solar. Tudo nele exalava sedução, riqueza, poder. Parecia, dos pés à cabeça, um modelo Versace. Lucio sentiu seu perfume acre e penetrante. O homem cumprimentou-o afavelmente:  

- Ouvi dizer que precisa de uma mesa de jogo e algum dinheiro. Posso providenciar isso. Se você quiser, claro. Somente se quiser. Essa é a regra.

Lucio parou, desconfiado. Quem era? Como sabia de sua vida? Não o conhecia, com certeza. Seria um golpe? Um credor? Muito estranho, um homem tão bem vestido naquele bairro de gente que nunca poderia comprar uma roupa daquelas. Mais estranho ainda, as pessoas passavam por eles como se não os vissem.

- Sou o Sr. Pedro Botelho, a seu dispor. Estou aqui para servi-lo - e sorriu, iluminando-se.

Quando criança, Lucio ouvira muitas histórias contadas por sua avó portuguesa. Sabia muito bem quem era o Sr. Pedro Botelho. Só não sabia o que fazer. Correr, esconjurando? Ouvir o que o sujeito tinha a dizer? Parecia tão amigável, tão pouco ameaçador... Como era mesmo aquele lance de conseguir dinheiro e uma mesa de jogo?

- Não é truque. Acordei disposto a prestar um favor. Se quiser minha ajuda, a partir de hoje você passa a ganhar nas cartas. Se não quiser, eu desapareço e você nunca mais me verá. Nem terá outra chance. Não é sempre que estou de bom humor.
A noite caíra, firme e decidida. Os transeuntes apressaram seus passos, os faróis se acenderam, as buzinas soavam mais impacientes e tudo pareceu girar ao redor dos dois. Talvez aquele frenesi tenha afetado Lucio, pois as palavras do homem causaram-lhe profunda impressão. Viu-se carteando pelas mesas afora, cheio de marra, de dinheiro, Juçara das pernas grossas – que nunca lhe dera nem bom dia – ao seu lado, dengosa...

Como todo jogador, Lucio acreditava na sorte. No azar. Na superstição. Nos sinais. Enfim. Aceitou, sem fazer mais perguntas. 

A palavra do Sr. Pedro Botelho foi tão boa quanto prometera ser. Lucio começou a ganhar dinheiro na mesa de jogo. Mixórdia, claro, que seus conhecidos eram assalariados, ninguém jamais melhorara de vida naquelas mesas. O pessoal jogava pra se divertir, pagar uma ou outra conta, comprar um mimo pra patroa, fazer o churrasco do fim de semana. 

No início, Lucio se satisfez em ganhar o suficiente para continuar sem trabalhar e pagar suas contas. Em pouco tempo, porém, aquilo começou a não lhe bastar. Queria mais. Mais dinheiro, mais jogos e reconhecimento. E Juçara.

No auge de sua impaciência, infeliz e desgostoso por não passar de um jogardorzinho de bairros pobres, voltou a ser procurado pelo Sr. Pedro Botelho. 

- Então, meu amigo, creio que você deseja um upgrade. Se quiser, providencio. Tem de querer minha ajuda, é a regra. Aviso, apenas, que a época dos favores acabou. É quid pro quo. Vai pagar pra ver ou vai passar? 

Continua dia 18 de maio


Pedro Botelho é um dos nomes do Diabo, como bem sabia Lucio. Há várias histórias, lendas e explicações para essa alcunha. A verdadeira, só perguntando ao próprio. Coisa que, creio, ninguém vai querer.  

Carta de baralho: https://br.pinterest.com/pin/671458625664682111/

Playing Arts es la iniciativa de Digital Abstracts que consiste en diseñar una baraja de naipes con la colaboración de diferentes artistas. 

