quarta-feira, 24 de novembro de 2010

12:09 - - 12:43 >> Carla Dias

12:09

Hoje está difícil começar a escrever a crônica. Não por eu estar atrapalhada com os afazeres cotidianos, ou por ter conseguido levar meu notebook à morte com um copo de café com leite derramado... Leite derramado, meu caro Chico Buarque, não apenas ganha prêmios, mas também pode matar computadores. Pior se for leite com café e adoçante.

12:13

Está difícil escrever porque me falta assunto que já não seja o esmiuçado antes de hoje. Ao olhar a minha volta, e atentar aos meus pensamentos, acabo caindo nas mesmas questões, enveredando pelo subúrbio dos mesmos preceitos. Escorrego, assim, a alma numa desmedida sensação de impotência, porque não posso colher os sorrisos que povoam minhas lembranças, trazendo-os para o agora. Não há como interceder em prol do fim das guerras, como já desejei tantos mil e tantas vezes, nessa minha vida. De original, inédito... A hora no dia de hoje e neste agora:

12:15

Meu estômago reclama da nova dieta, a cabeça dói um pouco, mas daqui a pouco passa. O dia está quente, sinto falta do frio e também de alguns amigos que não vejo há tempos. E de repente me deu uma saudade danada de colocar os pés na água do mar. Eu não sou de ficar me quarando no sol, não sei nadar, mas sei colocar os pés na água do mar, permitir que a cabeça vá às nuvens.

12:19

Na outra sala, o telejornal desfia todas as tragédias urbanas/humanas, o cinismo político, a indelicadeza da violência. Tento me desvencilhar do incômodo oriundo de telejornais colocando uma música pra tocar...

12:22

Save your sermons for someone that's afraid to love.
You knew what I feel, then you couldn't be so sure.
I'll be right here lying in the hands of God.
If you feel angels in your hand, tear drops of joy runs down your face, you will rise.

12:23

Das músicas também despencam verdades travestidas de delírio.

Pausa ||

12:31

Noite passada eu fiquei quase o tempo todo muito bem acordada. Havia esse homem, um senhor pra lá de bêbado, desfilando seu monólogo debaixo da minha janela. Não é a primeira vez que ele brada por lá, mas desta vez havia audiência. A apresentação dele foi um sucesso, porque mesmo ouvindo música no Ipod, volume no talo, eu conseguia escutá-lo repetindo: um homem tem de saber amar uma mulher... A mulher tem de servi-lo!

12:34

E os espectadores gargalhavam na madrugada, dando corda para que o homem enforcasse seu pensamento pobre na intensidade das latinhas de cerveja que deve colecionar.

Eu dormi pouco... será que por isso a inabilidade gritante de escrever esta crônica?

12:36

É estranho quando falta fluência aos nossos sentidos, quando se perde o jeito de fazer com que cada emoção seja escancarada através de uma palavra, na cadência de uma frase. Eu sinto ter de deixá-los na mão hoje, mas como já disse, estou com a tecla ‘repete’ ligada. Falta-me a delicadeza, ao menos neste momento, para construir o inédito, através da recriação do já inventado.

Falta-me o talento para contar uma história desinventada.

12:43



carladias.com

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5 comentários:

Marisa Nascimento disse...

"Falta-me o talento para contar uma história desinventada".

Quando te sobrar o talento, então, a nós, pobres mortais, nada mais restará...
Você é sublime, Carla!
Beijos

Carla Dias disse...

Marisa... Você é que é de uma gentileza... Bjs!

fernanda disse...

Acho que você devria escrever mais crônicas ao vivo. Adorei!
Beijos!

albir disse...

Carla,
É assim que flui quando está difícil escrever? Parece que vc está surfando na página.

Carla Dias disse...

Fernanda... Que bom que você gostou. Agora, se haverá outra crônica ao vivo, somente a falta de assunto é que dirá : )

Albir... Mais gentileza sua. Claro que me sinto lisonjeada com ela. Obrigada!