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Mostrando postagens de Novembro, 2010

TIRANDO DOCE DE CRIANÇA
>> Clara Braga

Quem nunca ouviu a expressão: "É tão fácil quanto tirar doce de criança"? Pois é, todo mundo já ouviu falar e mesmo sem nunca ter tentado literalmente roubar o doce de uma pobre criancinha indefesa, tem a leve idéia de que deve ser muito, mas muito fácil fazer isso. Eu mesma já tinha não só ouvido, como usado essa expressão várias e várias vezes, mas nunca tinha sido a criança que tem o doce roubado. Acho que só depois de ser a própria criança da história, consegui compreender a metáfora: todos somos crianças quando alguém tira algo de nós e nós ficamos sem ter o que fazer.

Lá estava eu, a princípio meio receosa. Será que eu deveria aceitar o convite de substituir o baterista daquela banda que faria seu show de despedida em um bom festival de música de Brasília? Sim, aceitei. Após o convite aceito, começa o trabalho árduo: ensaios que ou são muito cedo ou acabam muito tarde. Músicas que eu nunca ouvi antes e tenho pouquíssimo tempo para aprender, imprevistos no meio do camin…

TERAPIA >> Albir José Inácio da Silva

Tédio. A vida estava um tédio. O que seria normal para a maioria dos humanos, mas não pra ele. Para Miltinho a vida tinha de ter alegria, sempre. Outro se daria por satisfeito: bom emprego, bons parentes, bons amigos. Tudo bom, tudo igual. Tudo igual.

Do jornal não esperava mesmo novidades. Crimes, desastres, política, corrupção. Os mesmos filmes, classificados, programas, garotas de programa. Tudo igual. Mas o que é isso? “RAINHA CATRINA VENHA SER MEU ESCRAVO E VIVA SEUS FETICHES MAIS OCULTOS LIGUE AGORA OBEDEÇA-ME”.

Ela o recebeu de cara feia, mas devia ser parte do jogo.

- O que você gosta?
- Fica por sua conta. Surpreenda-me. - respondeu ele com um risinho.

Tudo certo então. Pagamento adiantado, tire a roupa, espere de joelhos. Sentiu-se meio ridículo, mas ia participar. Sem ousadia não se muda nada.

Ela voltou em rendas e botas pretas. Uma corda amarrou firmemente os tornozelos e, outra, os pulsos atrás das costas de Miltinho. Uma terceira juntou quanto pôde os cotovelos. Não estav…

BUSCA [Debora Bottcher]

A moça queria prometer que amanhã vai acordar mais feliz e ter um dia mais leve. Que vai sorrir mais e tornar as horas menos densas.

A moça deseja amanhecer sem sentir-se sufocada - como se o sol lhe ardesse a pele tirando-lhe o ar fazendo-a sentir-se como quem vai desaparecer pra sempre, nunca mais respirar...

A moça gostaria de selar um compromisso com a paz, mas a vida anda lhe doendo um pouco e tem sido difícil sobreviver.

Quando, de repente, ela se pega admirando a lua, quase não consegue entender o silêncio de luz que a embala debaixo do manto azul do céu e uma certa quietude interior a abraça; mas ao baixar os olhos ao redor, esse deslumbre se desvanece e uma curiosa escuridão novamente se instala.

A moça sente saudades do que não consegue se lembrar...

Alguém vai dizer a ela que a vida é assim: de altos e baixos, alegrias e dores, amor e indiferença, incompreensões e sentimentos desconexos.

A certa altura, a moça sabe que todos finalmente se rendem a essa idéia e ela acredita qu…

O FRANKENSTEIN CARIOCA
>> Leonardo Marona

Ah, e nós Que queríamos preparar o chão para o amor Não pudemos nós mesmos ser amigos (Bertolt Brecht)
Não sou carioca, mas moro no Rio de Janeiro. E no Rio de Janeiro acontece agora um fenômeno. Não. Não tem nada a ver com a violência da guerra contra o tráfico de armas e drogas. Tem mais a ver com um instinto deformado, causado pelo medo e pela ingenuidade. O carioca sente medo da polícia, não é de hoje. Mas ele também sente medo dos traficantes. Respeitam-se, em geral, no Rio, ambas as facções, e ambas, obviamente, como a cobra que come o próprio rabo, estão profundamente envolvidas, portanto o extermínio de um lado resulta na extinção do outro, como Batman e Coringa, como Alain Prost e Ayrton Senna. Mas eu disse que não tinha nada a ver com isso. E realmente não tem.