Vídeo: Sympathy for the Devil, Rolling Stones


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quinta-feira, 3 de maio de 2018

GATO DE SCHRODINGER, CÃO DE PAVLOV

O "experimento hipotético" do gato de Schrodinger, consistente em colocar um gato em uma caixa com um medidor de atividade radioativa e um frasco de veneno, visa a ilustrar o comportamento quase imprevisível de certas partículas subatômicas e, também, a questionar a influência do observador no resultado observado.  Pensada pelo austríaco Erwin Schrodinger, nos anos 30 do século passado, o gato estaria morto se um dos átomos de uma substância radioativa decaísse e acionasse o medidor mencionado, que por sua vez acionaria uma martelo, que, ainda, quebraria o frasco de veneno, matando o gato. Se, porém, a substância se mantivesse "inerte", o gato não morreria. Acontece que não se sabe ao certo se esse decaimento aconteceria ou não. Em tese, portanto, o gato da caixa poderia estar vivo e morto ao mesmo tempo. Acontece também que um observador não conseguiria captar, em um instante determinado, um gato morto-vivo. Ao abrir a caixa, quem observasse o conteúdo só conseguiria ver o gato ou morto  ou vivo. Não dá para entender a complexidade da tese só com o poder da observação.

Já o experimento de Pavlov, que foi prático mesmo, consistiu em fazer soar uma sino toda vez que um grupo de cães era alimentado. Com o tempo, os cães associavam o som à comida e ficavam com água na boca quando o ouviam, mesmo não havendo comida alguma. Pavlov, um médico russo, foi aclamado pelo experimento que, ao mesmo tempo, foi considerado simples e revolucionário e mostra a força de certos reflexos nos seres vivos.

Eu, que não sou cientista e penso muito pouco cientificamente, fico imaginando os deuses guiando os homens a descobrirem a si mesmos, através dessas experiências:

Deus 1: _ Vejam só: inspirei esse austríaco a pensar uma hipótese um tanto complicada para mostrar que algumas partículas subatômicas são imprevisíveis, e também a ver que tudo depende do observador. 

Deusa 1: _ Fora a discussão científica em si, o que espera com isso? Mais um insight sobre a condição falível dos humanos? 

Deus 1: _ Isso e talvez mais outras epifanias! Não é ótimo?

Deus 2: _ Não sei se vão captar isso, não, hein.

Deusa 2: _ Talvez devêssemos parar de nos comunicar com eles por metáforas.

Deusa 3: _ A do Pavlov foi boa. Bem mais prática. Acho que isso eles podem entender...

Deus 3: _ Você só diz isso porque a ideia foi sua. Eu ainda insisto nos poetas, nos filósofos, nos artistas...

Deusa 4: _ Ninguém leva esses lunáticos a sério, Deus 3. 

Todos os outros deuses concordaram. 





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quarta-feira, 2 de maio de 2018

FICA PARA A PRÓXIMA >> Carla Dias >>

Sentei-me de frente ao computador, tomada pela certeza de que escreveria uma crônica das rebeldes. É que tem tanto acontecendo que nos fere, cidadãos do mundo e autores dos nossos universos particulares, que eu estava certa de que a voz que ecoaria seria a que pede por justiça. Não falo sobre a justiça que se tornou fantoche nas mãos de alguns. É sobre a de fato. A que ampara aqueles que realmente necessitam da sua intervenção.

Basta um desvio, uma bobagem de nada e muda-se o rumo. Não raro isso acontece comigo, mas realmente acreditava, até há pouco, que esta seria uma crônica sobre defender interesses coletivos, despindo-se dessa egoísta jornada do “eu importo mais do que o outro”.

Apenas me desviei, depois de uma palavra qualquer, que alguém, que não me lembro quem, disse. Na verdade, nem mesmo da palavra eu me lembro. Só que ela me chegou assim, meio cantada. Recordo-me de ter me sentido tentada a sorrir. Havia uma lembrança ali, que tinha nada a ver com o momento. Ela veio com essa palavra esquecida e se apossou dos meus sentidos.

Sim, eu poderia escrever uma crônica sobre quão triste me deixa ver as pessoas trocando farpas em situações em que deveriam trocar ideias para se alcançar soluções que fossem benéficas para muitos. Eu sei que ando usando com frequência deslavada essa palavra: coletividade. Mas é ela que ainda me enche de esperança de que a justiça, aquela que faz uma falta danada por aqui, possa fazer sua parte sem a interferência de quem pensa somente em si mesmo.

