sábado, 5 de maio de 2018

COPO VAZIO >> Sergio Geia



Na cozinha ainda pálida do lilás da manhã, sobre uma pia molhada, ladeando uma xícara com água, jaz um copo de uísque da noite anterior, sujo, vazio. Respiro fundo, escapa um sorriso. Saio de casa contente levando comigo “O crime do Padre Amaro”, presente para a Chiara. Outro dia falei dele pra ela, incentivei a leitura, falei dos banhos de mar como medida de tempo, até brincamos em Ubatuba contando nossos banhos de mar; disse que o de casa tinha letras miúdas, uma sacanagem, que iria comprar um que fosse mais decente. Comprei. Dou de presente. Ela adora.
“O crime do Padre Amaro”... Me inspirou, escrevi “Confidências”. Houve outro na mesma linha, “O Seminarista”, de Bernardo Guimarães, leituras que me deram fôlego para pensar no arcabouço de história de Antonio e Liane.
Mas havia um copo vazio sobre a pia molhada da cozinha, era o que eu dizia, e você vai entender o que aconteceu.
Aliás, você deve pensar: mas o que pode vir de um copo vazio? Como deve ter pensado também: que título mais chinfrim! Pois também penso, mas não me vem outro à cabeça que se encaixe melhor. Fica então “Copo vazio”, embora copo vazio não diga nada. Mas eu digo. Digo que tinha acabado de receber pelos correios “As You Were”, do Liam Gallaguer — começando a história, agora você vai entender —, e estava doido de vontade de ouvir. Doido. Já ouviu? Pois saí do banho, coloquei o CD no som, estiquei as pernas, fui bebericar meu uisquinho. Baratotal: chegar em casa, dosezinha de uísque no copo, música, música, música.
Eu já tinha lido que o álbum do Liam, o vocalista marrento do Oasis, era muito bom, que tinha vendido mais que todos os álbuns que o Noel, outro líder do Oasis, tinha produzido depois do fim da banda, que era o que mais se aproximava daquele som anos-90, mas renovado, oxigenado, repaginado, com influências até dos Beatles. E o disco é ótimo! Adorei tudo, tudo. Wall Of Glass, Bold, porque está tudo bem, tudo bem agora, Greedy Soul, For what it’s Worth, só para constar. As músicas fazem bem ao ouvido.
Já disse certa vez que não sei onde estava quando Oasis estourou em 90/ 2000; vai ver eu me desesperava. Pena. Perdi a onda. Perco a onda sempre, mas adoro descobrir coisas velhas, filmes velhos, livros, músicas. Outro dia descobri Belchior cantando “A palo seco”, lembra? “Se você vier me perguntar por onde andei, no tempo em que você sonhava. De olhos abertos eu lhe direi, amigo, eu me desesperava. Sei que assim falando pensas que esse desespero é moda em 73, mas ando meio descontente, desesperadamente eu grito em português.” A gravação original de 74 é uma beleza, mas se você a quer oxigenada, veja Los Hermanos , aliás, ambos se apresentaram, Belchior e Los Hermanos, no Altas Horas.
Álbum ouvido, curtido, sensação delirante, tratei de comer alguma coisa e me ligar em “O Outro lado do Paraíso”, essa novela que anda pegando fogo. Pois fico nesse revezamento cruel: “O Outro Lado” e “Suits”, novela e “Suits”. “Suits” é a série da Netflix que trata do advogado-não-advogado gênio, Mike Ross, que milita nos Tribunais sem ter frequentado uma universidade.
Pois foi antes do apagar das luzes. Bebendo água na cozinha, me deparei com um pobrezinho de um bebê-lagartixa no copo vazio de uísque. Como não se mexia, deduzi que tinha bebido um pouco do que restava do líquido precioso. Ou estava embriagado o bebê, tadinho, ou a bebida o tinha levado a óbito, cruzes! Deixei lá. Fui dormir torcendo para que no dia seguinte o copo estivesse vazio, o que, na minha humilde concepção, significaria que o coitadinho tinha se recuperado da bebedeira e estava de volta à batalha da vida.



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4 comentários:

Ademara disse...

Gostaria de saber se a lagartixa-bebe se recuperou... gostei

sergio geia disse...

Sim, Ademara, e a resposta está no início da crônica "Na cozinha ainda pálida do lilás da manhã, sobre uma pia molhada, ladeando uma xícara com água, jaz um copo de uísque da noite anterior, sujo, VAZIO". Grato por sempre acompanhar.

Analu Faria disse...

Sensacional!
(Mas sempre acho que os Gallagher são overrated...).

sergio geia disse...

Ai, Analu, sei lá, acho que o Oasis fez um som incrível, se fosse usar um jargão do futebol eu diria que "deu liga", e dar liga não é qualquer coisa, e é difícil se repetir. Tem muita coisa envolvida, inclusive o que as pessoas estão querendo consumir num determinando momento. Talvez, em carreira solo, nenhum dos dois consiga repetir aquele sucesso todo, mas esse álbum do Liam é bacana, lembra muito aquele som, embora ele não tenha a mesma voz. Brigadão! Beijos mil!