Apenas que o carioca já não fala mais. Fala-se sobre novelas, confinações voluntárias filmadas pela televisão com garantias de prêmios e um pouco de fama, fala-se sobre futebol, é claro, mas não muito mais. E fala-se sob…

VOU ESTAR DESABAFANDO >> Fernanda Pinho

Você passa o dia todo remoendo a questão e, finalmente, decide que, sim, vai convidá-lo para sair. Acha que ficará um pouco nervosa ao telefone, então opta por fazê-lo por mensagem (ou torpedo, como costumam dizer fora de Minas). Escreve, acha que ficou muito melosa. Reescreve, acha que não foi convincente. Escreve de novo e, agora sim, está direta, fofa e irresistível. Selecionar. Enviar. Trinta segundos depois, o toque do celular e a confirmação: 1 Mensagem Recebida. Coração acelerado, mãos suando frio. Você até se olha no espelho para conferir se o visual está ok para o grande momento de ler a respostas. Selecionar. Abrir. “Torpedão Campeão. Adquira seu pacote e concorra a prêmios em dinheiro durante toda a Copa do Mundo”. Misto de decepção com confusão mental. Você tenta entender por que cargas d’água a sua operadora ainda acha que estamos na época da Copa do Mundo. Por que raios a sua operadora envia mensagens em plena sexta-feira à noite? Por que diabos a sua operadora acha que …

12:09 - - 12:43 >> Carla Dias

12:09

Hoje está difícil começar a escrever a crônica. Não por eu estar atrapalhada com os afazeres cotidianos, ou por ter conseguido levar meu notebook à morte com um copo de café com leite derramado... Leite derramado, meu caro Chico Buarque, não apenas ganha prêmios, mas também pode matar computadores. Pior se for leite com café e adoçante.

12:13

Está difícil escrever porque me falta assunto que já não seja o esmiuçado antes de hoje. Ao olhar a minha volta, e atentar aos meus pensamentos, acabo caindo nas mesmas questões, enveredando pelo subúrbio dos mesmos preceitos. Escorrego, assim, a alma numa desmedida sensação de impotência, porque não posso colher os sorrisos que povoam minhas lembranças, trazendo-os para o agora. Não há como interceder em prol do fim das guerras, como já desejei tantos mil e tantas vezes, nessa minha vida. De original, inédito... A hora no dia de hoje e neste agora:

12:15

Meu estômago reclama da nova dieta, a cabeça dói um pouco, mas daqui a pouco passa. O dia e…

PRATICANDO A ARTE DO DESAPEGO
>> Clara Braga

Se tem algo que eu estou acostumada a fazer, é escrever. Não digo só crônicas, mas e-mails, trabalhos de faculdade, lembretes etc. Cada texto que eu escrevo, trato como uma obra de arte, afinal escrever é, sim, uma arte. E eu concordo com a filosofia de que meu texto só existe a partir do momento que alguém lê. Ninguém tira de si algo e coloca em um papel se não for para alguém ler, nem que seja eu mesma lendo os lembretes na minha agenda, mas para eles existirem alguém precisa ler.

Exatamente por pensar assim, sempre escolhi muito bem as palavras e assuntos sobre os quais iria escrever, nunca tive necessidade de usar um vocabulário rebuscado ou escrever de forma parnasiana nem nada do tipo, pelo contrário, busco sempre a simplicidade, porque no final das contas o que eu quero mesmo é ser entendida. Quero compartilhar minhas experiências e mostrar a minha forma de ver o mundo. E quanto mais pessoal o texto, mais clara eu procuro ser. Por isso meus textos são cheios de "não me ent…

KAROL >> Eduardo Loureiro Jr.

Quando minha primeira irmã nasceu, eu não vi a beleza dela. Eu estava muito preocupado com o que  aconteceria comigo, com aquilo que eu perderia. Com apenas um ano e nove meses de idade, eu pensei ter aprendido a lição mais dura: nem tudo era para mim. O que antes era só meu agora era de outra pessoa, e eu tive que fazer alguma coisa para não perder tudo.

Decidi, na minha mais antiga infância, dividir território com minha irmã. Ela ficaria com meu pai; eu, com minha mãe. Ela com a espontaneidade, eu com a disciplina. Ela e seu bom humor, eu e minha seriedade. Dela, a fala; meu, o silêncio.

Quando estamos reunidos em família e alguém começa a evocar lembranças da infância, Karol — como muitos a chamam — refere-se sempre sorridente a um tempo em que eu a chamava para lutar boxe. É uma lembrança só dela, não minha, mas faz todo sentido. Logo que aquele ameaçador bebê já havia se transformado numa criança quase do meu tamanho, era natural que eu quisesse resolver nossa situação no muque, …

PINTO EDUCADO É AQUELE QUE LEVANTA PRA VOCÊ SENTAR >> Leonardo Marona

Nas horas difíceis da vida você deve estufar o peito, levantar a cabeça, e dizer de boca cheia: Agora fudeu!

