segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O COFRE >> Kika Coutinho

- Amore?
- Hã.
- Não tô conseguindo dormir…
- De novo? Por quê?
- Muitos pensamentos. Muitos…
- Você tem que bloquear. Põe uma cerca para os pensamentos não entrarem. Visualiza.
- Visualizei já. Mas os pensamentos entram pelas brechas da cerca.
- Põe um muro.
- Tentei. Eles entram por cima.
- Faz um cofre.
- Um cofre?
- É, imagina um cofre enorme, e põe os pesnamentos lá. E você não tem a senha do cofre.
- Mas se tá dentro de mim, como eu não tenho a senha.
- Não tem. Só eu que tenho. Põe no cofre e fecha.
- Pus.
- Agora dorme. Boa noite.
- Amore?
- Hã?
- Me dá a senha?
- Não...
- Eu sei. É 1306. todas as suas senhas são 1306.
- Essa não é. Eu não troquei a senha de fábrica e esqueci qual é. Agora não tem como abrir.
- Sério? Veio uma senha de fábrica pro cofre?
- Veio. E eu joguei fora.
- Mas amanhã eu precisarei desses pensamentos! E agora?
- Amanhã te dou a senha.
- Mas você não tem...
- Amanhã eu ligo pra fábrica e pego.
- Você tem o telefone?
- Tenho, mas só funciona amanhã. Agora dorme.
- Não consigo. Tô preocupada de você não destrancar meus pensamentos.
- Vou destrancar. No máximo segunda, destranco tudo.
- Mas eu preciso deles antes. Preciso escrever uma crônica pra segunda e o pensamento tá no cofre.
- Já era. Deixa ele lá, quieto.
- ...
- E dorme.
- Eu tinha um pensamento ótimo pra escrever. Mas tá preso. Vou ter que escrever qualquer bobagem.
- Vai. Mas dorme.
Durmo.

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3 comentários:

albir disse...

Viu, Kika? Você não precisa do pensamento, já que escreve com o coração.

fernanda disse...

Ai, pergunta pra ele onde compra um cofre dentro. Tenho uns pensamentos merecendo prisão perpétua!

vanessa cony disse...

Divertidíssimo!!!