Assim, essa crônica se tornou outra coisa. Posso dizer que se tornou o avesso da primeira ideia. A rebeldia toda deu lugar a uma sensação de que, apesar do caos, há espaço para a cordialidade, pelo interesse a respeito do outro. E o outro sempre me interessou, mesmo ao me tirar do eixo, ofender minhas crenças, vandalizar meus sentimentos. E de quando uma palavra me leva a refletir de forma abrangente sobre aquilo que me avilta diretamente, calando a minha capacidade de raciocinar na coletividade.

Torna-se, então, muito mais fácil de se compreender aquela ideia de que há sempre uma resposta para as nossas ações, nossas escolhas. Ando pensando nisso de forma menos espiritual e mais lógica. Assim, sem a concepção de milagre recebido, fica mais justo se pensar no que desejo ao outro, independentemente do que ele me oferece.

Hoje, eu decidi que não escreveria uma crônica fervorosa sobre imparcialidade e egoísmo. É apenas uma crônica sobre não ter problema em parar, respirar e deixar para depois, ainda que o tema pareça sedutor. E então, voltar ao assunto quando as palavras saírem de mim de forma coerente.

carladias.com



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terça-feira, 1 de maio de 2018

BIPOLARIDADE CRÔNICA >> Clara Braga

O fato do dia das mães estar chegando me deixou um pouco reflexiva, já que esse vai ser meu primeiro dia das mães com meu filhote no colo. E nesses dias eu, que não sou muito fã de frases clichês mas uso todas as que conheço, me peguei pensando no clichê máximo da maternidade: ser mãe é padecer no paraíso. Não é possível que alguém tenha definido que maternidade é padecer, embora seja uma verdade, como todo bom clichê, achei injusto dizer que é apenas padecer. Maternidade é muito mais que isso.

Ser mãe é se perguntar como em pleno século 21 as músicas principais dos brinquedos infantis ainda são dona aranha e brilha brilha estrelinha, mas mesmo assim cantar mil vezes ao dia pra ver seu filho sorrir.

É desejar que ele durma pelo menos 30 minutinhos para você dar uma adiantada nas suas coisas, mas 15 minutos depois que ele dormiu se perguntar se ele não vai acordar logo, pois bate uma saudade.

É sonhar constantemente com o dia que ele vai dormir a noite toda para você descansar um pouco mais, e quando finalmente chega o dia que ele dorme, você acorda pelo menos umas duas vezes para checar se está tudo bem!

É rezar para ele não estranhar o dia que você tiver que voltar a trabalhar para não ser mais difícil do que o normal, e depois que ele ficar tranquilo se sentir mal porque parece até que ele não sentiu sua falta.

É ficar ansiosa para a introdução alimentar e depois ficar triste por não ser mais tão necessária na alimentação dele.

É sofrer para dar vacina e sofrer mais ainda porque perdeu a data da vacina.

É jurar que nunca vai amamentar deitada até que chega a noite que ele acorda de hora em hora e na sexta vez que você precisa levantar você é vencida pelo cansaço.

É achar um absurdo quem dá papinhas industrializadas para os filhos até chegar o dia que você está na rua, não conseguiu resolver tudo dentro do tempo previsto, não tem nada pronto para ele comer e ele começa a chorar de fome. Nesse momento, uma farmácia vai aparecer milagrosamente a sua frente e papinhas de vários sabores saltarão felizes para os seus braços.

É falar que seu filho vai aprender a dormir no berço, até você descobrir que colo vicia não só para quem ganha, mas para quem dá também. E no final você aprende que nem tudo que vicia é ruim

Enfim, poderia falar por horas, mas o que disse já foi o suficiente para eu chegar à conclusão que gostaria: ser mãe é mesmo muito mais do que padecer no paraíso, e por isso tomei a liberdade de mudar o clichê de uma forma que fique mais real para mim: ser mãe é ser diagnosticada com bipolaridade crônica e não desejar trocar esse diagnóstico por nada nessa vida.


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