Tinha decorado algumas frases de boléia de caminhão. Meu trabalho era estimulante, isso nos dias em que o computador quebrava e eu podia ficar lendo no escuro da sala de máquinas ou brincando com um gato preto prognata, que na verdade era uma fêmea chamada por mim de Dulce, homenagem a Dulcinéia, não a do Cervantes, mas minha buldogue com paralisia nas patas de trás. Minha pauta do dia: um perfil da Julia Roberts, só para você descobrir que ela deu pra todo mundo em Hollywood: de Kiefer Sutherland a Liam Neeson, passando por Daniel Day-Lewis e parando nos gêmeos que teve com um câmera. E a seguir, não perca no telecine pipoca, Doze é Demais, com Steve Martin, Bonnie Hunt e Hilary Duff! Que tal?

Decidi que precisava de qualquer coisa que se pudesse desfrutar calmamente sem pingar nem enlouquecer ou assar a virilha. Decidi ir ao novo cinema, Art Plex – dizem que o nome tem a ver co…

MÁGICA NO ABSURDO >> Fernanda Pinho

A impressão que tenho é a de que os habitantes do planeta Terra estão num processo acelerado e irreversível de envelhecimento. Não falo do envelhecimento biológico, pois este estamos conseguindo driblar com maestria graças aos milagres operados pelos santos Ivos Pintanguis da vida. Falo do envelhecimento de espírito, que é muito mais grave já que não tem botox que dê jeito. Não sei o que deu em nós, mas estamos empenhados em deixar o mundo chato, sem graça, cinza, nublado. Reclamar virou um vício. Criticar virou sinônimo de inteligência. E, de repente, perdemos todo o encantamento pela vida.
Tenho pensado nisso desde o último fim de semana, quando estive com alguns amigos no Hopi Hari, no estado de São Paulo. Passamos o sábado no parque e, no fim do dia, quando nos reencontramos com nossos colegas de excursão, ouvimos um grupo reclamar com veemência dos maus tratos que havia recebido em um dos brinquedos. Diziam os reclamões que era um absurdo pagar caro, viajar 600 quilômetros e tere…

EU NÃO SEI FALAR DE AMOR >> Carla Dias >>

O título desta crônica eu emprestei da música do meu amigo Kléber Albuquerque. Não sei por que, essa frase, essa constatação, ficou pipocando na minha cabeça, nos últimos dias. Obviamente, escutei o CD no qual tem essa música, ainda ontem. Porém a sensação vem de antes, de um eco.

Amor é o tipo de palavra que me deixa à mercê dos enganos. Se durante a minha existência, até este ponto-agora, falar é um perigo ao tentar me fazer compreender, imagine só falar de amor! Não nasci para oradora, jamais serei atriz, de jeito maneira conseguirei falar aos que aguardam ansiosos pelo dizer o amor.

Woody Allen decretou: todos dizem eu te amo. Acho que ele se esqueceu de me incluir nesse balaio, ou simplesmente ficou indiferente ao meu não saber falar de amor.

Porque eu não sei mesmo...

Certo dia, minha mãe me colocou de cara com a tevê, apertou play e me mostrou um vídeo institucional de uma cadeia de supermercados. Comemorando o Dia das Mães, o tal filme mostrava um filho que não disse eu te amo pa…

AS VERDADEIRAS MULHERES-MARAVILHAS
>> Clara Braga

Com toda essa falação que está tendo agora sobre termos a primeira mulher presidente no Brasil, apesar das piadas que dizem que nossa chance de ter uma mulher na presidência acabou quando a Marina não foi pro segundo turno, eu acabei pensando naquela velha história do quanto o mundo é machista e as mulheres tiveram que conquistar seu lugar.

Quando eu fiz intercâmbio, fiquei fora 5 meses e foi aí que eu aprendi a me virar sozinha, comecei a cozinhar, passar, lavar, fazer compras e ainda tinha os estudos e, claro, a diversão. Até eu conseguir conciliar isso tudo, apanhei muito, e foi aí que comecei a valorizar mais pessoas como a minha própria mãe, que faz tudo isso com as mãos nas costas.

