quarta-feira, 2 de maio de 2018

FICA PARA A PRÓXIMA >> Carla Dias >>

Sentei-me de frente ao computador, tomada pela certeza de que escreveria uma crônica das rebeldes. É que tem tanto acontecendo que nos fere, cidadãos do mundo e autores dos nossos universos particulares, que eu estava certa de que a voz que ecoaria seria a que pede por justiça. Não falo sobre a justiça que se tornou fantoche nas mãos de alguns. É sobre a de fato. A que ampara aqueles que realmente necessitam da sua intervenção.

Basta um desvio, uma bobagem de nada e muda-se o rumo. Não raro isso acontece comigo, mas realmente acreditava, até há pouco, que esta seria uma crônica sobre defender interesses coletivos, despindo-se dessa egoísta jornada do “eu importo mais do que o outro”.

Apenas me desviei, depois de uma palavra qualquer, que alguém, que não me lembro quem, disse. Na verdade, nem mesmo da palavra eu me lembro. Só que ela me chegou assim, meio cantada. Recordo-me de ter me sentido tentada a sorrir. Havia uma lembrança ali, que tinha nada a ver com o momento. Ela veio com essa palavra esquecida e se apossou dos meus sentidos.

Sim, eu poderia escrever uma crônica sobre quão triste me deixa ver as pessoas trocando farpas em situações em que deveriam trocar ideias para se alcançar soluções que fossem benéficas para muitos. Eu sei que ando usando com frequência deslavada essa palavra: coletividade. Mas é ela que ainda me enche de esperança de que a justiça, aquela que faz uma falta danada por aqui, possa fazer sua parte sem a interferência de quem pensa somente em si mesmo.

Assim, essa crônica se tornou outra coisa. Posso dizer que se tornou o avesso da primeira ideia. A rebeldia toda deu lugar a uma sensação de que, apesar do caos, há espaço para a cordialidade, pelo interesse a respeito do outro. E o outro sempre me interessou, mesmo ao me tirar do eixo, ofender minhas crenças, vandalizar meus sentimentos. E de quando uma palavra me leva a refletir de forma abrangente sobre aquilo que me avilta diretamente, calando a minha capacidade de raciocinar na coletividade.

Torna-se, então, muito mais fácil de se compreender aquela ideia de que há sempre uma resposta para as nossas ações, nossas escolhas. Ando pensando nisso de forma menos espiritual e mais lógica. Assim, sem a concepção de milagre recebido, fica mais justo se pensar no que desejo ao outro, independentemente do que ele me oferece.

Hoje, eu decidi que não escreveria uma crônica fervorosa sobre imparcialidade e egoísmo. É apenas uma crônica sobre não ter problema em parar, respirar e deixar para depois, ainda que o tema pareça sedutor. E então, voltar ao assunto quando as palavras saírem de mim de forma coerente.

carladias.com



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