quinta-feira, 24 de maio de 2018

SEGUNDA>>Analu Faria

Manhã de segunda-feira, céu azul, frio. Brasília no inverno é a vida como me gusta. Nesses dias, as árvores do caminho de casa até o trabalho estão mais vivas e mais imóveis. Lembro-me do poema de um amigo: "As árvores por mim passam". Se a gente olhar direitinho, elas passam mesmo por nós, que nos movemos sem vê-las.  

Também me vem à mente a música de George Harrison, rejeitada num álbum dos Beatles:

Sunset doesn't last all evening
A mind can blow those clouds away
After all this my love is up
And must be leaving*

Olho a borra do café na xícara. A amiga que lia o futuro nesses traços hoje mora na Suíça, acho que nunca conseguiu prever que seus sonhos se realizariam assim tão depressa. Trabalha numa organização internacional, a vida como le gusta. Sinto saudades da amizade, penso que seria bom tê-la por perto para juntas lermos um futuro divertido naqueles restos de bebida. Temos o afã de captar em nós o movimento das árvores, como se a imobilidade delas, nesta e em outras épocas, fosse uma impertinência. Por isso as borras de café. Por isso o apego ao futuro.

George Harrison é que era sabido (ele ou o eu lírico que escreveu "All things must pass", porque a gente às vezes escreve o que não sabe, mas o eu-lírico sempre conhece as coisas...). O amor também passa por nós, como as árvores imóveis. Aliás, o amor também passa, dentro de nós, como a descarga elétrica de um desfibrilador - faz renascer, cumpre seu papel e depois de um tempo já não é mais sentido, já não faz mais sentido. Um processo tão natural como as árvores do caminho de casa ao trabalho; tão simples, terno e cheio de lembranças carinhosas como as manhãs de segunda-feira no inverno seco de Brasília.
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*O pôr-do-sol não dura a tarde inteira
Uma mente pode levar aquelas nuvens embora
Depois de tudo, o meu amor está no fim
E deve ir embora.


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2 comentários:

Paulo Barguil disse...

Que venham os próximos dias da semana! :-)
E, com eles, outros líquidos e sonhos...

Analu Faria disse...

É isso aí, Paulo! Obrigada pelo comentário!