Apesar desse papo já ser batido, o fato é que existiram, sim, mulheres importantes na história que lutaram e conquistaram direitos que facilitaram a vida de todas as outras mulheres. Podemos até citar nomes, como por exemplo Joana d´Arc e Anita Garibaldi, mas já notaram que a lista não é assim tão gra…

PARADAS E SÍMBOLOS NACIONAIS >> Albir José Inácio da Silva

Uma crônica por escrever, uma chuvinha absurda no novembro do Rio e uma rinite por causa da chuvinha são razões suficientes para resistir ao som dos trios elétricos que na Avenida Atlântica conclamam à participação politicamente correta.

Mas como a crônica não veio e a rinite é crônica, eu fui.

Claro que se há uma coisa que não falta numa passeata GLBT são as cores. Mas me chamou a atenção, às vésperas do aniversário da proclamação da república, o uso das cores e símbolos pátrios. Difícil não notar o verde e amarelo nas cabeças, nas tangas, nos biquínis. Ao contrário da minha geração, que desenvolveu verdadeira alergia pelas cores pátrias, hoje as pessoas usam verde e amarelo com a certeza de que enfeitam. Bandeiras nacionais embrulham corpos nus, canta-se o hino nacional a todo momento e todos, de todos os partidos, se sentem brasileiros.

Quando eu era jovem não se permitiam primeiro passeatas e segundo o uso da bandeira. Não se podia vestir e nem mesmo hastear sem formalidades o pav…

COLA NUNCA, MOLA SEMPRE
[Maria Rita Lemos]

Tristeza não é “mania de rico”, longe disso. Melancolia e tristeza são sensações que todo mundo já teve ou terá durante a vida, não dá para escapar. O que difere é a forma como as pessoas lidam com esses sentimentos. Tem gente que prefere tomar um porre, na ânsia de esquecer, como tem gente que se tranca no quarto e chora até parecer que alguém da família desencarnou...

Não importa a forma como se passa por uma “fossa” — o outro nome como podemos chamar esses maus dias —, o pior que se pode fazer é fingir que nada está acontecendo, engatar a primeira e seguir em frente, negando a dor e o mau momento.

Toda tristeza, bem como toda alegria, tem que ser encarada de frente, vivida com toda intensidade, senão vai ficar difícil superar. Quando nos recusamos a olhar para a cara feia da dor, ela fica encravada, como um parasita ou um corpo estranho debaixo da pele, dentro de nós, e cedo ou tarde vai fazer um estrago, inclusive manifestando-se em forma de cálculos renais, gastrite, problemas …

O CÂNCER É A POESIA DA MEDICINA >> Leonardo Marona

“Já não me importa mais se vocês vão acreditar na minha história ou não. O sanatório, é óbvio, não acreditou. E deu no que deu. Sim, eu tinha ido até lá, espontaneamente, um dia antes do que acabou acontecendo. Eles disseram: “Você está bem, vem aqui só pela comida” e, de fato, eu precisava comer. Qualquer ser humano que não come enlouquece, louco ou não. E eu não sabia mais se minha loucura era genuína ou pura fome. O que dizer? Acho que enlouqueci de fato, ou de fome.”
“E a história do alienígena?”
“Não acho que seja outra coisa. Ele era igual a mim, as câmeras filmaram tudo. Foi inacreditável. Chegou um bicho, um ser muito esquisito feito de uma substância que eu não saberia reconhecer. Mas ele falava a nossa língua. Eu estava suando frio, estava sem ter onde dormir, além de tudo, não fazia muito tempo que eu tinha andado lambendo uns ossos velhos de bicho, sobras do açougue central, e o que tinha vomitado pouco em seguida era um líquido acinzentado, ralo e viscoso, além do que eu nã…

NEM TUDO TEM SENTIDO >> Fernanda Pinho

"Estou cansado da inteligência. Pensar faz mal às emoções" - Álvaro de Campos


Confesso: nunca – NUNQUINHA! – entendi o que é logaritmo, pra quê isso existe e pra quê isso serve. Sempre confundi platelmintos com nematelmintos e Jânio Quadros com João Goulart. Física? Acho que só aprendi a parte dos espelhos. Aquela que fala que as imagens refletidas refletem...o reflexo. Bom, já me esqueci também. Mas em compensação, quando o assunto era interpretação de texto sempre fui imbatível. Modéstia às favas. Vai ser talentosa assim lá longe para interpretar um texto. Qualquer fábula, qualquer poesia concreta, qualquer livro, qualquer problema matemático (que eu só não acertava por inabilidade para resolver as contas). Eu sabia interpretar de tudo. Tirava dez e ainda ganhava ponto extra.
E essas coisas que a gente nasce sabendo são assim. A gente não esquece. Trouxe esse talento para a vida. Infelizmente. Se eu pudesse voltar no tempo – mas voltar muito mesmo – eu negociaria com o Cri…