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O JOGADOR - 1a PARTE >> Zoraya Cesar

A regra n°1 do bom jogador é ser um bom jogador. E só apostar o que pode se dar ao luxo de perder. O bom jogador é tudo, menos um viciado.

Lucio esperava que o
baralho desembaralhasse
sua vida.
Lucio não era bom jogador. Tinha alguma técnica, alguma astúcia e muita disposição em ganhar dinheiro fácil. Sua maior ambição era enricar jogando cartas. O baralho a desembaralhar sua vida de pequenos expedientes e muitos débitos. Uma ilusão, claro, dada a mediocridade de seu jogo e a pouca disponibilidade financeira de seus parceiros de mesa. Perdia? Jogava para compensar. Ganhava? Jogava para aproveitar a “maré de sorte”. Talvez fosse viciado, não sei. Sei que a tal “maré de sorte” sumira há muito tempo de sua vida. 

As dívidas se acumulavam, as mesas de jogo começavam a fechar-lhe as portas, os credores o perseguiam.  O desespero e a abstinência do carteado estavam-no levando à loucura. Nem mesmo os amigos de fé, irmãos, camaradas queriam jogar com ele. As apostas podiam ser modestas, mas jogo é jogo. Sentou, tem de mostrar as fichas. Perdeu, tem de pagar.

Lucio, reles que fosse como jogador, era persistente. Ou teimoso – a diferença entre um e outro pode ser medida, quem sabe, pelo grau de sucesso da empreitada. Saiu de casa, decidido a encontrar uma mesa de carteado que ainda o recebesse. Sentia que aquele era seu dia de sorte (aí aquela cambada de pobres macacos vai implorar pra jogar comigo). Apostaria seus últimos recursos. Sei que posso ganhar dinheiro hoje. Só preciso de uma chance. 

Baços raios de sol davam às ruas uma atmosfera onírica e sufocante. O momento do ocaso, em que a claridade some aos poucos, levando desânimo e temor aos corações mais fracos, enquanto os amantes da noite e seus segredos começam a despertar. Pessoas andavam afoitas, premidas pela pressa de chegar ao seu destino, atormentadas pela solidão, as contas a pagar, o casamento infeliz, o trabalho frustrante. Não havia quem estivesse satisfeito ou em paz consigo mesmo. Não aqui, não nessa história.

Lucio vagava há horas, em busca de sua sorte. Estava disposto a qualquer coisa por uma rodada de carteado. Uma chance, pensou pela milionésima vez, só preciso de uma chance

Um homem caminhou em sua direção.

Vestia terno azul-marinho, camisa preta e gravata listrada de vermelho, branco e cinza. Cabelos grisalhos e fartos, sorriso branco-solar. Tudo nele exalava sedução, riqueza, poder. Parecia, dos pés à cabeça, um modelo Versace. Lucio sentiu seu perfume acre e penetrante. O homem cumprimentou-o afavelmente:  

- Ouvi dizer que precisa de uma mesa de jogo e algum dinheiro. Posso providenciar isso. Se você quiser, claro. Somente se quiser. Essa é a regra.

Lucio parou, desconfiado. Quem era? Como sabia de sua vida? Não o conhecia, com certeza. Seria um golpe? Um credor? Muito estranho, um homem tão bem vestido naquele bairro de gente que nunca poderia comprar uma roupa daquelas. Mais estranho ainda, as pessoas passavam por eles como se não os vissem.

- Sou o Sr. Pedro Botelho, a seu dispor. Estou aqui para servi-lo - e sorriu, iluminando-se.

Quando criança, Lucio ouvira muitas histórias contadas por sua avó portuguesa. Sabia muito bem quem era o Sr. Pedro Botelho. Só não sabia o que fazer. Correr, esconjurando? Ouvir o que o sujeito tinha a dizer? Parecia tão amigável, tão pouco ameaçador... Como era mesmo aquele lance de conseguir dinheiro e uma mesa de jogo?

- Não é truque. Acordei disposto a prestar um favor. Se quiser minha ajuda, a partir de hoje você passa a ganhar nas cartas. Se não quiser, eu desapareço e você nunca mais me verá. Nem terá outra chance. Não é sempre que estou de bom humor.
A noite caíra, firme e decidida. Os transeuntes apressaram seus passos, os faróis se acenderam, as buzinas soavam mais impacientes e tudo pareceu girar ao redor dos dois. Talvez aquele frenesi tenha afetado Lucio, pois as palavras do homem causaram-lhe profunda impressão. Viu-se carteando pelas mesas afora, cheio de marra, de dinheiro, Juçara das pernas grossas – que nunca lhe dera nem bom dia – ao seu lado, dengosa...

Como todo jogador, Lucio acreditava na sorte. No azar. Na superstição. Nos sinais. Enfim. Aceitou, sem fazer mais perguntas. 

A palavra do Sr. Pedro Botelho foi tão boa quanto prometera ser. Lucio começou a ganhar dinheiro na mesa de jogo. Mixórdia, claro, que seus conhecidos eram assalariados, ninguém jamais melhorara de vida naquelas mesas. O pessoal jogava pra se divertir, pagar uma ou outra conta, comprar um mimo pra patroa, fazer o churrasco do fim de semana. 

No início, Lucio se satisfez em ganhar o suficiente para continuar sem trabalhar e pagar suas contas. Em pouco tempo, porém, aquilo começou a não lhe bastar. Queria mais. Mais dinheiro, mais jogos e reconhecimento. E Juçara.

No auge de sua impaciência, infeliz e desgostoso por não passar de um jogardorzinho de bairros pobres, voltou a ser procurado pelo Sr. Pedro Botelho. 

- Então, meu amigo, creio que você deseja um upgrade. Se quiser, providencio. Tem de querer minha ajuda, é a regra. Aviso, apenas, que a época dos favores acabou. É quid pro quo. Vai pagar pra ver ou vai passar? 

Continua dia 18 de maio


Pedro Botelho é um dos nomes do Diabo, como bem sabia Lucio. Há várias histórias, lendas e explicações para essa alcunha. A verdadeira, só perguntando ao próprio. Coisa que, creio, ninguém vai querer.  

Carta de baralho: https://br.pinterest.com/pin/671458625664682111/

Playing Arts es la iniciativa de Digital Abstracts que consiste en diseñar una baraja de naipes con la colaboración de diferentes artistas. 

Vídeo: Sympathy for the Devil, Rolling Stones

Comentários

Unknown disse…
Nononono... Cronica em duas partes agora so ganha um comentário. Como vou saber se vou gostar do final? Kkk
Marcio disse…
Parabéns! Mais uma vez, conseguiu prender a atenção do leitor por duas semanas.
Isso parece ser muito fácil para você.
Ana Luzia disse…
ah, mas que maldade, tá virando moda agora... toda quinzena ela parte nosso coração até dali a duas semanas e como é que a gente fica, pessoal? alguém tem um baralhinho aí pra passar o tempo? kkkk
Analu Faria disse…
Tava lendo e pensando... Esse Pedro Botelho é o capeta, né? Hahahaha. Quero ler o próximo! Mandou bem!
Anônimo disse…
Diabo veste Armani.
Diabo chique desses, perfumado... vai querer o q com esse carteador pobre????
Clarisse Amador disse…
Adorei sua definição de diferença entre persistência e teimosia - rsrsrs
sergio geia disse…
Boa demais, Zo, Esse Pedro Botelho hein? Aí tem rsrs. Delícia de texto.

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